Reality check

Se no último post contei um pouco mais sobre minha vizinhança e o que fiz na semana de folga/mudança, hoje vim contar como foi a semana seguinte, quando a realidade veio bater na minha porta com a delicadeza de um hipopótamo 🙂 hehehehe

Meu primeiro dia de trabalho desde que me mudei pra cá foi um sábado. Daquelas manhãs de inverno gelaaadas, com um céu azul de brigadeiro, sabe? Metrô vazio vazio às 7 da manhã! Fui feliz da vida, pensando que maravilha ter minha casa, minhas cobertas quentinhas pra voltar à noite.

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Bom, o foco aqui não é falar sobre medicina, mas já que esse blog é sobre a minha singela existência, a medicina faz parte dela e gera muita reflexão sobre a vida sempre, vou tentar resumir. Meu plantão era na UTI, aliás, sempre que eu falar em plantão aqui, terá sido na UTI.

Mas Gabi, peraí! Você não é anestesista?!!! Tá fazendo o que na UTI?!

A origem da medicina intensiva como especialidade é a anestesia. A relação é simples e um tanto quanto simplista também: já que o anestesista monitoriza e manipula as funções de todos os órgãos durante a anestesia, quem melhor então para monitorizar e dar suporte a órgãos que estão falindo?!

À medida em que a medicina cresce, ficando mais complexa, mais científica, mais difícil, vão surgindo mais especialidades, porque hoje em dia é impossível se manter atualizado sobre tudo o tempo todo. Então desde os anos 90, a medicina intensiva no Brasil é uma especialidade por si só, separada da anestesiologia. Apesar de terem muito em comum, são especialidades diferentes.

Pois bem. Nossos amigos ingleses continuam fazendo ambos, e é aí que eu entro. Na UTI, no caso, hehehe. Sem ter grande experiência na área. Mas não há motivo para pânico nem para julgamentos: eu fui bem clara quando eles me ofereceram o emprego, disse que são especialidades diferentes no Brasil e que minha experiência na área era limitada. E eles me responderam que não tinha problema algum, que eles estavam satisfeitos com a minha formação e que eu teria todo apoio e supervisão. E que, com todo respeito aos intensivistas, um anestesista pode, com a bagagem que tem, tocar um plantão de UTI. O inverso não é verdadeiro.

Enfim, lá fui eu. O consultant (anestesista sênior, outro dia explico a estrutura da carreira médica no UK) vem, passa visita com a gente de manhã e ajuda a tomar as decisões mais importantes, depois volta pra casa e fica de sobreaviso. Só que para uma anestesista acostumada a dar 100% de atenção para um paciente por vez, de repente ter 18 pacientes graves sob seu cuidado é meio (bem) overwhelming. Não é gente que tá ali de boas. É gente que tá ali porque algo tá dando (ou pode vir a dar) errado. E de fato as coisas dão errado, e essa que vos fala é quem está ali pra resolver.

Tivemos uma situação de crise nos últimos 20 minutos desse plantão. Daquelas de tirar o familiar de perto, de ficarem todos os familiares em polvorosa do lado de fora. Daquelas de vir correndo sem olhar pra trás quando me chamaram. De saber que ninguém mais no hospital tinha mais treinamento do que eu para resolver, e que chamar o consultant estava fora de questão porque não teríamos tempo. Graças a Deus, consegui me manter calma, me comunicar efetivamente com a equipe e resolver o problema rapidinho. Depois da adrenalina da urgência, misturada com o alívio de sair pela porta da UTI e falar pra esposa do paciente que ele estava bem, o cansaço de um dia inteiro pra lá e pra cá… voltei pra casa exausta, praticamente em transe no metrô, e quando cheguei na minha estação e me vi toda descabelada trilhando meu caminho pra um bom banho e capotar na cama, me dei conta: “É isso!!! Sou uma londrina voltando pra casa depois de um dia de cão. Fazendo caminho alternativo no metrô porque tá rolando manutenção na minha linha. Andando pelas ruas com cara de quem já as conhece de cima a baixo. Pensando na vida. Passando na catraca do metrô no automático. É isso que eu sempre quis!”

Passei no Tesco, passei a mão numa pizza de pepperoni e fiquei sentada no chão da cozinha vendo a pizza assar no melhor estilo televisão de cachorro! Ainda descobri a maravilha que é usar as mensagens de voz do whatsapp! Gente que diferença ouvir a voz das pessoas, mata muito mais a saudade!!! Sempre tive vergonha de deixar mensagens de voz porque sempre que ouço minha voz gravada, acho que pareço uma criança. Mas depois de ver como é legal, perdi a vergonha e desde então tô lotando a geral do whatsapp com relatos porque morro de preguiça de digitar tudo, hehehe. Aí fiquei de papo com a Ju no grupo do quarteto fantástico e depois contei meu perrengão pra Duda, minha alma gêmea anestésica que entende como ninguém mais os meus causos, tanto os bons quanto os ruins! Hahaha 🙂

Domingo de manhã fiz minha primeira transferência de paciente no UK, de ambulância, com direito a luz azul e pessoal abrindo caminho. Incrível como transferir paciente é tranquilo aqui! Sempre tem ventilador de transporte, sempre tem um enfermeiro/a que deixa tudo pronto pra você, tem monitorização padrão (inclusive nesse caso pela primeira vez na vida vi um monitor wifi! Tipo, NO CABLES gente. O pessoal tirando o paciente da ambulância e eu segurando o monitor a 3m de distância. Sabia que isso existia, mas fico tão agoniada com mil cabos se enroscando e desorganizados (que na vida do anestesista é tipoassim #tododia), que lembro de ter dito várias vezes ao longo da residência que queria viver pra ver os cabos de monitorização ficarem obsoletos!

No fim do plantão, mais uma crise, e pior, e mais duradoura: paciente teve uma parada cardiorrespiratória na rua, foi reanimado por 30 minutos, voltou a ter circulação espontânea mas chegou praticamente morto no hospital. Colaboração entre as equipes da Cardio e da Anestesio, chegamos ao diagnóstico: tromboembolismo pulmonar maciço. Levamos umas 4 horas pra, devagarinho, enxergar a luz no fim do túnel. Mais uma vez comunicação excelente, trabalho em equipe daqueles que faz a gente querer abraçar todo mundo no fim do plantão, paciente estabilizado dentro do possível e mais uma longa noite a caminho de casa.

Pelo menos a semana não continuou toda desse jeito: tive uns dias normais de centro cirúrgico, tudo correndo conforme o esperado, tudo lindo, com Magic FM de trilha sonora com clássicos pra me recuperar. Num desses dias, sozinha na sala terminando uma cirurgia que eu anestesiei praticamente sozinha do início ao fim (menos a parte do eco, porque ainda tô muito no comecinho do aprendizado), finalizando as coisas, organizando tudo e conversando com os cirurgiões, eu me dei conta de que em dois meses o que me apavorou já vem naturalmente. Como a gente se adapta rápido.

Quinta fez um dia tão lindo, mas tão lindo, que saímos do hospital à caça de um pub que não estivesse totalmente lotado! Primeiro solzinho mais forte do ano, a inglesada toda correu pro sol beber Pimm’s!

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Mas aí na sexta, rolou a primeira parada cardiorrespiratória de uma paciente em pós-operatório de cirurgia cardíaca num plantão meu. Estávamos eu, o consultant e o cirurgião ao lado dela. Sem mais delongas, o cirurgião reabriu o tórax ali na UTI mesmo, massageando o coração por dentro enquanto montavam a circulação extracorpórea no centro cirúrgico. Admiro demais a eficiência das equipes aqui! Tudo rápido, tudo na mão. Cena de filme mesmo, de seriado americano. Em 15 minutos a paciente estava sendo reoperada no centro cirúrgico. Só me dá medo pensar em um negócio desses acontecendo no meio da noite, sem anestesista nem cirurgião sênior e nem mil funcionários por perto!

E isso são os casos mais extremos, que são (ainda bem) a minoria. Se continuar assim, meu coração vai ficar doente de tanta adrenalina!

Parece loucura e eu sei que uma hora essa lua de mel vai passar, uma hora vou parar de ver tudo tanto pelo lado positivo, mas por enquanto até no meio dos perrengues eu às vezes paro e me dou conta de que esse é o pacote que eu comprei. Que os momentos de maior angústia no trabalho vão me tornar uma médica melhor, que os momentos de desânimo na vida em geral vão me tornar uma pessoa melhor.

Quem treina pra um triatlon tem que se dar conta de que os meses a fio de treino intenso são parte do grande dia também. Quem quer ser músico tem que saber que perder o esquenta pra montar os instrumentos faz parte do show.

Passar tão longe da zona de conforto da gente dói, às vezes quase que fisicamente! Entendo hoje melhor do que nunca a minha reação no primeiro dia de trabalho. Aquele medo é muito legítimo. Sei que vai acontecer muitas outras vezes ainda, e espero continuar buscando isso enquanto tiver fôlego. Me desafiando. Aprendendo. E a cada dia que passa, abro mais os braços pra essa sensação desconfortável, porque sei que depois que os nossos horizontes (e nossa mente) se expandem, eles nunca mais voltam ao tamanho original!

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