Same job, different hospital

Eu fui contratada como clinical fellow do The Heart Hospital, que fica em Marylebone e atende a área centro-norte de Londres. É um hospital quaternário, que significa que ali se fazem procedimentos altamente específicos, de alta complexidade, e normalmente os pacientes ao invés de virem da rua, vêm encaminhados por um outro hospital de nível menos complexo.

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Apesar disso e de ter alguns dos anestesistas cardíacos, cirurgiões cardiotorácicos e cardiologistas mais respeitados do Reino Unido, o hospital fisicamente é bem pequeno, o que significa que todo mundo se conhece bem rápido. Eu, tendo passado 6 semanas em outubro/novembro como estagiária e agora 2 meses como fellow, já conheço a maioria dos cirurgiões, residentes e enfermeiros da UTI pelo nome, e já conheço pela fisionomia boa parte dos cardiologistas, pessoal do laboratório de cateterismo, fisioterapeutas e farmacêuticos.

Por ser tão pequeno e pessoal, acabou se criando um lugar super gostoso de trabalhar, um clima quase informal de “entre amigos” mas sem perder o profissionalismo. Os consultants da anestesia (anestesistas sênior) se conhecem de outros carnavais, montaram o serviço juntos quando o Middlesex Hospital se mudou para o Heart 14 anos atrás, então rola uma parceria grande entre eles. Além disso, eles sempre mantiveram uma conduta de contratar pessoas de mindset parecido, que não fossem somente boas clinicamente mas que também fossem razoáveis no quesito convivência e trabalho em equipe.

Tudo ia muito bem, obrigada, até que os chefões da parada tiveram a visão de que as áreas centro-norte e centro-leste de Londres poderiam ser atendidas por um único centro para o diagnóstico, acompanhamento e tratamento de doença cardiovascular. Para isso, a idéia foi amalgamar três hospitais em um centro só, e aí é que vem a parte que me cabe neste latifúndio: o Heart Hospital está se juntando ao London Chest Hospital e ao St. Bartholomew’s Hospital para formar o Barts Heart Centre – o maior centro cardiovascular do Reino Unido, um dos maiores da Europa, e comparável aos grandes centros europeus e americanos.

Esse vídeo aqui embaixo dá uma idéia do que o centro vai ser, pena que não tem legenda, mas aí vai:

Legal, né?! Acho o máximo e me sinto honrada em fazer parte de um momento tão histórico. Vou trabalhar no hospital mais antigo da Europa!!! Fundado em 1123! Não é o máximo?! O hospital onde eu vou trabalhar é mais velho que o meu país, malucoooo!!!! Pode isso, Arnaldo?

O hospital fica na Cidade de Londres – mais pra frente escrevo um post pra explicar melhor, mas a City of London é a Londres original, fundada pelos Romanos dois milênios (!!!!) atrás. Era a cidade amuralhada da época, e ainda podem-se ver alguns trechos da muralha original.

Ao mesmo tempo, nem tudo são rosas: esse novo trust do qual passo a fazer parte terá muitas dificuldades, especialmente para bancar o investimento cavalar que foi feito na construção desse centro top de linha. O acordo que foi feito é uma Private Funding Initiative (PFI), que significa que a iniciativa privada comprou o terreno do hospital – uma idéia que é absurda em si mesma e não consigo acreditar que não tenha havido propina envolvida. GENTE, precisa ser realmente muito tanso pra vender um terreno NO CORAÇAO DA CIDADE MAIS CARA DO MUNDO! Tipoassim, alou, quem foi mesmo que achou que isso seria financeiramente vantajoso para alguém além da tal empresa privada?! Ah. O partido dos trabalhadores! *justsaying*

Então a lógica é: tenho um apartamento que vale milhões em Ipanema. Porém não tenho dinheiro para reformá-lo e ele está velho demais, sem condições para que eu more nele. Então vou vender o meu apartamento na área imobiliária mais cara do país, a pessoa que comprar banca a reforma, e aí eu fecho um contrato de aluguel (caríssimo) de 50 anos – e vou gastando o dinheiro que ganhei na venda mês a mês e basicamente dando o dinheiro de volta para o novo dono do lugar. Que no fim da história, terá o dinheiro E a propriedade. Isso tudo porque tinha o dinheiro certo na hora certa.

Para ser justa, o governo tinha poucas opções. O que fazer quando, apesar de ter um terreno e um prédio valiosíssimos, você precisa se manter ali, e para isso precisa reformar, e para isso precisa de um dinheiro que não tem? Pode ter sido um erro honesto, mas acho difícil que alguém em sã consciência e sem propina no bolso não fosse tirar dinheiro de qualquer buraco e fazer das tripas coração pra evitar esse tipo de acordo…

Enfim, tirando essa parte longo-prazo da coisa toda, ainda tem as dificuldades inerentes à junção de três equipes, três culturas, três éticas de trabalho e um milhão de opiniões diferentes sobre como melhor fazer o seu trabalho. Então não vai ser fácil e os anestesistas que já passaram por mergers (fusões de empresas/hospitais) comentam que o único jeito de fazer dar certo é se despedir o máximo possível da identidade do hospital de origem e encarar tudo como um hospital só, começando do zero e evitando “panelinhas”. Isso fica muito mais difícil de evitar quando as pessoas genuinamente gostam de trabalhar juntas e gostam de conviver.

Sabendo de tudo isso e que tá rolando uma nostalgia homérica em todos os funcionários (mesmo os relativamente novatos – eu!) nesse último mês do hospital, o trust organizou uma festa sem precedentes para ser a grande despedida do The Heart Hospital da sua existência. O THH foi um dos primeiros hospitais especializados do mundo, fundado em 1913 quando a Medicina estava começaaaando a construir centros específicos para um tipo de doença. Então nada mais justo do que dar uma senhora festa de despedida `a altura da história do hospital. E o local escolhido foi nada mais nada menos que…:

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A sala de banquetes do palácio que foi a residência da monarquia inglesa entre 1530 e 1698!!!

O Palácio de Whitehall foi a primeira construção neoclássica inglesa, que mudou a história da arquitetura no país e foi a sede da monarquia nessa época até que, em 1698, ele foi destruído por um fogo e a única parte que restou em pé foi a Banqueting House. E que sorte! Porque a Banqueting House tem no seu teto a única pintura de teto in situ do pintor flamenco Peter Paul Rubens!

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Quem mandou construir a Banqueting House foi o rei James I, e quando o seu filho e grande incentivador das artes Charles I subiu ao trono, ele resolveu homenagear o pai e convenceu Rubens a vir para a Inglaterra e fazer essa pintura em troca de receber o título de Knight da realeza britânica.

Já tô me passando nesse post, mas não resisto a contar que Charles I foi um personagem crucial da história do Reino Unido! Ele era o protótipo do monarca absolutista! Mandava e desmandava nas lei tudo sem consultar nem comunicar o parlamento e quando os membros do parlamento começaram a reclamar ele disse: “Ah é, estão #chatiados?! Pois eu sou o rei mérmo e mando no que eu quiser. Aliás, estão todos despedidos, rá! Serei um rei sem parlamento a partir de agora”.

Depois de perder a Guerra Civil e ser entregue ao Parlamento, que nesse ponto já tinha sido retomado e reorganizado por um cara chamado Oliver Cromwell, ele foi condenado por alta traição à côrte e destinado à decapitação. E como a vida é irônica, foi na Banqueting House, tendo como sua última vista a tela de Rubens, é que Charles I foi decapitado em um andaime construído do lado de fora de uma das janelas.

Então faz ainda mais sentido que a última vista do Heart Hospital fosse também a famigerada tela de Rubens! Só que foi uma despedida muito mais feliz: chegamos no átrio do lugar e tinha um pessoal pegando nossos casacos e distribuindo taças de champagne… Aí rolou aquele meet&greet básico, todo mundo se cumprimentando, maior sarro ver todo mundo de roupa normal, quase não dá pra reconhecer as pessoas quando a gente se acostuma a vê-las de pijama de centro cirúrgico, né?!

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Aí quando subimos, foi aquele deslumbre generalizado, todo mundo parando pra tirar fotos do salão, todo mundo meio hipnotizado pelo teto e pela opulência em geral do lugar.

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O CEO do hospital começou os trabalhos com um discurso relembrando a história da Medicina no UK e quantas coisas que mudaram o mundo foram descobertas ou inventadas aqui, relembrando a história do THH como primeiro hospital especializado em doença cardiovascular no mundo e comentando o clima gostoso de trabalhar ali. Pra encerrar, ele disse que não temos o que temer: ao invés de sermos absorvidos pela equipe do Barts e London Chest, nós é que vamos “comandar o ritmo em que a banda toca” e criar um clima de trabalho agradável como queremos que seja. Bem legal, bem motivacional mesmo.

Aí quando ele terminou o discurso, apareceram dois cantores de ópera! De início nem acreditei que eram eles mesmo, parecia gravação de tão surreal as vozes!

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Os consultants sentaram com a gente (os trainees) na mesma mesa, super super amigáveis, informais e já embaladinhos em umas pints que tomaram no pub antes de chegar na festa, hahahaha.

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E depois apareceu a banda, tocando Michael Jackson, Kings of Leon… Quando eu fico bebum, eu fico mais nerd ainda, então de repente fiquei pensando em quão absolutamente surreal era eu estar ali dançando Beyoncè e Bruno Mars com uma taça de vinho branco na mão, e em quantas festas da realeza e aristocracia britânica já rolaram ali. Bailes de máscaras, recepcões de estado, jantares de reis e governantes… vestidos rodados, luvas até o cotovelo, homens de chapéu cartola, gente chegando de carruagem… e eu ali!!! Quando que isso aconteceu mesmo?! Totalmente louco! Mais ainda se você estiver bebum! Hahahaha

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Quando acabou, às 23h, os consultants tavam empolgadassos e disseram que iam transferir a festa pra um hotel na rua de trás da Banqueting House, então lá fomos nós, todos os trainees, pro bar do hotel, onde continuamos batendo papo e rindo horrores até quase 3h da manhã… Aí, chamei um táxi, que seguiu até o fim da rua em direção ao rio e quando ele parou na esquina, eu vi tudo deserto, ninguém na rua (sabe como NY nunca dorme? Pois bem. Londres dorme!), o parlamento e o Big Ben à minha direita, o London Eye na minha frente… depois ele foi seguindo pela orla norte do rio, vi do banco de trás do carro a cúpula da St. Paul’s, e pra coroar ele atravessou a London Bridge então vi de camarote a Tower Bridge. E pensei: “GENTE, esse é o meu caminho pra casa!!! ESSE é o meu caminho pra casa!!! O que mais eu poderia querer nessa vida?”. Sério mesmo, parecia uma retardada sorrindo sozinha e quase chorando de felicidade no táxi, o taxista deve ter achado engraçado!

Enfim, foi muito legal mesmo. Mesmo que esses primeiro meses sejam difíceis, e eu sei que serão, ainda acho que o saldo é positivo de poder presenciar todas essas mudanças e o berço do maior centro cardiológico/cardiocirúrgico do UK!

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