One world

Esse post seria um dos tópicos do próximo, continuando as lições que aprendi nos meus 27 anos. Mas depois dos atentados em Paris na semana passada, tenho pensado um monte nisso, então resolvi escrever separado.

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A primeira vez na vida que eu me dei conta do quanto duas pessoas de países diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes podem ser parecidas foi quando eu conheci o Alex. Logo depois de sermos apresentados, começamos a conversar e não paramos nunca mais! Um dia, depois de passarmos horas e horas conversando sobre mil assuntos, eu me dei conta de que parecia que eu tava falando a minha própria língua. A conversa fluía tão bem, era tão gostoso estar com ele, que eu esquecia completamente que ele tinha tido uma vida totalmente diferente da minha. Tínhamos muito mais semelhanças do que diferenças, e as diferenças eram tão fascinantes que eu só queria descobrir mais sobre elas. Claro que nem tudo são rosas e diferenças culturais podem ser difíceis de contornar, e desde então já descobrimos essas também, mas foi a primeira vez na vida em que eu vi alguém que parecia tão diferente de mim como meu igual!

A segunda vez que senti isso foi agora, quando me mudei pra Londres e passei a praticar Medicina aqui. Uma das minhas maiores alegrias é interagir diariamente com gente do mundo inteiro. Médicos ingleses, irlandeses, italianos, croatas, búlgaros, sul-africanos. Enfermeiros nigerianos, filipinos, espanhóis, indianos. Mas o maior aprendizado de todos, como sempre, vem dos pacientes. Me sinto extremamente rica e grata por conversar com um paciente nepalês de manhã, um paciente cipriota a tarde e uma paciente afegã no fim do dia. Mais do que isso, quando faço a consulta pré-anestésica, pra conhecer o paciente, perguntar sobre doenças prévias, que medicações tomam, etc, eu tenho o privilégio de ver diante dos meus olhos a interação dessas pessoas com os próprios familiares! Muitas, muitas vezes fico emocionada com as histórias que ouço, como sou a maior manteiga derretida, várias vezes tenho que usar minhas táticas de guerra pra não ficar lá de olhos marejados na frente deles, heheheh, volto pra casa pensando neles e na vida.

Tanto pela minha experiência pessoal quanto profissional, eu tenho plena consciência do peso das diferenças culturais e de linguagem. Do quanto podem causar mal-entendidos, expectativas frustradas ou até perigos. Não estou negando nada disso.

Mas o que eu aprendi, e continuo aprendendo diariamente, é que todas essas coisas são roupas, e que quando se despem, o que sobra é humanidade pura e simples. Somos todos iguais. A emoção de uma mãe após o parto, a curiosidade de uma criança de 3 anos de idade sobre o mundo, o olhar que só se tem pra quem se ama, a saudade que se sente de alguém que já partiu, a tristeza quando se vê um massacre como o da semana passada… As lágrimas nos olhos quando os pacientes se despedem das suas famílias antes de ir pro centro cirúrgico são as mesmas. Talvez por trabalhar com cirurgias de grande porte, eu veja as pessoas numa situação mais vulnerável, quando não tem espaço pra mesquinharias cotidianas. No dia a dia, pode ser mais difícil ver com tanta clareza. Mas depois que eu vi, não consigo desver. Não importa se o meu paciente tá segurando um rosário e com a Bíblia na cabeceira da cama, se tá usando hijab e lendo o Alcorão quando eu chego, se tá usando um turbante Sikh ou se tem a cabeça raspada de uma monge budista, eu vejo tudo isso como uma coisa só. Fé. O carinho dos filhos com os pais velhinhos é o mesmo, “deixa que eu pego teus remédios na mala, pai, sei que você fica com falta de ar fazendo sozinho”.

As pessoas podem expressar os seus sentimentos de maneiras bem diferentes, mas a essência humana é a mesma, e o corpo humano certamente também.

Quão menos ódio existiria no mundo se a gente focasse nas semelhanças ao invés das diferenças… Uma vez li que quando você tá com raiva de alguém, tipo um colega de trabalho otário, ajuda lembrar que aquela pessoa é filha de alguém, que é amada por alguém, que não apesar de estar fazendo algo com que você discorda, ela não é uma pessoa intrinsicamente má. Claro que é difícil né, ainda mais na hora da brabeza, mas eu acho que a chave pra um mundo mais pacífico é justamente esse pensamento agregador, que enxerga através de todas as diferenças, que vê um denominador comum ao invés de criar divisões e categorias de gente.

Hoje de manhã eu tava conversando sobre isso com o Alex e ele me contou sobre o conceito de continuous thinking vs. discontinuous thinking. Exatamente o que eu falei ali em cima, continuous thinking é a capacidade de enxergar que tudo é um contínuo e que qualquer divisão é arbitrária. Quando é que alguém deixa de ser branco e passa a ser negro, dentre todos os tons de pele humana que existem? Quando foi que surgiu o primeiro Homo sapiens, dentre todas as pequenas adaptações evolutivas que surgiram, de geração em geração? Quando é que a vida começa, quem é que decidiu que a vida começa na fecundação e portanto quer legislar sobre o corpo de outras mulheres e impedir o aborto?

Além do pensamento contínuo, precisamos de mais empatia. Empatia é a capacidade da gente se colocar no lugar do outro e imaginar como ele se sente. E isso é uma habilidade adquirida! Tá rolando um programa na TV aqui chamado The Secret World of 4, 5 and 6 Year-Olds que mostra claramente que crianças de 4 anos são egocêntricas por natureza e que à medida em que vão se desenvolvendo, vão adquirindo a sensibilidade para com os outros, a capacidade de colocar em prática o “não faça ao outro aquilo que machucaria a ti”, sabe?

Eu não posso tirar o ódio do coração de um terrorista. O que eu posso fazer é tirar o ódio do meu próprio coração. É trabalhar todos os dias pra ver o mundo com mais compaixão, com mais empatia, com mais amor. Eu vejo um só mundo. Vamos agir de acordo.

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3 respostas em “One world

  1. Engraçado esse seu sentimento. Também tenho a impressão de que tudo é muito parecido apesar de diferente.

    Tenho feito um trabalho voluntário nos últimos seis meses e percebo muito isso. Faço massagem nas mãos, braços, costas e pescoço de pessoas em crise pela Cruz Vermelha Britânica! Tem dia que atendo em hospital, tem dia que atendo em centro de refugiados. É curioso ouvir as histórias de pessoas enfermas que ainda sonham em viajar por tantos lugares, ou de pessoas solitárias que só querem viver em paz em um país e identificar esses sentimentos universais que todos têm.

    Outro dia uma colega britanica descobriu que estou morando aqui há apenas um ano apenas e perguntou como tinha sido a mudança, se a vida que eu levava no Brasil era muito diferente da que eu levo aqui e tal. Eu automaticamente disse que não, não era uma vida diferente. A rotina era essencialmente a mesma, mas o ‘mood’ das pessoas era diferente: os brtiânicos mais pragmáticos e realitas, enquanto os brasileiros parecem mais preocupados em fazer os outros se sentirem acolhidos e, ao mesmo tempo, têm uma certa dificuldade em cumprir uma tarefa ‘straightforward’.

    Às vezes eu não reflito muito sobre as coisas que eu vivo aqui (talvez devesse escrever um diário! kkkk), mas essa conversa e seu texto me fizeram pensar que o que vale da experiência de morar fora são justamente esses diferentes ‘moods’ que te fazem se colocar na pele de outra pessoa e o esforço de conciliar essas muitas essências.

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    • Nossa, que legal o seu voluntariado!!! Nunca tinha ouvido falar nisso, incrível como a falta de toque, do contato pele a pele, contribui pra sensação de isolamento e solidão de pessoas em situação vulnerável né?! Deve ser muito gratificante.
      Concordo plenamente com a tua análise, inclusive adquirir essas características de pragmatismo e “mente enxuta e organizada” faz parte dos meus desafios profissionais. O brasileiro tem um approach menos linear mesmo, e menos racional, mais emocional né?!
      O blog me ajuda muito a refletir sobre as minhas experiências, sinto muito mesmo que não consiga prioriza-lo mais!

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