Londres natalina

Esses últimos dias tem sido bem do jeito que eu gosto: mil atividades e aquela sensação gostosa de folga bem aproveitada no fim do dia, sabe?! Durante a faculdade e a residência eu vivia me sentindo tão culpada por não estar estudando, que acabava não aproveitando direito meu tempo de folga. Além disso eu me sentia sempre cansada, sem energia, então acabava perdendo meu tempo na internet, ou assistindo séries, ou dormindo. Não necessariamente nessa ordem. Heheheh não que essas sejam coisas ruins, mas é o conceito de dark playground explicado nesse artigo maravilhosamente verdadeiro que todo procrastinador deveria ler na vida!

E uma das coisas que eu mais estou amando na minha vida londrina é que eu tenho valorizado e aproveitado muito bem meu tempo de folga! E como consequência, tô muito mais satisfeita com a vida que levo. As gurias do trabalho um tempo atrás me disseram que achavam surreal o quanto eu aproveitava meu tempo livre e daonde eu tirava tanta energia. A resposta é: não sei! Mas alguma coisa acontece no meu coração londrino que a energia simplesmente brota da fonte nos momentos mais inesperados!

Apesar de estar oficialmente de folga do hospital desde semana passada quando terminei meus plantões, fiquei aqui em Londres mais uns dias porque me voluntariei pra ser tutora de habilidades clínicas pra alunos do terceiro ano da faculdade em umas sessões de simulação.

Aí como tinha isso na quinta e sexta o dia todo, resolvi marcar minha passagem pra Dorset na segunda de manhã, porque aí ainda poderia aproveitar mais um fim de semana de espírito natalino em Londres e tals.

Quinta já comecei o dia cedo: a Bee tá indo morar na África do Sul por 3 meses, então eu sugeri tomarmos café da manhã juntas pra nos despedirmos, já que o dia dela no departamento começava ao mesmo tempo que a minha função com as simulações. Aí ela falou: “AH TENHO UMA IDEIA: você topa me encontrar no Monument as 7 da manhã? Eu e a Anne esperamos você lá”. Na hora concordei amarradona, mas depois o Alex decidiu voltar pra Dorset bem nesse dia, então foi uma novela pra me arrastar da cama quentinha e me despedir dele, mas né, fui.

E olha, valeu a pena!!! Chegando lá, me dei conta na hora que ela tinha reservado uma mesa no topo do Walkie Talkie, pra gente. Fomos no Sky Pod bar, que é no saguão principal. Ali eles servem salgados e doces frios, e bebidas. Na Darwin Brasserie, que fica na cápsula, aí rola um esquema mais brunch mesmo, com pratos quentes e tals, mas não teríamos tempo suficiente pra curtir, já que tínhamos que caminhar em meio ao exército de homens de preto da City até o hospital em breve.  

   
Quando mandaram o email recrutando voluntários pra essas sessões, eu respondi na hora me oferecendo porque achei uma maneira boa e mínimo esforço (já que era no próprio hospital) de ganhar um pouco mais de experiência sobre o sistema inglês, melhorar meu currículo e revisar uns conceitos básicos.

Fiquei meio ansiosa antes de começar porque não tive nada parecido enquanto eu era estudante, mas a cada grupo de alunos, eu ia melhorando uma coisa ou outra que não tinha ficado muito boa e perdendo a vergonha. Só que a guria que era minha dupla era ainda mais tímida do que eu, então ela acabava ficando mais no controle do simulador e eu na parte de interação com os alunos. Como na quinta-feira eram cenários clínicos e “a paciente tá deteriorando agudamente e você é chamado com urgência para avaliá-la” (12 vezes seguidassss), tinha aquele clima tenso de urgência, e por estar totalmente fora da minha zona de conforto, terminei o dia exausta.

Tudo que eu queria era voltar pra casa, ficar quieta no meu canto e ir dormir cedo. Mas no meu último plantão, um dos meus colegas comentou que nesse dia ia rolar a comemoração de natal mais famosa da St. Paul’s Cathedral, os cantos de natal. Coloquei meu casaco e saí do hospital pensando em ir direto pra casa, mas aí em menos de 200m me dei conta de que não sei onde vou estar no ano que vem e que essa era uma oportunidade genial de entrar na St. Paul’s pela primeira vez.

  
Vi que a fila tava dobrando a esquina mais de 1h antes da cerimônia começar e pensei “ah, vou ficar aqui na fila e ver qual é”. Um dos seguranças veio avisando que “as pessoas depois da esquina podem não entrar, ok pessoal?” mas aí a guria na minha frente na fila, a guria atrás de mim e eu começamos a bater o maior papo, quando vimos a fila foi andando e logo já estávamos lá dentro! Mas não sem antes beber um quentão com a guria da nossa frente, hahahaha ela tinha trazido uma garrafa térmica e duas canecas (!) dentro da bolsa. Como não amar os ingleses né cara, além de curtir uma fila meticulosamente organizada, eles ainda vêm preparados com farofada em mãos pra não ficarem ranzinza enquanto esperam!

  
Ficamos bem lá atrás, então tecnicamente nem posso dizer que “vi a igreja”, mas em compensação a experiência em si foi tipo uma fração do Nirvana, hehehehe. Já falei num post bem do começo do ano como eu amo a Evensong da Westminster Abbey né. Não sou uma pessoa religiosa, mas adoro a energia etérea de qualquer templo, seja de qual religião for. E gosto muito do fato de as igrejas anglicanas serem menos rebuscadas na decoração do que as católicas, porque aí a arquitetura é a estrela da festa. A maneira que a luz incide nas pedras, o formato dos arcos e das janelas, enfim… Aí quando se soma a isso o silêncio sepulcral de uma cerimônia sendo interrompido só pelo coral, acho extremamente relaxante, quase como se fosse uma meditação. Quando é no tom grave dos cantos gregorianos mesmo, bah, só queria que ao invés de bancos a igreja tivesse poltronas do vovô. Hahahaha a primeira vez que entrei no Mosteiro São Bento, em SP, foi assim também, e me marcou pra sempre!

Aí na saída, batemos mais um papo e troquei telefones com a Natalie, a guria inglesa que tava atrás de mim na fila. Ela também tinha ido sozinha porque as amigas estavam ocupadas, e como trabalhamos pertinho e o papo super rendeu, combinamos de de repente fazermos algo natalino por esses dias. Fazendo amigos na igreja! Hahahaha

Sexta as simulações eram mais light, então o tempo passou rapidinho e até tive o luxo de uma pausa decente pro almoço! O que achei mais legal é que, de 5 tutores, 4 de nós tínhamos experiências de multilinguismo, aí ficamos trocando altas idéias enquanto os alunos não chegavam. Uma guria falou que por mais fluente que você seja em outras línguas, a tua língua mãe é aquela que você usa pra contar mentalmente quando te dão um maço de dinheiro e dizem “conte isso o mais rápido possível”. Por exemplo, um deles é filho de pais franceses mas fala inglês com o pai e francês com a mãe desde pequeno, cresceu falando primeiro francês mas foi pra faculdade em inglês e hoje em dia, fala francês em casa e inglês na rua. E quando perguntamos, ele disse que conta mentalmente em inglês. Uma outra menina criada na Inglaterra que não tem sotaque estrangeiro nenhum também confirmou que contaria em chinês.

  
Como se não bastasse todo esse amor por Londres, vim caminhando pra casa e curtindo as luzes de natal e o clima gostoso que toma conta da cidade inteira. Aí parei pra comprar minha agenda pra 2016 e quando saí da loja, já tava escuro, as 15:50! Não sei explicar, mas nessa hora me veio uma onda de felicidade do tipo “cara, eu não só moro aqui mas me sinto em casa aqui!!!”, aquela familiaridade de saber que em poucos minutos estaria no aconchego do lar, curtindo minha noite de muitas horas que começa as 16h, heheheh. Não sei se ainda é a lua de mel com a cidade, mas de fato gosto demais dessa sazonalidade da vida aqui.

Cheguei em casa e fiz meu prato preferido, assistindo Masterchef – The Professionals, meu mais novo vício, tomei um vinhozinho branco e depois um banho de espuma. O que mais querer dessa vida?

   
 
Sábado acordei cedo pra ir pra Oxford Street pela última vez (amém!) pra comprar o último presente de natal que faltava, comprei umas peruagens básicas e vim pra casa com essa vista:

   
 À noite fui com o Daniel (meu flatmate espanhol) e mais dois amigos dele patinar no gelo do Natural History Museum. Acho o NHM o museu mais lindo de Londres e a pista é lindinha, mas nada supera a Club Night da Somerset House. Primeiro que tendo criança pequena patinando às 21h da noite (!) rola aquele receio de um bando de adultos caírem por cima e esmagarem os coitados. Segundo que eles vendem 2847 ingressos pra uma pista minúscula, então rola uma patinação com obstáculos (humanos), hehehe. Mas mesmo assim vale muito a pena, só de curtir a patinação com a vista do museu já vale!

  

  
   
   
Depois fomos encher a cara de pizza no Franco Manca, uma pizzaria de preço amigo, forno a lenha e massa excelente que os italianos que a gente conhece assinam embaixo, e como não poderia deixar de ser, fomos terminar a noite com “só um drink” no Soho, no bar gay mais famoso da cidade, cheio de música boa e garçons sem camisa, ou seja: o que tem pra não gostar, não é mesmo?!

  

   
 
 E hoje de manhã já acordei empolgada porque ia encontrar a Natalie no South Bank pra passearmos pelos mercadinhos de natal! Passamos pelo próprio South Bank e a feirinha de livros que eu adoro, depois o mercadinho do Tate Modern e subimos até o restaurante do sexto andar pra tomar um quentão com vista da St. Paul’s, depois ela seguiu pra encontrar umas amigas num museu em Hoxton mas eu preferi vir caminhando pra casa, com direito a mais uma passadinha no mercado de natal de London Bridge.

   
     
  Adoro como em Londres tudo recebe um raio multiculturalizador! Hahahaha mercado de natal com direito a comida asiática, marroquina, halal e falafel? YES PLEASE! Se você for bem cínico, você poderia argumentar que culturas que nem sequer celebram o natal só estão ali vendendo as suas comidas típicas pela oportunidade de negócio, só porque é lucro garantido. Mas minha opinião é que apesar de o natal, a rigor, significar a celebração do nascimento de Cristo, acho irrelevante você acreditar ou não em Cristo pra celebrá-lo. Porque o natal é uma época de pensar mais em valores fundamentais, em unir a família, demonstrar amor, fazer o bem e ser a melhor pessoa que a gente puder ser. E pra isso, não precisa nem ter religião. Né?!

 

O melhor 13/12 até hoje!

Eu e o Alex não comemoramos aniversário de namoro, e sim da data em que a gente se conheceu, que foi 13/12/2008. Dessa vez, nosso dia 13 foi um dia intenso de comemorações e atividades desde a meia noite do sábado até à meia noite do domingo!

Fazia um tempão que eu queria tirar uma foto nossa na Tower Bridge, basicamente uma versão de uma foto que eu já tinha feito antes e amo, só que com nós dois no meio! Como ele ia voltar da biblioteca as 22:30 e passar por ali, nos encontramos as 23 na Tower Bridge, e tipo… Vamos concordar que um aniversário de namoro que começa na Tower Bridge não tem como não ser maravilhoso né?!

Aí expliquei pra ele como queria a foto e lá fomos nós ficar beeem paradinhos pra ficarmos focados na longa exposição, e apesar de ficar com uma certa vergonha do nível de breguice envolvido, eu achava mais provável de dar certo com a gente se beijando do que com a gente olhando pra câmera (e tinha razão, porque tentamos dos dois jeitos e a do beijo ficou bem melhor!). O Alex mesmo tava morto de vergonha e, to add insult to injury, várias gurias que passavam soltavam bem alto um “awnnnn you guys are so cuuuuute” hahahaha mas aí foi super gostoso, porque estragamos algumas das tentativas de tanto que caímos na gargalhada no meio do beijo, ficando totalmente fora de foco, até que a última tentativa ficou EXATAMENTE como eu queria!

  
  
Aí aconteceu um negocio bizarro que certamente vamos nos lembrar pra sempre: logo depois de virar a meia noite, nos abraçamos, desejamos happy anniversary, brincamos que jamais imaginamos que estaríamos ali 7 anos depois e tals… estávamos ainda rindo, fazendo piada, atravessando a ponte a caminho de casa quando vi uma mulher tentando subir na proteção lateral. Imediatamente lembrei de um documentário que assistimos na faculdade durante as aulas de Psiquiatria, chamado The Bridge, que filmou a Golden Gate Bridge por um ano e mostrou não só a hesitação, as tentativas de ajuda dos passantes, as quedas, mas também conversou com familiares e amigos das vítimas e inclusive com algumas pessoas que se jogaram e sobreviveram à queda. Aquilo me deixou muito impressionada por semanas a fio, a gente aprende, lê, estuda, mas ver de uma maneira tão gráfica e pessoal colocou tudo em perspectiva pra mim. Então quando vi a mulher subindo, claramente alcoolizada, parei, segurei o punho dela e disse pra voltar pra calçada, que ela precisava de ajuda. Aí nem me lembro mais com muitos detalhes, mas acabou que fui falando com ela e pedi pro Alex ir chamar a segurança da ponte é uma ambulância. Nesse meio tempo tentei conversar com ela, que obviamente não queria conversa nenhuma e só repetia que queria acabar com tudo. Ela me respondeu qual era o nome dela, mas nada mais. Só consegui distraí-la quando comecei a contar de mim, que sou brasileira, moro aqui há 10 meses etc. Aí ela me contou que era londrina, tinha morado aqui a vida inteira, tinha 44 anos e morava aqui por perto mas por pouco tempo, porque seria despejada em janeiro. Nisso o Alex voltou e ainda tivemos que segurá-la mais umas vezes (ela continuava voltando pro beiral) até que o segurança chegasse, e ficamos ali até que a polícia e ambulância chegassem também. Nessa hora, ela sentou na calçada e aí viemos pra casa. Não sei se ela de fato faria, mas a primeira coisa que a gente aprende é que ideias suicidas devem sempre ser levadas a sério, porque é impossível distinguir ou prever quem vai de fato executá-las. Então ficamos felizes porque ela ia receber ajuda, provavelmente receber acompanhamento e enfim… Mais uma experiência que por mais adversa que tenha sido nos uniu, como tantas outras até agora.

Acordei no dia seguinte com uma foto no WhatsApp do MEGA café da manhã inglês que o Alex tava preparando na cozinha. Eu tinha tirado um sarro da cara dele no dia anterior que era suuuper romântico um café da manhã gordurento desses, mas aí ele comprou hash browns, que são uns bolinhos de batata tipo rösti que eu amoooo, e me mandou a foto do pacotinho que ele tinha saído pra comprar antes de eu sair da cama dizendo “absolutely romantic!”.
  
Aí começamos a peregrinação até White Hart Lane pra ver o jogo do Tottenham. Batemos um papo com um casal israelense na ida, e chegando lá fomos beber umas no pub que é um sarro, a atmosfera é muito massa porque os torcedores dos Spurs realmente são fiéis, da vida inteira, que provavelmente vão ali no mesmo pub antes do jogo desde a infância! Então rolam várias musiquinhas de grito de guerra e o maior clima de camaradagem. Meio overwhelming de tão cheio, mas é só por um tempinho curto até todo mundo ir se encaminhando pro estádio, então não tem tempo ruim.
    
   

A experiência no estádio em si é um espetáculo à parte, tudo super organizado e seguro. Bebida alcoólica só pode no intervalo, mas se quiser pode levar chá pro assento (HAHAHA 🇬🇧), e em geral é um clima bem família.

   

  

  

  

  

   

Confesso que prestei mais atenção num gurizinho de uns 6 anos que tava do nosso lado do que no próprio jogo! A parte mais genial de ter filhos deve ser ficar observando as reações deles ao mundo né?! Fiquei olhando o guri e achando tudo um sarro, o olhão esbugalhado quando a torcida adversária começou a fazer mais barulho que a nossa, os comentários que ele cutucava o pai pra fazer, a hora que se encheu o saco e resolveu folhear o programa oficial e que ver as fotos dos jogadores era mais interessante do que ver os próprios em campo. Hahahaha mas enfim, ainda bem que eles saíram uns 8 minutos antes de o jogo acabar, porque pelo menos o gurizinho não viu o gol de virada do Newcastle!

     

Mas não acabou!!! Depois do jogo fomos espertamente pro pub beber mais uma enquanto a maioria dos torcedores se apertava no trem, e fomos confortavelmente sentados no trem seguinte. Milagrosamente ainda consegui encaixar uma soneca de 10 minutos antes de me arrumar pra ir jantar fora! Hahaha aproveitamento de tempo 100%!
O restaurante em si é simples e aqui perto de casa, mas a atração principal é que ele tem uma das melhores vistas de Londres! Tower of London e Tower Bridge de camarote enquanto conversamos sobre a vida? YES PLEASE!

    

Ficamos lá até sermos os últimos a sair do lugar e depois como o tempo estava tranquilo ainda ficamos conversando e ouvindo as gaivotas (sim, gaivotas no centro de Londres!) na beira do rio. Como se não bastasse tudo que tivemos de bom nesse dia, Londres ainda nos presenteou com uma noite estrelada, coisa raríssima por aqui! Nosso relacionamento e nossas vidas não são perfeitos, mas só temos a agradecer porque tem sido como um bom vinho: mais encorpado e cheio de personalidade a cada ano que passa!

Flamenco intimista

O flamenco

Desde que soube que a prova seria em Sevilha, já fui direto no Viaje na Viagem pra ver o que Riq Freire e o pessoal do fórum estavam falando sobre as opções.

Existem basicamente 3 categorias:

– extorsão pega-turista: os shows combinados com jantar, que tendem a ser uma furada porque né, o negócio deles acaba não sendo nem o jantar, nem o flamenco. Pode não ser tão má ideia pra quem precisa de comodidade acima de tudo, digamos alguém que está viajando com idosos e tals. Mas por motivos óbvios, foram os primeiros que risquei da lista.

– shows de flamenco puro, em museus ou casas especializadas. Alguns têm um bar pro pessoal poder beber uma sangria por ali mesmo. Em geral bastante frequentados por turistas independentes, já que os de excursão ou montados por guias tendem a ser os do item acima.

– bares e casas populares onde os sevilhanos vão pra beber umas e dançar. Pense casas de samba e forró no Brasil, sabe? Pessoas que adoram dançar, mas não dão show, e portanto o ambiente será informal e nada montado.

Eu tava com tudo engatilhado já pra comprar pra mim e pra minha amiga na Casa de La Memoria Al-Andalus, quando encontrei meu chefe mais descolado de todos, um italiano de Milão que personifica o espírito do viajante, ao invés do turista (eu apesar de gostar de fazer tudo bem independente, sou bem turista, sou tímida pra conversar com os locais e etc). Eis que ele me contou que chegou em Sevilha, foi conversando por aqui, por ali e de repente descobriu uma raridade num teatro minúsculo que fica no meio do Mercado de Triana, que é o mercado público de Sevilha.

Cheguei no hotel nesse dia e fui imediatamente Googlar, porque inicialmente achei que ele tava falando do La Carboneria, que faz parte do terceiro tipo que descrevi ali em cima, e apesar de ser super a fim de ir a um desses se tivesse mais tempo, o que eu queria mesmo na minha única oportunidade nessa viagem era assistir a um show, gente que faz isso pra viver, que respira o flamenco, a bailarina que dança flamenco desde os 4 anos de idade, sabe como?!

Quando só encontrei reviews em espanhol sobre o Intimamente Flamenco, mandei mensagem na hora pra minha colega dizendo “MUDAMOS DE LUGAR, comprei esse aqui!” hahahaha e foi uma das melhores, senão A melhor decisão da viagem!

Então às 20h aparecemos no Mercado de Triana, que fica do outro lado do rio e é uma área meio hipster, meio cool, onde vários dos melhores bares de Sevilha ficam (a Calle Betis). O gerente, super simpático, nos deu nossos ingressos dobrados em forma de cone com um ursinho jelly dentro. Já gostei!

Aí saímos, demos uma volta pelo mercado, que além de lindo, com os nomes dos stands em azulejo colorido

A maior burrice da minha vida viajante

Vou começar a registrar minha primeira ida à Espanha e minha paixão pela Andaluzia pelo fundo do poço: contando sobre a maior burrice que já cometi na minha vida viajante!

Normalmente adoro marcar minhas viagens com super antecedência, geralmente 4-6 meses antes e às vezes mais. Nesse caso, como tinha duas colegas que fariam a mesma prova, ficou uma lenga-lenga que eu particularmente odeio, gosto de decidir e reservar tudo o quanto antes, então quando vi que faltava exatamente um mês pra viagem, achei a gota d’água e resolvi fazer tudo independente das decisões delas, porque já sabia o que queria da viagem. Queria vir pro congresso, fazer a prova na sexta, ir pra Córdoba no sábado, já que domingo a mesquita fecha em dois horários pra missa, e voltar o mais tarde possível no domingo.

Pois bem. No meio de um fim de semana de plantões noturnos, pelas 17:30, logo depois de acordar e antes de ir trabalhar, dei aquela última pesquisada no SkyScanner: OPA!!! Esse voo direto da BA pra Gatwick às 21:05 não tava aí antes! Saiu melhor que a encomenda! Que sorte! Fechou!

Marquei pelo eBookers, que eu nunca tinha usado antes. E recebi o e-ticket da ida no mesmo dia, mas por algum motivo o da volta nunca veio. Aí, na semana da viagem, fui no site da BA, em “manage my bookings”, botei o código, achei a reserva e o voo começou a aparecer. Ok, problema resolvido, check in da ida feito, check in da volta só abre 24h antes então vou colocar um lembretinho aqui no celular pra quando estiver na hora.

Fast forward uma semana.

Ontem à noite, cheguei exaaaaausta de Córdoba depois de caminhar 20km pra lá e pra cá o dia todo. Tava morta de sono, mas daquele jeito passando dificuldade pra ficar acordada mesmo sabe, mas pensei “ah não vou arriscar, vou aguentar mais 20 minutinhos acordada até 22:05 que logo o check-in abre e aí eu vou dormir mais tranquila”.

  
Eis que chegou a hora de abrir o check-in. Abri o aplicativo da BA e achei estranho que esse voo tava aparecendo depois dos meus voos de janeiro e de fevereiro… Cliquei nele pra ver qualé desse aplicativo que tá desorientado no tempo:

    

  
O QUÊ???????? MARÇO?????

Gente, nessa hora TUDO passou pela minha cabeça em um segundo, tipo um filminho desses de flashback de filme.

O último voo que eu tinha marcado no SkyScanner no meu desktop tinha sido meu voo pro Brasil, cuja volta é no primeiro fim de semana de março, que tem um sábado dia 5 e um domingo dia 6. Qualquer semelhança não será mera coincidencia!!! Meu SkyScanner abriu o calendário da volta em março de 2016 e como a primeira semana de março é igual à primeira semana de dezembro, não percebi o erro e mandei ver amarradona!!! Ainda achei o máximo minha sorte! Hahahah bem que minha mãe me ensinou a desconfiar quando a esmola é demais!

Não consigo me conformar como pode eu ter visto o negócio tantas mil vezes sem ENXERGAR! Obviamente sempre leio tudo várias vezes antes de confirmar a reserva, então até entendi como a burrice aconteceu, mas não entendi ainda como ela se perpetuou! Hahahaha de repente me vi em Sevilha, com uma semanada de plantões noturnos me esperando em Londres dali a menos de 48h e –quel horreur– sem ver a cereja do bolo Sevillano: o Alcázar! A fortaleza moura que depois teve palácios reais construídos no seu interior, uma pérola da arquitetura Mudéjar que ainda hoje é usada como residência real e ainda o local onde Colombo recebeu oficialmente autorização pra partir para as Américas.

Queria ver um vídeo da minha descoberta, minha cara deve ter sido um sarro! Em 45 minutos, passei de incredulidade pra raiva de mim mesma pra ponderação sobre dormir nos bancos de Barajas pra poder sair de Sevilla no fim da tarde e fazer o dia intenso de turistagem que tinha planejado, pra depois chegar a conclusão de que seria irresponsável começar uma semana de plantões já exausta e mal-dormida, e finalmente um voo marcado com milhas pra Londres via Madrid, que significava que eu tinha que deixar Sevilha em menos de 12h!

Olha, vou dizer que apesar da vergonha incomensuráaaaaaavel de uma burrice dessa monta, ainda consegui ficar orgulhosa do jeito que lidei com o imbroglio. Não entrei em pânico em momento algum e um minuto depois de descobrir, meu cérebro já tava fervilhando com planos B, C, D, E e F, meu celular quase dando tilt com aplicativos de viagem na sequência tentando decidir a melhor combinação, ainda tentando conciliar minha vontade de ficar em Sevilha o mais tempo possível com a responsabilidade de estar em Londres descansada na segunda feira à tarde. Tinha umas 42 horas pra estar em Londres e graças a Deus tinha flexibilidade financeira caso precisasse pagar um voo direto, que obviamente 12h de antecedência tava custando um braço e uma perna. Então fiquei de boa e procurei a opção com melhor custo-beneficio. Acabei comprando um voo com avios + uma parte em dinheiro, que ainda me custou menos do que o voo com pernoite em Madrid, cuja implicação prática é um auto-presente a menos no Natal. Pq afinal de contas, depois dessa, não mereço muita coisa né?! Hahahahaha  

 
Então é isso, lesson learnt 😒

Tenho plena consciência de que se fosse em outro lugar, em outra situacao, poderia ter sido um pesadelo! Então em nenhum momento deixei de agradecer o fato de ter flexibilidade, de ter 3G ilimitado, de estar relativamente perto de onde precisava ir, com milhares de opções, por mais ou menos inconvenientes que fossem. Em aviação e em anestesia, near-misses são um conceito muito reconhecido e valorizado, porque te ensinam a perceber onde começaram os erros e assim a evitar catástrofes. Então 🙏🏻.

Mais um lado bom: eu queria muito ver o Alcázar ao entardecer, porque é o melhor dos dois mundos, pega-se a luz dourada do por do sol e a blue hour já com as construções iluminadas (quem me conhece sabe que amo fotografia noturna!), mas nessa época do ano eles fecham as 17h, e o sol só se põe às 18:10. Além disso, fiquei com o coração na mão de não ir a Granada pra ver a Allambra, mas dessa vez realmente não tinha como estender a viagem por causa dos plantões, que são um saco de trocar. Entao, já que terei que voltar, da próxima vez de repente consigo reunir tudo o que queria!
Meu dia de hoje teria começado no Alcázar, seguido por uma visita ao Archivo de Indias, onde está o Tratado de Tordesillas,  cartas de Colombo descrevendo a América e muitos outros documentos e mapas históricos, depois ia visitar a Plaza de Toros La Maestranza, que é uma das maiores e mais famosas da Espanha e não tem mais touradas mas tem um museu sobre elas. E terminaria o dia no Metropol Parasol, um projeto desses loucamente inovadores que foi feito pra revitalizar a Plaza de La Encarnación. Os projetistas dizem que é a maior estrutura em madeira do mundo! A praça abriga o antiquário da cidade, mas meu maior interesse era subir, perambular e fotografar (d)as passarelas, que rendem uma vista sensacional da cidade histórica ao fundo com a modernidade do próprio Parasol no primeiro plano.

Mas já que tava ali pertinho, levantei cedo e fui fotografar o Parasol logo depois do nascer do sol e deixei Sevilha, metade deprê, metade rindo da minha própria palhaçada, completamente apaixonada pela Andaluzia e mais certa do que nunca de que retornarei!

  

     

 Que eu amei a Andaluzia, eu amei, e passar o inverno nesse solzinho diário que começa com 5-8 graus e ao meio dia tá 23 até que não é má ideia, mas né, tenho um amor maior que tudo por Londres e muitos compromissos, então aqui estou nesse aeroporto confuso mas lindo que é Barajas, aguardando meu voo pra casa!