Londres natalina

Esses últimos dias tem sido bem do jeito que eu gosto: mil atividades e aquela sensação gostosa de folga bem aproveitada no fim do dia, sabe?! Durante a faculdade e a residência eu vivia me sentindo tão culpada por não estar estudando, que acabava não aproveitando direito meu tempo de folga. Além disso eu me sentia sempre cansada, sem energia, então acabava perdendo meu tempo na internet, ou assistindo séries, ou dormindo. Não necessariamente nessa ordem. Heheheh não que essas sejam coisas ruins, mas é o conceito de dark playground explicado nesse artigo maravilhosamente verdadeiro que todo procrastinador deveria ler na vida!

E uma das coisas que eu mais estou amando na minha vida londrina é que eu tenho valorizado e aproveitado muito bem meu tempo de folga! E como consequência, tô muito mais satisfeita com a vida que levo. As gurias do trabalho um tempo atrás me disseram que achavam surreal o quanto eu aproveitava meu tempo livre e daonde eu tirava tanta energia. A resposta é: não sei! Mas alguma coisa acontece no meu coração londrino que a energia simplesmente brota da fonte nos momentos mais inesperados!

Apesar de estar oficialmente de folga do hospital desde semana passada quando terminei meus plantões, fiquei aqui em Londres mais uns dias porque me voluntariei pra ser tutora de habilidades clínicas pra alunos do terceiro ano da faculdade em umas sessões de simulação.

Aí como tinha isso na quinta e sexta o dia todo, resolvi marcar minha passagem pra Dorset na segunda de manhã, porque aí ainda poderia aproveitar mais um fim de semana de espírito natalino em Londres e tals.

Quinta já comecei o dia cedo: a Bee tá indo morar na África do Sul por 3 meses, então eu sugeri tomarmos café da manhã juntas pra nos despedirmos, já que o dia dela no departamento começava ao mesmo tempo que a minha função com as simulações. Aí ela falou: “AH TENHO UMA IDEIA: você topa me encontrar no Monument as 7 da manhã? Eu e a Anne esperamos você lá”. Na hora concordei amarradona, mas depois o Alex decidiu voltar pra Dorset bem nesse dia, então foi uma novela pra me arrastar da cama quentinha e me despedir dele, mas né, fui.

E olha, valeu a pena!!! Chegando lá, me dei conta na hora que ela tinha reservado uma mesa no topo do Walkie Talkie, pra gente. Fomos no Sky Pod bar, que é no saguão principal. Ali eles servem salgados e doces frios, e bebidas. Na Darwin Brasserie, que fica na cápsula, aí rola um esquema mais brunch mesmo, com pratos quentes e tals, mas não teríamos tempo suficiente pra curtir, já que tínhamos que caminhar em meio ao exército de homens de preto da City até o hospital em breve.  

   
Quando mandaram o email recrutando voluntários pra essas sessões, eu respondi na hora me oferecendo porque achei uma maneira boa e mínimo esforço (já que era no próprio hospital) de ganhar um pouco mais de experiência sobre o sistema inglês, melhorar meu currículo e revisar uns conceitos básicos.

Fiquei meio ansiosa antes de começar porque não tive nada parecido enquanto eu era estudante, mas a cada grupo de alunos, eu ia melhorando uma coisa ou outra que não tinha ficado muito boa e perdendo a vergonha. Só que a guria que era minha dupla era ainda mais tímida do que eu, então ela acabava ficando mais no controle do simulador e eu na parte de interação com os alunos. Como na quinta-feira eram cenários clínicos e “a paciente tá deteriorando agudamente e você é chamado com urgência para avaliá-la” (12 vezes seguidassss), tinha aquele clima tenso de urgência, e por estar totalmente fora da minha zona de conforto, terminei o dia exausta.

Tudo que eu queria era voltar pra casa, ficar quieta no meu canto e ir dormir cedo. Mas no meu último plantão, um dos meus colegas comentou que nesse dia ia rolar a comemoração de natal mais famosa da St. Paul’s Cathedral, os cantos de natal. Coloquei meu casaco e saí do hospital pensando em ir direto pra casa, mas aí em menos de 200m me dei conta de que não sei onde vou estar no ano que vem e que essa era uma oportunidade genial de entrar na St. Paul’s pela primeira vez.

  
Vi que a fila tava dobrando a esquina mais de 1h antes da cerimônia começar e pensei “ah, vou ficar aqui na fila e ver qual é”. Um dos seguranças veio avisando que “as pessoas depois da esquina podem não entrar, ok pessoal?” mas aí a guria na minha frente na fila, a guria atrás de mim e eu começamos a bater o maior papo, quando vimos a fila foi andando e logo já estávamos lá dentro! Mas não sem antes beber um quentão com a guria da nossa frente, hahahaha ela tinha trazido uma garrafa térmica e duas canecas (!) dentro da bolsa. Como não amar os ingleses né cara, além de curtir uma fila meticulosamente organizada, eles ainda vêm preparados com farofada em mãos pra não ficarem ranzinza enquanto esperam!

  
Ficamos bem lá atrás, então tecnicamente nem posso dizer que “vi a igreja”, mas em compensação a experiência em si foi tipo uma fração do Nirvana, hehehehe. Já falei num post bem do começo do ano como eu amo a Evensong da Westminster Abbey né. Não sou uma pessoa religiosa, mas adoro a energia etérea de qualquer templo, seja de qual religião for. E gosto muito do fato de as igrejas anglicanas serem menos rebuscadas na decoração do que as católicas, porque aí a arquitetura é a estrela da festa. A maneira que a luz incide nas pedras, o formato dos arcos e das janelas, enfim… Aí quando se soma a isso o silêncio sepulcral de uma cerimônia sendo interrompido só pelo coral, acho extremamente relaxante, quase como se fosse uma meditação. Quando é no tom grave dos cantos gregorianos mesmo, bah, só queria que ao invés de bancos a igreja tivesse poltronas do vovô. Hahahaha a primeira vez que entrei no Mosteiro São Bento, em SP, foi assim também, e me marcou pra sempre!

Aí na saída, batemos mais um papo e troquei telefones com a Natalie, a guria inglesa que tava atrás de mim na fila. Ela também tinha ido sozinha porque as amigas estavam ocupadas, e como trabalhamos pertinho e o papo super rendeu, combinamos de de repente fazermos algo natalino por esses dias. Fazendo amigos na igreja! Hahahaha

Sexta as simulações eram mais light, então o tempo passou rapidinho e até tive o luxo de uma pausa decente pro almoço! O que achei mais legal é que, de 5 tutores, 4 de nós tínhamos experiências de multilinguismo, aí ficamos trocando altas idéias enquanto os alunos não chegavam. Uma guria falou que por mais fluente que você seja em outras línguas, a tua língua mãe é aquela que você usa pra contar mentalmente quando te dão um maço de dinheiro e dizem “conte isso o mais rápido possível”. Por exemplo, um deles é filho de pais franceses mas fala inglês com o pai e francês com a mãe desde pequeno, cresceu falando primeiro francês mas foi pra faculdade em inglês e hoje em dia, fala francês em casa e inglês na rua. E quando perguntamos, ele disse que conta mentalmente em inglês. Uma outra menina criada na Inglaterra que não tem sotaque estrangeiro nenhum também confirmou que contaria em chinês.

  
Como se não bastasse todo esse amor por Londres, vim caminhando pra casa e curtindo as luzes de natal e o clima gostoso que toma conta da cidade inteira. Aí parei pra comprar minha agenda pra 2016 e quando saí da loja, já tava escuro, as 15:50! Não sei explicar, mas nessa hora me veio uma onda de felicidade do tipo “cara, eu não só moro aqui mas me sinto em casa aqui!!!”, aquela familiaridade de saber que em poucos minutos estaria no aconchego do lar, curtindo minha noite de muitas horas que começa as 16h, heheheh. Não sei se ainda é a lua de mel com a cidade, mas de fato gosto demais dessa sazonalidade da vida aqui.

Cheguei em casa e fiz meu prato preferido, assistindo Masterchef – The Professionals, meu mais novo vício, tomei um vinhozinho branco e depois um banho de espuma. O que mais querer dessa vida?

   
 
Sábado acordei cedo pra ir pra Oxford Street pela última vez (amém!) pra comprar o último presente de natal que faltava, comprei umas peruagens básicas e vim pra casa com essa vista:

   
 À noite fui com o Daniel (meu flatmate espanhol) e mais dois amigos dele patinar no gelo do Natural History Museum. Acho o NHM o museu mais lindo de Londres e a pista é lindinha, mas nada supera a Club Night da Somerset House. Primeiro que tendo criança pequena patinando às 21h da noite (!) rola aquele receio de um bando de adultos caírem por cima e esmagarem os coitados. Segundo que eles vendem 2847 ingressos pra uma pista minúscula, então rola uma patinação com obstáculos (humanos), hehehe. Mas mesmo assim vale muito a pena, só de curtir a patinação com a vista do museu já vale!

  

  
   
   
Depois fomos encher a cara de pizza no Franco Manca, uma pizzaria de preço amigo, forno a lenha e massa excelente que os italianos que a gente conhece assinam embaixo, e como não poderia deixar de ser, fomos terminar a noite com “só um drink” no Soho, no bar gay mais famoso da cidade, cheio de música boa e garçons sem camisa, ou seja: o que tem pra não gostar, não é mesmo?!

  

   
 
 E hoje de manhã já acordei empolgada porque ia encontrar a Natalie no South Bank pra passearmos pelos mercadinhos de natal! Passamos pelo próprio South Bank e a feirinha de livros que eu adoro, depois o mercadinho do Tate Modern e subimos até o restaurante do sexto andar pra tomar um quentão com vista da St. Paul’s, depois ela seguiu pra encontrar umas amigas num museu em Hoxton mas eu preferi vir caminhando pra casa, com direito a mais uma passadinha no mercado de natal de London Bridge.

   
     
  Adoro como em Londres tudo recebe um raio multiculturalizador! Hahahaha mercado de natal com direito a comida asiática, marroquina, halal e falafel? YES PLEASE! Se você for bem cínico, você poderia argumentar que culturas que nem sequer celebram o natal só estão ali vendendo as suas comidas típicas pela oportunidade de negócio, só porque é lucro garantido. Mas minha opinião é que apesar de o natal, a rigor, significar a celebração do nascimento de Cristo, acho irrelevante você acreditar ou não em Cristo pra celebrá-lo. Porque o natal é uma época de pensar mais em valores fundamentais, em unir a família, demonstrar amor, fazer o bem e ser a melhor pessoa que a gente puder ser. E pra isso, não precisa nem ter religião. Né?!

 

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4 respostas em “Londres natalina

  1. Gabi, comecei a ler seu blog recentemente e adoro! Ajuda um pouquinho a matar a saudade que eu sinto dessa cidade que eu mais amo no mundo! Hehehe
    A última vez que estive em Londres, em junho e julho deste ano, tb fui algumas vezes assistir a Evensong na Westminster!!! Coisa mais linda da vida, fiquei toda arrepiada, não sei explicar a energia que senti! Só sei que muitas lágrimas rolaram! Hahaha
    Estou adorando as fotos de Londres em clima natalino q vc anda postando aqui e no insta! A cidade fica ainda mais linda, né?! 😍
    Beijos e feliz Natal! 😉

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    • Oi Patrícia! Ai fico super feliz quando recebo comentários como o teu, por muito tempo os blogs das brasileiras que moram aqui me inspiraram e ajudaram a matar a saudade de Londres!
      A Evensong da Westminster Abbey foi uma experiência muito emocionante e difícil de explicar pra mim também! Acho que todos os lugares que carregam a história do mundo tem uma energia que toca a gente de um jeito especial né?! Ainda quero fazer a visita guiada, mas o privilégio de ver o lugar em silencio completo, sem câmeras, gente tirando selfies, com o coral, não tem preço!
      Beijos e feliz Natal pra você também! 😘

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    • Oi Flavia! Vi sim, adoro a teoria dele pq é muito real, né?! Queria que ele escrevesse mais posts assim no blog, às vezes escreve uns negócios meio nada a ver! Vc já viu o post “Life is a picture, but we live in a pixel”? Muito bom também!!
      Beijos!

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