Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre

Quem traz na pele uma marca, Maria Maria mistura a dor e a alegria

Sabe aquela coisa de primeiro dia na escola, assim, que as pessoas te mostram o lugar, “olha, vai funcionar assim e assado”, e no fim das contas tem-se uns 70% de um dia de trabalho, e em ritmo light? Pois é. Meu primeiro dia de trabalho não foi nada disso 🙂 hehehehe. Tanto a Alexa, outra fellow que tá começando comigo, quanto eu já tínhamos passado aqui pelo hospital, eu por um mês e meio como observadora e ela por três meses como residente. Talvez seja por isso. Então quando eu cheguei e fui perguntar quem eu deveria procurar pra um staff que faz torácica toda segunda e tava preparando a anestesia dele, ele simplesmente me respondeu daquele jeitão muito inglês de meia-idade socialmente desajeitado muito característico e engraçado “Oh hi! You’re back, are you? Não sei, as pessoas vêm e vão tanto, que nem sei. Procure um fellow qualquer aí” hahahaha… Perto das 8h chegou a Dominique, que tá assumindo o cargo de fellow sênior no lugar da Adri. Depois daquele oi, tudo bem, bem-vinda de volta, e aí como foram esses meses no Brasil, ela me disse: “te escalei na sala três com a Bee, tá?”. Tá.

E nada da Bee. E de repente o coordenador do CC me diz: “Oi! Bem-vinda de volta! O fulano (staff da sala 3) ligou pra avisar que vocês podem ir começando que ele vai chegar daqui a uns 15 minutos”. Nisso o paciente chegou. E nada da Bee. Eles fazem todo um procedimento de entrega do paciente, pra verificar se tá com a pulseira de identificação, se tem alergia, se tem lente de contato, metal no corpo, dentadura, etc etc. Pois bem, terminou esse primeiro checklist, foram levando a maca do paciente pra salinha de indução. E nada da Bee!

Nisso ela chegou, já tinha visto a paciente, era uma cirurgia relativamente pequena. Depois uma torácica, e depois uma cardíaca, que transcorreram sem maiores problemas. Mas agora olhando pra trás, acho que eu esperava um pouco mais de cerimônia, uma introdução um pouco mais gradual no ritmo da coisa. Enfim, não vou entrar em pormenores médicos, mas o fato é que a cada minuto que passava eu ia me sentindo mais e mais perdida, como se fosse uma R1 de novo. Uma coisa é a gente ver uma coisa sendo feita, a outra é fazer a tal coisa. A memória visual é uma, a memória tátil, procedural é outra. Então não é uma questão de saber induzir um paciente sozinha. Afinal de contas, sou uma anestesista formada. Mas nossa especialidade é praticamente construída em rotinas, pra que a gente então possa adaptar essa rotina de acordo com as particularidades dos pacientes, não é à toa que somos comparados o tempo todo com pilotos de avião. Ordem, precauções, checklists, tarefas encadeadas fazem parte do nosso dia-a-dia. Nesse dia fiquei com saudade da minha rotina de me preparar pra uma anestesia em casa. Saber exatamente o que eu preciso, qual é a cara desse material, onde encontrar, saber que na maioria das vezes preparo tudo isso sozinha e me viro sozinha, tenho uma ordem mental que me é familiar. De repente, tudo diferente! Mas gente, TUDO diferente. Desde o algodão com álcool pra passar na pele antes de pegar a veia, que aqui é tipo um lencinho umedecido com álcool que vem dentro de um pacotinho tipo desses de adoçante, até o fato de siglas simples escritas no prontuário me exigirem 30 segundos de raciocínio, ao invés de 1, quando a associação já tá estabelecida no teu cérebro. O que eu quero dizer é: SIM, na essência é tudo a mesma coisa, afinal as preocupações do anestesista são as mesmas, é o mesmo corpo humano seja no país que for, na cultura que for, com a infra-estrutura que for. Só que as rotinas e os materiais aqui são diferentes. Imagina de repente botar um piloto de avião num cockpit que ele não conhece?! Ele sabe pilotar, mas vai se sentir um peixe fora d’água até se familiarizar com os instrumentos que ele vai usar.

Então a palavra que resumiu meu primeiro dia de trabalho foi overwhelming. Não tem outra. Nessa hora eu só pensava: gente, é muita coisa nova, será que a minha capacidade é a mesma aqui? Fui fazer avaliações pré-anestésicas no fim do dia e me dei conta de que nunca tinha descrito um exame físico em inglês antes, que nunca tinha pensado com que termos pedir que um paciente fizesse os movimentos que preciso pra avaliar a via aérea. Será que sou tão irresponsável assim por nunca ter parado pra pensar nisso? Ou será arrogância, porque me sinto à vontade falando inglês nunca imaginei que fosse ter dificuldades?

Engraçado que, externamente, passei o dia totalmente numa boa. Cheguei em casa e acho que nem eu tinha me dado conta de quanta adrenalina tinha circulando. Quando liguei pro Alex pra contar sobre o meu dia, e quando cheguei na parte do pré, que eu tinha me sentido muito incompetente por ter que ficar procurando palavras e por não entender bem direito o raio do bloco de prescrição das enfermarias (é bizarro! Tão mais lógico do nosso jeito! Hehehe) e comecei a chorar involuntariamente, é que eu me dei conta do QUANTO medo eu tava sentindo! Medo de deixar passar algum detalhe, medo de prejudicar um paciente por não entender o pedido do cirurgião falando inglês com sotaque estrangeiro por baixo da máscara numa sala cirúrgica barulhenta, medo porque o peso da responsabilidade de uma especialidade de cuidado agudo como a minha já é difícil de carregar onde tudo é familiar, justamente porque existem tantas outras variáveis que a gente não pode controlar.

E aí… quem lembra de uma comunidade do finado Orkut que se chamava chorar resolve? Hahahahah aos pouquinhos foi passando a nuvem negra, apareceram uns raios de sol tímidos, depois anjos cantando e fui enxergando as coisas com mais clareza. Isso tem nome! Resiliência é um termo da física que significa a capacidade de um material, quando deformado, voltar ao seu formato inicial. Que emprestado pela psicologia significa simplesmente a capacidade de uma pessoa superar problemas sendo pai e mãe de si mesma, a capacidade de dizer pra si mesmo “não, veja bem, não precisa se desesperar, tem uma luz no fim do túnel”, exatamente como era quando a gente tinha pesadelo quando era criança e o pai ou a mãe vinham no quarto abraçar a gente e dizer que não era verdade.

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De repente me dei conta que SIM, estou com medo. Lógico! Não existe vida sem medo e, especialmente nesse caso, só um irresponsável não teria medo nenhum! O medo também faz parte do pacote! Peguei na mão como quem não quer nada o meu livrinho Keep calm and carry on de citações memoráveis, que tava bem à mão, no parapeito da janela, e li o que precisava ler:

quote-i-learned-that-courage-was-not-the-absence-of-fear-but-the-triumph-over-it-the-brave-man-is-not-nelson-mandela-118468

Nelson-Mandela-Quotes-Fear-Of-Success

Ao longo do meu planejamento para vir, fiz, aos pouquinhos, e vou continuar a fazer diariamente o que está ao meu alcance pra diminuir os riscos. Antes do meu próximo pré, vou pensar palavra por palavra como pedir as coisas que eu quero saber. Quando aparecer na minha frente uma droga que não existe no Brasil, vou colocar numa listinha pra estudar. Vou ajustar minhas expectativas e aceitar que vai levar um tempinho, semanas ou talvez meses, pra conhecer todos os passos e ter a mesma fluidez de movimentos que eu amava tanto ter onde me sentia confortável. A grande questão é: eu não queria estar lá! Eu só queria me sentir como eu me sentia lá. Ninguém gosta de se sentir incompetente, perdido, um peixe fora d’água. Me dei conta de que pode ser que boa parte das pessoas se sinta assim quando vive a vida diária num outro país. Eu certamente me sentiria assim em qualquer outro país que falasse outra língua, ou até a mesma língua com outro sotaque, sei lá. Talvez pelo fato de as minhas transações diárias serem muito mais tranquilas, ir à farmácia, ir ao banco, ir ao mercado, nada disso me fez sentir tão fora do meu lugar quanto o meu primeiro dia de trabalho. Óbvio que o impacto psicológico foi grande. Meu maior desafio vai ser esse. E quando eu decidi morar e trabalhar aqui, eu comprei o pacote completo. Não tem pico da montanha sem subir! E isso faz parte do crescimento pessoal, que por sua vez é parte crucial do pacote que eu comprei e da razão pela qual o comprei. Imigrar não é para os fracos, amigos! Vinde a mim, dores do crescimento!

“A dor é inevitável
O sofrimento é opcional
Fé é colocar seu sonho à prova”

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2 respostas em “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre

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