Tulipas

Eu amo tulipas. Acho elas lindíssimas de um jeito simples e elegante, quase minimalista de ser. Tipo uma Grace Kelly das flores. Hahahaha

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Então no começo do ano passado, quando vi que a brecha pra minha primeira viagem internacional como moradora do UK seria no comecinho de maio, falei pro Alex na hora: vamos pra Holanda! Eu tenho uma listinha mental de lugares que eu gostaria de visitar na época x, y ou z do ano, e a Holanda definitivamente era o topo da lista na primavera. Junte-se a isso passagens de preço camarada partindo de Gatwick e voilà: martelo batido.

Como aconteceu com taaantos outros assuntos, eu pretendia registrar a viagem pra posteridade aqui no blog, mas acabei deixando pra depois, e depois, e depois… até que começaram a aparecer tulipas no supermercado de novo, e só então me dei conta que já faz quase um ano!

No primeiro plano do meu imaginário estavam os campos listrados de tulipas em flor, aquele colorido vivo a perder de vista, sabe? De preferência com um moinho de vento ao fundo. Então comecei a pesquisar onde ver campos de tulipas nos arredores de Amsterdam, porque o que eu queria mesmo era alugar bicicletas pra gente e levar um piquenique. Completou a imagem mental né? Só faltou uma cesta de vime na bicicleta e uma música de fundo, certo?

Grudei no Ducs Amsterdam enquanto planejava a viagem e descobri a existência do parque Keukenhof por ali. O parque Keukenhof fica em Lisse, uma cidadezinha 35km ao sul de Amsterdam onde, pelo que li, também ficavam vários campos de tulipas. Facílimo de juntar num roteiro só, então a idéia era ir pro Keukenhof de manhã, alugar as bikes por volta do meio dia e passear até cansar, pra depois voltar e ir jantar fora em Amsterdam.

Esperei até uma semana antes da viagem pra poder verificar a previsão do tempo em váaarias fontes diferentes. Chegaríamos na segunda e a única previsão de sol durante nossos 3 dias lá era na terça-feira, então assim que vi, já confirmei no site nossas reservas do ingresso pro parque e do ônibus entre o aeroporto Schipol e o Keukenhof.

Seguindo a explicação do Duc, é super fácil fazer tudo de maneira independente, de transporte público. Você pega o trem da estação Centraal até Schipol e, chegando lá, procura a parada do ônibus 858, que fica logo na saída do Arrivals 4. Achamos super facilmente e entramos no ônibus, ainda com uma nesga de sol raiando e uma temperatura primaveril de uns 18, 20 graus.

Eis que antes mesmo de sair do terreno do aeroporto o céu já ficou todo encoberto e, juro, na metade do caminho começou a cair uma chuva contínua de pingos grossos, daquelas de laaaado por causa da ventania lá fora sabe? Na hora achei até engraçado ver a cara das pessoas no ônibus, uma cara generalizada de desolação tipo “KUEN KUEN KUEN acabou minha experiência imaginária”. Mas foi só sair do ônibus pra parar de achar graça. Uma ventania, mas uma ventania daquelas de dobrar sombrinha, e a chuva que continuava sem perspectiva de trégua. Aí me dei conta de que SIM, realmente tinha acabado a minha experiência imaginária e ainda bem que eu não tinha reservado as bicicletas, porque logicamente uma volta de bike pelos campos agora lamacentos estava fora de cogitação. Hahahah… #sadface

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Fiquei mais underwhelmed ainda quando vi que, em pleno dia 5 de maio, a colheita já tinha acontecido na maioria dos campos ao redor do parque, então rolou um abracadabra e os campos listrados em cores vivas que eu tinha imaginado imediatamente se transformaram em campos verdes, ou no máximo um amarelo pálido que não tinha nem um décimo do apelo estético e fotográfico que eu esperava.

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Entrando no parque, fomos direto pro pavilhão Juliana, que abriga turistas da chuva, digo, abriga uma exposição permanente sobre a história das tulipas na Holanda e a tulipomania. É uma história super interessante! Elas foram introduzidas na Europa no meio do século 16, durante o Império Otomano, provavelmente originárias da Turquia ou Pérsia, e como a beleza delas sempre fez sucesso, começaram a ser muito procuradas. Tornaram-se rapidamente símbolo de riqueza e status, duas coisas abundantes numa Holanda que além de ter uma das cidades portuárias mais importantes do mundo em plena era das grandes navegações, tinha uma população diversificada composta por todo tipo de burguesia perseguida em outros territórios europeus – que aliás é uma das coisas mais interessantes que aprendemos sobre Amsterdam. E quando se percebeu que o clima holandês era ideal pro seu cultivo, já que elas precisam de primaveras longas e de temperaturas amenas, começou uma febre das tulipas no país todo. Mas assim, febre mesmo! A ponto de gente (insana em retrospectiva, mas audaciosa e inovadora na época) vender imóveis e terrenos pra investir em tulipas (!!!). Negociadores de tulipas chegavam a ganhar 40 vezes a renda mensal do trabalhador comum. Surgiu uma prática chamada de “negócios de vento” em que as pessoas vendiam antecipadamente tulipas futuras que ainda pretendiam plantar, e não demorou muito pra que a primeira bolha econômica registrada na história da humanidade se rompesse, levando um monte de gente à bancarrota.

Mesmo assim, continuou-se plantando tulipas na Holanda e hoje elas são um dos 5 principais produtos de exportação do país. Lá no pavilhão tem um gráfico bem legal mostrando pra onde vão a maioria das tulipas produzidas anualmente na Holanda, que agora não consegui encontrar, mas acho que o primeiro comprador eram os EUA, e o segundo, o Reino Unido.

O fato é que, apesar de tudo isso ser muito, muito legal pra quem adora tulipas e história, eu continuava emburrada, porque afinal de contas eu tinha planejado tudo tão direitinho, onde é que já se viu dar tudo tão errado?! #classemediasofre né, eu sei. Depois de uma hora, a chuva parou, o sol apareceu e quando sentamos num banquinho por lá, o Alex me ajudou com muita psicologia, também conhecida como paciência de Jó, (vai ser um bom pai: sim ou com certeza?!) a perceber que não adiantava nada eu me revoltar contra coisas da natureza que estavam inteiramente fora do meu controle, e que pior ainda, com o meu mau humor, eu estava transformando um passeio que podia ser tipo 70% das minhas (altíssimas) expectativas em 0%. O Duc bem que falou no post dele que varia muito de ano pra ano, que às vezes a floração acontece mais cedo, às vezes mais tarde, e bem, chuva tá sempre sujeito né?! Ainda mais num país reconhecidamente chuvoso!

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Sei que se não fosse esse pep talk, eu ia continuar na minha ranzinzisse eterna, amém, e ia estragar um passeio que acabou sendo uma delícia! Sempre tive a maior sorte com o tempo em viagens e essa foi uma lição importante na minha (ainda tenra) vida de viajante. Oras, acontece com todo mundo né?! Aí depois disso demos umas voltas pelo parque e até achei legal que as tulipas estavam ainda molhadas da chuva, e ficavam ainda mais brilhantes nas fotos.

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E o mais bizarro é que agora, vendo as fotos, eu percebo mais ainda o tamanho da minha overreaction, porque até campos floridos tinha – só não na magnitude e quantidade que eu esperava. Pra gente ver o quão importante é a gente não criar uma idéia fixa do que a gente espera de uma determinada experiência né?! Ai ai Gabi… tsc tsc tsc.

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O parque Keukenhof é o maior e mais conhecido parque de flores do mundo, e foi criado em meados do século 19. Existe um foco grande em jardinagem, um aspecto organizado e bem cuidado. Ele abre as portas por menos de 2 meses ao ano, do fim de março até a metade de maio. Todos os anos, os jardins são redesenhados de acordo com tendências atuais nas áreas de floricultura e paisagismo. Todo ano tem um tema diferente, ano passado o homenageado era Van Gogh. E aconteça o que acontecer, enquanto ele estiver aberto, pode saber que existirá uma enormidade de tulipas por lá! Eles plantam os bulbos em épocas diferentes, pra ter um período de floração maior e garantir pro turista sedento por tulipas que tulipas ele encontrará.

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Como o parque nunca tinha sido minha atração principal, não me desiludi com ele em si porque já não esperava muito. Ficamos ambos com a impressão de uma “Disney das tulipas” sabe, manufaturado pro turismo? Tinha até um canalzinho e um moinho “pra inglês ver”.

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Nada de errado com isso, mas na verdade a minha vontade pessoal era vê-las no estado “natural” (entre aspas já que isso nunca existiu na Holanda né, desde os otomanos), nos campos, balançando com o vento, não organizadinhas em ilhotas simétricas no meio da grama bem cortada. Mas com expectativas ajustadas – que vivo batendo nessa tecla né?! – valeu muito, muito a pena, e tive direito a quase todas as tulipas do meu imaginário, além de uma lição de maturidade na turistagem e – por que não – na vida!

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Steve McCurry

Até setembro de 2013, eu nunca tinha ouvido falar em Steve McCurry. Inclusive, vou admitir minha profunda ignorância – eu tava passando 3 semanas viajando sozinha pela Itália e eis que, subindo as escadas atrás da catedral de Siena, eu vi de longe uma placa com a seguinte fotografia:

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Lembro claramente do que pensei na hora: “credo, onde é que já se viu o McDonalds usar uma foto tão emblemática da tristeza no mundo pra promover um sanduíche de curry?” HAHAHAHA juro!!! Aí cheguei mais perto, vi que esse era o nome da LENDA que fez a fotografia mais amplamente reconhecida do século XX e que a tal placa anunciava uma exposição do seu trabalho, e fiquei rindo sozinha da minha mente fértil.

Comprei na hora o ingresso. Como o nome diz, o foco da exposição era uma “viagem ao redor do homem”, um trocadilho com viagem ao redor do globo. A curadoria era tão, mas tão maravilhosa, que existia mais silêncio, respeito e admiração humilde dentro daquela exposição do que dentro da catedral. A instalação era simples e genial, com panos pretos revestindo as paredes e fazendo um labirinto em que só o que se via eram rostos humanos nas suas mais diferentes formas e expressões, iluminados de cima por uma luz quase etérea.

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Um headset desses de museu permitia que a gente inserisse o número da foto e ouvisse, na voz do próprio McCurry, a história por trás da imagem. Fiquei um tempão lá, ouvindo cada uma delas. Um dos destaques, como não poderia deixar de ser, era ela: The Afghan Girl.

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Em 1979, McCurry ainda era um jovem fotojornalista de um jornal local quando decidiu largar tudo e comprar uma passagem só de ida pra Índia.  No mesmo ano, a guerra da União Soviética contra o Afeganistão começou e jornalistas ocidentais foram banidos do país. Ele então cruzou a fronteira do Afeganistão a partir do Paquistão, com rolos de filme costurados nas roupas de mujahideen (lutadores da milícia civil) que usou pra se disfarçar. Em 1984, andando por um campo de refugiados no norte do Paquistão, ele ouviu que uma das tendas estava sendo usada como uma escola pra meninas. Ele entrou e notou imediatamente essa menina, que na época tinha só 12 anos, e os olhos verdes que ficaram conhecidos no mundo todo não só pela beleza, mas principalmente pela intensidade do olhar assustado de uma menina que tinha perdido os pais e a infância pra uma guerra civil.

Ele conta que ela parecia estar tão curiosa sobre ele quanto ele sobre ela, que provavelmente nunca tinha sido fotografada e nem visto uma câmera fotográfica na vida. Disse ainda que tudo coincidiu num instante pra compor uma das fotografias mais icônicas do mundo: a expressão no olhar dela, o lenço em volta do rosto, a cor da tenda ao fundo, a luz ambiente… e que, alguns segundos depois, ela levantou e saiu andando.

A imagem saiu na capa da National Geographic em junho de 1985 e chamou a atenção do mundo para o custo humano dos conflitos no Oriente Médio. A Nat Geo recebeu uma enxurrada de cartas de gente querendo ajudar, gente se voluntariando pra trabalhar nos campos de refugiados, querendo financiar os estudos da menina e até com propostas de casamento para a menina que tinha na época 12 anos (?!!!). McCurry fala que os próprios afegãos são incrivelmente orgulhosos da foto, porque apesar de mostrar a tristeza, pobreza e medo no olhar, ela mostra também orgulho e força.

Em 2002, a Nat Geo enviou uma equipe especial ao Afeganistão para tentar localizar a menina, e dela surgiu uma nova fotografia, dessa vez aos 40 anos de idade, que mostra mais uma vez as cicatrizes de uma vida difícil no mesmo olhar penetrante da mulher, cujo nome agora já se conhece ser Sherbat Gula. Quem tiver curiosidade pode ler a reportagem aqui.

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Tudo isso é pra explicar o meu profundo respeito e admiração por esse cara que, muito mais do que um fotógrafo genial, é um conhecedor do sofrimento e da alma humana. Esse fim de semana tive a sorte de descobrir na última hora que tava rolando uma exposição dele numa galeria pequenininha perto de Piccadilly Circus, e sábado de manhã na hora que abriu a galeria, eu tava lá batendo ponto.

Apesar de ter passado as últimas 3 décadas presenciando ao vivo e a cores os tons mais sombrios do sofrimento humano, não consigo pensar em outra palavra pra descrever o trabalho dele a não ser uplifting. Você vê uma imensidão de tristeza nos olhares e nas histórias por trás das fotos, mas ao mesmo tempo existe sempre uma aura de força, de resiliência, de protagonismo da própria vida, mesmo nas situações mais adversas. Agora em dezembro quando eu estava em Córdoba, fui a um tour guiado sobre a Inquisição Espanhola que falava que a consequência mais trágica de guerras e conflitos humanos é a despersonalização de um povo, que é privado violentamente não só dos seus bens materiais, mas principalmente dos costumes, da cultura e muitas vezes da religião e do idioma também. E é justamente isso que o McCurry quer preservar quando registra os sujeitos das suas fotos dessa maneira crua e realista. É preciso um tipo muito único de sensibilidade pra conseguir captar a essência de uma pessoa por trás das lentes, né?!

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Mas a frase dele que mais me marcou até hoje é “e nada nunca arranhou a minha fé no espírito humano, ou na bondade humana inesperada”. Às vezes caio na armadilha da auto-piedade quando penso como é difícil conviver com tanta tristeza na minha profissão, como a vida às vezes parece tão injusta, como tem dias que eu queria ter um emprego que não esfregasse na minha cara tanto sofrimento que existe no mundo, e logo me lembro que o que eu vejo é simplesmente a luta que cada um recebe na loteria da genética (sim, com alguma influência do livre-arbítrio na forma com que cada pessoa cuida do seu corpo) e que difícil mesmo deve ser presenciar diariamente o tipo de sofrimento que é diretamente infligido uns aos outros pelo ser humano. Policiais, investigadores, jornalistas, fotógrafos, a lista é tão grande. E acho incrivelmente inspirador que ele, depois de ter visto tanta coisa ruim nessa vida, cultiva uma postura integradora diante da vida, de que por mais atrocidades que o ser humano seja capaz de cometer, o potencial para o bem é ainda maior.