MIND THE savage

Tenho pelo menos 3 coisas na fila do que quero escrever aqui, mas a grande verdade é que o causo de hoje não pode esperar – quero contar com riqueza de detalhes enquanto ele ainda me faz cair em pequenas crises de riso.

Pois bem. Hoje eu fiz parte do corpo docente de um curso com um impacto enorme sobre um assunto que é um dos meus preferidos: patient safety. Um dia quero escrever um post especificamente sobre isso, mas suffice to say que saí de casa as 6:30 da manhã, super feliz com a oportunidade, e nem vi o dia passar.

Mas o fato é que esses cursos que duram o dia inteiro são péssimos pra dieta da gente: mentaliza toda uma vibe excessivamente inglesa cujo aporte nutricional consiste de chá, sanduíches e salgadinhos (batatas fritas de pacote e associados). Agora pensa se isso alimenta uma draga como esta que vos fala? Óbvio que não né.

Então, na corridinha pra estação do metrô, debaixo de chuva, privada de sono e com uma preguiça imensa de preparar qualquer uma das 283 opções de refeição saudável que eu tinha em casa, tomei a decisão que qualquer adulto responsável tomaria: resolvi jantar 6 nuggets do McDonald’s que fica na frente da estação do metrô. No caminho de casa. Dentro do metrô. Tamanha era a minha fome e receio de desfechos piores caso esperasse até chegar em Bermondsey e passar na frente do Tesco.

Pois bem. Moço, 6 nuggets por favor. Molho? Barbecue, please. Segurando minha sacola quentinha e resistindo a tentação, desci até o primeiro patamar, que não era a minha linha, e já de cara avistei uma MULTIDAO descendo em direção à minha linha, querendo fugir da chuva repentina. Chegando na plataforma, tava daquele jeito que dá medo de cair no vão, sabe? Então achei um cantinho lá no final da plataforma, do lado de uns bancos que obviamente estavam ocupados, e resolvi esperar o próximo trem, apostando que a plataforma certamente não ficaria tão superpopulada dentro dos próximos 3 minutos.

Nesse meio tempo, uma menina asiática com seu malão de rodinhas parou pra esperar o trem na parte baixa, enquanto a maioria das estações que têm acesso step-free têm uma parte elevada – ou seja, ela não precisaria levantar o malão, simplesmente rodaria adiante pra dentro do vagão. Avisei a menina e, pra minha surpresa, o cara que tava num dos bancos me elogiou pela gentileza “vejo isso sempre e ninguém nunca avisa a pessoa”. Sorri e agradeci.

Me sentindo extra benevolente, resolvi aproveitar a espera até o próximo trem chegar pra comer meus nuggets enquanto ainda estavam quentinhos.

Abri o molho e joguei a tampinha num dos lixos de plástico transparentes (que assim o são porque em 1991 houve um atentado do IRA em Victoria com uma bomba que foi escondida em uma das lixeiras, e se seguiram 20 anos sem lixeira nenhuma no metrô londrino até que em 2011 algum abençoado teve a brilhante idéia de colocar esses aros amarelos onde se encaixa um plástico transparente)… Mas aí senti um cheiro diferente e pensei “puts que saquinho, o atendente do Mc me deu o molho errado”. Dito e feito, estiquei o pescoço pra ver dentro do lixo transparente e lá estava o culpado: tomate intenso. Migo, tomate intenso também conhecido como catchup né, deixa de onda McDonalds! E joguei o potinho todo fora, porque afinal nem gosto de catchup, essas calorias não valem a pena então não fiz questão de molho e mandei ver os nuggets sozinhos mesmo.

Só que, assim que eu terminei, o próximo trem chegou e a porta mais próxima de mim era de um vagão especialmente tranquilo, então ao invés de andar no sentido oposto e jogar a sacola de papelão no lixo supracitado, resolvi jogar na estação de casa quando chegasse.

Estou plenamente consciente do nível de desinteressância dessa narrativa até agora, que poder-se-ia, se não fosse pelas minhas mesóclises, resumir-se em: TRABALHEI BASTANTE, TAVA COM FOME, COMPREI NUGGETS E COMI NO METRO. Mas né, se você chegou até aqui, só me resta agradecer pelo voto de confiança.

Mas aí entrei no vagão, sentei confortavelmente e pensei comigo “ok, vou só organizar um pouco essa sacola volumosa insuportável, daqui a pouco me livro dela e pronto”. Alguém mais gosta de organizar o lixo antes de jogar fora?  Não entendo gente que entrega tudo separado e zoneado no avião – mas gente, cabe tudo no copo, olha, é só dobrar bem dobradinho!

E como tinha a embalagem quadradinha dos nuggets, dobrei energeticamente… Tão energeticamente, na verdade, que em frações de segundo vi um filme passando em câmera lenta em frente aos meus olhos: uma resistência maior no canto esquerdo da sacola, seguido imediatamente por uma mini explosão, seguida imediatamente por um jato poderoso do DEMO DO MOLHO BARBECUE que no fim das contas o atendente tinha, de fato, me dado. Quando o slow-motion acabou, me dei conta que não somente a coxa esquerda da minha calça jeans, como tambem o canto inferior esquerdo da minha bolsa carésima de couro estavam com aquele grude característico que só uma erupção de glicose faz por você, mas que -horror dos horrores- o canto do casaco da guria do meu lado também tinha sido alvejado!!!! HAHAHAHAH gente não deu nem tempo de registrar a reação da guria, só sei que me encontrei com umas massas amorfas de molho barbecue na minha coxa e mão esquerdas, a minha bolsa xodó atingida em tangente, e a mão direita ocupada com a sacola explodida. Não sabia o que limpava primeiro: o casaco da guria? Mas a minha mão tá suja! A bolsa? A calça? Gente, como eu sou retardada! Puts e agora como que eu vou limpar isso? Já comecei a pedir desculpas profusas logo ali, logicamente.

Eu sempre carrego lenços umedecidos, mas a minha mão estava TAO suja e grudenta que meu maior pânico era sujar o interior da minha bolsa no processo de catar os tais dos lenços, que moram num cantinho lateral bem estreito da bolsa.

Ok, hora de deixar o orgulho de lado. Levantei a cabeça do meu desastre ultraglicêmico: does anyone have a tissue please? E apesar do londrino ser reconhecidamente avesso a interações no metrô em geral, que aliás é uma coisa que eu amo, quando se trata de solidariedade o povo tem de sobra, e dentro de 5 segundos apareceram três lenços de papel, um ticket do metrô em cartolina (you can use it to scoop the sauce, you see) e dois lenços umedecidos, um deles vindo de uma guriazinha risonha de uns 8 anos que obviamente achou o máximo poder ajudar naquela comoção.

Só então é que eu fui registrar a cara da guria do meu lado, com a sua parka verde musgo agora com nuances de vermelho barbecue. Uma lembrança da minha infância piscou vividamente na minha mente nesse momento:

Screen Shot 2016-09-11 at 12.41.47 AM.png

Juro que a cara da guria era EXATAMENTE  a cara do baixinho da Pantera Cor de Rosa (meu desenho preferido quando criança).

Pouco a pouco fui limpando a lambança, ajudei a guria a limpar o casaco dela e fiquei na torcida pra ela não estar a caminho de um date – mas confesso que julguei pela roupa e pensei que ela devia estar indo pra casa, não, ela certamente tá indo pra casa, vamos pensar positivo. Sorri e agradeci as almas caridosas que me estenderam a mão nesse momento de necessidade, e pouco a pouco foram se dispersando em outras estações.

Só que, logo depois que a poeira abaixou, me dei conta mais ainda do ridículo da situação e tive que passar o resto do trajeto inteiro até em casa me segurando pra não rir!!! A guria continuou fumegando de brabeza e resignação do meu lado.

Ao sair do vagão, pedi desculpas mais uma vez e comecei a rir assim que as portas se fecharam!

“Miga, agora você tá brabeza desse jeito, mas daqui a um, dois, cinco anos você vai rir contando pra alguém sobre a retardada que explodiu na selvageria total um molho barbecue no metrô enquanto tentava organizar o próprio lixo! E vou além: se é pra ser vítima de alguma explosão no metrô, que seja de molho né?!”

O hábito da auto-flagelação

Troquei de coluna na escala a pedido do chefe, o que significa que, até o fim de agosto, terei feito 4 blocos de UTI (13h/dia) dentro das últimas 5 semanas. Nem posso reclamar, pq depois de cada um tive uns dias de folga, tive vários fins de semana de folga e tals, mas a sensação é de que não tenho rotina há séculos!
E bizarramente, depois de ter um verão relativamente tranquilo, apareceram mil atividades sociais nas últimas duas semanas. E são aquelas circunstanciais, que eu não quero deixar passar ou pq a companhia não vai estar aqui, ou pq quero aproveitar o restinho do verão enquanto ainda tá quente e ensolarado. Então semana passada encontrei a Cat, que veio da Áustria a trabalho, a Val, que veio num mochilão com a amiga e nos encontramos duas vezes, fui caminhar com a Sophie que não íamos há um tempão, então está uma delícia. Pra completar, hoje tenho uma reunião no fim do dia com uma ex fellow de pesquisa aqui do hospital, amanhã combinei de comemorar o aniver da minha cunhada com ela e depois a Tati e eu vamos tentar ir jantar pra botar o papo em dia, mas se não der também já tenho um plano B, que é tomar uns drinks com o pessoal do trabalho, que falei que iria caso minha amiga cancelasse. 

Só que no fim dessa maratona tem um fim de semana de plantão, e depois uma noite de plantão, e depois uma viagem! Ou seja, to aqui numa pausa no trabalho tentando fazer um planejamento estratégico usando táticas de guerrilha, pq me sobram exatamente 2 meios períodos pra fazer toda aquela função pre-viagem sabe? E na terça que vem o Alex chega, vamos jantar fora e obviamente quero resolver tudo antes de ir pro aeroporto, porque quero ficar bem de boa curtindo a companhia dele, sem aquela checklist mental de “tenho que separar X Y e Z pra botar na mala”, especialmente considerando que vamos pra um casamento então a mala tem que ser mais planejada.

Só que assim… Tem toda a minha listinha de afazeres da vida normal, sabe aquelas coisas que a gente vai deixando? Falar com ciclano sobre um negócio do trabalho, marcar hotel pra próxima viagem antes que fique muito em cima da hora, organizar o orçamento, separar livros pra estudar, ligar pra amiga que não falo há um mês, responder e-mails que estão mofando com a pomba na balaia, a lista segue.

E se tem uma coisa na vida que eu tenho a maiooor dificuldade de ver pelo lado bom, essa coisa é a minha lista de afazeres!!! To sempre me culpando pq to escrevendo a mesma coisa na listinha da semana há várias semanas, pq to curtindo um oba-oba social sem fazer coisas mais importantes a longo prazo, pq o chefe vai voltar de férias e ficar de cara que ainda não tenho resultados pra mostrar, etc.

Ontem à noite, fiquei vegetando na cama vendo a cerimônia de encerramento das olimpíadas e pensando “MELDELS tenho tanta coisa pra resolver e to aqui vegetando, sou muito inútil mesmo”.

Enfim, uma sofrencia ridícula, mas que faz super parte do meu dia a dia.

Só quando o Alex falou “be kind to yourself” é que fui me tocar que depois de um dia normal de trabalho, passei numa exposição que fica só até sexta e eu queria muito ver, aí cheguei em casa, resolvi um problema com a Amazon de um produto que não veio e jantei uma jantinha saudável ao invés de capitular pra pizza da desistência. Ou seja: podia ter sido melhor, mas podia ter sido muito pior também né?

Então decidi que vou começar a escrever tudo que já fiz/resolvi na minha lista de afazeres só pra riscar – quem sabe assim, eu me forço a registrar conscientemente que, entre o e-mail que eu respondi enquanto tomava meu chá e o almoço do trabalho que deixei pronto no domingo, até que to me virando bem em termos de gerenciamento do tempo – e o que precisa melhorar mesmo é o gerenciamento de prioridades que deve ser o que mais importa pra não ficar com essa sensação de culpa! E que, como boa procrastinadora que sou, vou empurrando com a barriga as coisas mais importantes até que elas sejam urgentes e impossíveis de ignorar. 👍🏻

Há flores em tudo que eu vejo

(ATENÇAO: overdose de fotos porque fiquei orgulhosa, ok?! Malzaê pelos 9173 minutos que vai levar pra carregar)

Eu sempre tive o maior fascínio por campos de lavanda. Aquele lilás a perder de vista, e o imaginário do cheirinho de lavanda no ar, sempre me fascinaram. Aquela imagem mental de guia de viagem da França, sabe?

IMG_2417IMG_2431IMG_2492

Essa imagem morava no mesmo lugar da minha mente que os ciprestes da Toscana e os campos de tulipas da Holanda, ambos desejos antigos que sou muito, muito grata por já ter realizado. Eu tinha certeza que, se um dia na vida fosse à Provence, seria na primavera, e planejaria a viagem toda em torno do cronograma de floração das lavandas. Só que, ao mesmo tempo, não é uma viagem em destaque nas minhas prioridades, porque pode ser feita em qualquer época da vida, talvez até melhor numa vibe mais slow travel, então enquanto o orçamento e o tempo são limitados (#otimista), vou pensando naquelas que exigem mais energia ou menos tempo/dinheiro. Mas sempre com aquela imagem mental em 3D com cheiro de lavanda!

IMG_2587

Até que, ano passado, vários brasileiros que eu sigo aqui em Londres foram ao Mayfield Lavender Farm, uma fazenda de lavanda orgânica no sul de Londres. Matar uma vontade antiga com menos tempo e menos dinheiro envolvidos? PRESENTE!

IMG_2570

Aí umas semanas atrás falei com a Helena e o Léo, uns QUIRIDUX de Floripa que se mudaram pra cá na mesma época que eu e o Alex. Eu sabia que esse era um programa perfeito pra amantes de fotografia, e eles toparam na hora. Chegou o fim de semana que tínhamos combinado. No sábado à noite, todas, TO-DAS as etapas do meu vôo de volta de Paris atrasaram. Cheguei em casa ligada no 220, não conseguia dormir por nada, mas às 7 da manhã do domingo, acordei num pulo: SOL!!!

IMG_2527

Às vezes até eu me surpreendo com a minha disposição, mas a verdade é que eu adoro os efeitos da imprevisibilidade do tempo aqui na Inglaterra. Fez sol? Fez calor? VAMOS PRA RUA, mermão, porque pode acabar amanhã mesmo! Acho isso um ótimo exercício pra vida. Afinal de contas, tudo pode –mesmo– acabar amanhã mesmo. Né?!

Chegamos cedo, mas naquele deslumbre de fotografar, fotografar, fotografar, já nos agachamos com nossas câmeras (e narizes inebriados de lavanda) no meio das 1038 abelhas que estavam fazendo a festa por lá, e ficamos por ali mesmo, rindo horrores das tentativas frustradas de fotografar as bumble bees, as abelhas peludinhas que parecem de desenho animado.

IMG_2443IMG_2473IMG_2572IMG_2575

Eis que, um tempão depois, descobrimos que tinha uma outra metade do campo lá pra cima que estava BEM mais cheia e viçosa!! Os donos são espertos e seguem a lógica do Keukenhof, de plantar as mudas em tempos diferentes pra que sempre haja arbustos no auge da floração desde julho até setembro, que é a epoca da lavanda aqui na Inglaterra.

IMG_2508

Verdade seja dita, o campo é praticamente uma versão lavandística do Keukenhof, porque mesmo que a gente chegue cedo, num domingo de sol, é im-pos-sí-vel tê-lo pra você mesmo, e ele é pequeno demais pra que a gente se perca por lá e fique totalmente circundado por lavandas em flor, daquele jeito que só o Plateau de Valensole faz por você. Então é tudo uma questão de perspectiva (#comotudonavida) e você só teria noção real do lugar se forçasse todo mundo a tirar fotos de ângulo aberto, da altura do olho.

Essa foto aqui embaixo eu tirei agachada, na altura das lavandas, e se tivesse tirado do alto dos meus 1.74m de altura, vocês veriam que tinha um bando de turistas asiáticos que praticamente montou acampamento por ali, apesar de estar explicitado no site que fazer piqueniques no campo não é mais permitido.

IMG_2541IMG_2590

A sorte é que, na vida, ninguém é forçado a só tirar fotos de ângulo aberto, da altura dos olhos! Às vezes você precisa se agachar, dar zoom, se esconder atrás de um arbusto, esperar o sol aparecer, esperar as pessoas saírem do seu enquadramento, mas a beleza está sempre ali, pronta pra se revelar pra quem espera e procura. Às vezes, não existe beleza clássica, porque a vida é cruel e injusta, mas o meu fotógrafo preferido ganhou a vida e ganhou o mundo mostrando que até no sofrimento existe beleza. Uma beleza melancólica, triste, de coração partido, mas que não deixa de ser bela. Que só basta procurar, exercitar a sensibilidade, ter olhos de ver.  E através desse prisma, ele mudou uma vida pra sempre – e muitas, muitas outras no processo, através de uma das iniciativas que eu, na minha humilde opinião, acho que tem maior poder de mudar o mundo: educar e empoderar mulheres para serem o que quiserem ser. E isso tudo com um otimismo realista que é a base do meu ideal de vida.

Não sei, já falei aqui meio superficialmente sobre a minha relação com a internet e mídias sociais, e como amante de fotografia e procuradora da beleza estética em tudo que eu vivo e vejo, eu acho isso muito natural… Não me sinto como se estivesse ludibriando ninguém por mostrar o lado mais bonito, mais poético, mais estético dos lugares aonde vou e da vida que eu levo. Isso existe desde os primórdios da humanidade, o que mudaram são os meios!

Os românticos sempre pintaram, retrataram, versaram sobre o mundo melhor do que ele é. Isso não quer dizer que são mais felizes do que os realistas, os niilistas ou quaisquer outros istas. Simplesmente escolhem ver o mundo com as lentes do otimismo. E que, irremediáveis como são, insistem em ver beleza até na tristeza.

“Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

(…)

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não”

Samba da Bênção, Vinicius de Moraes

IMG_2544IMG_2554

Enfim, não sei se é a Gabi médica que vê diariamente o quanto a vida é breve, ou se é a Gabi fotógrafa que sabe que as melhores composições são aquelas que a gente se contorce, se abaixa, procura ativamente e portanto tem aquela sensação de merecimento, mas o fato é que eu curto o exercício de procurar beleza, de procurar o lado bom. Nem sempre funciona. Nem sempre o botãozinho Pollyana está ligado, e sinceramente? Quem me conhece de fato sabe muito bem disso!

IMG_2581

Mas, as far as philosophies of life go, essa é a minha!

“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
Pertece ao seu tempo
-Entrai,irmãos meus!”

Poética II, Vinicius de Moraes

IMG_2584

Always a good idea

Uma das citações mais velha conhecida dos apaixonados por viajar – justamente por ser tão, TAO verdadeira – é o trecho de Viagem a Portugal, do Saramago:

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”

Essa última parte, pra mim, é a mais real. Voltar a lugares marcantes é sempre uma experiência de auto-conhecimento, e de uma certa forma sempre um recomeço. A gente se lembra das outras vezes que esteve lá, das primeiras impressões, mas principalmente de quem a gente era em cada uma dessas vezes.

Os posts que eu mais gosto de escrever são os mais íntimos, mais filosóficos, que envolvem mais reflexão. Infelizmente, são também os que eu mais enrolo pra escrever, porque começo, penso penso penso na vida e quando começo a escrever de fato, é hora de fazer outra coisa, heheheh. Então, por enquanto, basta dizer que desde a última vez que eu estive em Paris há 10 meses pra visitar o meu irmão, praticamente nada aconteceu como eu imaginava, nem para mim, nem para a maioria das pessoas do meu círculo mais próximo. Como a vida, mesmo nas dificuldades, continua sendo muito generosa, estão (estamos!) todos nos encaminhando, e mais fortes do que antes.

Então quando surgiu a chance de passar um fim de semana com uma das minhas melhores amigas da vida e o marido querido dela em Paris, fiz questão de não deixar passar! Saí de uma das rodadas de plantões noturnos mais brutais que já fiz desde que comecei a trabalhar aqui, dormi uma hora e meia, e como raios eu dei conta da minha listinha de afazeres pré-viagem em uma hora e meia antes de sair de casa, até agora eu não sei. Mas sei que entrei no trem pro aeroporto em alfa, devidamente envolvida pela trilha sonora de Amelie Poulain e morrendo de alegria por estar viajando de novo depois de quase dois meses.

IMG_4700IMG_4703

Mais tarde nesse mesmo dia, nos demos conta de que a nossa amizade já tem 10 anos – uma amizade que nasceu puramente do “santo que bate” numa aula de dança que fazíamos juntas! E nesses 10 anos, já acompanhamos várias fases da vida uma da outra, e nos últimos deles, tive o prazer de conviver com o Murilo, que é uma pessoa tão maravilhosa e que eu admiro tanto quanto a Mah. Então quando cheguei e brindamos com um champagne e comemos uns queijinhos enquanto colocávamos o papo em dia, me senti em casa – no sentido emocional tanto quanto físico – como não me sentia há tempos!

IMG_4709

Seguimos pro rooftop mais badalado de Paris, um pop-up cocktail bar que fica no terraço da loja de departamentos BHV, que por sua vez tem uma localização fenomenal, imediatamente oposta ao Hôtel de Ville. O Le Perchoir Marais foi A descoberta da Marina porque tem simplesmente A MELHOR VISTA da cidade, com direito ao sol se pondo atrás da Torre Eiffel com o Hôtel de Ville em primeiro plano, num ambiente super descontraído e despretensioso. Então bebemos uns drinks, conversamos horrores sobre a vida, conhecemos uns franceses e americanos aleatórios que renderam umas boas risadas, curtimos demais a noite e voltamos pra casa como na época da faculdade – com uma sacola de McDonald’s no colo! Hahahah muito, muito bom mesmo.

IMG_0004IMG_0007
IMG_4712

Passamos a sexta-feira flanando pela cidade, começando pela mítica Citypharma, onde mais uma vez morri de dó de não ter sido po$$ível ir de Eurostar dessa vez, porque a variedade de produtos e os preços são bons demais!

IMG_4728IMG_4727IMG_4726

Seguimos em direção à Notre Dame, depois passamos em frente ao Hôtel de Ville onde tava rolando um vôlei de praia que eu achei O MAXIMO, e seguimos para a Paris Plage – a praia temporária que já virou tradição anual à beira do Sena.

IMG_4730IMG_0017IMG_4782

Amei demais o clima veranil na cidade! Nunca tinha visto a beira-rio tão arborizada, e até o próprio rio estava verde! Caminhamos por todo o percurso, batendo papo, até chegarmos ao Museu d’Orsay, que ambas adoramos e que apesar de ser o meu preferido, eu nunca mais tinha voltado desde 2009!

IMG_4791IMG_4793

Almoçamos uma quiche Lorraine maravilhosa no café dos Irmãos Campana, admiramos a vista linda da cidade que se tem a partir do terraço do museu, e seguimos para o famosérrimo relógio que proporciona um jogo de luz e sombra de levar qualquer amante de fotografia à loucura! Depois, claro, curtimos o pièce de résistance do museu: a ala impressionista. Lembro exatamente de ficar hipnotizada ao ver uma professora ensinando seus pupilos de uns 5, 6 anos, todos sentadinhos embaixo de uma das telas mais famosas de Monet. Vou colocar a foto aqui embaixo se tiver paciência de ir catar uma foto de mil anos atrás!

IMG_4821IMG_0023IMG_0022IMG_0025IMG_0029IMG_4835IMG_4862

Seguimos pra Montmartre pra curtir a vista da cidade ao por do sol e jantar no clima boêmio do bairro, apesar de que nenhum de nós queria nem uma gota de álcool, hahaha.

IMG_0034.JPGIMG_4886IMG_4892IMG_4896

E no sábado, começamos pelo Museu Rodin, que eu nunca tinha visitado e adorei. Tive um momento quase surreal quando chegamos em frente à Porta do Inferno, que é inspirada na primeira seção da Divina Comédia de Dante Alighieri, O Inferno. Meu avô materno, falecido há quase dois anos, tinha uma cópia grandona desse livro que ficava na parte mais baixa do guarda roupa dele, bem na altura de uma criança de 6,7 anos. Eis que eu tinha um fascínio por aquele livrão enorme (nem deve ser tão grande, mas na época eu achava enorme!) e não sei até que ponto eu posso estar imaginando ou de fato são lembranças, mas eu lembro nitidamente de abrir o livro e nas primeiras páginas ter uma ilustração parecidíssima com a obra de Rodin. Até queria voltar e ver o livro, pra ver qual é, mas achei muito legal como, independente da acurácia da minha memória, aquela obra de arte me teletransportou imediatamente pro quarto dos meus avós, 20 anos atrás!

IMG_0080IMG_0082IMG_0074

Depois dali, fomos a outro museu que eu queria muito visitar: o Musée de l’Orangerie. Outra experiência emocionante. Nem sequer me lembro quando surgiu o meu interesse pela obra de Monet, lembro vagamente das aulas de arte no colégio, do primeiro quadro dele, Impression: soleil levant, cujo nome nunca mais me esqueci, e só sei mesmo que apesar de não ser uma pessoa entendida de arte, minha época preferida sempre foi o Impressionismo. Então de repente me ver numa sala branca, minimalista, iluminada de um jeito etéreo que difunde a luz do dia que entra pela clarabóia, totalmente envolta pelos painéis das famosas ninféias (Nenúfares, em português). Por sorte, o museu estava super vazio, então pudemos sentar e admirar um pouquinho sem que milhares de pessoas tirassem a aura especial do momento.

IMG_4933IMG_4958

Outra coisa sensacional foi que tinha um parque de diversões no Jardin des Tuilleries com um desses air swings sabe, tipo o famoso do parque Tivoli na Dinamarca? Eu tinha aquela imagem mental de um negócio que aplica uma força centrífuga ferrenha na pessoa lá no alto, sem nenhuma proteção, só numa cadeirinha de metal – ou seja, MEDO. Mas na verdade esse é bem menor, e é um jeito sensacional de ver Paris do alto, rodando em alta velocidade, hehehehe.

IMG_4956

Depois encontramos o Murilo na Champs Élysées e fomos visitar a nave-mãe, onde ganhamos uma maquiagem digrátis, então aproveitamos e pedimos uma aulinha de contorno.

IMG_4999IMG_5004

Aí seguimos para as imediações da torre pra almoçar num restaurante EXCELENTE que eles conheciam, o Les Cocottes do chef Christian Constant, que é o bistrô com preços mais acessíveis do que seus restaurantes estrelados.

IMG_0113IMG_0106IMG_0110IMG_0111IMG_0115IMG_5058

Demos mais uma passeada nas imediações da torre, passamos em casa pra buscar minhas malas e eles ainda fizeram a super gentileza de me levar pro aeroporto, com um papo super legal no caminho. Voltei pra casa de alma leve e energia renovada!

IMG_5064IMG_5068IMG_0119

Culinária Eslovena: o ouro!

Deixei a melhor parte por último, e hoje vim registrar a melhor experiência gastronômica que tivemos em Ljubljana e certamente uma das melhores da minha -até agora- breve existência (#jovem hahahah)

Como falei no post sobre o mercado de rua Odprta Kuhna, ficamos muito impressionadas com a qualidade de um dos estandes e consequentemente curiosíssimas a respeito do restaurante pai do estande, o JB Restavracija. O guri me deu um cartão, que guardei na bolsa e não pensei mais no assunto.

Quando chegamos em casa no fim do dia, com pressa de tomar banho e trocar de roupa a tempo de uns drinks pré-jantar ao por do sol no melhor rooftop da cidade, demos aquela olhada rápida no site do JB e de um outro lugar que estávamos de olho, o Gostilna As. Ambos tinham a mesma pegada culinaria eslovena meets alta gastronomia, sabe?! Estávamos super na dúvida e resolvemos ligar no Gostilna As primeiro – que, por sorte, não tinha mais reserva naquela noite! Liguei no JB já meio desesperançosa, afinal era sexta feira já no fim do dia, mas pra minha surpresa, o atendente confirmou nossa reserva e fomos felizes curtir nosso por do sol.

Nessa hora, vale lembrar que não tinhamos lido mil coisas nem explorado direito os sites nem os menus. Marcamos na pressa de quem tá turistando, achando que seria um restaurante bacaninha e bombado, sabendo que seria o jantar mais especial dessa viagem mas tipo… achamos que era mais um dos melhores restaurantes de Ljubljana, sabe?

IMG_2316

Chegando lá, quando nos receberam com pompa, circunstância e um prosecco rosé geladinho, caiu a ficha de que estávamos em um restaurante exclusivo. Poucas mesas, serviço impecável com vários garçons 100% atentos aos teus menores movimentos pra atender imediatamente, com aquela formalidade e deferência que deixam claro que você não está prestes a jantar – você está prestes a ter uma experiência gastronômica que foi pensada nos mínimos detalhes para deixar um marco na sua memória.


Logo na entrada, percebemos a quantidade de placas de prêmios que o chef já recebeu, inclusive o prêmio de um dos melhores 100 restaurantes do mundo pela revista Restaurant. E pensar que até uma hora antes, estávamos tentando reservar outro restaurante!!!

Resolvemos pedir o menu degustação na sua versão mais simples, e na hora que abrimos o cardápio…

Pera… BEAR thigh?

Não gurias, certamente é um erro de digitação, deve ser BOAR, wild boar é javali.

  • Moço, esse prato é carne de javali?
  • Não não, de urso.
  • DE URSO? Como assim?
  • É, de urso, (e apontou pra própria coxa), da coxa do urso.
  • Mas daonde vem o urso?

Nessa hora ele sorriu e gesticulou preguiçosamente em direção aos Alpes:

  • Da floresta!
  • Mas é permitido, é LEGAL comer carne de urso? – pausa para a espontaneidade da criatura que pergunta na cara dura em (supostamente) um dos 100 melhores restaurantes do mundo se estão servindo um prato ILEGAL.
  • Sim, claro, a caça de ursos é legalizada aqui na Eslovênia. E a carne é muito boa.

Sorri e agradeci pela resposta, e enfiei a cara no cardápio de novo.

Ficamos nos olhando uns minutinhos, naquele debate ético, pensando que nunca tinhamos aprendido que havia ursos na Europa central, muito menos ouvido falar em ninguém comendo a carne deles.

Olha, não vou ficar me justificando aqui, confesso que racionalizo totalmente os meus motivos para comer carne animal, porque amo o sabor e sou carnívora mesmo. Acredito na necessidade de proteína animal no desenvolvimento e manutenção do corpo humano e já assisti documentários de história natural demais pra duvidar da lógica que um dia a gente é caça, e outro o caçador (#fabiojrfeelings). Cansei de morrer de pena do bicho sendo caçado pra depois ver que a loba caçando os filhotes dos outros tava voltando pra casa de patas abanando pros próprios filhotes que estavam prestes a morrer desnutridos, e ver os papéis se invertendo de novo e de novo. Mas mesmo assim, nunca assisti a documentários pró-vegetarianismo e sei que só consigo continuar comendo porque desvinculo totalmente a imagem do animal da imagem da carne na geladeira ou no prato. E sigo mais ou menos a lógica de Sir David Attenborough, meu herói em vários aspectos, inclusive no que diz respeito à nossa relação com a natureza:

Screen Shot 2016-06-29 at 11.52.14 PM

Então nessa hora confesso que fui simplista e egoísta, pensando que provavelmente nunca mais teria essa oportunidade a não ser que um dia vá pro Alaska, e resolvi pedir o menu como estava, ao invés de trocar meu prato principal como fizeram as minhas amigas.

E aí começou um desfile de maravilhas que não dá nem pra explicar direito. Um couvert de creme de aspargos com caviar, seguido de um sashimi de atum do Adriático com wasabi e gengibre…

Seguido de ravióli recheado com queijo cottage e pistache acompanhado de foie gras, e ele, o prato principal: coxa de urso ensopada em molho de alho preto, com “štruklji” de cebolinha e creme de cranberry.

Maciiiia, as fibras de desfaziam sabe, não precisava nem cortar, só afastar com o garfo. Meio adocicada, me lembrou bastante o gosto de carne de veado (venison). Bem diferente mesmo, mas como falei pras meninas no dia, acho que muito do mérito era do molho que era divino.

Depois descobri, conversando com um local super simpático no ônibus de Bled pra Bohinj, que a população de ursos na Eslovênia e no norte da Croácia é monitorada e regulada, que se permite abater 10 a 15% deles na caça e que isso é estudado por biólogos – alguns defendendo que depois dessa estratégia ser implementada a população de ursos tem até crescido, já que antes da legalização da caça, podia-se abater ursos em situações de “conflito homem-urso”, dando margem pra transgressões e exageros como desculpa para dizimar grandes números e afetar a sustentabilidade da espécie. E que só se permite a caça quando a população excede um determinado limiar considerado seguro. Tanto é que nas 4 semanas desde que estivemos lá, o menu degustação já mudou e não inclui mais esse prato.

Enfim, pra completar a noite, a sobremesa foi O MELHOR bolinho de chocolate da minha vida (eles não chamavam de petit gateau, mas obviamente não fotografei o menu lá no dia, então não lembro o nome oficial da sobremesa. Mas era um petit gateau hehehe), imerso num creme de baunilha de chorar no cantinho.

E foi isso! Voltamos pro nosso flat sem nem acreditar na nossa sorte de o outro restaurante estar fechado. Acho que a coisa mais surreal desse jantar foi que, normalmente, quando a pessoa vai a um restaurante desse gabarito, ela já vai com expectativas altíssimas né? Nós não, pelo simples fato de que não sabíamos que o padrão do JB Restavracija era tão alto. Mas uma coisa é fato: o foco, ali, está primariamente na comida. E o resto, por mais milimetricamente planejado e bem-feito que seja, é só o resto!

Culinária Eslovena: a prata

Ljubljana tem muitos restaurantes. Mas assim, MUITOS! Pra uma cidade tão pequena quanto é, tem opção de sobra pra comer bem por lá. Logo no primeiro dia, uma procura rápida me deixou super impressionada, e pensei na hora na sorte de quem mora por lá, que tem o sossego de uma cidade pequena com a vantagem de muitas opções culinárias!

Como as minhas amigas viriam da Áustria e da Alemanha, ambas de saco cheio da culinária altamente batatônica, salsichônica e cheia de sustança, já tratei de matar minha vontade justamente disso antes que elas chegassem!

Como contei no outro post, pedi pra mãe do dono do nosso flat me indicar um bom restaurante de comida eslovena, e achei um sarro quando ela apontou no mapa imediatamente para o restaurante na próxima esquina, dizendo: “Esse aqui ó. NAO ESSE. Esse”. Fiquei me perguntando qual era a do restaurante que ela desrecomendou, hehehehe.

Mas óbvio que fui na recomendação. Era o Gostilna Šestica, que por coincidência ou não, eu tinha marcado no meu guia de viagem porque li as palavras mágicas goulash com polenta. E ainda bem, porque é daqueles restaurantes com um menu giganteeeesco sabe? Jamais teria visto a polenta lá, acho! O restaurante é o mais antigo de Ljubljana, costumava ser uma pousada antigamente, acho que lá por 1700 e lá vai pedrada, e tem toda aquela vibe amarela, semi-escura, aconchegante, com garçom de bochecha cor de rosa que me lembrou imediatamente a Bavária, hahahah. Matei a saudade de polenta, matei a saudade de goulash, tomei uma tacinha de vinho e paguei módicos DEZ EUROS.

A via gastronômica de Ljubljana é a Cankarjevo nabrežje. Sabe aquele clima de beira-mar, onde todos os restaurantes têm mesas na calçada, com guarda-sóis, pra pessoa ficar ali curtindo o clima? Então.

 IMG_1943

Depois que a Cris chegou, na nossa primeira noite lá, escolhemos o Zlata Ribica mesmo sem indicação nem grandes recomendações porque queríamos justamente isso: um jantar tranquilo na beira do rio pra colocar a conversa em dia e curtir um vinhozinho despretensioso. E foi isso que tivemos. Comemos bem, fomos bem atendidas, mas nada de espetacular, e o preço era o que se espera de um restaurante em localização nobre do centro turístico de uma capital européia: meio inflacionadinho.

Na sexta, fomos curtir uns drinks pré-jantar e um por do sol com vista no Nebotičnik, um rooftop que fica no prédio mais alto de Ljubljana, que nem é tão alto assim, mas tem esse nome porque foi construído nos anos 30 e era, na época, o prédio mais alto da Iugoslávia. Sempre acho que subir no ponto turístico mais alto de uma cidade não é necessariamente uma grande vantagem, porque aí você deixa de ter o próprio como parte da vista! Então eu diria que a vista do Nebotičnik é a melhor de Ljubljana justamente por isso. Olha só:

Nosso jantar de sexta acabou sendo num restaurante que merece um post à parte, que será o próximo, mas o de sábado foi no Gostilna na Gradu, que significa literalmente bistrô no castelo e fica no pátio do Ljubljanski Grad, o castelo de Ljubljana.

IMG_2332 

Esse era outro dos meus asteriscos no guia de viagem, porque também tem um foco grande em culinária eslovena contemporânea, apesar de ter vários pratos bem internacionais e palatáveis pra quem não quer nada muito diferente. 

Isso por si só já bastaria pra chamar a nossa atenção, mas tem uma cereja nesse bolo: o restaurante é lindo, logo abaixo da torre do relógio do castelo, e com os dias longos da primavera européia, eu sabia que ia ser uma blue hour fenomenal – e realmente ficamos horas batendo papo na nossa mesinha no pátio, falando da vida até praticamente fecharmos o restaurante. Encerrou com chave de ouro nossa estadia em Ljubljana!



IMG_2322IMG_2327IMG_2331IMG_2326

Um PS valido é a sorveteria Cacao, porque sorvete italiano sempre será um PS válido ne?!

Culinária Eslovena: o bronze

Uma das primeiras coisas que eu me surpreendi ao ler sobre a Eslovênia foi que é um destino super foodie, com boa comida a preços justos, e uma onda de alta gastronomia tomando conta de Ljubljana. Pra completar, o país é grande produtor de presunto cru, de um tipo próprio de salame defumado (kranjska klobasa) e de trufas, ou seja: é lóooogico que come-se muito bem por lá!

O vinho eu já sabia que era de respeito, porque um amigo do Alex é importador de vinhos aqui na Inglaterra e foi zoado pela turma de amigos inteira quando anunciou que estava fazendo negócios com produtores eslovenos uns 5 anos atrás – mas a verdade é que a gente não ouve falar mais neles porque a imensa maioria da produção eslovena fica dentro do próprio país, eles adoram os vinhos locais e pouca coisa vai pra exportação justamente porque o mercado interno dá conta de quase tudo.

Eu nem me considero muito foodie e, quando viajo, só dou uma pesquisada em restaurantes por um outro ângulo: sempre procuro provar a culinária típica, experimentar coisas novas, mas nunca fiz questão de alta gastronomia (até pq né, £££) e muito menos reservei restaurantes antes de ir viajar. Meu Lonely Planet, então, foi marcado com três asteriscos: dois deles pela comida típica, e um deles pela vista.

Mas antes de falar de restaurantes específicos, quero falar do mercado de comida de rua mais alto padrão que eu já vi na vida:

Odprta Kuhna significa literalmente cozinha aberta, e é exatamente isso que ele é: uma grande cozinha aberta, na forma de estandes, aos pés da Catedral de São Nicolau, na praça Pogačarjev trg todas as sextas feiras de sol, da primavera ao outono, das 10 da manhã às 9 da noite.


 Olha, Londres é muito bem servida de excelentes mercados de rua, obrigada, mas esse me deixou de queixo caído pela infra-estrutura, qualidade e conforto que oferece. Não só as comidas são todas feitas na hora, como é de praxe nesses mercados, como os estandes são estáveis, espaçosos e bem organizados, os vendedores vendem vinho e espumante geladinho em taças de vidro pra você degustar em mesas de madeira estilo biergarten ou – pra quem curte uma vibe de índio que nem eu – sentar num tapetinho nos degraus da praça com um mini-aparador de madeira pras taças e pratos de comida. Mas ainda não é isso a estrela principal. 

IMG_2088IMG_2089IMG_2090

A estrela principal é, logicamente, a comida! Tem pra todos os gostos: turco, japonês, indiano, chinês, italiano, steak argentino… mas obviamente, vinho branco e rosé geladinho em mãos, fomos inspecionando todos os estandes eslovenos que encontramos!


A primeira escolha foi žlikrofi, que é tipo um tortellini esloveno cujo recheio, ao invés da proteína habitual dos italianos, é batata. Não falei que eles são uma mistura da Itália com a Áustria? Pois bem, esse prato é uma boa ilustração de quando a pasta italiana encontra o lado batatólatra dos germânicos. Eles servem os žlikrofi com molhos variados, e a nossa escolha foi o de trufas.


Depois, enquanto a Cris foi direto na mais alta gastronomia eslovena, eu fui direto na baixa gastronomia, e aí experimentamos os pratos uma da outra:

Ela parou vidrada no estande que tinha os pratos mais bonitos e bem apresentados do mercado, o JB, e pediu um filé de salmão em crosta de [inserir aqui nome do ingrediente que eu não registrei mentalmente nem fotografei pra lembrar]. 😂


E eu fui de pljeskavica, que nada mais é do que um hambúrguer feito de uma mistura de carne bovina, suína e de cordeiro, cortadinho em tiras e servido num flatbread tipo pita, e no meu caso, com um molho bem apimentadinho de pimentões assados chamado ajvar. É um prato balcânico, típico não só da Eslovênia mas de vários outros países da região, incluindo a Sérvia, a Bósnia e a Croácia.


O meu tava ok, mas ficamos muuuuito de cara com a qualidade do prato da Cris, então na hora de devolver a taça de vinho, soltei pro guri do balcão:

— Obrigada moço, tava ótimo. Vocês têm alguma recomendação de restaurante pra gente jantar hoje à noite?

A cara de espanto e ponto de interrogação que ele fez foi IM-PA-GA-VEL, antes de controlar a surpresa e responder com toda a educação:

— Ãhmmm…. o nosso?!

HAHAHAHA gente!!! Eu não tinha me dado conta que ali, diferente do que acontece aqui em Londres, a imensa maioria dos vendedores nesse mercado de rua são na verdade restaurantes conhecidos na cidade que usam o Odprta Kuhna como vitrine do seu trabalho, pra angariar clientes! Colocam uns dois ou três chefs junior lá, com um menu limitado a 2 ou 3 pratos a preços bem camaradas, pra ter exatamente o efeito que o JB Restavracija teve sobre nós. Pois bem. Aceitei o cartão que o moço me deu, notando que o restaurante ficava bem perto do nosso flat, e continuamos turistando. E o resto é história, que eu volto pra contar mais adiante!

IMG_2097

Good at life

Uns tempos atrás um amigo falou “cara, minha flatmate é daquelas pessoas ‘boas na vida’, sabe? Ela tem a vida toda organizada, sai pra balada no fim de semana, chega mais tarde do que eu e quando eu acordo eu encontro ela na cozinha fazendo um café da manhã saudável depois de correr 8km as 8 da manhã ‘pra espantar a ressaca'”.

A partir daí, adotei o termo! Mas nunca achei que fosse good at life, porque convenhamos, tô sempre na correria e especialmente ano passado foi tão frenético entre trabalho e viagens que se eu tivesse luz e papel higiênico em casa, eu já tava mais do que satisfeita com a minha performance na vida.

E olha, amei aquela loucura!!! Ainda quero registrar um post sobre o ano passado, porque foi o ano mais sensacional da minha vida. Acho que lido super bem com esse caos instalado, lembro que entre maio e junho do ano passado teve umas 6 semanas em que fiz 4 viagens e 2 maratonas de plantão. Obviamente meu quarto ficou um verdadeiro bombsite, tinha sempre uma mala por fazer/desfazer num canto, o cesto de roupa suja bombando, a geladeira fazendo eco e eu sobrevivendo semanas a fio à base de refeições prontas do mercado.


Esse ciclo se repetiu algumas vezes durante o ano, e apesar de fisicamente cansada, eu nunca reclamava porque adoro essa adrenalina, essa empolgação de estar sempre cheia de coisas pra fazer, principalmente se uma delas for viagem.

Mas guardadas as devidas proporções (que tipo de gente sai correr pra espantar a ressaca?! Se eu sair correr de ressaca capaz de ter arritmias malignas!), nas últimas semanas eu tenho percebido ao vivo e a cores o poder de uma vida organizada. Com as escolhas profissionais que eu fiz, a rotina é não ter rotina, e acho que por isso mesmo, sempre amei e valorizei longos períodos fazendo mais ou menos a mesma coisa. Amo rituais, tradições e rotinas!

Desde que voltei do Brasil em março, tenho tentado cuidar melhor da minha rotina. Esse ano tem sido bem mais pacato do que 2015, quase sem viagens planejadas, por conta de algumas indefinições na minha vida pessoal e profissional. Então tô dormindo mais cedo, acordando mais cedo, me exercitando com muuuito mais regularidade e comendo mais saudável. Se eu não levo nada pro trabalho, as opções lá são sanduíches que nem bons são ou umas comidas quentes super cheias de fritura, então tô levando meu almoço praticamente todos os dias, preparo na noite anterior ou no fim de semana pra deixar tudo mais prático e tô amando! Meu quarto tem passado a maior parte do tempo limpo e (relativamente) organizado, as roupas pra lavar em dia, a geladeira cheia de comida fresca. Pizza eu não resisto e é a minha exhaustion bailout meal de escolha, mas faz séculos que não como uma lasanha pronta do mercado!


Nesse primeiro semestre eu descobri que lido muito, mas muuuuito melhor com mudanças concretizadas do que com incertezas! Mesmo que algo mude de um jeito que eu não gostaria, eu me adapto bem e facilmente, o que eu acho muito mais difícil é essa sensação de estar prestes a, essa sensação de estar em standby. Então nesse momento, ter uma vida mais estruturada e principalmente me exercitar com regularidade tem ajudado a me manter centrada, sabe?! É sempre um aprendizado.



Só que olha que engraçado: comecei esse post meras três semanas atrás, e nesse meio tempo, deixei a peteca cair valendo. Fiz uma leva de plantões noturnos, seguida por um fim de semana de plantão, seguida por uma apresentação importante no trabalho que tava tomando todo meu tempo livre, e hoje tô começando mais uma maratona de noturnos. Exercício mesmo, tirando a ida e volta pro trabalho a pé, não faço há uma semana acho. E cara, é inevitável que as coisas fiquem caóticas quando a gente passa 13 horas ou mais por dia trabalhando, por vários dias seguidos. Então paciência, ano passado aprendi com maestria a tolerar a zona por um tempinho, e aí quando a vida volta ao normal, faço meu ritual da fênix pra renascer das cinzas: primeiro durmo tudo que preciso, depois me exercito, limpo o quarto, lavo a louça que tiver acumulada (geralmente uns pratos semi-limpos ou potinhos de plástico que lavo meia-boca no trabalho depois de almoçar), vou ao mercado comprar comida e faço aquele banho-e-tosa básico de cuidar da pele, dos cabelos e etc. Sem dramas.

Aí comecei a refletir e acho que ser good at life mesmo é aprender a mudar as prioridades de acordo com o momento: quando estou viajando loucamente ou trabalhando loucamente, minha mente entra em outro comprimento de onda, não sobra espaço pra me preocupar com as roupas pra lavar porque tô ocupada demais vivendo ou trabalhando, e cuidar da casa cai uns bons 3 degraus na minha lista de prioridades (ou 10, hahahahah). Mas quando tô passando um tempo mais pacato em casa, acho que ter essa estrutura e fazer questão de cuidar de mim faz com que eu consiga focar em outras coisas com muito mais serenidade.

Água dura em cabelo mole

Tanto bate até que cria uma ENGRONHA CATACLISMICA!

Até umas semanas atrás, tudo ia bem na esfera capilar da minha vida.

Meu cabelo sempre foi bem saudável, tanto que toda vez que vou na Fer Nabuco ela elogia a saúde e maciez dos meus cabelos! Nunca fui de gastar lá muuuita energia neles, mas aprendi desde cedo a diferença que a qualidade da água faz nos cabelos: quando mudei de Caçador (região de montanha, a quase 1000m de altitude) pra Floripa, aos 16 anos de idade, notei imediatamente o quão mais ressecado e menos viçoso meu cabelo ficava. E ir pra Caçador de férias era sempre aquela glória, mal precisava secar o cabelo com secador e já ficava me sentindo a própria Kate Middleton. Então quando vim pra Londres, percebi que desci mais um degrau nesse precipício da água ruim, e que ia ter que me espertar um pouco mais com os cuidados pra não ficar igual a Hermione Granger.

Depois que resolvi fazer luzes, na metade do ano passado, passei a caprichar ainda mais: uso máscara hidratante umas 3x por semana, sendo que uma delas eu realmente deixo agindo uns 20 minutos ou mais, uso um shampoo específico de “limpeza” uma vez por semana, evito secar o cabelo com secador (que é fácil pra mim, já que meu cabelo passa metade da minha vida escondido e amarrotado numa touca de centro cirúrgico #vantagens) e quando uso secador ou babyliss, sempre, sempre uso um protetor térmico antes. A única coisa que nunca consegui adaptar na minha rotina foi o pré-shampoo, sempre esquecia de passar de antemão e aí ficava fazendo hora por 15-30 minutos pra depois lavar, então não rolou.

Mas o fato é que há uns 15 dias, comecei a notar o meu cabelo mais duro, mais “grudado”, menos maleável independente até de quando eu fazia uma escova caprichada levantando a raiz pra ficar com aquele cabelo bouncy, com volume na raiz. Nada, niente, nulla, rien. Cabelo grudado na cabeça nível Severus Snape.

E depois piorou! Uns 10 dias atrás comecei a entrar em pânico que um lado do meu cabelo, sempre o lado direito (sabe-se lá por que cargas d’água, de repente é porque eu durmo desse lado), saía do banho TOTALMENTE EMBARAÇADO. Mas tipo, nível terror e pânico mesmo. Devia ter tirado uma foto pra provar que não tô exagerando, mas não tive essa presença de espírito. Não tô nem falando do aspecto vaidade da coisa, comecei a me preocupar com o tanto de cabelo que eu tava perdendo, porque mesmo que eu desembarace sempre com cuidado e carinho, minha escova sempre ficava lotada de cabelos falecidos.

Passei os primeiros dias em negação, amaldiçoando o dia em que resolvi fazer luzes de novo, porque justo naquele canto mais embaraçado é que tem uma mecha um pouco maior. Depois comecei a culpar o comprimento, já que nunca estive com o cabelo tão reto – to morta de saudade das minhas camadas, já de data marcada pra cortar! Mas aí voltei a pensar racionalmente e cheguei à conclusão de que, no mínimo, tinha que ser uma combinação do canto mais tingido, mais longo, mais agredido e portanto mais poroso, com o raio da água daqui de Londres, que é a mais dura na escala de dureza da região:

hardwateruk

A gente lembra do conceito de água dura que aprendeu no colégio né?! Eu lembro, e depois de vir morar aqui, não tem como negar que de fato afeta a nossa vida, porque os sais de cálcio se depositam na pia, na banheira, na chaleira elétrica… e no cabelo! Então fui ler sobre o assunto como parte da minha busca frenética por uma solução oquantoantespelamordedeus. E aí tudo fez ainda mais sentido.

Sabe esse terreno pedregoso adorável que faz com que a gente consiga ver as pedras no fundo? Que faz com que o rio não seja marrom lamacento? Que faz maravilhas da natureza como os penhascos brancos de Dover e a Jurassic Coast?

IMG_0145 (2)IMG_0164 (1)IMG_1162

Pois é. A mesma pedra que te dá esse prazer estético é a ruína do teu cabelo. Que beleza de metáfora pra vida né?! Hahahah o nome dela é limestone, calcário em português. Quando a água da chuva cai lá em Caçador, ela rola pedra abaixo sem grandes repercussões, porque o solo lá é rocha basáltica. Aqui, quando a água da chuva cai sobre pedras porosas como o calcário, ela penetra na pedra e vai dissolvendo cálcio e magnésio ao longo do caminho. E é por isso que nossas chaleiras elétricas sempre acumulam umas escamas branquinhas no fundo de tempos em tempos, porque a água vai fervendo e os sais de cálcio e magnésio vão ficando pra trás.

E vão ficando pra trás no nosso cabelo também. Os detergentes e shampoos tradicionais são compostos bicamada, que tem uma parte solúvel em água e outra em gordura, só que quando em contato com água dura, formam compostos insolúveis que se depositam e ficam ali para todo o sempre, amém.

A não ser que a gente use um composto quelante, que forma ligações muito fortes com esses compostos insolúveis e resgatam a dignidade das nossas cozinhas e, mais importante ainda, dos nossos cabelos!

Olha a diferença do meu cabelo entre as fotos acima e essa aqui embaixo, com o cabelo lavado em Amsterdam, cuja água é reconhecidamente das melhores e com menor teor de cálcio na Europa. Sem nem fazer escova!!! 

IMG_9961

A melhor opção seria um sistema de amolecimento da água para toda a casa, mas né… £££. A segunda alternativa é um filtro para o chuveiro, mas ainda assim custa mais de £200 e cada refil do filtro custa £80. Ou seja, nada feito por enquanto. Com esse valor, é mais custo-efetivo enxaguar o cabelo com água mineral sem gás por muito tempo! Opção esta que, aliás, ainda estou considerando.

Mas aí a partir disso, começou minha busca específica por um shampoo com agentes quelantes. A Amazon é minha melhor amiga e nessas horas é que vale a pena ter o Prime, pra receber no dia seguinte, porque todos os shampoos de limpeza profunda de farmácia estavam esgotados (além de nenhum deles mencionar especificamente agentes quelantes voltados à remoção de resíduos de cálcio). Pois bem. Comprei um deles que era mais amigo do bolso e seria entregue no dia seguinte só porque não aguentava mais aquele cabelo gosmento, e um outro mais potente e especializado, mas que chegaria só na semana seguinte.

O Neutrogena Anti-Residue Shampoo chegou no dia seguinte e corri pra lavar o cabelo, ansiosa pra ver o que aconteceria. Lavei uma vez e ao enxaguar já senti uma diferença imediata no couro cabeludo. Mas o canto loucamente embaraçado continuava lá. Lavei de novo e ele diminuiu, mas não sumiu por completo. Nem precisei ter vontade de arrancar os cabelos, porque a minha escova já tava fazendo isso por mim. Mas na verdade, depois de secar já percebi o cabelo uns 60% mais macio do que antes, então útil ele definitivamente é.


Fast forward uns dias… Cheguei da minha corrida no sábado de manhã, tomei meu banho e antes mesmo de sair do banheiro ouvi a batida na porta. Era o entregador com o shampoo novo: o Nioxin Intensive Therapy Clarifying Shampoo, que tem como promessa principal remover depósitos minerais! Aí sim, agora vai, José!


Fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria #not: meia volta volver, abri a caixa correndo, passei a mão numa toalha seca e entrei no banho de novo! Agora vai!

Realmente já senti diferença na hora de enxaguar o cabelo! Que maciez! Quanto tempo! Assim, não vou mentir, ainda tinha uns 10% do embaraçado, mas acho que nas próximas vezes que lavar vai saindo. Essa craca não se acumulou de um dia pro outro, então não vai ser de um dia pro outro que vai sair né?! Vamos ver, ainda dá pra melhorar, mas pelo menos o pesadelo da engronha cataclísmica já passou!!! Aleluia irmãos!
 

Bohinj

Enquanto eu planejava a nossa viagem pra Eslovênia, acabei caindo na foto de um lugar lindo no coração dos Alpes Julianos, que já encheu minha imaginação de idéias depois que o Alex me apresentou, com toda a pompa e circunstância no ano passado, a cultura do BADESEE (lagos de banho em alemão, em maiúscula – pq alemão na minha mente é sempre em maiúsculas hahahah – que tiraram de mim qualquer resquício de comiseração do tipo “ah coitadinhos dos bávaros e dos austríacos, eles estão tão longe da praia!”). Agora só quero saber de lagos alpinos! Quanto mais, melhor!

Mas assim que vi no mapa, eu sabia que o lago Jasna, da tal da foto, ficaria muito contramão pra nós, já que inicialmente eu vendi pras gurias a idéia de um bate e volta de Ljubljana pra Bled e só – então eu teria que planejar qualquer extra com cuidado pra não esticar a boa vontade delas muito longe!

Então continuei investigando maneiras de conhecer o Parque Nacional do Triglav (fala Triglau), o maior parque nacional esloveno. Eu já tinha lido sobre o monte Triglav, o pico dos Alpes Julianos e maior montanha da Eslovênia. Então quando descobri que tinha um jeito fácil de conhecer outro lago alpino, mais bucólico, autêntico e intocado do que Bled, que ficava no meio do parque Triglav e bem mais conveniente de visitar do que o Jasna, eu me joguei nas investigações!

Descobri que podíamos facilmente ir de Bled para Bohinj de ônibus, e depois comprar uma passagem de Bohinj até Ljubljana. Calculei pra ficarmos mais ou menos 4 horas em Bled e 3 em Bohinj, e propus pras meninas, já mostrando as fotos e fazendo aquela propaganda esperta, porque nessa altura do campeonato eu queria muito ir e não sei o que faria se elas disessem que preferiam passar o dia todo em Bled, heheheh.

Pois bem. Esperamos o busna no horário certo em Bled, que atrasou um pouquinho, e quando chegou, conseguimos sentar bem na frente, com vista panorâmica da viagem. A Cris e a Amanda sentaram juntas de um lado, e eu sentei do lado de uma mulher de uns 50 anos que não tinha a menor pinta de turista. Perguntei de onde ela era, e quando ela contou que era de Bohinj, não escondi minha empolgação! Aí já perguntei o que era mais bonito na cidade, se tinha alguma coisa imperdível pra fazer lá, e nisso o cara que tava sentado atrás da gente já entrou na conversa e começou a me contar sobre a região, que tem uma cachoeira linda aqui, trilhas de bike maravilhosas lá e assim por diante. Aproveitei pra perguntar coisas básicas tipo como se fala Bohinj direito em esloveno (é Bohin, o primeiro J mudo na minha história), qual a diferença entre restauracija e gostilna, e curti o maior papo com os dois eslovenos (que gente simpática e querida!!!) a viagem toda, hehehe.

Descemos em Bohinj já aprovando a decisão de ir: é um vilarejo alpino que parece saído de uma pintura, sabe?

IMG_2312

Vi a torre da igrejinha e comecei a imaginar uma vida medieval por ali. Será que as pessoas ficavam maravilhadas com tanta beleza ou porque nasceram e viveram sempre ali, porque não conheciam um mundo diferente, achavam normal? Será que paravam pra admirar a harmonia estética da paisagem?

IMG_2268IMG_2290IMG_2292

O lago, dramático, profundo, quase como um fiorde no meio dos penhascos, parecia saído de uma cena de O Senhor dos Anéis.

IMG_2277IMG_2286IMG_2301

Toda a atmosfera que Bled tem de balneário turístico, de hotéis com lençóis de algodão egípcio, Bohinj tem de vilarejo despretensioso, intocado, autêntico sabe? Essa foto aí de cima eu tirei sentada numas pedrinhas na beira do lago, onde paramos pra bater papo e curtir a sombra, enquanto à nossa direita um casal de eslovenos curtia um “dia de praia” com a filhinha de uns 4 anos. Não duvido que comece a ser mais explorado turisticamente num futuro próximo, mas como disse o meu amigo esloveno do busão, “espero que a gente consiga preservar nossas riquezas”.

IMG_2281

Obviamente não resisti a botar os pés na água cristalina (e GELAAAADA!).

E ficamos ali, admirando a paisagem, curtindo a sombra e o canto dos pássaros, alternando um estado de silêncio contemplativo (e exausto de sol e calor) e tentativas de captar a beleza do lugar em fotos.


IMG_2285IMG_2303

E eu sabia mesmo enquanto fotografava que, por melhores que fossem as fotos, elas não chegariam aos pés do quão escandalosamente linda Bohinj é. Fiquei realmente muito impressionada!

IMG_2304