Steve McCurry

Até setembro de 2013, eu nunca tinha ouvido falar em Steve McCurry. Inclusive, vou admitir minha profunda ignorância – eu tava passando 3 semanas viajando sozinha pela Itália e eis que, subindo as escadas atrás da catedral de Siena, eu vi de longe uma placa com a seguinte fotografia:

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Lembro claramente do que pensei na hora: “credo, onde é que já se viu o McDonalds usar uma foto tão emblemática da tristeza no mundo pra promover um sanduíche de curry?” HAHAHAHA juro!!! Aí cheguei mais perto, vi que esse era o nome da LENDA que fez a fotografia mais amplamente reconhecida do século XX e que a tal placa anunciava uma exposição do seu trabalho, e fiquei rindo sozinha da minha mente fértil.

Comprei na hora o ingresso. Como o nome diz, o foco da exposição era uma “viagem ao redor do homem”, um trocadilho com viagem ao redor do globo. A curadoria era tão, mas tão maravilhosa, que existia mais silêncio, respeito e admiração humilde dentro daquela exposição do que dentro da catedral. A instalação era simples e genial, com panos pretos revestindo as paredes e fazendo um labirinto em que só o que se via eram rostos humanos nas suas mais diferentes formas e expressões, iluminados de cima por uma luz quase etérea.

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Um headset desses de museu permitia que a gente inserisse o número da foto e ouvisse, na voz do próprio McCurry, a história por trás da imagem. Fiquei um tempão lá, ouvindo cada uma delas. Um dos destaques, como não poderia deixar de ser, era ela: The Afghan Girl.

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Em 1979, McCurry ainda era um jovem fotojornalista de um jornal local quando decidiu largar tudo e comprar uma passagem só de ida pra Índia.  No mesmo ano, a guerra da União Soviética contra o Afeganistão começou e jornalistas ocidentais foram banidos do país. Ele então cruzou a fronteira do Afeganistão a partir do Paquistão, com rolos de filme costurados nas roupas de mujahideen (lutadores da milícia civil) que usou pra se disfarçar. Em 1984, andando por um campo de refugiados no norte do Paquistão, ele ouviu que uma das tendas estava sendo usada como uma escola pra meninas. Ele entrou e notou imediatamente essa menina, que na época tinha só 12 anos, e os olhos verdes que ficaram conhecidos no mundo todo não só pela beleza, mas principalmente pela intensidade do olhar assustado de uma menina que tinha perdido os pais e a infância pra uma guerra civil.

Ele conta que ela parecia estar tão curiosa sobre ele quanto ele sobre ela, que provavelmente nunca tinha sido fotografada e nem visto uma câmera fotográfica na vida. Disse ainda que tudo coincidiu num instante pra compor uma das fotografias mais icônicas do mundo: a expressão no olhar dela, o lenço em volta do rosto, a cor da tenda ao fundo, a luz ambiente… e que, alguns segundos depois, ela levantou e saiu andando.

A imagem saiu na capa da National Geographic em junho de 1985 e chamou a atenção do mundo para o custo humano dos conflitos no Oriente Médio. A Nat Geo recebeu uma enxurrada de cartas de gente querendo ajudar, gente se voluntariando pra trabalhar nos campos de refugiados, querendo financiar os estudos da menina e até com propostas de casamento para a menina que tinha na época 12 anos (?!!!). McCurry fala que os próprios afegãos são incrivelmente orgulhosos da foto, porque apesar de mostrar a tristeza, pobreza e medo no olhar, ela mostra também orgulho e força.

Em 2002, a Nat Geo enviou uma equipe especial ao Afeganistão para tentar localizar a menina, e dela surgiu uma nova fotografia, dessa vez aos 40 anos de idade, que mostra mais uma vez as cicatrizes de uma vida difícil no mesmo olhar penetrante da mulher, cujo nome agora já se conhece ser Sherbat Gula. Quem tiver curiosidade pode ler a reportagem aqui.

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Tudo isso é pra explicar o meu profundo respeito e admiração por esse cara que, muito mais do que um fotógrafo genial, é um conhecedor do sofrimento e da alma humana. Esse fim de semana tive a sorte de descobrir na última hora que tava rolando uma exposição dele numa galeria pequenininha perto de Piccadilly Circus, e sábado de manhã na hora que abriu a galeria, eu tava lá batendo ponto.

Apesar de ter passado as últimas 3 décadas presenciando ao vivo e a cores os tons mais sombrios do sofrimento humano, não consigo pensar em outra palavra pra descrever o trabalho dele a não ser uplifting. Você vê uma imensidão de tristeza nos olhares e nas histórias por trás das fotos, mas ao mesmo tempo existe sempre uma aura de força, de resiliência, de protagonismo da própria vida, mesmo nas situações mais adversas. Agora em dezembro quando eu estava em Córdoba, fui a um tour guiado sobre a Inquisição Espanhola que falava que a consequência mais trágica de guerras e conflitos humanos é a despersonalização de um povo, que é privado violentamente não só dos seus bens materiais, mas principalmente dos costumes, da cultura e muitas vezes da religião e do idioma também. E é justamente isso que o McCurry quer preservar quando registra os sujeitos das suas fotos dessa maneira crua e realista. É preciso um tipo muito único de sensibilidade pra conseguir captar a essência de uma pessoa por trás das lentes, né?!

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Mas a frase dele que mais me marcou até hoje é “e nada nunca arranhou a minha fé no espírito humano, ou na bondade humana inesperada”. Às vezes caio na armadilha da auto-piedade quando penso como é difícil conviver com tanta tristeza na minha profissão, como a vida às vezes parece tão injusta, como tem dias que eu queria ter um emprego que não esfregasse na minha cara tanto sofrimento que existe no mundo, e logo me lembro que o que eu vejo é simplesmente a luta que cada um recebe na loteria da genética (sim, com alguma influência do livre-arbítrio na forma com que cada pessoa cuida do seu corpo) e que difícil mesmo deve ser presenciar diariamente o tipo de sofrimento que é diretamente infligido uns aos outros pelo ser humano. Policiais, investigadores, jornalistas, fotógrafos, a lista é tão grande. E acho incrivelmente inspirador que ele, depois de ter visto tanta coisa ruim nessa vida, cultiva uma postura integradora diante da vida, de que por mais atrocidades que o ser humano seja capaz de cometer, o potencial para o bem é ainda maior.

 

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3 respostas em “Steve McCurry

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