Vôos open jaw (ou: conveniência versus economia)

*** BAH que deprê!!! Passei o vôo de Amsterdam pra cá inteiro escrevendo o raio do post e o WordPress deu pau na hora de publicar e usou o resumo que eu tinha salvo antes de embarcar. Joia! Vou tentar lembrar aqui.

 

Hoje de manhã, postei uma foto no Instagram contando minha saga nessa ida ao Brasil, que está me rendendo uma economia de mais de £200 do meu rico dinheirinho.

Como algumas meninas me perguntaram como fiz pra encontrar essa barganha e eu tô de bobeira aqui no aeroporto Schipol em Amsterdam, resolvi explicar a lógica (e as roubadas) dessa estratégia.

Os impostos ingleses sobre vôos de longa distância são bem maiores do que os impostos praticados na Europa continental – por isso que o bordão Londres é cara, velho conhecido dos brasileiros, já começa a valer na hora de marcar o vôo. Qualquer vôo transatlântico partindo de Londres será, com raras exceções, mais caro do que vôos para o mesmo destino partindo de outras grandes capitais européias.

Por isso que, pra quem já conhece Londres e tá planejando uma viagem pela Europa, eu recomendaria evitar terminar por Londres, já que isso encareceria o custo do vôo. Mas se a pessoa não conhece Londres, eu diria pra deixar por último, já que né… depois de Londres, as outras são as outras e só 😉

Mas quem se interessou mais pela dica foram as brasileiras morando em Londres – é difícil achar vôos diretos em promoção pra essa rota e qualquer economia é sempre bem-vinda. A melhor maneira de evitar os altos impostos ingleses é simples: não voe a partir de Londres!

Vôos open jaw são vôos de ida e volta, mas que saem de uma cidade e voltam para outra, ou vão para uma cidade e voltam de outra. Por exemplo, meu vôo hoje:

  • Ida: Amsterdam para Guarulhos com conexão em Londres;
  • Volta: Guarulhos para Londres direto.

Como tantas outras coisas na vida, trata-se de uma equação simples entre conveniência e economia. Faz questão de voar de Heathrow? Você vai pagar mais caro por esse conforto. Suas esperanças de um vôo mais em conta são promoções relâmpago, que nem sempre acontecem quando você precisa, ou tarifas “erro”, quando a companhia divulga o preço antes de somar taxas de combustível e etc., e se você encontrar uma dessas, seja rápido no gatilho porque ela desaparecerá tão rápido quanto surgiu! Por outro lado, se você prioriza mesmo é a economia, vai ter que aceitar certas inconveniências.

Falando em inconveniências, vamos a elas:

– o seu voo sai de uma cidade onde você não está 😱😱😱 hahaha você comprou uma passagem partindo de (Paris, Amsterdam, Madri, Milão, seja lá onde seu voo internacional comece) e portanto deverá comprar uma passagem em separado para chegar até lá. Então tem que botar na ponta do lápis quanto vai custar esse extra e aí sim ver se vale a pena, senão você pode facilmente acabar sem a economia nem a conveniência!
– isso também significa que você deverá pagar bagagem extra na sua passagem de Londres para  (Paris, Amsterdam, Madri, Milão, seja lá onde seu voo internacional comece) para despachar uma ou mais malas de até 23kg, que é o limite padrão em voos dentro da Europa. Importante lembrar disso na hora de computar os custos. Então se você é aquela pessoa que curte aproveitar ao máximo a franquia de bagagem generosa que podemos levar pro Brasil e viaja com 2 malas de 32kg, mala de cabine, bolsa oversized, sacola do duty free, gato, cachorro e papagaio, o vôo open jaw não é uma boa pra vc 😂

– um dos grandes riscos de fazer reservas separadas é que, caso seu primeiro voo atrasar (por exemplo, de Londres para Milão, de onde sai o seu voo open jaw), não vai ter choro nem vela e você perderá a viagem internacional toda. Então é muito importante deixar um tempo considerável nessa perna da viagem, lembrando ainda que você precisará pegar a sua mala na esteira de bagagem, sair para o saguão do aeroporto, e despachá-la novamente (dessa vez até a sua origem final, no caso SP ou Rio)

– é importante ficar de olho vivo no tempo de conexão para o Brasil, caso seu voo não seja direto – no meu caso, comecei oficialmente a viagem em Amsterdam e fiz conexão em Londres. No meu caso, a primeira busca que eu fiz me dava um tempo de conexão de 1h15min em Heathrow. Mesmo sendo só para desembarcar, passar pela segurança e embarcar de novo no mesmo terminal, é apertado. Alguns portões são distantes e você nunca sabe quando vai ficar atrás daquela família com 5 crianças e uma mãe cheia de pulseiras e líquidos na mala de mão, hahahaha então continuei procurando até encontrar um tempo maior de conexão para as mesmas rotas. Claro que dá pra vc encarar um tempo curto – antes de achar uma alternativa, eu tava pensando em encarar, mas aí já comecei a me preparar mentalmente e fazer escolhas que aumentariam minha chance de sucesso: “vou viajar de tênis e mochila, ao invés de sapatilha e bolsa, pra me movimentar mais agilmente”, “não vou levar o laptop pra não ter que tirar da mochila na segurança” e assim por diante. Nesse caso, se você perder o voo você não terá custos, já que é tudo parte da mesma reserva, mas deve ser muito frustrante!

Tendo tudo isso em mente, você pode achar opções muito legais! Eu tive sorte dessa vez: achei um voo de preço ótimo, partindo de uma capital próxima de Londres, com uma companhia aérea que considero excelente e conexão “em casa”, já conhecendo o aeroporto, amenidades, onde carregar o celular etc etc. Minha cunhada e o namorado vão pro Brasil semana que vem pagando ainda menos, num voo da Ibéria a partir de Madri. Aí vai de cada um traçar o limite do aceitável né heheheh eu tive uma péssima experiência com a Ibéria uns anos atrás, então quando posso, evito. Mas o preço que eles acharam era imperdível então eles foram com fé!

E como ache esses voos?

É só usar sites que permitam buscas multi-destino, como SkyScanner, Expedia, LastMinute. Aí você escolhe suas datas e começa a brincar com as opções, partindo das grandes capitais europeias.

A ideia é conseguir um voo direto na ida daquela cidade x com a companhia nacional daquele país. Eu topei essa função hoje porque era BA e conexão em casa gastava menos energia mental do que qualquer outro lugar, mas digamos que eu fizesse a busca partindo de Amsterdam e aparecesse um voo da TAP com conexão em Lisboa, eu ia fazer uma nova busca partindo direto de Lisboa, entende?

Enfim, achei que valeu muito a pena a economia que fiz porque tava cheia de energia, empolgada com as ferias, e na volta vou ter um voo direto de Guarulhos pra casa, que pra mim é uma prioridade. Espero que a explicação tenha sido útil. Se esse post ajudar só uma pessoa que seja a achar voos mais baratos, vou ficar super feliz!

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Fish and chips

Como quem me segue no insta (@gabiemlondres) já deve imaginar – porque anda rolando um mimimi por lá de vez em quando – minha vida anda tão louca e eu tão exausta, que não trouxe almoço de casa pro trabalho. Então aproveitei que hoje é sexta-feira e ao invés de comer um sanduíche da lanchonete como de costume nesses casos, fui na cantina de comidas quentes pra bater um pratão do almoço tradicional de sexta-feira no UK: fish and chips!

  

Toda sexta-feira, em qualquer “cantina do trabalho”, pub ou boteco pé-sujo (conhecidos como greasy spoon) no Reino Unido, pode crer: o especial do dia vai ser sempre fish and chips.

Eu sou super curiosa e adoro história, então volta e meia penso “daonde será que vem isso?” e resolvo procurar aquilo que eu to vendo (ou comendo, ou bebendo ou usando hehehe) na Wikipedia. Então passei meu intervalo do almoço lendo sobre a história desse prato que é uma tradição tão caracteristicamente britânica. 

Sendo um país majoritariamente cristão, dá pra entender a escolha da sexta, né?! Já disse várias vezes que não sou uma pessoa religiosa, mas gosto muito de aprender sobre religiões e seus costumes porque acho que explicam muita coisa sobre o nosso mundo e são indissociáveis da história da humanidade.

(Parênteses pra uma curiosidade reveladora: quando a gente pesquisa no Google o porquê do peixe na sexta feira em inglês, aparecem textos históricos, explicando a origem da tradição. Em português, aparecem textos religiosos…)

Historicamente, os judeus observavam dois dias por semana de jejum – uma coisa que eu não sabia é que “jejum” no meio religioso não quer dizer jejum de fato, e sim a observancia de uma dieta restrita. Os dias de jejum, originalmente segunda e quinta, eram dias em que o sujeito procurava provar que era senhor de si mesmo e que a sua gula não estava no controle da situação (que nem no meu caso, hahahah). Os cristãos, que no início eram todos judeus, adotaram o costume, e logo mudaram os dias pra quarta, dia em que Jesus foi traído por Judas, e sexta, dia em que Jesus foi crucificado, e oferecer essa abnegação à fé. Comer carne era um grande luxo, já que só podia quem tinha terras suficientes pra criar gado ($$$) ou muito dinheiro pra comprar na feira ($$$$). Vegetais qualquer um podia ter, e peixe era só pescar nos rios do vale onde a pessoa morava, então esses eram alimentos considerados “de plebeus”, depois “de proletariado”, e portanto associados com auto-disciplina, abnegação e penitência. Com o passar do tempo foi-se perdendo essa conotação, mas a tradição pela tradição continua e aqui até nos restaurantes do Jamie Oliver um dos especiais do dia na sexta feira é peixe!

Até aí tudo bem né, peixe na sexta, vários outros países cristãos também tem tradições assim e tals. Mas como raios esse negócio foi ficar tão, mas TÃO popular que qualquer esquina no reino tem um chippy (boteco pé sujo de fish and chips)?! Tudo bem que se trata de um conjunto de ilhas, mas mesmo assim, até no centrão do país, onde tem 200km de terra pra cada lado, você pode ter certeza que vai encontrar um. Como pode um prato ser tão unânime?!

A resposta começa já com uma aula de história: a pesca com rede de arrasto (também conhecida em Florianopx como tarrafa néow ixtepô!) surgiu na mesma época da revolução industrial, então olha que lindo – de repente, era possível pescar milhares de peixes no Mar do Norte e, devido às novas ferrovias, passou  também a ser possível transportar o peixe fresquinho pra todo o país.

Agora uma pérola de sabedoria totalmente minha, sem ajuda da Wikipedia: ninguém tinha freezer nessa época, Braseeeeel!!! Peixe fresco TINHA que ser barato, porque nenhum vendedor quer ficar com um bando de peixe podre neam. “Mas Gabi… erm… Carne tbm apodrece amigã”. Sim, até o milagre da refrigeração, a única maneira de preservar proteína animal era salgando, mas o costume de comer carne de sal aqui é bem mais difundido do que comer o bacalhau salgado dos portugueses, por exemplo. Não sei pq. Mas se continuar explicando cada detalhe vou acabar com um livro inteiro sobre a história do prato 👍🏻. Ah não, perai, ESSE LIVRO JÁ EXISTE! Hahahaha 

Enfim, parece que o costume de comer peixe frito existe desde a época dos romanos, mas é diferente da maneira ibérica (por sua vez influenciada pelos romanos, e herdada por nós brasileiros quando os portugueses vieram) – enquanto nosso peixe frito é empanado em ovo e farinha, o inglês tem um ingrediente que faz ficar totalmente diferente: cerveja! É a chamada “beer batter”, que hoje em dia as vezes é substituída por bicarbonato, que faz a crocância e textura do empanado ficar diferente.

A primeira “loja de peixe frito” de Londres foi aberta em 1860, e ninguém sabe quem teve a ideia de combinar com batatas fritas – mas sabemos quem publicou pela primeira vez o termo “chips” pra se referir a elas: Charles Dickens! Por aqui, chips são essas batatas cortadas mais grossinhas, e fries são as french fries, fininhas como a gente é acostumado no Brasil. Mas o fato é que alguém teve essa ideia excelente, e os chippies passaram a se proliferar: lojinhas pequenas que consistem basicamente de um caldeirão cheio de óleo em que se fritam os peixes e as batatas, um balcão onde as pessoas fazem fila, escolhem o tipo de peixe que querem, pagam e saem devidamente carregadas de fish and chips, tradicionalmente enrolados em jornal (hoje em dia substituído por um papel em branco por razões de higiene).  

Na época da segunda guerra mundial, o Reino Unido passou por 14 anos de racionamento de comida – um dia faço um post sobre isso porque eu não sabia e aprendi um monte lendo sobre – e fish and chips eram dos poucos tipos de comida que não eram sujeitos ao racionamento, portanto contribuindo pra que se popularizassem ainda mais.

Hoje em dia, qualquer estabelecimento é obrigado a especificar qual tipo de peixe está vendendo, então mesmo nos chippies você nunca vai chegar e pedir “fish and chips please”, você vai escolher qual peixe pedir. Os mais comuns são bacalhau (cod), plaice (solha) e arinca (haddock).

Recomendo MUITO ir num chippy pra quem estiver visitando por aqui, porque não tem nada mais autenticamente britânico do que eles! O lugar em si é um pé-sujão cheirando a fritura, mas normalmente são os melhores fish and chips, os mais frescos e mais crocantes, e uns 30-50% mais baratos do que em pubs. É só comprar um pra levar e sentar em algum banco de praça pra comer!

Pra quem estiver turistando em torno do parlamento e South Bank, tem um bem típico perto da Westminster Abbey, numa ruela chamada Strutton Ground, ou então outro que é famoso e fácil de achar é o Masters Super Fish, na Waterloo Road.

Thumbs up pro meu primeiro fish and chips como moradora do UK!

 Pai e mãe provando fish and chips pela primeira vez no melhor lugar possível: na beira da praia!

 

Fish and chips com o Alex num sábado qualquer no pub ❤️
  

Alex acendendo a vela do meu “fish and chips de aniversario” hehehe um dia explico a tradição!
  
E minha comemoração de 28 anos 🙂