Konnichiwa*, royal baby!

Engraçado como dizem que perfeccionismo é aquele tipo de defeito disfarçado, que a pessoa fala em entrevista de emprego pra fazer o próprio filme né?! Pois eu discordo plenamente. No meu caso, perfeccionismo = procrastinação. E procrastinação, meus amigos, é o meu maior inimigo! Já sentei pra escrever sobre a minha semana de folga, mas como escrever aqui é quase uma meditação (haha!) e fico filosofando sobre a vida, se eu achar que não tá rolando concentração, eu abandono e vou fazer alguma coisa bem inútil (alô instagram!).

Bom… terminei contando do brunch no Christopher’s né?! Falando com o Alex no whatsapp, ele me contou que já estava na frente do Buckingham Palace o cavalete com o anúncio do nascimento da Princesa Charlotte de Cambridge (que naquela altura do campeonato não tinha nem nome ainda). Mas não tive nem dúvidas: estávamos a 10 minutos dali, arrastei a Alexa comigo e fomos fazer fila com os 293 japoneses que queriam tirar foto do anúncio também, hehehehe. Andou mega rápido porque o guardinha do lado de fora ficava dizendo “andando, andando pessoal, adiante que atrás vem gente, uma só foto por favor”.

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E cheguei em casa pra encontrar o primeiro envelope endereçado a mim de fato desde que me mudei pro UK: sogrãaaaaao!

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E era um convite especialíssimo! Como vocês sabem, os pais do Alex são separados há 11 anos, e o pai dele tem uma namorada há muitos anos, agora resolveram oficializar a união :))) então no próximo fim de semana vou pra Salzburg pro casamento do meu sogro! Hahahaha mundo moderno né?! Achei o máximo!

Depois, ainda no mesmo dia, peguei a câmera e dei um pulinho na Tower Bridge só pra registrar o momento histórico – ela ficou iluminada em cor de rosa a partir do anúncio de que o royal baby era uma menina!

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Enquanto eu tava no pier tranquilona tirando minhas fotos, chegaram dois guris japoneses filmando, um com microfone e outro com a câmera. Achei engraçado ficar ouvindo o que eles falavam, e quando comecei a fechar meu tripé, eles pediram se podiam me entrevistar para a Fuji TV. Por que não, né?! Quando mais que vou ter uma oportunidade de responder uma pergunta que me foi feita em japonês? Hahahaha mandei ver e comentei que reconhecia a intenção da instituição em honrar e homenagear a família real, porém que tinha mixed feelings a respeito porque essa atitude reforça papéis de gênero, que algumas coisas no mundo (começa com cores, depois brinquedos, atividades, livros, carreiras, ad infinitum…) são de mulher enquanto outras são de homem.

Chegando em casa, comentei com o Alex no telefone que “acho que eles eram dois universitários fazendo trabalho de fim de semestre e só tirando uma com a minha cara”, e ele respondeu “é, ou o teu rosto tá aparecendo numa TV de 60 polegadas no centro de Tóquio as we speak“, hahahahah…

Nem me lembrava mais dessa história, mas agora como fui escrever e lembrei, mandei um email pro gurizão pra pedir se chegou a ir ao ar. Ele se apresentou como “assistente de produção da Fuji TV”, pensei aham, Cláudia – mas depois googlei o nome dele e de fato achei várias entrevistas e um perfil no LinkedIn. Então veremos! Se tiver notícias, volto aqui no post pra botar o link! Hahahaha imagina que hilário?!

E só pra terminar meu fim de semana inesperadamente folgado (por causa da mudança ultra-express-eficácia-surreal do Heart Hospital para o Barts Heart Centre), fui dar uma corridinha amiga no parque aqui perto de casa. Aqui também tem aqueles playgrounds de adulto, hahaha aquelas máquinas de musculação que usam o peso da própria pessoa. Bem legal.

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Sinto falta de me exercitar nesse sentido mais frequência cardíaca em 180bpm da coisa, sabe como? Minha vida aqui em Londres é super ativa, caminho bastante todo dia, mas sabe o nível de endorfina que a gente só libera quando fica de língua de fora, suando loucamente e descabelada? Pois é. Acho que vou me inscrever numa academia em breve… pra poder correr sem culpa, porque já levei sermão de 2 ortopedistas diferentes dizendo que não tenho condições de correr sem fortalecer a musculatura… de início pensei “ahhhh quem precisa correr mesmo?! Odeio musculação!” mas agora tô sentindo falta!

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Brunch no Christopher’s

Como a Alexa e eu íamos ser as plantonistas do dia e da noite, respectivamente, fomos pegas de surpresa pela folga inesperada. E como eu ia pro hospital de qualquer maneira pra entregar meu ID e pegar o smart card, que dá acesso aos computadores e permite solicitar exames etc, busquei o meu e o dela, já que eu moro no centro de Londres e ela mora mais longe.

Fiquei com o cartão dela, mas tô indo viajar e volto só sábado que vem, mas ela começa terça no Barts: como proceder?

Foi exatamente a desculpa que precisávamos pra tomar um super brunch de madames num lugar muito legal: o Christopher’s é um bar/restaurante em Covent Garden moldado nos restaurantes americanos clássicos, o bar é daquele tipo que se você fechar os olhos você consegue imaginar o Frank Sinatra cantando no cantinho I did it myyyyy way, sabe como? Hehehehe

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Achei engraçado que cheguei antes da minha amiga e quando falei que tínhamos reserva (feita ontem, então bem tranquilo), a recepcionista me perguntou se eu queria tomar um drink no bar ou subir direto para o restaurante… Hmmmmm… Meio cedo demais pra um drink, perhaps?! Hahaha eram 11:30!

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É o tipo de lugar pra ir numa ocasião especial, a decoração do lugar é um deleite para os olhos, o serviço é excelente e a comida realmente é boa demais!

O que eu acho mais interessante aqui em Londres é que a diferença entre um restaurante simples, um restaurante médio e um restaurante arrumadinho normalmente é pequena! Tanto no tratamento que os garçons te dão quanto no preço que se paga. Não existe garçom nem atendente de loja te olhando de cima a baixo pra medir se você está à altura da preciosa instituição em que trabalham.

Assim como tenho colegas que vivem gastando £3 ou £5 aqui e ali num Starbucks, como eu vivo muito bem sem isso, prefiro economizar nesses gastos pequenos do dia a dia e muitas vezes acaba sendo essa a diferença entre um prato principal num lugar médio e um lugar mais legalzinho.

E claro, convertendo pra reais, a gente vê que aqui a diferença é pequena porque aqui é tudo muito caro, hehehehe Mesmo o lanche mais simplório, o sanduíche mais pelado da lanchonete, vai acabar custando uns £3. Então como moradora, a minha tática é só comer na rua quando é algo diferente, que eu não faria em casa. Como brasileira acostumada com as diferenças enormes de preço, fico impressionada como às vezes um wrap e suco na rua custam o mesmo preço que um ingresso de uma exposição legal, ou que um produto da Kerastase pro cabelo. Enfim, comida é caro em Londres e ponto final.

Tudo isso pra chegar na seguinte moral da história: o Christopher’s é um lugar meio acima da minha faixa de preço. Tendo dito isso, posso também falar que outro dia fui a um lugar bem mais simples também pra um brunch com uma amiga, e comendo só um prato principal minguado, um chá e uma água com gás, a conta ficou em torno de £16… ontem tomei um super smoothie verde, ovos mexidos com salmão defumado que estavam DIVINOS, panquecas com calda de mirtilo e uma água com gás… por £30. Então na verdade eu paguei o dobro, mas comi muito mais, e se tivesse pedido panquecas também nesse outro lugar, os preços ficariam muito semelhantes. E a experiência como um todo foi muito mais legal no Christopher’s.

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Então no futuro, além de procurar outros lugares que unam o útil (£) ao agradável, pelo menos eu já sei que ao invés de desperdiçar meu dinheiro num lugar meio sem graça, eu prefiro deixar passar, e numa próxima vez ir no Christopher’s. Ou ir sem ser uma morta de fome e comer um prato só. Vamos chamar esse de plano B! Hahahaha

Como empacotar um hospital?

Aí vem a parte prática da coisa: como é que se faz a mudança de um hospital?

O cronograma de cirurgias cardíacas marcadas parou na sexta-feira passada, segunda-feira fizemos as últimas cirurgias torácicas e a partir de terça seriam só cirurgias de emergência. Todos os hospitais que normalmente referiam pacientes para o Heart foram avisados e passaram a referir diretamente para o Barts, e então ficamos com uma UTI que foi minguando ao longo da semana.

Sempre tem pacientes crônicos, então sobre esses, precisávamos decidir quem iria de volta para o hospital local do seu distrito (District General Hospital), caso a dependência dele da UTI fosse algo que existiria lá também, tipo desmame da ventilação mecânica, ou se precisavam continuar tendo cuidado super especializado, como por exemplo alguns pacientes com infecção da ferida operatória que precisam ser vistos ao mesmo tempo pelo cirurgião cardíaco e pelo cirurgião plástico, e nesse caso levaríamos eles conosco para o Barts.

Então como eram apenas alguns pacientes, a semana foi bem relax, segunda trabalhei até meio tarde mas de terça em diante tive as tardes livres. Terça de manhã fiz o curso online pra aprender a mexer no sistema de computador no hospital novo, quarta de manhã fui registrar pro meu cartão magnético que dá acesso ao hospital, e quinta de manhã fiz uma transferência.

A transferência em questão era pro Barts, e era um senhor que operou há um mês e estava estável há bastante tempo, só desmamando da ventilação mecânica e cuidando da infecção da ferida operatória. Pois bem, entramos na ambulância, estávamos eu, um enfermeiro sensacional dali do hospital, uma enfermeira excelente da equipe da ambulância com quem eu já tinha feito uma transferência antes e o motorista, um gurizão gente boa que deve ter uns 23 anos.

Arrancamos a ambulância na frente do hospital e antes de completar 3 minutos na estrada, o paciente teve uma arritmia. Aí voltamos para a frente do hospital, porque era obviamente o hospital mais próximo, e conversei com a consultant sobre o que tinha acontecido, ponderando se devíamos levar o paciente pra dentro de novo. Nesse meio tempo, ainda dentro da ambulância e tendo essa conversa, ele voltou ao ritmo e frequência normais. Considerando que metade dos serviços já não estavam mais funcionando, como por exemplo a angioplastia, achamos mais seguro e sábio levar o paciente direto para o Barts.

Ele teve a mesma arritmia mais duas vezes, a pressão caiu um pouquinho, mas eu tratei e estava tudo sob controle. Graças a Deus permaneci calma o tempo todo, como deve ser, acho que também por saber que o Matt e a Victoria são excelentes, tínhamos tudo na mão e teríamos desfibrilado ele dentro de 5 segundos se ele tivesse parado.

Maaaas quando chegamos no outro hospital, assim que pisamos pra fora do elevador, uma enfermeira apareceu do além dizendo “é por isso que nós achamos que transferências devem ser feitas por consultants, isso foi uma transferência de alto risco”. Como estávamos com o paciente e eu tinha mais com que me preocupar do que uma criatura aleatória que antes de nos conhecer já tinha decidido nos odiar, continuei rumo ao leito do paciente.

Quando chegamos lá, mais uma surpresinha: entrou um enfermeiro numa vibe toda macho alfa da parada, estufando o peito pra dizer que ele era o nurse in charge e me perguntando se eu ia comandar a transferência de maca. Falei que sim, e seguimos adiante. O cara começou a encontrar mil coisas pra criticar, reclamou que o paciente não tava sincronizando com o ventilador, inventou que tínhamos perdido o acesso venoso do paciente (sendo que 2 minutos antes, antes de sair da ambulância, eu testei e estava ok), enfim… sabe aquela pessoa que procura defeito em tudo que os outros fizeram como pretexto pra se fazer de boazona e entendida? Pois é.

Nesse meio tempo, o trainee de anestesia de lá tinha sido super gente boa comigo, logo chegou o consultant e o consultant-mór que é um dos chefes. Passei o caso, eles foram agradáveis, me disseram “welcome to the trust”, fizeram uns comentários tipo “eventful transfer, huh?!” como quem sabe que essas coisas acontecem em transferências, por isso mesmo que a gente sempre tem tudo à mão e toma todas as precauções caso uma situação dessas venha a ocorrer.

Enfim, o Matt ficou pra cuidar do paciente o resto do dia porque eles não tinham enfermeiros suficientes (não sei se já falei, mas rola uma falta crônica de enfermeiros e tem trabalho pra dar e vender pra enfermeiros no UK). A Victoria foi no banco da frente com o motorista, e eu voltei na caçamba da ambulância sozinha, olhando Londres lá fora e pensando no que eu faria de diferente caso tivesse exatamente a mesma situação novamente (isso se chama debriefing, foi o Dr. Getulio que nos ensinou a sempre, sempre pensar depois de qualquer coisa que a gente fez o que foi bem, o que foi mal, como a gente melhoraria)…

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Fiquei chocada com a conduta to tal enfermeiro-chefe, porque ele criou um pânico no ambiente que não precisava existir, o paciente tava estável e de volta ao seu normal. As arritmias eram claramente relacionadas à aceleração e desaceleração da ambulância, isso é uma coisa conhecida já, especialmente porque ele tava discretamente desidratado como tentativa de facilitar o desmame da VM… fiquei com raiva e frustrada, porque retrucar rápido nunca foi o meu forte, e em inglês demora pra gente articular uma resposta, então fiquei muito braba porque acabei levando desaforo pra casa mesmo estando convencida de que esse enfermeiro é que tava em pânico por pouca coisa. Quem entra em pânico por pouca coisa não deve trabalhar com cuidados intensivos e nem anestesia, colhega. Ui que ódio de não ter dito nada na hora.

Mas enfim, fui fazendo as pazes com a situação na minha cabeça. Pensei “tudo bem, meu primeiro contato com Barts foi uma porcaria, mas foram só esses dois enfermeiros, os médicos foram legais e o restante da equipe também, de repente esse enfermeiro-chefe tava tendo um mau dia ou sabe-se lá o quê, quem sabe não vai ser tão ruim assim no sentido de eles procurarem defeitos no tratamento dado pela equipe do Heart”.


Cheguei de volta no hospital e assim que entrei na salinha dos plantonistas, me contaram que o tal consultant-mór tinha ligado pro diretor clínico do hospital, que é um consultant ali do Heart, pra dizer que a minha consultant tinha sido imprudente ao não ir junto comigo, que aquela transferência tinha sido de alto risco, que onde é que já se viu, esse tipo de coisa tem que ser feito por um consultant e não uma trainee.

A Liz respondeu “minha trainee é brasileira, amigo, tenho certeza que ela já viu coisa pior e que ela jamais entraria em pânico com uma arritmia”. Todos os outros consultants que estavam na sala disseram “you did well Gabi, unfortunately you’re caught in the middle, they’re all idiots”. Então apoio 100% dos meus staffs! Mas puts, mesmo assim fiquei super chateada de me ver no meio de um imbróglio muito mais político do que médico.

Almoçamos juntos, eu e mais 3 trainees, e fui deixar uns documentos no RH… Quando mais tarde essa minha consultant me mandou uma mensagem dizendo “That’s my girl, mais culhões do que os meninos do Barts” eu achei o máximo e relaxei um pouco. E pra salvar meu dia, fui comprar uns acessórios pra câmera, cheguei em casa, troquei de roupa e corri pra Westminster Bridge pra fotografar o Parlamento na blue hour.

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Eu amo como fotografar me faz esquecer de todo o resto! Tô super aprendendo ainda, mas tive uma conversa muito legal com o vendedor da Camera World, ele me disse que depois que você atingiu um certo patamar, ele não acredita muito em cursos de fotografia, acha que são um desperdício de dinheiro e tempo. Aí comentei que sinto que tô tipo num platô muito amador sabe, que sei usar os controles manuais mas não sei muito pra onde ir pra progredir mais?! Aí lembrei que a situação em que mais me empolguei com fotografia nos últimos meses foi quando resolvi aprender a fotografar fogos de artifício. Aí ele disse: “EXATAMENTE! Daqui pra frente, saiba que o teu progresso provavelmente vai ser assim, você escolhe algo pra aprender a fazer, vai lá e aprende. Sozinha. Com ajuda de livros, do YouTube, de blogs, sei lá. Mas não pague £300 por um curso de fotografia”. E realmente, cheguei ali, vi que pra reproduzir o que eu tava vendo, ia precisar de uma técnica chamada HDR, então agradeci aos deuses do 3G/YouTube/Google e aprendi right there and then como fazer! E olha que não ficou nada mau pra uma primeira tentativa, né?!

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Enquanto eu tava lá fazendo as minhas fotos e curtindo uma musiquinha no fone de ouvido, um casal falou comigo pra perguntar se era proibido pular o portão que leva pra uma escadinha até o Tâmisa. Falei que não sabia e perguntei que foto ele estava imaginando – ele era o fotógrafo e ela era a namorada ultra-mega-paciente com as 2938 tentativas de atingir a foto perfeita (ou seja, ela era o Alex dele :). No fim das contas, o cara é um iraniano criado no Canadá, cuja namorada é uma americana da minha idade, e os dois moram em Miami. Fiquei batendo papo com os dois um tempão, sobre fotografia, sobre política (sabia que só pode votar nos EUA se for cidadão americano?! Nem tendo green card há mil anos e pagando imposto lá. Só sendo cidadão mesmo), sobre impostos (eles pagam 20% só!!! Eu não tinha noção! E com um bom advogado, eles pagaram 18% ano passado) e sobre sistema público de saúde, ou a falta de. Descobri que o cara é médico também, aí foi mais um assunto ainda. Enfim, super legal conhecer gente desse jeito! Trocamos emails e quase causei uma crise no relacionamento quando mostrei umas fotos minhas e dei umas dicas de lugares bons pra fotografia noturna aqui perto e ela tava morreeeendo de frio e louca pra voltar pro hotel! Hahahaha

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Enfim, voltando ao imbróglio da transferência, relaxei mais ainda ontem quando o staff do Heart que vai ser diretor da UTI no Barts me contou que esse consultant-mór ligou pra pedir desculpas, dizer que foi uma overreaction e que o tal enfermeiro é um famoso causador de problemas. Ufa! Pelo menos ficou claro quem é quem! Hehehehe

E aí minha semana terminaria com três noites de plantão, sexta, sábado e domingo. Então sexta de manhã fui ver a exposição Sony World Photography Awards, na Somerset House, voltei pra casa com a intenção de tirar uma sonequinha pré-plantão e qual foi minha surpresa quando a plantonista do dia me liga e diz: “Gabi, transferimos o último paciente. Não tem mais paciente nenhum aqui, o hospital está oficialmente fechado. Tô indo embora logo mais. Aproveite teu findi de folga!”.

CUMA????

Os gerentes da mudança foram tão, mas tão eficientes, que terminaram o tróço todo 3 dias antes do prazo! Eu sabia que seriam plantões tranquilões e já tava dando graças que ia poder ir lá cuidar de um ou dois pacientes, escrever um monte no blog, organizar minha agenda e comer um monte de porcaria porque né, plantão tem que rolar uma auto-recompensazinha, hehehehe.

Só que meus sapatos de centro cirúrgico ainda estavam lá e eu tinha que entregar meu cartão magnético, e além do mais me deu uma baita deprê pensar que eu nunca mais pisaria no hospital! Então troquei de roupa e fui pra lá!

Gente, que coisa louca um hospital totalmente vazio. Parecia uma cidade fantasma! Muito estranho. Aí fiquei batendo papo com as duas colegas que estavam lá e a fellow de pesquisa, tiramos umas fotos, rolou um #mimimi básico sobre como é um lugar legal pra trabalhaaar e como não queríamos ir embooora, etc etc.

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A minha sorte é realmente algo fenomenal: mais do que plantões tranquilos, eu teria o melhor do melhor do mundo: plantões inexistentes!!! E ainda por cima tô de folga a semana toda! Bizarro, acho que nunca mais vou ter tanta sorte numa escala de plantão na vida! Hahahaha

Fiquei quase sem saber o que fazer da vida, sabe como? Meus planos para o fim de semana: trabalhar-dormir-comer-trabalhar-dormir-comer E agora, José? O que fazer com 72h livres que eu até o minuto atrás não teria?!

Então fomos pro pub pra brindar a minha sorte e comemorar the shift that never was e também reforçar nossas esperanças de que as dores de crescimento que estão por vir valham -muito!- a pena pelas oportunidades que teremos em um centro world-class.

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Quem viver, verá!

Same job, different hospital

Eu fui contratada como clinical fellow do The Heart Hospital, que fica em Marylebone e atende a área centro-norte de Londres. É um hospital quaternário, que significa que ali se fazem procedimentos altamente específicos, de alta complexidade, e normalmente os pacientes ao invés de virem da rua, vêm encaminhados por um outro hospital de nível menos complexo.

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Apesar disso e de ter alguns dos anestesistas cardíacos, cirurgiões cardiotorácicos e cardiologistas mais respeitados do Reino Unido, o hospital fisicamente é bem pequeno, o que significa que todo mundo se conhece bem rápido. Eu, tendo passado 6 semanas em outubro/novembro como estagiária e agora 2 meses como fellow, já conheço a maioria dos cirurgiões, residentes e enfermeiros da UTI pelo nome, e já conheço pela fisionomia boa parte dos cardiologistas, pessoal do laboratório de cateterismo, fisioterapeutas e farmacêuticos.

Por ser tão pequeno e pessoal, acabou se criando um lugar super gostoso de trabalhar, um clima quase informal de “entre amigos” mas sem perder o profissionalismo. Os consultants da anestesia (anestesistas sênior) se conhecem de outros carnavais, montaram o serviço juntos quando o Middlesex Hospital se mudou para o Heart 14 anos atrás, então rola uma parceria grande entre eles. Além disso, eles sempre mantiveram uma conduta de contratar pessoas de mindset parecido, que não fossem somente boas clinicamente mas que também fossem razoáveis no quesito convivência e trabalho em equipe.

Tudo ia muito bem, obrigada, até que os chefões da parada tiveram a visão de que as áreas centro-norte e centro-leste de Londres poderiam ser atendidas por um único centro para o diagnóstico, acompanhamento e tratamento de doença cardiovascular. Para isso, a idéia foi amalgamar três hospitais em um centro só, e aí é que vem a parte que me cabe neste latifúndio: o Heart Hospital está se juntando ao London Chest Hospital e ao St. Bartholomew’s Hospital para formar o Barts Heart Centre – o maior centro cardiovascular do Reino Unido, um dos maiores da Europa, e comparável aos grandes centros europeus e americanos.

Esse vídeo aqui embaixo dá uma idéia do que o centro vai ser, pena que não tem legenda, mas aí vai:

Legal, né?! Acho o máximo e me sinto honrada em fazer parte de um momento tão histórico. Vou trabalhar no hospital mais antigo da Europa!!! Fundado em 1123! Não é o máximo?! O hospital onde eu vou trabalhar é mais velho que o meu país, malucoooo!!!! Pode isso, Arnaldo?

O hospital fica na Cidade de Londres – mais pra frente escrevo um post pra explicar melhor, mas a City of London é a Londres original, fundada pelos Romanos dois milênios (!!!!) atrás. Era a cidade amuralhada da época, e ainda podem-se ver alguns trechos da muralha original.

Ao mesmo tempo, nem tudo são rosas: esse novo trust do qual passo a fazer parte terá muitas dificuldades, especialmente para bancar o investimento cavalar que foi feito na construção desse centro top de linha. O acordo que foi feito é uma Private Funding Initiative (PFI), que significa que a iniciativa privada comprou o terreno do hospital – uma idéia que é absurda em si mesma e não consigo acreditar que não tenha havido propina envolvida. GENTE, precisa ser realmente muito tanso pra vender um terreno NO CORAÇAO DA CIDADE MAIS CARA DO MUNDO! Tipoassim, alou, quem foi mesmo que achou que isso seria financeiramente vantajoso para alguém além da tal empresa privada?! Ah. O partido dos trabalhadores! *justsaying*

Então a lógica é: tenho um apartamento que vale milhões em Ipanema. Porém não tenho dinheiro para reformá-lo e ele está velho demais, sem condições para que eu more nele. Então vou vender o meu apartamento na área imobiliária mais cara do país, a pessoa que comprar banca a reforma, e aí eu fecho um contrato de aluguel (caríssimo) de 50 anos – e vou gastando o dinheiro que ganhei na venda mês a mês e basicamente dando o dinheiro de volta para o novo dono do lugar. Que no fim da história, terá o dinheiro E a propriedade. Isso tudo porque tinha o dinheiro certo na hora certa.

Para ser justa, o governo tinha poucas opções. O que fazer quando, apesar de ter um terreno e um prédio valiosíssimos, você precisa se manter ali, e para isso precisa reformar, e para isso precisa de um dinheiro que não tem? Pode ter sido um erro honesto, mas acho difícil que alguém em sã consciência e sem propina no bolso não fosse tirar dinheiro de qualquer buraco e fazer das tripas coração pra evitar esse tipo de acordo…

Enfim, tirando essa parte longo-prazo da coisa toda, ainda tem as dificuldades inerentes à junção de três equipes, três culturas, três éticas de trabalho e um milhão de opiniões diferentes sobre como melhor fazer o seu trabalho. Então não vai ser fácil e os anestesistas que já passaram por mergers (fusões de empresas/hospitais) comentam que o único jeito de fazer dar certo é se despedir o máximo possível da identidade do hospital de origem e encarar tudo como um hospital só, começando do zero e evitando “panelinhas”. Isso fica muito mais difícil de evitar quando as pessoas genuinamente gostam de trabalhar juntas e gostam de conviver.

Sabendo de tudo isso e que tá rolando uma nostalgia homérica em todos os funcionários (mesmo os relativamente novatos – eu!) nesse último mês do hospital, o trust organizou uma festa sem precedentes para ser a grande despedida do The Heart Hospital da sua existência. O THH foi um dos primeiros hospitais especializados do mundo, fundado em 1913 quando a Medicina estava começaaaando a construir centros específicos para um tipo de doença. Então nada mais justo do que dar uma senhora festa de despedida `a altura da história do hospital. E o local escolhido foi nada mais nada menos que…:

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A sala de banquetes do palácio que foi a residência da monarquia inglesa entre 1530 e 1698!!!

O Palácio de Whitehall foi a primeira construção neoclássica inglesa, que mudou a história da arquitetura no país e foi a sede da monarquia nessa época até que, em 1698, ele foi destruído por um fogo e a única parte que restou em pé foi a Banqueting House. E que sorte! Porque a Banqueting House tem no seu teto a única pintura de teto in situ do pintor flamenco Peter Paul Rubens!

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Quem mandou construir a Banqueting House foi o rei James I, e quando o seu filho e grande incentivador das artes Charles I subiu ao trono, ele resolveu homenagear o pai e convenceu Rubens a vir para a Inglaterra e fazer essa pintura em troca de receber o título de Knight da realeza britânica.

Já tô me passando nesse post, mas não resisto a contar que Charles I foi um personagem crucial da história do Reino Unido! Ele era o protótipo do monarca absolutista! Mandava e desmandava nas lei tudo sem consultar nem comunicar o parlamento e quando os membros do parlamento começaram a reclamar ele disse: “Ah é, estão #chatiados?! Pois eu sou o rei mérmo e mando no que eu quiser. Aliás, estão todos despedidos, rá! Serei um rei sem parlamento a partir de agora”.

Depois de perder a Guerra Civil e ser entregue ao Parlamento, que nesse ponto já tinha sido retomado e reorganizado por um cara chamado Oliver Cromwell, ele foi condenado por alta traição à côrte e destinado à decapitação. E como a vida é irônica, foi na Banqueting House, tendo como sua última vista a tela de Rubens, é que Charles I foi decapitado em um andaime construído do lado de fora de uma das janelas.

Então faz ainda mais sentido que a última vista do Heart Hospital fosse também a famigerada tela de Rubens! Só que foi uma despedida muito mais feliz: chegamos no átrio do lugar e tinha um pessoal pegando nossos casacos e distribuindo taças de champagne… Aí rolou aquele meet&greet básico, todo mundo se cumprimentando, maior sarro ver todo mundo de roupa normal, quase não dá pra reconhecer as pessoas quando a gente se acostuma a vê-las de pijama de centro cirúrgico, né?!

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Aí quando subimos, foi aquele deslumbre generalizado, todo mundo parando pra tirar fotos do salão, todo mundo meio hipnotizado pelo teto e pela opulência em geral do lugar.

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O CEO do hospital começou os trabalhos com um discurso relembrando a história da Medicina no UK e quantas coisas que mudaram o mundo foram descobertas ou inventadas aqui, relembrando a história do THH como primeiro hospital especializado em doença cardiovascular no mundo e comentando o clima gostoso de trabalhar ali. Pra encerrar, ele disse que não temos o que temer: ao invés de sermos absorvidos pela equipe do Barts e London Chest, nós é que vamos “comandar o ritmo em que a banda toca” e criar um clima de trabalho agradável como queremos que seja. Bem legal, bem motivacional mesmo.

Aí quando ele terminou o discurso, apareceram dois cantores de ópera! De início nem acreditei que eram eles mesmo, parecia gravação de tão surreal as vozes!

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Os consultants sentaram com a gente (os trainees) na mesma mesa, super super amigáveis, informais e já embaladinhos em umas pints que tomaram no pub antes de chegar na festa, hahahaha.

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E depois apareceu a banda, tocando Michael Jackson, Kings of Leon… Quando eu fico bebum, eu fico mais nerd ainda, então de repente fiquei pensando em quão absolutamente surreal era eu estar ali dançando Beyoncè e Bruno Mars com uma taça de vinho branco na mão, e em quantas festas da realeza e aristocracia britânica já rolaram ali. Bailes de máscaras, recepcões de estado, jantares de reis e governantes… vestidos rodados, luvas até o cotovelo, homens de chapéu cartola, gente chegando de carruagem… e eu ali!!! Quando que isso aconteceu mesmo?! Totalmente louco! Mais ainda se você estiver bebum! Hahahaha

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Quando acabou, às 23h, os consultants tavam empolgadassos e disseram que iam transferir a festa pra um hotel na rua de trás da Banqueting House, então lá fomos nós, todos os trainees, pro bar do hotel, onde continuamos batendo papo e rindo horrores até quase 3h da manhã… Aí, chamei um táxi, que seguiu até o fim da rua em direção ao rio e quando ele parou na esquina, eu vi tudo deserto, ninguém na rua (sabe como NY nunca dorme? Pois bem. Londres dorme!), o parlamento e o Big Ben à minha direita, o London Eye na minha frente… depois ele foi seguindo pela orla norte do rio, vi do banco de trás do carro a cúpula da St. Paul’s, e pra coroar ele atravessou a London Bridge então vi de camarote a Tower Bridge. E pensei: “GENTE, esse é o meu caminho pra casa!!! ESSE é o meu caminho pra casa!!! O que mais eu poderia querer nessa vida?”. Sério mesmo, parecia uma retardada sorrindo sozinha e quase chorando de felicidade no táxi, o taxista deve ter achado engraçado!

Enfim, foi muito legal mesmo. Mesmo que esses primeiro meses sejam difíceis, e eu sei que serão, ainda acho que o saldo é positivo de poder presenciar todas essas mudanças e o berço do maior centro cardiológico/cardiocirúrgico do UK!