Como empacotar um hospital?

Aí vem a parte prática da coisa: como é que se faz a mudança de um hospital?

O cronograma de cirurgias cardíacas marcadas parou na sexta-feira passada, segunda-feira fizemos as últimas cirurgias torácicas e a partir de terça seriam só cirurgias de emergência. Todos os hospitais que normalmente referiam pacientes para o Heart foram avisados e passaram a referir diretamente para o Barts, e então ficamos com uma UTI que foi minguando ao longo da semana.

Sempre tem pacientes crônicos, então sobre esses, precisávamos decidir quem iria de volta para o hospital local do seu distrito (District General Hospital), caso a dependência dele da UTI fosse algo que existiria lá também, tipo desmame da ventilação mecânica, ou se precisavam continuar tendo cuidado super especializado, como por exemplo alguns pacientes com infecção da ferida operatória que precisam ser vistos ao mesmo tempo pelo cirurgião cardíaco e pelo cirurgião plástico, e nesse caso levaríamos eles conosco para o Barts.

Então como eram apenas alguns pacientes, a semana foi bem relax, segunda trabalhei até meio tarde mas de terça em diante tive as tardes livres. Terça de manhã fiz o curso online pra aprender a mexer no sistema de computador no hospital novo, quarta de manhã fui registrar pro meu cartão magnético que dá acesso ao hospital, e quinta de manhã fiz uma transferência.

A transferência em questão era pro Barts, e era um senhor que operou há um mês e estava estável há bastante tempo, só desmamando da ventilação mecânica e cuidando da infecção da ferida operatória. Pois bem, entramos na ambulância, estávamos eu, um enfermeiro sensacional dali do hospital, uma enfermeira excelente da equipe da ambulância com quem eu já tinha feito uma transferência antes e o motorista, um gurizão gente boa que deve ter uns 23 anos.

Arrancamos a ambulância na frente do hospital e antes de completar 3 minutos na estrada, o paciente teve uma arritmia. Aí voltamos para a frente do hospital, porque era obviamente o hospital mais próximo, e conversei com a consultant sobre o que tinha acontecido, ponderando se devíamos levar o paciente pra dentro de novo. Nesse meio tempo, ainda dentro da ambulância e tendo essa conversa, ele voltou ao ritmo e frequência normais. Considerando que metade dos serviços já não estavam mais funcionando, como por exemplo a angioplastia, achamos mais seguro e sábio levar o paciente direto para o Barts.

Ele teve a mesma arritmia mais duas vezes, a pressão caiu um pouquinho, mas eu tratei e estava tudo sob controle. Graças a Deus permaneci calma o tempo todo, como deve ser, acho que também por saber que o Matt e a Victoria são excelentes, tínhamos tudo na mão e teríamos desfibrilado ele dentro de 5 segundos se ele tivesse parado.

Maaaas quando chegamos no outro hospital, assim que pisamos pra fora do elevador, uma enfermeira apareceu do além dizendo “é por isso que nós achamos que transferências devem ser feitas por consultants, isso foi uma transferência de alto risco”. Como estávamos com o paciente e eu tinha mais com que me preocupar do que uma criatura aleatória que antes de nos conhecer já tinha decidido nos odiar, continuei rumo ao leito do paciente.

Quando chegamos lá, mais uma surpresinha: entrou um enfermeiro numa vibe toda macho alfa da parada, estufando o peito pra dizer que ele era o nurse in charge e me perguntando se eu ia comandar a transferência de maca. Falei que sim, e seguimos adiante. O cara começou a encontrar mil coisas pra criticar, reclamou que o paciente não tava sincronizando com o ventilador, inventou que tínhamos perdido o acesso venoso do paciente (sendo que 2 minutos antes, antes de sair da ambulância, eu testei e estava ok), enfim… sabe aquela pessoa que procura defeito em tudo que os outros fizeram como pretexto pra se fazer de boazona e entendida? Pois é.

Nesse meio tempo, o trainee de anestesia de lá tinha sido super gente boa comigo, logo chegou o consultant e o consultant-mór que é um dos chefes. Passei o caso, eles foram agradáveis, me disseram “welcome to the trust”, fizeram uns comentários tipo “eventful transfer, huh?!” como quem sabe que essas coisas acontecem em transferências, por isso mesmo que a gente sempre tem tudo à mão e toma todas as precauções caso uma situação dessas venha a ocorrer.

Enfim, o Matt ficou pra cuidar do paciente o resto do dia porque eles não tinham enfermeiros suficientes (não sei se já falei, mas rola uma falta crônica de enfermeiros e tem trabalho pra dar e vender pra enfermeiros no UK). A Victoria foi no banco da frente com o motorista, e eu voltei na caçamba da ambulância sozinha, olhando Londres lá fora e pensando no que eu faria de diferente caso tivesse exatamente a mesma situação novamente (isso se chama debriefing, foi o Dr. Getulio que nos ensinou a sempre, sempre pensar depois de qualquer coisa que a gente fez o que foi bem, o que foi mal, como a gente melhoraria)…

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Fiquei chocada com a conduta to tal enfermeiro-chefe, porque ele criou um pânico no ambiente que não precisava existir, o paciente tava estável e de volta ao seu normal. As arritmias eram claramente relacionadas à aceleração e desaceleração da ambulância, isso é uma coisa conhecida já, especialmente porque ele tava discretamente desidratado como tentativa de facilitar o desmame da VM… fiquei com raiva e frustrada, porque retrucar rápido nunca foi o meu forte, e em inglês demora pra gente articular uma resposta, então fiquei muito braba porque acabei levando desaforo pra casa mesmo estando convencida de que esse enfermeiro é que tava em pânico por pouca coisa. Quem entra em pânico por pouca coisa não deve trabalhar com cuidados intensivos e nem anestesia, colhega. Ui que ódio de não ter dito nada na hora.

Mas enfim, fui fazendo as pazes com a situação na minha cabeça. Pensei “tudo bem, meu primeiro contato com Barts foi uma porcaria, mas foram só esses dois enfermeiros, os médicos foram legais e o restante da equipe também, de repente esse enfermeiro-chefe tava tendo um mau dia ou sabe-se lá o quê, quem sabe não vai ser tão ruim assim no sentido de eles procurarem defeitos no tratamento dado pela equipe do Heart”.


Cheguei de volta no hospital e assim que entrei na salinha dos plantonistas, me contaram que o tal consultant-mór tinha ligado pro diretor clínico do hospital, que é um consultant ali do Heart, pra dizer que a minha consultant tinha sido imprudente ao não ir junto comigo, que aquela transferência tinha sido de alto risco, que onde é que já se viu, esse tipo de coisa tem que ser feito por um consultant e não uma trainee.

A Liz respondeu “minha trainee é brasileira, amigo, tenho certeza que ela já viu coisa pior e que ela jamais entraria em pânico com uma arritmia”. Todos os outros consultants que estavam na sala disseram “you did well Gabi, unfortunately you’re caught in the middle, they’re all idiots”. Então apoio 100% dos meus staffs! Mas puts, mesmo assim fiquei super chateada de me ver no meio de um imbróglio muito mais político do que médico.

Almoçamos juntos, eu e mais 3 trainees, e fui deixar uns documentos no RH… Quando mais tarde essa minha consultant me mandou uma mensagem dizendo “That’s my girl, mais culhões do que os meninos do Barts” eu achei o máximo e relaxei um pouco. E pra salvar meu dia, fui comprar uns acessórios pra câmera, cheguei em casa, troquei de roupa e corri pra Westminster Bridge pra fotografar o Parlamento na blue hour.

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Eu amo como fotografar me faz esquecer de todo o resto! Tô super aprendendo ainda, mas tive uma conversa muito legal com o vendedor da Camera World, ele me disse que depois que você atingiu um certo patamar, ele não acredita muito em cursos de fotografia, acha que são um desperdício de dinheiro e tempo. Aí comentei que sinto que tô tipo num platô muito amador sabe, que sei usar os controles manuais mas não sei muito pra onde ir pra progredir mais?! Aí lembrei que a situação em que mais me empolguei com fotografia nos últimos meses foi quando resolvi aprender a fotografar fogos de artifício. Aí ele disse: “EXATAMENTE! Daqui pra frente, saiba que o teu progresso provavelmente vai ser assim, você escolhe algo pra aprender a fazer, vai lá e aprende. Sozinha. Com ajuda de livros, do YouTube, de blogs, sei lá. Mas não pague £300 por um curso de fotografia”. E realmente, cheguei ali, vi que pra reproduzir o que eu tava vendo, ia precisar de uma técnica chamada HDR, então agradeci aos deuses do 3G/YouTube/Google e aprendi right there and then como fazer! E olha que não ficou nada mau pra uma primeira tentativa, né?!

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Enquanto eu tava lá fazendo as minhas fotos e curtindo uma musiquinha no fone de ouvido, um casal falou comigo pra perguntar se era proibido pular o portão que leva pra uma escadinha até o Tâmisa. Falei que não sabia e perguntei que foto ele estava imaginando – ele era o fotógrafo e ela era a namorada ultra-mega-paciente com as 2938 tentativas de atingir a foto perfeita (ou seja, ela era o Alex dele :). No fim das contas, o cara é um iraniano criado no Canadá, cuja namorada é uma americana da minha idade, e os dois moram em Miami. Fiquei batendo papo com os dois um tempão, sobre fotografia, sobre política (sabia que só pode votar nos EUA se for cidadão americano?! Nem tendo green card há mil anos e pagando imposto lá. Só sendo cidadão mesmo), sobre impostos (eles pagam 20% só!!! Eu não tinha noção! E com um bom advogado, eles pagaram 18% ano passado) e sobre sistema público de saúde, ou a falta de. Descobri que o cara é médico também, aí foi mais um assunto ainda. Enfim, super legal conhecer gente desse jeito! Trocamos emails e quase causei uma crise no relacionamento quando mostrei umas fotos minhas e dei umas dicas de lugares bons pra fotografia noturna aqui perto e ela tava morreeeendo de frio e louca pra voltar pro hotel! Hahahaha

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Enfim, voltando ao imbróglio da transferência, relaxei mais ainda ontem quando o staff do Heart que vai ser diretor da UTI no Barts me contou que esse consultant-mór ligou pra pedir desculpas, dizer que foi uma overreaction e que o tal enfermeiro é um famoso causador de problemas. Ufa! Pelo menos ficou claro quem é quem! Hehehehe

E aí minha semana terminaria com três noites de plantão, sexta, sábado e domingo. Então sexta de manhã fui ver a exposição Sony World Photography Awards, na Somerset House, voltei pra casa com a intenção de tirar uma sonequinha pré-plantão e qual foi minha surpresa quando a plantonista do dia me liga e diz: “Gabi, transferimos o último paciente. Não tem mais paciente nenhum aqui, o hospital está oficialmente fechado. Tô indo embora logo mais. Aproveite teu findi de folga!”.

CUMA????

Os gerentes da mudança foram tão, mas tão eficientes, que terminaram o tróço todo 3 dias antes do prazo! Eu sabia que seriam plantões tranquilões e já tava dando graças que ia poder ir lá cuidar de um ou dois pacientes, escrever um monte no blog, organizar minha agenda e comer um monte de porcaria porque né, plantão tem que rolar uma auto-recompensazinha, hehehehe.

Só que meus sapatos de centro cirúrgico ainda estavam lá e eu tinha que entregar meu cartão magnético, e além do mais me deu uma baita deprê pensar que eu nunca mais pisaria no hospital! Então troquei de roupa e fui pra lá!

Gente, que coisa louca um hospital totalmente vazio. Parecia uma cidade fantasma! Muito estranho. Aí fiquei batendo papo com as duas colegas que estavam lá e a fellow de pesquisa, tiramos umas fotos, rolou um #mimimi básico sobre como é um lugar legal pra trabalhaaar e como não queríamos ir embooora, etc etc.

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A minha sorte é realmente algo fenomenal: mais do que plantões tranquilos, eu teria o melhor do melhor do mundo: plantões inexistentes!!! E ainda por cima tô de folga a semana toda! Bizarro, acho que nunca mais vou ter tanta sorte numa escala de plantão na vida! Hahahaha

Fiquei quase sem saber o que fazer da vida, sabe como? Meus planos para o fim de semana: trabalhar-dormir-comer-trabalhar-dormir-comer E agora, José? O que fazer com 72h livres que eu até o minuto atrás não teria?!

Então fomos pro pub pra brindar a minha sorte e comemorar the shift that never was e também reforçar nossas esperanças de que as dores de crescimento que estão por vir valham -muito!- a pena pelas oportunidades que teremos em um centro world-class.

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Quem viver, verá!

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