Shad Thames

Post rapidinho hoje, só pra contar um negócio legal que me dei conta no caminho pra casa! Tava uma tarde tão gostosa hoje que resolvi descer do metrô em London Bridge e andar o resto do caminho até em casa: IMG_2467 Shad Thames é a rua que continua o “calçadão” da orla do Tâmisa além da Tower Bridge, onde a maioria dos turistas nunca vai e que eu só descobri depois de me mudar pra cá. Mas a rua acabou emprestando o nome para toda a área entre a ponte e um afluentezinho do Tâmisa chamado rio Neckinger. Shad Thames Essa área é conhecida na cidade por ter uma arquitetura muito única, porque os prédios por ali eram todos armazéns de mercadorias que chegavam a Londres de navio. Todos eles têm “passarelas” de metal que conectam o prédio de um lado da rua ao outro, porque originalmente esses armazéns eram públicos, a pessoa alugava o espaço pra guardar as mercadorias e era tudo gerido por um ente só. IMG_2478 E aí é que entra a reflexão nerd du jour: passando por ali hoje, me dei conta de que os nomes engraçadinhos dos prédios que eu tinha visto outro dia tinham um denominador comum! Saca os nomes dos prédios, um do lado do outro: IMG_2473 IMG_2474 IMG_2475 O prédio do cravo? Cais do comércio de chá? Cais da canela? GENTE!!! Os ingleses foram um dos povos que explorou com mais maestria a rota dos temperos! The East Indies, como eles chamavam na época. Tanto é que comida indiana é quase um “clássico da culinária inglesa”, hahahaha que eu sempre achei um sarro! De repente comecei a andar pelas ruas olhando pra cima pra ler todos os nomes dos prédios #perigo hahaha. Cais da Jamaica, cais da China, cais de Java. Cais do trigo. Cais do açafrão. Prédio do coentro. GENTE!!! Sério, sabe aquele momento “eureka” que você de repente se dá conta de um negócio que é MUITO legal? Fiquei imaginando os navios chegando com todos esses ingredientes exóticos, que ninguém conhecia, que eram vendidos a pequenas (ou grandes) fortunas. Aquele cais de porto de livro do século 19, sabe? Movimentado, com os cheiros misturando tempero com chá com peixe com marinheiros que não viam um banho há muito tempo, aquela coisa meio insalubre mas que tem o seu charme? Achei o máximo. Minha imaginação é tão fértil que não precisa mais do que uns nomes de prédios pra toda uma cena se desenrolar na minha mente. Adoro como Londres me faz pensar! E aprender. História, geografia, política, arquitetura, arte. Cada dia chego em casa com uma curiosidade nova. Antes de tirar a roupa da rua já fui obviamente tentar confirmar minha teoria né. Muito legal também a facilidade com que se encontram informações históricas por aqui. Outro dia viajei um monte na história do meu distrito. Hoje, na primeira googlada já encontrei um pdf contando mil histórias sobre os prédios mais tradicionais de Shad Thames. Ai. É muito amor por essa cidade!!!

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Reality check

Se no último post contei um pouco mais sobre minha vizinhança e o que fiz na semana de folga/mudança, hoje vim contar como foi a semana seguinte, quando a realidade veio bater na minha porta com a delicadeza de um hipopótamo 🙂 hehehehe

Meu primeiro dia de trabalho desde que me mudei pra cá foi um sábado. Daquelas manhãs de inverno gelaaadas, com um céu azul de brigadeiro, sabe? Metrô vazio vazio às 7 da manhã! Fui feliz da vida, pensando que maravilha ter minha casa, minhas cobertas quentinhas pra voltar à noite.

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Bom, o foco aqui não é falar sobre medicina, mas já que esse blog é sobre a minha singela existência, a medicina faz parte dela e gera muita reflexão sobre a vida sempre, vou tentar resumir. Meu plantão era na UTI, aliás, sempre que eu falar em plantão aqui, terá sido na UTI.

Mas Gabi, peraí! Você não é anestesista?!!! Tá fazendo o que na UTI?!

A origem da medicina intensiva como especialidade é a anestesia. A relação é simples e um tanto quanto simplista também: já que o anestesista monitoriza e manipula as funções de todos os órgãos durante a anestesia, quem melhor então para monitorizar e dar suporte a órgãos que estão falindo?!

À medida em que a medicina cresce, ficando mais complexa, mais científica, mais difícil, vão surgindo mais especialidades, porque hoje em dia é impossível se manter atualizado sobre tudo o tempo todo. Então desde os anos 90, a medicina intensiva no Brasil é uma especialidade por si só, separada da anestesiologia. Apesar de terem muito em comum, são especialidades diferentes.

Pois bem. Nossos amigos ingleses continuam fazendo ambos, e é aí que eu entro. Na UTI, no caso, hehehe. Sem ter grande experiência na área. Mas não há motivo para pânico nem para julgamentos: eu fui bem clara quando eles me ofereceram o emprego, disse que são especialidades diferentes no Brasil e que minha experiência na área era limitada. E eles me responderam que não tinha problema algum, que eles estavam satisfeitos com a minha formação e que eu teria todo apoio e supervisão. E que, com todo respeito aos intensivistas, um anestesista pode, com a bagagem que tem, tocar um plantão de UTI. O inverso não é verdadeiro.

Enfim, lá fui eu. O consultant (anestesista sênior, outro dia explico a estrutura da carreira médica no UK) vem, passa visita com a gente de manhã e ajuda a tomar as decisões mais importantes, depois volta pra casa e fica de sobreaviso. Só que para uma anestesista acostumada a dar 100% de atenção para um paciente por vez, de repente ter 18 pacientes graves sob seu cuidado é meio (bem) overwhelming. Não é gente que tá ali de boas. É gente que tá ali porque algo tá dando (ou pode vir a dar) errado. E de fato as coisas dão errado, e essa que vos fala é quem está ali pra resolver.

Tivemos uma situação de crise nos últimos 20 minutos desse plantão. Daquelas de tirar o familiar de perto, de ficarem todos os familiares em polvorosa do lado de fora. Daquelas de vir correndo sem olhar pra trás quando me chamaram. De saber que ninguém mais no hospital tinha mais treinamento do que eu para resolver, e que chamar o consultant estava fora de questão porque não teríamos tempo. Graças a Deus, consegui me manter calma, me comunicar efetivamente com a equipe e resolver o problema rapidinho. Depois da adrenalina da urgência, misturada com o alívio de sair pela porta da UTI e falar pra esposa do paciente que ele estava bem, o cansaço de um dia inteiro pra lá e pra cá… voltei pra casa exausta, praticamente em transe no metrô, e quando cheguei na minha estação e me vi toda descabelada trilhando meu caminho pra um bom banho e capotar na cama, me dei conta: “É isso!!! Sou uma londrina voltando pra casa depois de um dia de cão. Fazendo caminho alternativo no metrô porque tá rolando manutenção na minha linha. Andando pelas ruas com cara de quem já as conhece de cima a baixo. Pensando na vida. Passando na catraca do metrô no automático. É isso que eu sempre quis!”

Passei no Tesco, passei a mão numa pizza de pepperoni e fiquei sentada no chão da cozinha vendo a pizza assar no melhor estilo televisão de cachorro! Ainda descobri a maravilha que é usar as mensagens de voz do whatsapp! Gente que diferença ouvir a voz das pessoas, mata muito mais a saudade!!! Sempre tive vergonha de deixar mensagens de voz porque sempre que ouço minha voz gravada, acho que pareço uma criança. Mas depois de ver como é legal, perdi a vergonha e desde então tô lotando a geral do whatsapp com relatos porque morro de preguiça de digitar tudo, hehehe. Aí fiquei de papo com a Ju no grupo do quarteto fantástico e depois contei meu perrengão pra Duda, minha alma gêmea anestésica que entende como ninguém mais os meus causos, tanto os bons quanto os ruins! Hahaha 🙂

Domingo de manhã fiz minha primeira transferência de paciente no UK, de ambulância, com direito a luz azul e pessoal abrindo caminho. Incrível como transferir paciente é tranquilo aqui! Sempre tem ventilador de transporte, sempre tem um enfermeiro/a que deixa tudo pronto pra você, tem monitorização padrão (inclusive nesse caso pela primeira vez na vida vi um monitor wifi! Tipo, NO CABLES gente. O pessoal tirando o paciente da ambulância e eu segurando o monitor a 3m de distância. Sabia que isso existia, mas fico tão agoniada com mil cabos se enroscando e desorganizados (que na vida do anestesista é tipoassim #tododia), que lembro de ter dito várias vezes ao longo da residência que queria viver pra ver os cabos de monitorização ficarem obsoletos!

No fim do plantão, mais uma crise, e pior, e mais duradoura: paciente teve uma parada cardiorrespiratória na rua, foi reanimado por 30 minutos, voltou a ter circulação espontânea mas chegou praticamente morto no hospital. Colaboração entre as equipes da Cardio e da Anestesio, chegamos ao diagnóstico: tromboembolismo pulmonar maciço. Levamos umas 4 horas pra, devagarinho, enxergar a luz no fim do túnel. Mais uma vez comunicação excelente, trabalho em equipe daqueles que faz a gente querer abraçar todo mundo no fim do plantão, paciente estabilizado dentro do possível e mais uma longa noite a caminho de casa.

Pelo menos a semana não continuou toda desse jeito: tive uns dias normais de centro cirúrgico, tudo correndo conforme o esperado, tudo lindo, com Magic FM de trilha sonora com clássicos pra me recuperar. Num desses dias, sozinha na sala terminando uma cirurgia que eu anestesiei praticamente sozinha do início ao fim (menos a parte do eco, porque ainda tô muito no comecinho do aprendizado), finalizando as coisas, organizando tudo e conversando com os cirurgiões, eu me dei conta de que em dois meses o que me apavorou já vem naturalmente. Como a gente se adapta rápido.

Quinta fez um dia tão lindo, mas tão lindo, que saímos do hospital à caça de um pub que não estivesse totalmente lotado! Primeiro solzinho mais forte do ano, a inglesada toda correu pro sol beber Pimm’s!

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Mas aí na sexta, rolou a primeira parada cardiorrespiratória de uma paciente em pós-operatório de cirurgia cardíaca num plantão meu. Estávamos eu, o consultant e o cirurgião ao lado dela. Sem mais delongas, o cirurgião reabriu o tórax ali na UTI mesmo, massageando o coração por dentro enquanto montavam a circulação extracorpórea no centro cirúrgico. Admiro demais a eficiência das equipes aqui! Tudo rápido, tudo na mão. Cena de filme mesmo, de seriado americano. Em 15 minutos a paciente estava sendo reoperada no centro cirúrgico. Só me dá medo pensar em um negócio desses acontecendo no meio da noite, sem anestesista nem cirurgião sênior e nem mil funcionários por perto!

E isso são os casos mais extremos, que são (ainda bem) a minoria. Se continuar assim, meu coração vai ficar doente de tanta adrenalina!

Parece loucura e eu sei que uma hora essa lua de mel vai passar, uma hora vou parar de ver tudo tanto pelo lado positivo, mas por enquanto até no meio dos perrengues eu às vezes paro e me dou conta de que esse é o pacote que eu comprei. Que os momentos de maior angústia no trabalho vão me tornar uma médica melhor, que os momentos de desânimo na vida em geral vão me tornar uma pessoa melhor.

Quem treina pra um triatlon tem que se dar conta de que os meses a fio de treino intenso são parte do grande dia também. Quem quer ser músico tem que saber que perder o esquenta pra montar os instrumentos faz parte do show.

Passar tão longe da zona de conforto da gente dói, às vezes quase que fisicamente! Entendo hoje melhor do que nunca a minha reação no primeiro dia de trabalho. Aquele medo é muito legítimo. Sei que vai acontecer muitas outras vezes ainda, e espero continuar buscando isso enquanto tiver fôlego. Me desafiando. Aprendendo. E a cada dia que passa, abro mais os braços pra essa sensação desconfortável, porque sei que depois que os nossos horizontes (e nossa mente) se expandem, eles nunca mais voltam ao tamanho original!

Sou bem South Bank, sou bem Bermondsey*

*Quem mora em Floripa vai saber, o título desse post é um trocadilho com essa campanha

**Post enoooorme! Sabe criança que demora pra começar a falar, mas depois que aprende não para nunca mais? Então! 🙂

Londres é dividida pelo Tâmisa da mesma maneira que Paris é dividida pelo Sena (e pra falar a verdade, a imensa maioria das grandes cidades do mundo, já que normalmente são as mais antigas e cuja prosperidade dependia diretamente da proximidade de água doce… Pensei nisso pela primeira vez em Roma, já que o Tíber é relativamente longe do centro antigo da cidade, mas os Romanos eram um ooooutro tipo de ser né, com engenharia avançada suficiente pra construir aquedutos desde a época do Império, não precisava mais a população toda se aglomerar nas margens do rio 😉

Enquanto Paris tem a Rive droite e a Rive gauche, Londres tem o North Bank e o South Bank – aí é que entra o meu assunto de hoje: eu AMO o South Bank! Acho muito legal esse paralelo entre o south bank em Londres e a rive gauche em Paris porque ambos foram historicamente o centro da “intelectualismo, resistência, artes, boemia e libertinagem”. Ambos foram a origem e/ou moradia de artistas, escritores, filósofos. A casa da contra-cultura, por assim dizer! Essas características andavam de mãos dadas porque o intelectualismo levava a uma análise crítica da política da época, que levava à resistência, e como não se podia criticar o rei (ou o imperador, ou o presidente) de forma pública, isso levava as pessoas a procurarem maneiras veladas… através das artes! A parte da boemia e libertinagem, bem, os artistas precisavam estimular a criatividade néam. Heheheh mas libertinagem era um termo usado pelos puritanos pra amaldiçoar muito mais coisas na época. Por muito tempo, o teatro foi considerado subversivo na Inglaterra!

Então o south bank é historicamente mais barato e menos prestigiado do que o north bank. Além disso, tem o fato de que se a pessoa quiser ter vista pro rio, no north bank ela une o útil ao agradável, porque a orientação solar vai ser boa, janela pro sul é sinônimo de solzinho gostoso, enquanto janela pro norte é praticamente zero luz no inverno. Poucos palácios reais ou sedes do governo são no lado sul do rio (o Lambeth Palace e o County Hall, a prefeitura antiga da cidade, respectivamente, são os únicos que eu conheço). Por todas essas razões, as conexões de metrô são menores em quantidade e mais espaçadas entre si. A Jubilee line, linha que serve a maior parte dessa área, é a mais nova do metrô de Londres, que é o mais antigo do mundo! E só foi expandida pra leste de London Bridge em 1999. E em Londres, transporte público = valorização, ao contrário de São Paulo onde os moradores de Higienópolis não queriam o metrô por perto por causa da gente diferenciada que ia aparecer na sua vizinhança (lembra?).

Olha esse mapa dos preços de aluguel em Londres divididos por código postal:

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Hoje, a coisa começou a mudar de figura. Desde o jubileu de prata da rainha, em 77, o south bank tem um calçadão largo que se estende desde a extremidade oeste do centro de Londres (sempre falando em zona 1-2) até depois da Tower Bridge. E é suuuucesso, porque não tem nada mais gostoso do que caminhar por ali num sábado de manhã cedo e curtir a vista de pelo menos 8 das principais atrações turísticas da cidade: o parlamento, a London Eye, a St. Paul’s cathedral, o Shakespeare’s Globe, o museu Tate Modern, o Borough Market, a Tower of London e a Tower Bridge. Ou seja: turistas com ânimo pra caminhar fazem um “pacotão Londres”, londrinos usam o calçadão como se fosse uma beira-mar, pra correr, socializar, bebericar no happy hour ou levar as crianças pra passear no domingo a tarde. E os eternos apaixonados por Londres como eu fazem tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora!

Então assim que eu soube que meu plano daria certo e eu viria morar aqui, comecei a pensar onde morar. Meu olho sempre brilhou pelo south bank, mas se o preço de morar aqui fosse uma conexão bizarra de transporte público pra chegar no trabalho, não ia rolar. Quando eu fui contratada, eu já sabia há bastante tempo sobre o futuro do hospital. Outro dia conto em mais detalhes, mas no final desse mês, nosso hospital vai se juntar a outros dois, e a partir de maio eu vou trabalhar na Cidade de Londres, dentro dos limites da cidade antiga mesmo, no meio do distrito financeiro.

Como essas mudanças são meio incertas e as vezes atrasam um bocado, comecei a pensar em regiões que atenderiam bem tanto o hospital atual quanto depois da mudança. Fiquei feliz quando vi que minha marca-texto foi parar em duas áreas residenciais que adoro e me imaginava morando facilmente: Highbury & Islington, onde fiquei durante o estágio, ou Waterloo/Southwark.

Comecei procurando por essas áreas, mas como vocês já sabem dessa história, acabei expandindo meu círculo um pouco ao sul no caso de Islington e um pouco a leste no caso de Waterloo/Southwark.

Esse apê é uns 10 minutos mais longe do próximo hospital do que eu gostaria, mas considerando o conjunto da obra, tô muito, muito feliz tanto com o apartamento quanto com a vizinhança! Tô morando no distrito de Bermondsey, que fica no bairro de Southwark, e meu apê fica entre a Tower Bridge e a estação de Bermondsey, a 8 minutos do metrô e a alucinantes 600m do rio!!! (em linha reta, pq a pé tem que desviar de uns condomínios e demora uns 10 minutos)

Tô até agora me beliscando porque não acredito que consegui um quarto por menos do que estava disposta a pagar, com uma janela enorme pra sudoeste e uma vista do Shard ainda por cima!

IMG_2080Claro que tô escolhendo deliberadamente focar nas coisas boas, porque realmente acho que elam saem ganhando. Mas pra dar uma idéia, não temos sala de estar e nem freezer (apesar de duas geladeiras?!) e o prédio é bem feinho, brinco falando pro Alex que dependendo da hora do dia, se chego e tem gente pendurando roupa nas sacadas, outros conversando no portão, umas crianças jogando bola no estacionamento, somando-se a isso a pintura horrível e anos 70 das paredes e portas e a escuridão das escadas, parece uma dignified favela, ou em bom e velho português, uma favela arrumadinha hahahaha.

O prédio é feinho e sem graça assim por um motivo: essa área foi intensamente bombardeada pela Blitz alemã, então praticamente não sobraram construções históricas. Juntando isso com a pobreza generalizada do país no pós-guerra, o bairro de Southwark passou a ser o bairro com mais council estates na Inglaterra! Council estates são essencialmente a versão inglesa do Minha Casa, Minha Vida, hehehe. Sabe aquela piadinha da Dilma na Copa (sua vida é uma merda, sua casa é uma merda!)? A analogia da casa com a filosofia do lugar vale aqui também: council estates nunca foram “dados” pros moradores, e sim planejados como prédios sem luxos mas bem construídos, organizados o suficiente pra impedir aglomeração, alugados a preços acessíveis para a população trabalhadora que estava empobrecida. Aquela ética e filosofia de vida bem protestante de trabalho árduo, economia e esforço, de “o trabalho enobrece”, né? Enquanto nós fomos colonizados pelos portugueses, que quando foram intimados pela Inglaterra a parar com a escravidão sob pena de suspender relações comerciais, criaram leis “pra inglês ver”, como a do ventre livre e do sexagenário… Alguma dúvida sobre a origem das nossas mazelas? Hehehehe enfim… me empolguei com a história aqui! Professor Antonio ficaria orgulhoso, hahaha.

Mas enfim, me precavendo contra a possibilidade de ficar ranzinza com tudo isso e querer mudar, assinei um contrato de 6 meses porque né, seguro morreu de velho. Se achar que os contras suplantam os prós, lá vou eu de novo juntar meus farrapos e carregar 64kg Londres afora!

Aí passei a última semana toda indo e voltando do Tesco e Asda (hipermercados tipo BIG ou os Angelonis grandões, que tem bastante coisa pra casa também) e a Argos, uma loja de móveis e acessórios pra casa que merece um post à parte. Outra surpresa boa foi o quão perto eu tô desses centrões! Não que precise muito, porque o tesquinho que fica na esquina aqui de casa é super bem abastecido, mas sempre bom saber que se precisar de outras coisas, posso ir a pé. Mas enfim, passei a semana arrumando todas as minhas coisas no lugar, joguei fora com muito prazer a mala guerreira que me acompanhou em todas as viagens nos últimos 6 anos e que o santo do Alex empurrou Londres afora com uma rodinha a menos no dia da mudança e me recuperei do jet lag de fazer 4 noites de plantão seguidas e inverter totalmente meu horário. E montei meu primeiro móvel sozinha!!! MAZAH, olha que complexo:

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Favor ignorar a zona na cama na foto aí em cima! Depois eu arrumei 🙂

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Voltei a me alimentar como uma pessoa de vinte e muitos anos e não mais como universitária, hahahaha comida de verdade, nada de miojos, sopas em lata, lasanhas congeladas, molhos prontos cheios de sal e muito chocolate. Digamos assim que usei a falta de cozinha do Heart como a desculpa perfeita pra mergulhar de cabeça nas conveniências inglesas para gordos preguiçosos, hehehehe. O pão sírio integral com houmous até é saudável, mas é A refeição preguiçosa por excelência, porque não precisa nem sujar prato, nem botar nada no micro, nem nada. Só tirar o houmous da geladeira e mergulhar o pão, hahahaha.

Antes:

IMG_2057 IMG_1946 IMG_9444 IMG_9622

Depois:

IMG_2152 IMG_2156 IMG_2158 IMG_2209 IMG_2267E depois de tudo pronto, fui curtir a vizinhança:

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Agora preciso loucamente DORMIR!!! Tive um fim de semana do cão que amanhã ou depois eu volto pra contar 🙂

Páscoa em Dorset

Resolvi que depois de uma semana de plantões, seguida imediatamente por mudança de casa usando o metrô num dia de chuva, eu merecia uns dias de dolce far niente e paparicação na casa da sogra. Meu maior gasto energético mental nesse fim de semana está sendo escolher entre as 3 blusas de lã que eu trouxe, ou entre queijo cheddar e emmental 😀

A mãe do Alex mora no condado de Dorset, na costa sudoeste da Inglaterra. Toda a costa sul da Inglaterra, assim como o País de Gales, são um hotspot da aposentadoria pros ingleses, hehehehe e minha sogra não é diferente. Também não é pra menos: 75% da costa é considerada Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, mais da metade do condado é área de conservação nacional, a região é um encontro feliz entre colinas verdinhas, chalés com telhado de sapê, ovelhas pastando, penhascos dramáticos e um marzão azul coisa mais linda! Some-se a isso o fato de existirem várias villas de aposentados, muitos parques e trilhas abertos a visitação pra que a inglesada leve seus cachorros e voilà: receita perfeita para uma aposentadoria inglesa com certeza hehehehe.

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O legal é que, dentro de uma área que já é pitoresca, ela mora num vilarejo mais pitoresco ainda! Litton Cheney fica no vale do rio Bride, tem uma igreja, um pub e várias cottages que parecem ter saído diretamente de uma comédia romântica estrelada pelo Hugh Grant, hahahah… (que fique registrado aqui que acho o Hugh Grant uó dos uós, mas tô usando porque ele personifica o estereótipo que os americanos fazem dos ingleses – quando na verdade a pessoa certa a escolher seria o Colin Firth!). Enfim, desviei o foco da conversa – a população oficial de Litton Cheney é de umas 300 pessoas só! Então todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda e existe um centrinho comunitário onde de vez em quando rolam festas e tals.

Como já vim pra cá várias vezes e dessa vez todos nós (o Alex, eu, minha cunhada e o namorado dela) queríamos mesmo era sossego, não planejamos nenhum passeio pela costa. Mas como eu AMO ver o mar e ir a lugares que não conheço ainda e a mãe do Alex sabe disso, ela aproveitou pra nos mostrar um casebre histórico que era um observatório de pescadores e tem uma vista espetacular da costa! Assim juntamos a fome com a vontade de comer, levamos a cachorra pra correr um pouco na grama, e curtimos a vista rapidinho antes de vir pra casa. A Linda e o Ben estavam nos esperando com um super brunch, e passamos o resto do dia naquela vibe comer dá sono e dormir dá fome.

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Aí hoje cedo, domingo de páscoa, descemos pra rua principal do vilarejo pra ver uma das tradições de páscoa que rolam em alguns lugares da Inglaterra: a corrida de patos de borracha no riacho que corre ao longo da rua e termina convenientemente no pub! Hehehehe é uma maneira muito divertida de arrecadar fundos pro centro comunitário! A gente chega lá, escolhe o número dos patos que a gente quer apostar e espera a largada. A coisa mais legal é a empolgação MOR das crianças!!! Tinha dois gurizinhos de patinete que vieram descendo a rua e gritando pra quem tava esperando mais lá embaixo “foi dada a largadaaaa começoooou”, hahahaha um sarro!

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Home sweet home!

ACHEEEEEI!!!

Finalmente tenho um lar! Mas primeiro devo contar que minha procura eterna atingiu o clímax no domingo passado. Tava esperando a resposta de um outro flat que tinha uns defeitinhos mas eu tinha gostado bastante, numa localização excelente, e a guria me retornou e dizendo que elas tinham oferecido o quarto pra uma outra pessoa que disse já na hora da visita que amou o flat e queria se mudar o quanto antes, etc etc. Cometi o mesmo erro duas vezes, que foi não ser (ou pelo menos parecer…) loucamente empolgada com o lugar assim que vi – faz parte do processo em Londres o fato de que você fica na vantagem dependendo do momento da tua busca que você ta. Explico: no início, você acha defeito em tudo. Ah, podia ser mais perto da estação, o banheiro é velho (o banheiro é velho em 88.7% das vezes), sempre tem alguma coisa. Ai você continua procurando e descobre que aquele mesmo apartamento que você achou defeitos antes, na verdade nem é tão ruim assim, e que você poderia tranquilamente conviver com um banheiro velho desde que ele funcione. Aí você diz pra quem ta alugando “ah gostei bastante, legal o flat, espero sua resposta então”. E vem outra pessoa que ta procurando há mais tempo, já ta de saco cheio e diz “SIM!!!! Não tem carpete na cozinha nem no banheiro!!!! Amei!!!!! Posso mudar amanhã?” Hahahah e essa pessoa leva!

Bom, ai tava naquela deprezinha do “não vou encontrar nunca”, vendo as páginas do SpareRoom pela quadrilhonesima vez, quando encontrei um quarto disponível no prédio que eu namoro desde agosto do ano passado quando procurei lugar pra ficar durante o estágio. Tinha acabado de ser postado!! Localização perfeita, prédio clássico por fora mas moderninho por dentro, porteiro, academia, gente isso não existe em Londres! O quarto ainda cabia no meu bolso direitinho, pensei “é hoje, malucoooo! Se não odiar o lugar, vou confirmar no ato!”. Dei um pulo na cadeira, mandei mensagem e liguei pro cara marcando de ir ver o apê dali a duas horas! Cheguei lá e o landlord era um cara novão, de uns 35 anos. Perguntei se ele tinha experiência em alugar, disse que os imóveis eram dos pais dele, que eles alugavam mais dois apês em Canary Wharf e nunca tinham tido problemas com inquilinos. Flat todo bonitinho por dentro, banheiro novinho, cozinha mobiliada, armário embutido e enorme no quarto. “Ok, cadê o contrato e quanto é o depósito?!”. Aqui existe o deposit, que nada mais é do que um cheque caução, e alguns landlords e agências pedem um holding deposit, que é uma parte do deposit que você paga na hora pra tirar o quarto ou apartamento do mercado por determinada quantidade de horas ou dias até que a papelada seja feita. Pois bem, assinei o pré-contrato e fui tentar transferir o holding deposit pra conta do cara. Meu banco não deixou, porque eu não tinha um leitor de cartão ainda, que é o esquema de segurança pra poder fazer transações online. Ai ok, combinei com ele que iria sacar o dinheiro então, e se o meu limite de saque fosse menor que o depósito, eu pagaria o restante no dia seguinte. Mas ao mesmo tempo, alguma coisa não parecia estar certa, ele tinha uns contratos impressos e toda a papelada na mão, parecia legítimo mas eu tava com uma sensação ruim. Cheguei embaixo do prédio, liguei pro Alex pra contar a função toda (ele sabia que eu ia ver esse apê e obviamente sabia da minha paixão platônica pelo condomínio) e me dei conta de que tinha deixado o cartão do banco em casa, afinal só tava indo ver e até aquele momento ninguém tinha pedido holding deposit. Subi de novo pro flat, pedi um contrato pra ir lendo no metrô e disse que ia pra casa buscar o cartão e estaria de volta em uma hora. O Alex então me ligou de volta e disse que se eu achasse que era seguro, que o cara era certinho, ele transferiria o dinheiro pro cara pra me poupar de ir pra casa. Mas eu continuava com aquela sensação ruim! Eis que tive uma ideia brilhante: fui até o porters lodge e perguntei pro porteiro qual era o nome do landlord do apartamento x, porque o fulano de tal tinha acabado de me mostrar o apê como landlord e eu queria confirmar. O porteiro achou a pasta de apartamentos, abriu e me olhou assim de sobrancelha franzida: “olha, eu teria muito cuidado. O fulano de tal está listado aqui sim, mas como inquilino e não como dono. O landlord é MyLondonHome. Se ele estiver sublocando o apartamento e a imobiliária descobrir, ele vai ser despejado e o contrato dele com você não vale nada. Você é despejada junto e nunca mais vai ver a cor do seu depósito… Liga pra MyLondonHome e pergunta se esse cara tem direito de sublocar. Se ele tiver, vai fundo! Mas se não tiver, corre longe”. Adivinha qual era a opção correta! Ai. Chorei! Hahahah ui que frustração! Mas no fundo fiquei orgulhosa e aliviada. Fui salva pelo gongo, porque tava tão desesperada já pra acabar com essa função eterna de procurar apartamento, que se estivesse com o cartão, mesmo com aquela sensação esquisita eu teria provavelmente pago pro cara. Talvez até desse certo e eu me mudasse, ninguém descobrisse e eu vivesse lá pelos 6 meses do contrato sem ser despejada… Mas fiquei super orgulhosa porque achei um jeito lógico e rápido de descobrir se era falcatrua! E fui andandinho pela beira do rio de volta pro metrô e pensando comigo quanto crescimento em pouco tempo, e como apesar de todos os pesares dessa função do apê e principalmente apesar da tristeza de ter um apê perfeito nas mãos e descobrir que era falcatrua, Londres vale a pena cada segundo e eu ainda fico incrédula quando paro na frente do Big Ben e penso que essa é a minha cidade agora!!

Edit

Pois bem. Cheguei em casa e voltei a procurar, achei um lindinho, recém reformado, quarto espaçoso com um guarda roupa decente, escrivaninha, perto do metrô, um pouco a leste da Tower Bridge, pertinho do rio, supermercados pra dar e vender na redondeza. E ERA VERDADEEEEEEEEE!!!

Depois da experiência de domingo, foi um alívio saber que os donos fazem tudo direitinho, usam uma empresa de referenciação, depósito certificado e protegido, tudo como deve ser feito. E depois de uma espera meio ansiosa, quinta de manhã saí do plantão direto pra pegar minha chave no trabalho do landlord em Oxford Circus. Aí sim Brasilllllll!!!

Quinta nem fiz nada, só fui pra casa dormir. Como a gente faz várias noites em seguida, o melhor jeito é trocar de fuso mesmo, então eu dormia das 9:30, 10 até quando desse vontade, almoçava e ia trabalhar!

E em 03/04, sexta-feira Santa, fiz minha mudança \o/ dormi uma hora depois do plantão até o Alex chegar. Eu tinha dito que ele não precisava vir mas ainda bem que ele quis vir mesmo assim! Fizemos duas viagens do hospital até o apartamento, que normalmente seria coisa rápida em uma linha só, em condições adversas: Jubilee line em reforma na minha estação (Bond Street), então tínhamos que pegar a Bakerloo de Regent’s Park até Waterloo, trocar de linha junto com hordas de turistas, e na segunda viagem começou aquele chuvisco molha-bobo que é praticamente o único tipo de chuva que vejo em Londres! Mas rimos tanto, tanto, que o dia foi uma delicia!!! Quando finalmente acabamos, fomos “almojantar” um fish’n’chips enorme no The Ring em Southwark, numa mesa externa embaixo daqueles aquecedores delicia, antes de ele voltar pra Dorset.

Apesar do sono e cansaço aterradores, depois de me despedir dele ainda arranjei forças no âmago do meu ser pra me arrastar de busao de Waterloo até o Tesco gigante que tem perto de casa pra comprar coisas essenciais tipo papel higienico, pasta de dente, roupa de cama, edredom e… espuma para banho de banheira #prioridades hehehehe

Gente, não consigo descrever a felicidade de ter uma casa pra voltar, caminhando em direção ao Shard numa noite gelada com aquela neblina densa que faz com que chegar em casa seja mais aconchegante ainda, e ter a grata surpresa de descobrir que dá pra ver a Tower Bridge da minha rua!!!

E essa é a vista do meu quarto! Como reclamar de algo com uma vida tão generosa?!

E hoje acordei cedinho pra vir pra Dorset curtir uma super paparicação da sogra e feriado em família no English Countryside 🙂