Flatshare nightmare

(Música no título tava bom enquanto eu tinha idéias espontâneas, agora- alguém me diz que música usar pra falar sobre alugar apartamentos?! Hahahaha tradição sumariamente suspensa até segunda ordem!)

Meu sumiço tem nome, sobrenome e endereço! Flat searching in London.

Imaginem, caros amigos, uma pessoa que nunca procurou um apartamento pra alugar na vida. Agora imaginem essa pessoa procurando apartamento pela primeira vez no mercado imobiliário mais dinâmico e louco do mundo! Thrown in at the deep end, né?! Quem mandou querer pular na parte funda da piscina?! Agora tem que aprender a nadar na marra ;)))

O esquema é o seguinte: um jovem profissional sozinho em Londres tem essencialmente duas opções. Pagar caro (estilo mais da metade do salário a bem mais da metade do salário) pra morar sozinho em um apê razoavelmente novo lá em cafundódojudasshire, passar uma hora e meia no trem-ônibus-metrô todos os dias pra chegar no trabalho e não poder ir nos happy hours cozamigos porque o último trem é a meia noite e pra chegar lá tem que sair do centro de Londres às 23h… ooooou pagar caro (estilo um terço do salário) por um quarto em um apê razoavelmente velho a muito velho no centro de Londres -entendemos por centro de Londres zona 1 e zona 2 do metrô-, conhecendo pessoas diferentes, abrindo a cabeça e aprendendo a conviver com outras culturas, ao mesmo tempo em que otimiza o tempo de viagem para o trabalho e fica bem no meio da muvuca maravilhosa que é essa cidade 😀

Existe ainda a opção secreta número 3, que é dividir um quarto com alguém, que é o mais barato e acaba às vezes sendo a opção de quem acabou de chegar, tá sem emprego ou com poucas horas de trabalho etc. Claro que exige altos níveis de tolerância e abdicação de privacidade em geral, mas é uma possibilidade! E tem gente que até curte, afinal de contas nesse comecinho é tudo festa e nem procurar flat ou dividir apartamento abala a felicidade do mais novo morador de Londres!

Quando é um casal, a coisa muda um pouco de figura, mas esse não é o nosso caso, já que o Alex tinha que estabelecer moradia fixa em Stratford-upon-Avon como parte do contrato do doutorado.

Mas aí assim, escolhida a opção número 2, vamos aos sites de anúncios. Gumtree, FlatShare, SpareRoom, MoveFlat, o que não falta são classificados. Existe todo tipo de pesquisa que você imaginar. Quer escolher pela linha do metrô? Ok. Prefere escolher pelo tempo que vai levar até chegar ao trabalho? Escolhe aí. Ou quem sabe vamos limitar a pesquisa a zona 1-3 do metrô? Passa os fins de semana em outro lugar e quer alugar só de segunda a sexta? Só quer flatmates vegetarianos? Prefere dividir a casa com alguém com outra orientação sexual? Precisa que a casa permita bichos de estimação? Faz questão de ter uma sala de estar?

Quase chorei de rir domingo quando encontrei 22 coisas frustrantes sobre procurar flatshares em Londres!!! Porque por enquanto é isso mesmo: procura frenética com 298 abas abertas no navegador, textinho padrão sobre quem sou e a que vim (haha), caixa de entrada absolutamente lotada de avisos de resposta, já estou macaca velha e quando tem “cosy” no anúncio já fico ligada que pode ser que a porta do quarto nem abra completamente, já estou considerando dividir meu humilde lar com gatos, cachorros e papagaios caso o apê seja bom e os flatmates sejam legais, orientação solar já saiu do rol de pré-requisitos e passou a ser um extra há uns 10 dias, enfim! A maioria dá vontade de sentar no cantinho e chorar, mas a caça ao tesouro imobiliário londrino prossegue!

Sábado fui ver um flat enorme, do outro lado da rua da estação do metrô, quarto bonitinho, espaçoso, sacada, flatmates muito gente boa, cozinha boa, sala de estar, que nem todos os apartamentos têm porque alguns convertem a sala em mais um quarto pra dividir o aluguel em mais pessoas… Confesso que não morri de amores de início mas ao longo do fim de semana fui me empolgando e vendo mais coisas positivas. Depois de aguardar ansiosamente o domingo todo por uma resposta, no fim do dia o guri me avisou que o quarto tinha sido alugado por outra guria. Meu primeiro coração partido em Londres! Hahaha daí passei brevemente pela fase 4 da busca por apartamentos em Londres, ódio por todas as coisas do mundo.

Mas como boa pessoa resignada após um pé na bunda, sentei na frente do computador e não sosseguei até ter pelo menos mais 4 marcados pra ir ver!

Adoro escrever aqui e sempre passo o dobro, triplo do tempo que pretendia, mas preciso dormir. Só quero deixar registrado aqui que para cada momento de desespero e angústia do tipo “CHEG˜A, será que não vou achar um lar nunca?”, existem umas 5 gargalhadas, internamente ou até externamente mesmo. Domingo fui ver um flat lindinho, localização excelente, 3 minutos do metrô, móveis novos, negociação direto com o dono, quarto face leste com solzinho da manhã entrando, chuveiro bom, perto de supermercados, lojinhas, cafés e restaurantes, área boa da cidade. Eis que eu e o guri espanhol que fomos ver ao mesmo tempo estávamos na cozinha fazendo umas últimas perguntas e o dono solta: “a única coisa que vai mudar na verdade é que o vizinho de baixo reclamou que ouve muito os passos das pessoas, então apesar de eu gostar muito do piso que escolhemos originalmente, resolvi mudar e mandar colocar um carpete duplo, wine-proof, em toda a casa, pra evitar problemas”. INCLUSIVE NA COZINHA! Haja amor pelo vizinho, Batman! Eu ia mandar o vizinho arranjar o que fazer fora de casa e morrer abraçada com meu lindo piso laminado de madeira escura! Hahahahaha

Certamente terei mais causos pra compartilhar, essa semana tô na UTI das 8 às 20h, ontem fui ver mais um flat às 21h mas hoje tô exausta, então já marquei mais uns pro fim de semana. Perspectiva é tudo nessa vida! Assim como em qualquer relacionamento ou emprego, não estou procurando um quarto/apê/flatmates perfeitos, mas sim cujos defeitos eu ache que vale a pena tolerar e conviver porque as qualidades ganham! Quem viver, verá!

You can never get enough

Enough of this stuff

It’s Friday I’m in love!

TCHEEEE que delicia de vida londrina! Se quarta passada foi o turning point (quando anestesiei uma senhora com dissecção aórtica e cheguei em casa mongol de felicidade e autoconfiança de que a cada dia eu veria melhora), ontem foi meu melhor dia de trabalho até agora! Induzi minha primeira cardíaca sozinha no UK e foi tudo tão liso, tão lindo, tão exatamente como eu tinha planejado, que eu nem precisaria de mais nada pra que fosse um dia maravilhoso! Depois tivemos mais várias torácicas e to amando mais do que nunca!

Outra coisa que adoro: 5 pacientes. Kosovo, Chipre, Inglaterra, Inglaterra e Nepal! Fui fazer o pre do nepalês e a filha tava junto, traduzia algumas coisas. Eu como sou curiosa e cara de pau, quando tenho a oportunidade de perguntar que língua é essa que as pessoas tão falado e eu não reconheço, mando bala! Entre os funcionários do hospital também é muito massa, tem muitossss filipinos, de vez em quando ouço na copa duas delas conversando entre si em filipino e acho demais. Ontem o enfermeiro que ficou cuidando desse meu paciente da cardíaca na UTI era o Tiago, um portuga gente boníssima, dai no fim do dia fui ver como ele tava e no final agradeci em português 😀

Ai só pra potencializar aquele sentimento bom de sexta-feira, sai pra dar uma volta em Fitzrovia à procura de um food truck de comida tailandesa que eu tinha visto no Foursquare, só que vi errado os horários de funcionamento, achei que era do meio dia às 2AM! Mas era PM!!! Hahahahah tansa! Tem vários lugarzinhos que capitalizam no tanto de escritórios que tem ali por perto. Aqui a maioria das pessoas mal almoça, às vezes come só um sanduíche ou algum outro prato rápido. Até abriu um tempo atrás um restaurante por kg perto de Oxford Circus, lembro de ter visto na TimeOut em outubro porque a notinha comentava que esse tipo de restaurante é comum no Brasil, hehehehe… Mas sinceramente duvido que tenha se dado muito bem, pq quase ninguém passa mais que 20 minutos, meia hora no máximo almoçando! Mas enfim, ai acabei comendo uma pizza num esquema meio fast-food italiano que era enorme e muito barata, sempre lembrando que cada coisa que eu pago na verdade custou 4,61 vezes aquele valor e mandando um grande abraço para essa agradável senhora que temos como presidente. E voltei pra casa pra ligar pro pai e pra mãe e arrumar as malas, que hoje (nesse exato momento), sábado de manhã, to indo pra Stratford-upon-Avon passar o fim de semana com o Alex e conhecer a cidade, que é onde nasceu – e viveu boa parte da vida – Shakespeare 🙂

Outra coisa que amo de paixão é a pontualidade britânica, hehehehe. Tenho a sensação de que o meu tempo rende, sabe? Que cada minuto é mais aproveitado?! Talvez seja só porque eu sei melhor quanto tempo os deslocamentos vão levar (te amo, Google Maps!), mas por exemplo, segunda fiz várias torácicas com um staff que tem fama de ser meio ranzinza mas que na verdade é muito gente boa quando você respeita e faz as coisas direitinho (ele é meio TOC com algumas coisas, mas tudo tem uma razão de ser, então acho até bom criar rotinas assim). Então ele foi super gente fina e paciente o dia todo, me explicando as condutas, extubamos nosso último paciente às 16:15. Veio o técnico em radiologia pra fazer um rx de tórax, que estava feito às 16:22. Nisso esse staff puxou um papo que eu adoro, que é gerenciamento de crises em anestesia! Só que eu tinha que ir até as 17h no RH, que fica no prédio-mãe, na frente do hospital geral, que por sua vez fica a 1,3km do THH!!! Mas não queria cortar a conversa, então dei corda até as 16:32, subi correndo pro quarto pra me trocar, as 16:37 tava saindo do hospital, as 16:48 cheguei no RH e UFA!!! Antes das 17h tava saindo de lá com toda a papelada resolvida e meus detalhes de conta registrados para (Inshallah! Hahahah Jade mandou lembranças) receber minhas £££ daqui a uns 10 dias! Agora me diz, você amiga ou amigo que não morreu de tédio com essa descrição: existem 45 minutos mais bem-aproveitados que esses?! 😉

Ah! Outra coisa engracadíssima: nesse dia, correndo entre um hospital e outro, entendi as pessoas que andam pra cima e pra baixo em Londres de patinete! Hahahaha sim, MUITOS adultos de patinete, acho um sarro! Mas invejei muito naquele dia! Também tem bastante gente também que vai de trabalhar correndo. De roupa de corrida e mochilinha nas costas! Qualquer negócio pra encurtar o tempo de deslocamento. O londrino tem pressa!

Falando em tempo de viagem, hoje to indo de ônibus (2h50) pra SuA porque a linha do trem (1h50) teve que ser arrumada depois de uns desmoronamentos em janeiro. Já voltou a funcionar, mas como a empresa que faz essa linha perdeu milhares de pounds nesses período, só tem passagem com o preço normal de £28. To indo de ônibus, ida e volta por £14, e me sentindo muito espertalhona. Hahahaha 🙂

Agora vou seguir viagem com meu companheiro de todas as horas: Pip!

PS.: fotos de qualidade sofrível porque minha câmera de trás do celular simplesmente morreu durante o voo pra ca. Sem problemas ne, afinal nem vejo 1936 coisas por dia que queria fotografar e compartilhar! Tsc tsc tsc.

These streets will make you feel brand new

Big lights will inspire you

Ok, ok, eu sei que a música foi feita pra NY, mas vale pra Londres também 🙂

Hoje fizemos só uma cardíaca, as coisas tavam meio devagar por falta de funcionários na UTI. Aqui é um funcionário por paciente na UTI, e mais alguns extra por lá que ainda não sei exatamente quantos são. Só que é impressionante, no país todo existe uma taxa de ocupação de vagas pra enfermagem menor que 80%!!! Mesmo em Londres, que é a cidade das oportunidades e da competição por vagas, a maioria dos hospitais trabalha em torno disso também. Então só teve uma cardíaca, que foi a minha \o/

Por sorte to ficando sempre na sala de um residente da cirurgia que é muito gente boa e que fala pra foraaaa, gente que diferença que faz na minha felicidade, hahahaha. Ele já aprendeu meu nome e gosta de chamar todo mundo na sala pelo nome, que eu adoro também. Então rola uma comunicação bem efetiva, que é essencial durante a cirurgia, que por sua vez faz com que meus níveis de animação aumentem exponencialmente. A cada dia que passa fico um pouquinho mais ágil, um pouquinho mais ligada no que os outros tão falando (sério, não é facil ouvir duas ou três conversas em paralelo, e às vezes isso é necessário) e mais autoconfiante. Claro que isso é partindo de expectativas ajustadas né. Não estou nem perto dos níveis que gosto de ter, mas perceber melhora a cada dia já me satisfaz por enquanto. A Bee me disse no primeiro dia: “Gabi, coloque as tuas expectativas em ordem porque os primeiros 3 meses são um retrocesso, você vai sentir como se tivesse andado pra trás, então nem se exija estudar loucamente nem nada, simplesmente vá fazendo o teu trabalho e absorvendo tudo como uma esponja”. E é isso que eu tô fazendo, hehehehe.

Bom, não quero me prolongar muito, mas aí as coisas acabaram bem cedo, vi os pacientes de amanhã e assim que anoiteceu, peguei minha câmera e fui bater perna pela vizinhança.

Detalhe que minha vizinhança é muito nobre!!! Os brasileiros que conheço aqui falaram “whooooa ta morando maaaal em W1 hein!” hehehe. W1 é o meu CEP, e significa que tô morando no coração de Londres! Outro dia explico o esquema dos CEPs, é bem legal. O hospital fica em Marylebone, que é um bairro consideravelmente posh no West End de Londres. Sabe-se lá por que raios, fala-se Marlebone, como se não tivesse o y. Então estou a 5 minutos da Oxford St, a 5 minutos do Regent’s Park e a 15 minutos do Parlamento! Uma delícia 🙂

Nem fui muito longe, fui até All Souls Langham Place, uma igrejinha que fica na frente da BBC, na parte norte da Regent Street, e depois desci a Regent Street até Piccadilly Circus e voltei pela Oxford Street e aquele meu cantinho escondido que eu adoro, St. Christopher’s Place.

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E devo dizer que meu quartinho muito rapidamente se tornou um lar! Adoro chegar aqui no fim do dia, antes de botar a chave na porta já sinto o cheirinho bom do aromatizador. De manhã cedo, adoro minha rotina de tomar um chá na poltrona enquanto dou uma lida nos sites de notícia e blogs que acompanho. Acho que como sonhava morar aqui há tanto tempo, me acostumo super rápido com as coisas por ver o lado bom, sabe? Ano passado durante o estágio eu amei Islington também, me lembro com saudade da minha rotininha na casa do Will e da Sophia. Às vezes o pessoal no hospital faz uma cara de pena tipo, “ahhh, tá morando aqui no hospital?! Mas é temporário, né?!” e eu digo “sabe que é melhor que eu esperava?!”. Não gostaria de ficar aqui direto, mas certamente vejo as conveniências que fazem algumas pessoas escolherem assim. Cara, é muito bom não ter que “ir” pro trabalho, hehehe. Boto a roupa do centro cirúrgico e em 30 segundos, estou lá. Mínimo esforço! Hoje, por exemplo, em vez de almoçar na copa como todo mundo, vim almoçar no meu quarto, curtindo um solzinho, sentada na minha poltrona do vovô! E acordo geralmente meia hora antes de sair daqui, chego cedo lá embaixo… E no fim do dia, o paciente que eu tinha que ver tava com toda a família em volta, jantando. Em vez de esperar ou ter que pedir licença pra família, fui viver a vida e voltei mais tarde bem tranquilona. Mas por outro lado, o banheiro é compartilhado e tem pouco espaço, então acho um saco ter que levar sabonete líquido, shampoo, condicionador e tralhas associadas toda vez que vou tomar banho. Depois que descobri que só tem mulher morando aqui no meu andar e como meu quarto é do lado do banheiro, já larguei mão de levar roupa e vou e volto só de toalha, hehehe pra ficar mais prático. E outro fator limitante é a cozinha, que tem só duas bocas de fogão e um micro e pasmem! Não tem geladeira! Só no andar de baixo. Mas daí a gente se adapta, em vez de tomar meu chá preto com leite, larguei mão e tô tomando um de limão e gengibre que é uma delícia, daí não precisa da função do leite. Uma enfermeira que eu encontro na cozinha de vez em quando me disse que tem um frigobar no quarto, e uma outra moça tem um forninho elétrico, enfim… quem fica a longo prazo vai achando um jeito de tornar ainda mais conveniente.

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Tô filosofando meio demais ultimamente, hahahaha mas acho legal que apesar de estar extremamente feliz e realizada, aprendendo muita coisa nova todo dia, não tá rolando um deslumbre indiscriminado com a minha vida nova. Como diz o Frejat, “rir é bom, mas rir de tudo é desespero”. Existem sim, algumas coisas que preferia que fossem diferentes, ou que espero que melhorem, tanto no trabalho quanto na vida normal, e por isso mesmo que fico feliz, porque acho que a gente tem que descobrir aonde o calo aperta, pra depois tomar as decisões da gente. Exemplo boboca: se pra uma determinada pessoa, se acostumar com a pele seca é menos sofrido do que passar hidratante todo dia, pronto, a decisão está tomada! Abrace a secura da sua pele e vá ser feliz! Hahahah… Tudo na vida, absolutamente tudo, tem um lado bom e um lado ruim. Um dos princípios do Budismo inclusive é que o sofrimento faz parte da vida, porque mesmo quando você conquista algo que é maravilhoso, imediatamente se segue o medo de perdê-lo. Então o único antídoto é se trabalhar pra aceitar que a única constante da vida são as mudanças, a ser mais desapegado, e a viver com mais leveza. Mas enfim, o que quero dizer é que o copo está definitivamente meio cheio, pelo menos por enquanto 🙂

Tem certos dias em que eu penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Esse fim de semana eu não tinha planos a não ser a vinda relâmpago do Alex, vindo da Alemanha, pra ficar umas horinhas comigo entre sábado e domingo. Sexta morri de preguiça de sair sozinha, a Paola tá fazendo um estágio em outro hospital que tá saindo super tarde, o pessoal aqui do hospital parece meio casadão e caseirão, então fiquei de boa em casa no melhor estilo #nofriends só atualizando meu orçamento, arrumando minhas coisas e comendo um monte de doces, hahahaha.

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Sábado dormi bem à vontade e acordei com planos malignos de comer uma SUPER bratwurst num lugar sensacional que tem aqui: Herman ze German! Uma mini cadeia de lanchonetes autenticamente alemãs… aliás, AMO isso aqui! Você vai num restaurante italiano e é de fato recebido com um Buonasera, como se estivesse mesmo entrando na Itália. E pedidos na língua de origem são super bem-vindos. Mas continuando, eles servem vários tipos de salsichas, com uma cebola bem crispy em cima, de fazer inveja no Outback! Sei que perambulei pelo Soho sem pressa à procura do tal lugar e quando cheguei lá já tava morta de fome! Gente, que delícia!!! Só de lembrar me dá água na boca de novo! E pros alemõezões mais raça, ainda dá pra pedir chucrute por cima, heheheh. Bem legal mesmo, me fez pensar em quantos turistas acabam se entregando ao McDonald’s quando tem uma coisa tão interessante por perto. Uma pena! Porque tem um em Charing Cross, bem pertinho da Trafalgar Square, e outro no Soho. Então poderia muito bem ser um lanche mais interessante, por £2 a mais do que pagariam por uma McOferta. Por outro lado, às vezes a gente não tá a fim de investir tempo nem energia à procura de comida. Mas nesse caso, se fosse eu, comeria um qualquer coisa numa barraquinha de esquina, aqui é cheio de barraquinhas de turcos vendendo falafel e etc. Enfim, chega de elocubrações! Fato é que tava uma delícia!

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Depois passeei um pouco pela Chinatown, ainda toda enfeitada pro ano novo chinês, que foi dia 19 de fevereiro se não me engano. Muito legal essa parte da cidade, adoro passear por ali! A quantidade de cafezinhos despretensiosos e londrinos fazendo a fotossíntese e comendo al fresco é surreal! Isso que a temperatura subiu só de 10 pra 13, 14 graus… Imagina no verão! Hehehehe

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Sim, tenho 12 anos, hehehe sempre dou risada sozinha quando passo na frente desse restaurante!

Sim, tenho 12 anos, hehehe sempre dou risada sozinha quando passo na frente desse restaurante!

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Meu destino final era The Photographer’s Gallery pra ver a exposição Human Rights Human Wrongs. Tinha um tour guiado com uma das curadoras da exposição e, por motivos óbvios, não dá pra dizer que a exposição é legal, pelo simples fato de que você se lembra o tempo todo das atrocidades que o ser humano é capaz de fazer… Holocausto, apartheid, genocídio em Ruanda, fome na Nigéria, torturados da guerra do Japão contra a China, enforcados por crimes banais no Oriente Médio… A lista parece não ter fim. Na verdade a reflexão principal que eles pretendem ali é sobre como o fotojornalismo influencia a reação e mobilização que surgem após a divulgação das imagens. Uma coisa que eu não sabia era que as primeiras imagens de campos de concentração nazistas foram divulgadas no dia 07 de maio de 1945, praticamente ao mesmo tempo em que ocorria uma reunião de chefes de estado em São Francisco que basicamente foi o pontapé inicial pra criação da ONU, que por sua vez teve como gatilho inicial um jantar organizado pela Eleanor Roosevelt em que ela questionou chefes de estado sobre a possibilidade de criarem uma organização supra-nação pra tentar evitar atrocidades como as que tinham acabado de acontecer… Interessante, né? E totalmente digrátis! Como não amar essa cidade?!!!

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Fiz aqueeeele banho da beleza depois, que tava precisando porque o frio tá castigando demais a minha pele. Comprei os hidratantes mais potentes que encontrei pro corpo e curti umas duas horas de dondocagem, com direito a fazer as unhas e tudo. Quando eu digo fazer as unhas, eu quero dizer fazer as unhas menos pintar, porque aqui é um big no-no pintar as unhas pra mulherada que trabalha em centro cirúrgico 😦 certo, mas triste! Hehehe

Quando o Alex chegou, fomos logo jantar num italiano aqui pertinho de casa, o Olivelli. Esse restaurante fica num cantinho meio escondido atrás da Oxford Street que eu adoro, o St. Christopher’s Place. Não tirei fotos ontem porque a máquina do meu celular pifou (sim, obrigada!), mas outra hora passo ali com a câmera e bato umas fotos. É um cantinho muito simpático que tem a maior cara de piazza de cidade pequena, sabe? Nem parece que estamos em Londres!

Gente, que comida boa e bem servida! E o garçom adorou que dizíamos obrigado em italiano quando ele vinha trazer as coisas, hehehehe. Ficamos lá batendo altos papos até tarde, quando vimos já era quase meia noite (super tarde pra padrões ingleses!). Bem gostoso! Aí viemos pra casa e nossa sobremesa foi a mini Sacher Torte que o Alex ganhou do pai dele, coisa mais bonitinha, uma tortinha de uns 15cm de diâmetro, com o selo do hotel Sacher, e olha… coisa bem boa! Bem balanceada porque a massa não é doce demais e o ganache que vai de cobertura é de chocolate meio amargo… Mas confesso que sou meio formigona demais e se fosse mais doce, provavelmente teria gostado mais ainda!

Hoje cedo acordamos e fomos tomar um Full English Breakfast num cafezinho na Baker Street que era tão feinho, mas tão feinho, que nem o melhor fotógrafo do mundo salvaria, então deixei quieto hahahahaha… Mas you get what you pay for, então nem reclamei e comi meu infarto no prato por apenas £5 sem reclamar, porque tava de fato uma delícia! Depois disso fomos caminhar um pouco no Regent’s Park e de novo nem me animei de tirar fotos, tava um dia tão amuadinho e cinza que só me contentei em pensar como vai ser na primavera. Tem milhares de plaquinhas com nome de flor nos jardins, deve ser um deslumbre! E uma coisa que eu não sabia, que o Alex apontou pra me mostrar, é que narcisos (daffodils, não conheço essa flor, nem sei se tem no Brasil) aqui são “um sinal de que a Páscoa tá chegando”, porque são as primeiras a florescer, antes do início da primavera!

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Aí fui com ele até a Victoria Coach Station, porque é de lá que vou pra Stratford-upon-Avon semana que vem, e confesso que teria me batido um pouco pra achar. Porque é uma rodoviária normal, mas é meio longe da estação normal de trem, e tem vários ônibus que saem de uma terceira parte da estação, enfim… meio confuso, ainda bem que fui com ele que aí não preciso chegar com mil horas de antecedência sábado de manhã 🙂

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E outra coisa delicioooosa do meu dia foi o queijo espanhol que ele me trouxe da Alemanha, que eu AMO e nunca encontrei aqui, todo coberto de pimenta e cremoso por dentro, uma maravilha! Então foi assim que terminei meu dia, resolvendo coisas na internet e degustando meu queijinho 🙂 not bad, not bad!

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre

Quem traz na pele uma marca, Maria Maria mistura a dor e a alegria

Sabe aquela coisa de primeiro dia na escola, assim, que as pessoas te mostram o lugar, “olha, vai funcionar assim e assado”, e no fim das contas tem-se uns 70% de um dia de trabalho, e em ritmo light? Pois é. Meu primeiro dia de trabalho não foi nada disso 🙂 hehehehe. Tanto a Alexa, outra fellow que tá começando comigo, quanto eu já tínhamos passado aqui pelo hospital, eu por um mês e meio como observadora e ela por três meses como residente. Talvez seja por isso. Então quando eu cheguei e fui perguntar quem eu deveria procurar pra um staff que faz torácica toda segunda e tava preparando a anestesia dele, ele simplesmente me respondeu daquele jeitão muito inglês de meia-idade socialmente desajeitado muito característico e engraçado “Oh hi! You’re back, are you? Não sei, as pessoas vêm e vão tanto, que nem sei. Procure um fellow qualquer aí” hahahaha… Perto das 8h chegou a Dominique, que tá assumindo o cargo de fellow sênior no lugar da Adri. Depois daquele oi, tudo bem, bem-vinda de volta, e aí como foram esses meses no Brasil, ela me disse: “te escalei na sala três com a Bee, tá?”. Tá.

E nada da Bee. E de repente o coordenador do CC me diz: “Oi! Bem-vinda de volta! O fulano (staff da sala 3) ligou pra avisar que vocês podem ir começando que ele vai chegar daqui a uns 15 minutos”. Nisso o paciente chegou. E nada da Bee. Eles fazem todo um procedimento de entrega do paciente, pra verificar se tá com a pulseira de identificação, se tem alergia, se tem lente de contato, metal no corpo, dentadura, etc etc. Pois bem, terminou esse primeiro checklist, foram levando a maca do paciente pra salinha de indução. E nada da Bee!

Nisso ela chegou, já tinha visto a paciente, era uma cirurgia relativamente pequena. Depois uma torácica, e depois uma cardíaca, que transcorreram sem maiores problemas. Mas agora olhando pra trás, acho que eu esperava um pouco mais de cerimônia, uma introdução um pouco mais gradual no ritmo da coisa. Enfim, não vou entrar em pormenores médicos, mas o fato é que a cada minuto que passava eu ia me sentindo mais e mais perdida, como se fosse uma R1 de novo. Uma coisa é a gente ver uma coisa sendo feita, a outra é fazer a tal coisa. A memória visual é uma, a memória tátil, procedural é outra. Então não é uma questão de saber induzir um paciente sozinha. Afinal de contas, sou uma anestesista formada. Mas nossa especialidade é praticamente construída em rotinas, pra que a gente então possa adaptar essa rotina de acordo com as particularidades dos pacientes, não é à toa que somos comparados o tempo todo com pilotos de avião. Ordem, precauções, checklists, tarefas encadeadas fazem parte do nosso dia-a-dia. Nesse dia fiquei com saudade da minha rotina de me preparar pra uma anestesia em casa. Saber exatamente o que eu preciso, qual é a cara desse material, onde encontrar, saber que na maioria das vezes preparo tudo isso sozinha e me viro sozinha, tenho uma ordem mental que me é familiar. De repente, tudo diferente! Mas gente, TUDO diferente. Desde o algodão com álcool pra passar na pele antes de pegar a veia, que aqui é tipo um lencinho umedecido com álcool que vem dentro de um pacotinho tipo desses de adoçante, até o fato de siglas simples escritas no prontuário me exigirem 30 segundos de raciocínio, ao invés de 1, quando a associação já tá estabelecida no teu cérebro. O que eu quero dizer é: SIM, na essência é tudo a mesma coisa, afinal as preocupações do anestesista são as mesmas, é o mesmo corpo humano seja no país que for, na cultura que for, com a infra-estrutura que for. Só que as rotinas e os materiais aqui são diferentes. Imagina de repente botar um piloto de avião num cockpit que ele não conhece?! Ele sabe pilotar, mas vai se sentir um peixe fora d’água até se familiarizar com os instrumentos que ele vai usar.

Então a palavra que resumiu meu primeiro dia de trabalho foi overwhelming. Não tem outra. Nessa hora eu só pensava: gente, é muita coisa nova, será que a minha capacidade é a mesma aqui? Fui fazer avaliações pré-anestésicas no fim do dia e me dei conta de que nunca tinha descrito um exame físico em inglês antes, que nunca tinha pensado com que termos pedir que um paciente fizesse os movimentos que preciso pra avaliar a via aérea. Será que sou tão irresponsável assim por nunca ter parado pra pensar nisso? Ou será arrogância, porque me sinto à vontade falando inglês nunca imaginei que fosse ter dificuldades?

Engraçado que, externamente, passei o dia totalmente numa boa. Cheguei em casa e acho que nem eu tinha me dado conta de quanta adrenalina tinha circulando. Quando liguei pro Alex pra contar sobre o meu dia, e quando cheguei na parte do pré, que eu tinha me sentido muito incompetente por ter que ficar procurando palavras e por não entender bem direito o raio do bloco de prescrição das enfermarias (é bizarro! Tão mais lógico do nosso jeito! Hehehe) e comecei a chorar involuntariamente, é que eu me dei conta do QUANTO medo eu tava sentindo! Medo de deixar passar algum detalhe, medo de prejudicar um paciente por não entender o pedido do cirurgião falando inglês com sotaque estrangeiro por baixo da máscara numa sala cirúrgica barulhenta, medo porque o peso da responsabilidade de uma especialidade de cuidado agudo como a minha já é difícil de carregar onde tudo é familiar, justamente porque existem tantas outras variáveis que a gente não pode controlar.

E aí… quem lembra de uma comunidade do finado Orkut que se chamava chorar resolve? Hahahahah aos pouquinhos foi passando a nuvem negra, apareceram uns raios de sol tímidos, depois anjos cantando e fui enxergando as coisas com mais clareza. Isso tem nome! Resiliência é um termo da física que significa a capacidade de um material, quando deformado, voltar ao seu formato inicial. Que emprestado pela psicologia significa simplesmente a capacidade de uma pessoa superar problemas sendo pai e mãe de si mesma, a capacidade de dizer pra si mesmo “não, veja bem, não precisa se desesperar, tem uma luz no fim do túnel”, exatamente como era quando a gente tinha pesadelo quando era criança e o pai ou a mãe vinham no quarto abraçar a gente e dizer que não era verdade.

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De repente me dei conta que SIM, estou com medo. Lógico! Não existe vida sem medo e, especialmente nesse caso, só um irresponsável não teria medo nenhum! O medo também faz parte do pacote! Peguei na mão como quem não quer nada o meu livrinho Keep calm and carry on de citações memoráveis, que tava bem à mão, no parapeito da janela, e li o que precisava ler:

quote-i-learned-that-courage-was-not-the-absence-of-fear-but-the-triumph-over-it-the-brave-man-is-not-nelson-mandela-118468

Nelson-Mandela-Quotes-Fear-Of-Success

Ao longo do meu planejamento para vir, fiz, aos pouquinhos, e vou continuar a fazer diariamente o que está ao meu alcance pra diminuir os riscos. Antes do meu próximo pré, vou pensar palavra por palavra como pedir as coisas que eu quero saber. Quando aparecer na minha frente uma droga que não existe no Brasil, vou colocar numa listinha pra estudar. Vou ajustar minhas expectativas e aceitar que vai levar um tempinho, semanas ou talvez meses, pra conhecer todos os passos e ter a mesma fluidez de movimentos que eu amava tanto ter onde me sentia confortável. A grande questão é: eu não queria estar lá! Eu só queria me sentir como eu me sentia lá. Ninguém gosta de se sentir incompetente, perdido, um peixe fora d’água. Me dei conta de que pode ser que boa parte das pessoas se sinta assim quando vive a vida diária num outro país. Eu certamente me sentiria assim em qualquer outro país que falasse outra língua, ou até a mesma língua com outro sotaque, sei lá. Talvez pelo fato de as minhas transações diárias serem muito mais tranquilas, ir à farmácia, ir ao banco, ir ao mercado, nada disso me fez sentir tão fora do meu lugar quanto o meu primeiro dia de trabalho. Óbvio que o impacto psicológico foi grande. Meu maior desafio vai ser esse. E quando eu decidi morar e trabalhar aqui, eu comprei o pacote completo. Não tem pico da montanha sem subir! E isso faz parte do crescimento pessoal, que por sua vez é parte crucial do pacote que eu comprei e da razão pela qual o comprei. Imigrar não é para os fracos, amigos! Vinde a mim, dores do crescimento!

“A dor é inevitável
O sofrimento é opcional
Fé é colocar seu sonho à prova”

And I think to myself

What a wonderful world!

No meu segundo dia aqui, saímos do hotel e viemos direto pro hospital pra ver se a Adri já tinha desocupado o quarto. Encontrei ela arrumando as coisas desesperadamente, mas de-ses-pe-ra-da-men-te, porque o pessoal do transporte tava chegando pra levar várias caixas com as coisas dela, que iriam pra África do Sul de navio. Nessa hora me senti muito minimalista com meus 64kg de bagagem! Hahahaha

Bom, como ela não tinha desocupado ainda, o recepcionista me deu a chave de um outro quarto pra passar aquela noite, carregamos minhas malas da recepção até o elevador (UFA!) do prédio onde ficam esses quartinhos. O hospital na verdade são 3 prédios conectados, então esses quartos são na parte de trás do hospital. Ninguém adivinharia, mas passando umas portinhas escondidas dá pra vir por dentro. E todos sabemos o que isso significa: PIJAMA DO CENTRO CIRURGICO o/// hehehehe mas isso fica pro próximo post, quando eu for falar do trabalho.

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Depois disso, fomos pro lugar que serve o Full English Breakfast mais autêntico de Londres! O Regency Café já é meu velho conhecido desde 2010, e é tão bom que até fui lá sozinha em outubro logo que cheguei aqui pro estágio, hehehe. O Alex fez 30 anos no sábado, dia 28, e como eu achei irresponsável chegar quinta, viajar sexta, voltar domingo e ir trabalhar segunda, ele planejou uma viagem com os amigos pra Munique e Salzburg! Então na sexta na hora do almoço, começamos os trabalhos com um super greasy spoon (o termo que os ingleses usam pra o que é basicamente um boteco sujinho, um restaurante barato que ganha a vida vendendo frituras, hehehe). Meu primeiro fish’n’chips como moradora do UK :))) hehehehe

DETALHE: fui procurar greasy spoon no Wikipedia pra explicar melhor e eis que no começo do artigo tá lá uma foto do Regency Cafe! Ele já apareceu em vários filmes! E em 2013 foi votado o 5º melhor restaurante de Londres, claro que em termos de custo-benefício e personalidade hehehe.

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Depois confesso que vim pra casa e capotei na cama, apesar do dia lindo sem uma nuvem no céu! Tava exausta ainda de tantas andanças no dia anterior. Tinha reserva a noite pra jantar com a Paola, uma amiga que é médica também, formada na UFSC, e tá morando aqui há um ano e meio, então queria descansar. Aí acordei e vi que dava tempo de fazer uma coisa que eu queria muito: ir à Evensong da Westminster Abbey! Fui em 2011 e gente, que coisa emocionante. É basicamente uma missa cantada, às vezes é o coral da própria abadia, às vezes são corais convidados de vários lugares do mundo. Adoro que o Google Maps aqui é muito, muito exato! Como eu vou sempre de transporte público e geralmente ando mais rápido do que o Google, dá bem certinho se eu me programar com base na estimativa dele. Pois bem, resolvi ir de metrô porque o tempo tava apertadinho.

Gente, sair da estação de Westminster não tem explicação! Saí da estação ouvindo Enigma Variations do Edward Elgar, mas meio apressada, faltavam minutos pra começar a missa, então tava naquela vibe meio corriqueira assim, como quem “só vai ali”. Mas foi só botar os pés pra fora da estação e ver o Big Ben iluminado pela luz dourada do pôr do sol que meu olho encheu de lágrimas! Parei um minutinho ali pra olhar pra ele, eu que 6 anos atrás tinha achado ele tão pequeno, hoje acho tão majestoso, tão simbólico do meu sonho antigo… Pensei que engraçado como todos os dias centenas de pessoas se mudam pra cá, mas tô escrevendo esse blog justamente porque pra mim, na minha vida, isso é absolutamente extraordinário!

Queria ir à Abadia pra rezar e agradecer… Cheguei, sentei, e qual foi minha surpresa quando o vigário/padre/celebrante/sei lá qual termo usar anunciou que a missa daquele dia era em homenagem ao poeta inglês George Herbert… cujo poema mais famoso é chamado Gratidão!!!

“Thou that hast giv’n so much to me, give one thing more, a gratefull heart”

Vós que me destes tanto, dai-me uma coisa mais, um coração agradecido

O que dizer?!!! Quase entrei em alfa durante a cerimônia, é super curtinha, com duas passagens faladas e a maioria em forma de cantos gregorianos, é muito emocionante, muito bonito mesmo. A pessoa vai ali não pra ouvir pregação, mas pra pensar na vida, pra relaxar. E pra admirar uma igreja tão espetacular, que quem já leu Pilares da Terra certamente imagina quanto esforço foi necessário pra tudo isso estar frente aos nossos olhos hoje. Quando terminou, fui até a frente do altar, agradeci de novo, e na saída acendi uma velinha pedindo proteção e que minhas mãos e minha mente sejam iluminadas, porque vou praticar a Medicina em um segundo país, em uma segunda língua.

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Me arrumei numa correria pra ir jantar com a Paola, pra perder o fôlego de novo quando fui chegando! Escolhi o Strada Riverside, um restaurante de uma cadeia italiana, bem despretensioso, que quando passei na frente em outubro tive certeza que valeria a pena independente da comida, hehehe. Olha a vista!!!

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Conversamos horrores durante o jantar, ela me contou várias dificuldades que posso esperar e me tranquilizou sobre várias coisas, que melhoram com o passar do tempo. Exemplo: falar no telefone! Gente, sempre me senti muito goiaba por ter que me fechar no quarto, tapar o outro ouvido, e se alguém me interrompesse já ia tudo por água abaixo! Até a Paola me contar que ela era assim também, hehehehe. E que hoje em dia fala ao telefone andando na rua, numa nice. E assim é a tendência com tudo, né. Ela me contou que pra se voluntariar pra Cruz Vermelha tem todo um procedimento pelo site, tem que fazer uns cursos online, tudo extremamente organizado. E depois me contou que tá tentando inscrever o poodle dela num projeto que se chama Dogs on Call (cachorros de plantão) que é sensacional! Eles usam os bichinhos pra entreter e alegrar pacientes em tratamento, velhinhos em asilos, crianças em orfanatos, basicamente uma cachorroterapia! Muito legal mesmo. Sei que essas iniciativas existem – e muito – no Brasil também, mas o que eu ressalto é a organização e facilidade de se informar na internet. Enfim, adorei e voltei pra casa feliz da vida!

Mas não dormi absolutamente nada à noite, fazia muito tempo que não pegava gripe, e sábado simplesmente acordei sem voz! Então meu dia se resumiu entre vários remédios, mudar pro meu quarto no 5º andar que finalmente estava livre, organizar minhas coisas e comprar comida e coisas tipo talheres, prato, panela, que na cozinha aqui é cada um por si!

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Domingo fui dar uma corrida no Green Park e St. James’s Park, encontrei a Paola e o noivo no London Eye, caminhamos toda a “orla” do rio e encontramos mais um amigo brasileiro deles. Fomos no Blackfriar Pub, que é um pub histórico muito legal, que eu já conhecia de outras vindas também, e voltei pra casa a tempo de descansar bem e começar a trabalhar segunda. Cenas dos próximos capítulos!

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida 🙂

Tardo, mas não falho! Vim aqui registrar meus primeiros 4 dias aqui, porque o primeiro dia de trabalho, que foi ontem, vai ficar pra um oooutro capítulo!

Meus últimos dias no Brasil foram de uma felicidade imensa. Sabe quando você vai a um casamento e fica todo mundo inebriado de felicidade junto com os noivos, inspirado, esperançoso da vida e das pessoas? É uma energia muito boa! Por isso que amo casamentos! Senti essa mesma energia boa coletiva na época da formatura, e senti com mais força ainda nesses últimos dias. Rever as pessoas que eu amo e ganhar um abraço apertado, cheio de desejos de sucesso e felicidade, dizer pras pessoas várias vezes o quanto elas são importantes pra mim…

No aeroporto, falei mais uma vez pro pai e pra mãe o que já tinha dito 11 anos atrás (!) quando me mudei pra Floripa: “Não fiquem tristes!!! Eu tô exatamente onde eu queria estar!”. E dessa vez complementei: “Eu tô indo porque eu quero. Se algum dia essa não for mais a minha escolha, eu arrumo as malas e venho embora. Simples assim!”. Mas que belo episódio de Chegadas & Partidas hein?! Perdeu, Astrid!

Então assim que eu passei pelo portão de embarque, eu parei de chorar e fui tomada por uma alegria e uma esperança enormes. Nem sequer arranjei com o que me distrair, fiquei só sentadinha ali, com meu passaporte na mão, pensando na vida e em quanto eu tenho pra agradecer por ter gente tão maravilhosa ao meu redor.

Só fui acordar desse transe com uma baita turbulência na hora de aterrisar em São Paulo. O casal do meu lado com os nós dos dedos branquinhos de tanto apertar a mão um do outro, e eu com um sorriso no rosto. Eles deviam querer me matar, hahaha mas o fato é que ah… eram só umas nuvens densas. E eu tava feliz demais!

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Mas tá, vou progredir que tá chato esse negócio. De fato nem tudo são rosas nessa vida e aqui é vida real, mano! Baita temporal em SP, baita avião velho da BA e a cereja do bolo: um gurizinho espanhol que não.calou.a.boca.o.vôo.in-tei-rooooo!

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Mas um casal simpático de sessentões do meu lado tava falando uma língua que eu não reconhecia de jeito nenhum, então quando chegou o jantar e rolou uma interação, aproveitei pra matar a curiosidade, hehehe. No fim das contas, a mulher era brasileira e ele era norueguês, aí ela me contou que mora na Noruega há 10 anos, que a vida lá é muito boa etc. Depois que ela me pediu o que eu ia fazer no UK, a conversa naturalmente evoluiu pra saúde pública, e aí ele me contou que para todo e qualquer atendimento, procedimento, medicação, tratamento como um todo, a pessoa paga até um teto de 80 reais. Então por exemplo, ele fez uma ressecção de menisco esse ano. Pagou 80 reais por internação, cirurgia, medicações pra levar pra casa no pós-op… achei sensacional.

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Quando aterrisamos aqui, de novo veio aquela onda de felicidade e frio na barriga, e quando a mulher do meu lado, que tinha falado inglês comigo o tempo todo, depois do “Ladies and gentlemen welcome to London” se inclinou mais pertinho de mim e disse “Sucesso e felicidades!” em português, meus olhos encheram de lágrimas!

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Obvio – ´OBVIO – que a roda da minha mala quebrou. Eu só precisava que ela sobrevivesse mais 700m, mas tudo bem. Empilhei loucamente todas as malas num carrinho só e fui encontrar o Alex no portão de desembarque! Acho que foi o abraço mais comprido que a gente já deu! Tava lá devidamente repatriado, com o cachecol no pescoço e o Times na mão. Fui matraqueando até metade do caminho, daí no metrô ficamos só naquele silêncio contemplativo, meio sem acreditar que deu tudo certo e estamos os dois aqui, como queríamos há tanto tempo. E era uma manhã daquelas tipo cenário de filme de suspense assim, neblinona densa, as árvores bem peladinhas, um vento frio!

Primeira coisa que fizemos chegando em Green Park foi chamar um black cab, heheheh e pior, o motorista não tinha The Knowledge, porque precisou de GPS pra chegar no hospital! (Obs.: The Knowledge é uma prova que os taxistas têm que fazer pra assegurar que eles têm O Conhecimento sobre as ruas e rotas de Londres, hahaha, a prova mais exigente do mundo pra taxistas, e exige em média 12 tentativas pra passar! Por isso que os táxis pretinhos são tão famosos e icônicos).

Bom, vou ter que ser menos prolixa porque nesse momento são exatamente 9 da manhã do meu primeiro dia aqui, e pra quem queria contar quatro dias… babou! Mas é que aí começa uma parte mais engraçada: chegamos no hospital, deixei o Alex com as malas na rua de trás do hospital e dei a volta pra chegar na recepção e falar com o Front of House Manager. (Não, não abandonei o Alex no relento com 2 malas de 32kg! Alguém benevolente deixou a gente entrar e ele esperar no hall do prédio, hehehe).

O plano era: quarto 2º andar até sábado, quando a fellow sul-africana iria embora, e aí eu poderia mudar para o 5º andar, onde fico todo o mês de março. Eis que ela disse pro recepcionista que ia sair dia 26 e ele resolveu dar aquele quarto provisório pra outra pessoa, já que eles também alugam esses quartos como se fosse uma pensão (haha vernáculo ancião) pra parentes de pacientes vindos de longe. E ela não tinha desocupado o quarto ainda. Ok, vou ali tomar café da manhã com o meu namorado, depois vou no RH e volto em seguida. E aí lá fomos nós rolar as malas rua afora, pelo lado de fora do hospital pq é meio labirinto aqui dentro e íamos ser a atração do hospital carregando aquilo tudo corredor afora.

Pois bem. Voltei do RH as 14:30 e nada! Ou seja: sinto muito, Miss N, a senhorita está sem quarto até segunda ordem! Mega constrangidos, mas eu falei “imagina, não tem tempo ruim”. Hahahahah nessa hora só dei graças que tínhamos reservado hotel pra essa primeira noite e que eles me deram a chave do Lounge de Alta Hospitalar pra abrir minhas malas e catar umas coisas pra essas primeiras 24h. Agora imagina a cena, quanto glamour e dignidade, eu ali no meio da recepção do hospital, sentando em cima da mala pra ela fechar de volta depois de eu revirar! Pelo menos fiz isso na privacidade da tal salinha!

Aí fui pro hotel, já resolvi mais umas coisas burocráticas (tava despesperada já com mil emails pra mandar e sem 3G nem wifi!) e o Alex chegou depois com uma caixinha de chocolates Godiva pra me paparicar um pouco :))) à noite fomos jantar no The Churchill Arms, um pub em Kensington que é muito massa, uma coisa bem Traditional English pub meets authentic Thai cuisine. O dono é inglês e a esposa é tailandesa, então a parte da frente é um pub mesmo, e atrás tem um jardim de inverno que não sei nem como que eles mantém aquelas plantas todas! Não consigo fazer nem uma continuar viva na minha mão. Hahahaha mas enfim, eles servem uma comida tailandesa MEGA apimentada e deliciosa, que fez o Alex suar em bicas (“isso, vamos tirar foto antes de começar a comer, porque depois eu já sei que não vai dar certo”) e meu nariz desintupir milagrosamente por uma hora!

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Bom, vou dormir e amanhã se der tempo volto pra contar mais! BEIJO!!