SKATE at Somerset House

Uma das coisas que eu mais amo em Londres é a sazonalidade da vida: cada estação traz consigo um pacotão de “atividades tipicas”.

Então nessa época de Natal começam a surgir vários rinques de patinação no gelo – geralmente na frente de um ponto turístico, com uma árvore de natal enorme e maravilhosa do lado, música animada e um lugar em anexo pra tomar um drink ou chocolate quente depois.

Eu era aquela criança que não queria voltar pra casa na hora do jantar porque tava andando de roller rua acima e abaixo, então mesmo antes de tentar patinar no gelo, eu sabia que ia amar!
Aí semana passada quando a Cat me falou que estaria aqui a trabalho, eu respondi imediatamente sem pensar duas vezes: VAMOS PATINAR NO GELO?!

As pistas funcionam o dia todo porque são abertas pra gente de todas as idades, mas assim que comecei a investigar as opções, eu vi que na pista da Somerset House rola um negócio chamado Club Nights, em que DJs renomados são convidados pra fazer setlists especiais e uma vibe mais adulta e baladinha mesmo, então reservei pra gente. Como tudo em Londres, os ingressos já estavam quase esgotados, então marcamos o último horário, das 22:30 às 23:30!

Aí como estaríamos em Covent Garden mesmo, resolvemos sair pra jantar e beber uns drinks num restaurante mexicano ali por perto antes. Pensando em retrospectiva, comida apimentada e margaritas antes de ir patinar poderiam ter sido uma receita para um desastre, hahahah mas saiu mais certo que a encomenda!

Escolhemos o Cantina Laredo, que não decepcionou. Nunca fui muito fã de guacamole, mas ontem descobri que era porque nunca tinha provado um guacamole de respeito: gente que delicia!!! Adoro comida bem temperada e amei todos os pratos! Os drinks também não ficaram pra trás: um melhor que o outro e todos bem generosos (leia-se enormes). Acabei não fotografando muito o jantar nem o restaurante porque engatamos o maior papo assim que chegamos, ela e o Bobby estavam nos EUA quando fomos pra Salzburg em agosto, então não nos víamos desde abril!  

Acho a Somerset House maravilhosa, chegamos lá no intervalo entre um grupo e outro pra dar de cara com ISSO:
  
 
A Somerset House sozinha já faz verão, mas com esse rinque iluminado, essa árvore maravilhosa (a parceria é com a Fortnum & Mason, que abriu um pop-up restaurant ali do lado) e a lua cheia pra completar, fiquei ali uns minutinhos boquiaberta morrendo de amor por Londres e pensando que não queria mais nada da vida!
Minha primeira impressão ao botar os patins no gelo foi WHOA QUE NEGÓCIO LISO, mas assim que a gente aprende a manter o centro de gravidade, a coisa engrena. É bem mais difícil do que o roller porque a lâmina é fininha e o gelo é super escorregadio, então o atrito é muito menor, é muito mais instável e mesmo parado, se você se inclinar pra trás, você vai pro chão! Hahaha enfim, depois de aprender essa parte, os movimentos em si são iguais a qualquer patins né, então parecia uma criança de tão empolgada e me diverti horrores!

    

O legal é que tá todo mundo no mesmo barco, tinha umas 3 ou 4 pessoas fazendo mil acrobacias e patinando com um pé só, mas a imensa maioria são pessoas como eu e você, que estão ali pela primeira vez ou patinaram pela última vez ano passado, então rola aquela camaradagem e todo mundo rindo de si mesmo!     

O DJ tocou várias clássicas que todo mundo adora, Vanilla Ice, Cindy Lauper, Michael Jackson… Enfim, amei de paixão e espero poder ir mais vezes antes que os rinques fechem! To de olho no do Natural History Museum que eu acho um dos prédios mais maravilhosos de Londres e a pista é parceria com a Swarovski, e o da Tower of London, mas não sei, porque apesar da vista maravilhosa acho que é mais pra criancas e tem poucos horários. Quem viver, verá!

Filosofia (não-) fashionista

(tô ligada que esse assunto é diametralmente oposto ao anterior no quesito importância no mundo, mas já tava pronto no rascunho e como isso é uma raridade MOR, vou liberar mesmo assim, hehehe)

Nos últimos anos antes de me mudar pra Inglaterra, eu já vinha gastando a maior parte do meu dinheiro em viagens ou outras experiências. Roupas, bolsas e acessórios estavam láaaa embaixo na lista de prioridades, e combinando isso com os preços astronômicos das coisas no Brasil, o resultado foi que eu raramente ia às compras. Mas o pior de tudo é que, quando surgia uma oportunidade boa, tipo em viagens onde as coisas eram em geral mais baratas, eu comprava meio indiscriminadamente seguindo os critérios “o preço é bom?” e “gostei da peça?”, não o critério principal: “preciso disso?”.

Não vejo absolutamente nada de errado com isso, sabe, quem nunca mandou ordenar os itens por preço mais baixo para mais alto em loja online né?! Hahahah… Mas nos últimos tempos, tenho notado duas coisas: a primeira é que meu gosto é bem clássico e ladylike, acho engraçadas e bizarras as críticas dos fashionistas à Kate por fazer “safe sartorial choices” porque sou exatamente desse time, longe de mim sair correndo pra comprar uma bota over the knee porque tá na moda. Muito pelo contrário, isso acaba criando um problema: quando as cores/silhuetas/estilos que eu gosto estão na moda, tenho que aproveitar, porque na maior parte do tempo passo o maior perrengue pra achar. Pra que frustração maior que pegar uma blusa linda nas araras e descobrir que é cropped? Ou uma saia maravilhosa e descobrir que é midi? Um casaco bem no estilo que eu queria e descobrir que o corte é boxy, que além de eu achar feio, é a pior escolha possível pro meu tipo de silhueta?! Bah, passo raiva! Hahahaha #classemediasofre mas enfim… Isso leva imediatamente à segunda coisa: nessa altura do campeonato, quando eu gosto de alguma peça, eu provavelmente vou continuar gostando por uns bons anos! Acho que meu estilo já se estabilizou o suficiente pra eu poder julgar bem uma peça, então comecei a sentir vontade de ter poucos e bons. Adoro o Tim Gunn, um consultor de moda que defende a idéia de que existem 10 peças-chave no guarda-roupa feminino e que nessas peças vale a pena procurar bem, achar uma que a gente ama, investir, cuidar direitinho pra manter, usar milhares de vezes e de vários jeitos diferentes.

Só que pra construir um guarda-roupa assim, precisa ter paciência e coragem! Paciência porque além de ser uma caça ao tesouro pra quem é crica como eu, peças de qualidade tendem a custar caro, mesmo quando a gente não paga pelo prestígio da marca, então é um processo demorado. E coragem porque você está conscientemente fazendo uma escolha com que você pretende conviver por bastante tempo, então no meu caso sempre rola aquela dúvida “ih mas vai que semana que vem eu descubro uma outra peça que faz a mesma função e gosto ainda mais?”. Mas acho que com esse segundo problema é igual a achar um vestido de festa que você gosta: pare de procurar imediatamente!

Eu precisava de uma bolsa preta pro dia a dia. Achei, comprei, paguei mais caro do que pretendia mas tô apaixonada por ela desde que comprei. E nunca mais procurei/cobicei bolsas pretas, pelo simples motivo de que não preciso de uma! Não é maravilhoso? Acho libertador e pretendo levar a vida assim, porque acho que além de firmar um estilo pessoal, é uma maneira de se blindar um pouco contra o consumismo desenfreado. Não piro quando vejo aqueles closets abarrotados de roupas, gente, sério mesmo. Fico agoniada com acúmulo louco de coisas. O que eu quero pro meu futuro fashionista (ou NAO-fashionista, no caso) é abrir o meu guarda-roupa e ver uma coleção de peças que tem tudo a ver comigo, que fazem parte da minha história, quase como uma curadoria de museu sabe?! Vamos ver se vou conseguir colocar isso em prática. Devagar e sempre!

Tendo dito isso, acho tentador que aqui as coisas se renovam muito, muito rápido, no meu caminho pro trabalho tem sempre coisa nova nas vitrines das fast-fashion. E os preços são razoáveis, então se a gente não se controlar, acaba comprando uma coisinha aqui e outra ali, de novo porque gostou e porque cabia no bolso, mas não porque precisava. E às vezes somando os valores dessas compras “de estação”, daria pra comprar uma única peça atemporal. Acho que o que eu quero dizer é que quero comprar de um jeito mais consciente, mais pensado, mais planejado mesmo. Nada de “ah, vou entrar pra ver o que tem de novidade”.

Então hoje eu quero registrar (pra poder me cobrar depois, hehehe) as coisas que eu de fato preciso nesses próximos meses:

  • Jeans: alguém de fato gosta de comprar jeans? Eu tô sempre querendo perder 2-5kg então fico sempre postergando, deixando pra depois. Mas né, chega uma hora que é um mal necessário, hehehe. Então quero jeans skinny escuros, e se encontrar um modelo bom quero comprar o mesmo em preto também.

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  • Casaco de lã caramelo: tenho um casaco preto que eu amo, mas um casaco sozinho não faz inverno na Inglaterra, hehehehe. Quero um acinturado, tailored, desses bem femininos que valorizam o meu corpo e que vão bem desde o trabalho até um jantar em restaurante bacana.

Casaco caramelo

  • Bota preta de camurça: faz tempo que quero uma dessas e devia ter comprado no Brasil no inverno passado, porque aqui as duas únicas que eu encontrei custam os olhos da cara, então continuo na procura de uma mais mid-range e/ou criando coragem pra comprar a escolhida! Pra usar com jeans mas principalmente com vestidos/saias e meia-calça, que eu adoro e acho super gostoso de usar nessa época. Prefiro usar vestidos no outono e inverno do que no verão, porque na imensa maioria das vezes, acho tudo curto demais, então nessa época acho uma beleza porque é só usar uma meia preta opaca e fico bem mais confortável.

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  • Cardigan de cashmere: uma coisa que eu não fazia e venho fazendo nos últimos tempos é sempre olhar a etiqueta pra ver a composição da peça. Incrível a diferença em aquecimento que faz uma maior porcentagem de lã, e descobri que mesmo 5% de cashmere já faz uma diferença enooorme na textura! Agora meu próximo objetivo é comprar uma blusa 100% cashmere, pra cuidar tipo filha e ter por muitos anos, hehehe.

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  • Casaco de pena de ganso ultra leve: pra usar em situações informais em que o que importa mesmo é estar quentinha, tipo nas caminhadas que fazemos quando vou pra casa da minha sogra ou quando saio à noite pra fotografar. Trouxe uma do Brasil que devo ter há uns 7 anos, mas ela não é tão quente quanto eu gostaria. Essa aí embaixo é da Uniqlo, uma marca especializada em roupas de alta performance. Achei que as coisas seriam bem mais caras! Uma dessas é só uns £15 mais cara que uma qualquer da Mango… Só não sei se compro essa cor de burro quando foge, a azul ou a preta.

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  • Blusas (jumpers), cachecóis e gorros de qualidade melhor: mesmo argumento que ali em cima, quanto mais lã, mais quentinha é a peça. No começo do outono, comprei uma blusa de fast fashion que nem foi muito cara, mas tem uma porcentagem maior de lã, que nem me lembro quanto, e só posso usar quanto tá 10 graus pra menos, hehehehe senão morro de calor! Mas enfim, a maioria dos acessórios da H&M, Topshop, Zara são de acrílico, então tenho um gorro cinza bem bonitinho que não posso usar por mais de meia hora, porque o negócio me pinica tanto fico me coçando igual um macaco com piolho! Hahahah puro glamour!
  • Lightroom: esse não é de vestir, mas eu preciso mais do que roupa! Hahahah é um software de edição de imagens e eu preciso urgentemente otimizar meu workflow. Organizar melhor pra editar mais rápido. Adoro fotografar e queria postar mais aqui, imprimir, etc mas acabo sempre emperrando na pós-produção.

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Enfim, até o fim do inverno eu volto pra contar quantos itens risquei da lista e quantos eram da qualidade que eu queria!

One world

Esse post seria um dos tópicos do próximo, continuando as lições que aprendi nos meus 27 anos. Mas depois dos atentados em Paris na semana passada, tenho pensado um monte nisso, então resolvi escrever separado.

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A primeira vez na vida que eu me dei conta do quanto duas pessoas de países diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes podem ser parecidas foi quando eu conheci o Alex. Logo depois de sermos apresentados, começamos a conversar e não paramos nunca mais! Um dia, depois de passarmos horas e horas conversando sobre mil assuntos, eu me dei conta de que parecia que eu tava falando a minha própria língua. A conversa fluía tão bem, era tão gostoso estar com ele, que eu esquecia completamente que ele tinha tido uma vida totalmente diferente da minha. Tínhamos muito mais semelhanças do que diferenças, e as diferenças eram tão fascinantes que eu só queria descobrir mais sobre elas. Claro que nem tudo são rosas e diferenças culturais podem ser difíceis de contornar, e desde então já descobrimos essas também, mas foi a primeira vez na vida em que eu vi alguém que parecia tão diferente de mim como meu igual!

A segunda vez que senti isso foi agora, quando me mudei pra Londres e passei a praticar Medicina aqui. Uma das minhas maiores alegrias é interagir diariamente com gente do mundo inteiro. Médicos ingleses, irlandeses, italianos, croatas, búlgaros, sul-africanos. Enfermeiros nigerianos, filipinos, espanhóis, indianos. Mas o maior aprendizado de todos, como sempre, vem dos pacientes. Me sinto extremamente rica e grata por conversar com um paciente nepalês de manhã, um paciente cipriota a tarde e uma paciente afegã no fim do dia. Mais do que isso, quando faço a consulta pré-anestésica, pra conhecer o paciente, perguntar sobre doenças prévias, que medicações tomam, etc, eu tenho o privilégio de ver diante dos meus olhos a interação dessas pessoas com os próprios familiares! Muitas, muitas vezes fico emocionada com as histórias que ouço, como sou a maior manteiga derretida, várias vezes tenho que usar minhas táticas de guerra pra não ficar lá de olhos marejados na frente deles, heheheh, volto pra casa pensando neles e na vida.

Tanto pela minha experiência pessoal quanto profissional, eu tenho plena consciência do peso das diferenças culturais e de linguagem. Do quanto podem causar mal-entendidos, expectativas frustradas ou até perigos. Não estou negando nada disso.

Mas o que eu aprendi, e continuo aprendendo diariamente, é que todas essas coisas são roupas, e que quando se despem, o que sobra é humanidade pura e simples. Somos todos iguais. A emoção de uma mãe após o parto, a curiosidade de uma criança de 3 anos de idade sobre o mundo, o olhar que só se tem pra quem se ama, a saudade que se sente de alguém que já partiu, a tristeza quando se vê um massacre como o da semana passada… As lágrimas nos olhos quando os pacientes se despedem das suas famílias antes de ir pro centro cirúrgico são as mesmas. Talvez por trabalhar com cirurgias de grande porte, eu veja as pessoas numa situação mais vulnerável, quando não tem espaço pra mesquinharias cotidianas. No dia a dia, pode ser mais difícil ver com tanta clareza. Mas depois que eu vi, não consigo desver. Não importa se o meu paciente tá segurando um rosário e com a Bíblia na cabeceira da cama, se tá usando hijab e lendo o Alcorão quando eu chego, se tá usando um turbante Sikh ou se tem a cabeça raspada de uma monge budista, eu vejo tudo isso como uma coisa só. Fé. O carinho dos filhos com os pais velhinhos é o mesmo, “deixa que eu pego teus remédios na mala, pai, sei que você fica com falta de ar fazendo sozinho”.

As pessoas podem expressar os seus sentimentos de maneiras bem diferentes, mas a essência humana é a mesma, e o corpo humano certamente também.

Quão menos ódio existiria no mundo se a gente focasse nas semelhanças ao invés das diferenças… Uma vez li que quando você tá com raiva de alguém, tipo um colega de trabalho otário, ajuda lembrar que aquela pessoa é filha de alguém, que é amada por alguém, que não apesar de estar fazendo algo com que você discorda, ela não é uma pessoa intrinsicamente má. Claro que é difícil né, ainda mais na hora da brabeza, mas eu acho que a chave pra um mundo mais pacífico é justamente esse pensamento agregador, que enxerga através de todas as diferenças, que vê um denominador comum ao invés de criar divisões e categorias de gente.

Hoje de manhã eu tava conversando sobre isso com o Alex e ele me contou sobre o conceito de continuous thinking vs. discontinuous thinking. Exatamente o que eu falei ali em cima, continuous thinking é a capacidade de enxergar que tudo é um contínuo e que qualquer divisão é arbitrária. Quando é que alguém deixa de ser branco e passa a ser negro, dentre todos os tons de pele humana que existem? Quando foi que surgiu o primeiro Homo sapiens, dentre todas as pequenas adaptações evolutivas que surgiram, de geração em geração? Quando é que a vida começa, quem é que decidiu que a vida começa na fecundação e portanto quer legislar sobre o corpo de outras mulheres e impedir o aborto?

Além do pensamento contínuo, precisamos de mais empatia. Empatia é a capacidade da gente se colocar no lugar do outro e imaginar como ele se sente. E isso é uma habilidade adquirida! Tá rolando um programa na TV aqui chamado The Secret World of 4, 5 and 6 Year-Olds que mostra claramente que crianças de 4 anos são egocêntricas por natureza e que à medida em que vão se desenvolvendo, vão adquirindo a sensibilidade para com os outros, a capacidade de colocar em prática o “não faça ao outro aquilo que machucaria a ti”, sabe?

Eu não posso tirar o ódio do coração de um terrorista. O que eu posso fazer é tirar o ódio do meu próprio coração. É trabalhar todos os dias pra ver o mundo com mais compaixão, com mais empatia, com mais amor. Eu vejo um só mundo. Vamos agir de acordo.

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