Culinária Eslovena: o ouro!

Deixei a melhor parte por último, e hoje vim registrar a melhor experiência gastronômica que tivemos em Ljubljana e certamente uma das melhores da minha -até agora- breve existência (#jovem hahahah)

Como falei no post sobre o mercado de rua Odprta Kuhna, ficamos muito impressionadas com a qualidade de um dos estandes e consequentemente curiosíssimas a respeito do restaurante pai do estande, o JB Restavracija. O guri me deu um cartão, que guardei na bolsa e não pensei mais no assunto.

Quando chegamos em casa no fim do dia, com pressa de tomar banho e trocar de roupa a tempo de uns drinks pré-jantar ao por do sol no melhor rooftop da cidade, demos aquela olhada rápida no site do JB e de um outro lugar que estávamos de olho, o Gostilna As. Ambos tinham a mesma pegada culinaria eslovena meets alta gastronomia, sabe?! Estávamos super na dúvida e resolvemos ligar no Gostilna As primeiro – que, por sorte, não tinha mais reserva naquela noite! Liguei no JB já meio desesperançosa, afinal era sexta feira já no fim do dia, mas pra minha surpresa, o atendente confirmou nossa reserva e fomos felizes curtir nosso por do sol.

Nessa hora, vale lembrar que não tinhamos lido mil coisas nem explorado direito os sites nem os menus. Marcamos na pressa de quem tá turistando, achando que seria um restaurante bacaninha e bombado, sabendo que seria o jantar mais especial dessa viagem mas tipo… achamos que era mais um dos melhores restaurantes de Ljubljana, sabe?

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Chegando lá, quando nos receberam com pompa, circunstância e um prosecco rosé geladinho, caiu a ficha de que estávamos em um restaurante exclusivo. Poucas mesas, serviço impecável com vários garçons 100% atentos aos teus menores movimentos pra atender imediatamente, com aquela formalidade e deferência que deixam claro que você não está prestes a jantar – você está prestes a ter uma experiência gastronômica que foi pensada nos mínimos detalhes para deixar um marco na sua memória.


Logo na entrada, percebemos a quantidade de placas de prêmios que o chef já recebeu, inclusive o prêmio de um dos melhores 100 restaurantes do mundo pela revista Restaurant. E pensar que até uma hora antes, estávamos tentando reservar outro restaurante!!!

Resolvemos pedir o menu degustação na sua versão mais simples, e na hora que abrimos o cardápio…

Pera… BEAR thigh?

Não gurias, certamente é um erro de digitação, deve ser BOAR, wild boar é javali.

  • Moço, esse prato é carne de javali?
  • Não não, de urso.
  • DE URSO? Como assim?
  • É, de urso, (e apontou pra própria coxa), da coxa do urso.
  • Mas daonde vem o urso?

Nessa hora ele sorriu e gesticulou preguiçosamente em direção aos Alpes:

  • Da floresta!
  • Mas é permitido, é LEGAL comer carne de urso? – pausa para a espontaneidade da criatura que pergunta na cara dura em (supostamente) um dos 100 melhores restaurantes do mundo se estão servindo um prato ILEGAL.
  • Sim, claro, a caça de ursos é legalizada aqui na Eslovênia. E a carne é muito boa.

Sorri e agradeci pela resposta, e enfiei a cara no cardápio de novo.

Ficamos nos olhando uns minutinhos, naquele debate ético, pensando que nunca tinhamos aprendido que havia ursos na Europa central, muito menos ouvido falar em ninguém comendo a carne deles.

Olha, não vou ficar me justificando aqui, confesso que racionalizo totalmente os meus motivos para comer carne animal, porque amo o sabor e sou carnívora mesmo. Acredito na necessidade de proteína animal no desenvolvimento e manutenção do corpo humano e já assisti documentários de história natural demais pra duvidar da lógica que um dia a gente é caça, e outro o caçador (#fabiojrfeelings). Cansei de morrer de pena do bicho sendo caçado pra depois ver que a loba caçando os filhotes dos outros tava voltando pra casa de patas abanando pros próprios filhotes que estavam prestes a morrer desnutridos, e ver os papéis se invertendo de novo e de novo. Mas mesmo assim, nunca assisti a documentários pró-vegetarianismo e sei que só consigo continuar comendo porque desvinculo totalmente a imagem do animal da imagem da carne na geladeira ou no prato. E sigo mais ou menos a lógica de Sir David Attenborough, meu herói em vários aspectos, inclusive no que diz respeito à nossa relação com a natureza:

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Então nessa hora confesso que fui simplista e egoísta, pensando que provavelmente nunca mais teria essa oportunidade a não ser que um dia vá pro Alaska, e resolvi pedir o menu como estava, ao invés de trocar meu prato principal como fizeram as minhas amigas.

E aí começou um desfile de maravilhas que não dá nem pra explicar direito. Um couvert de creme de aspargos com caviar, seguido de um sashimi de atum do Adriático com wasabi e gengibre…

Seguido de ravióli recheado com queijo cottage e pistache acompanhado de foie gras, e ele, o prato principal: coxa de urso ensopada em molho de alho preto, com “štruklji” de cebolinha e creme de cranberry.

Maciiiia, as fibras de desfaziam sabe, não precisava nem cortar, só afastar com o garfo. Meio adocicada, me lembrou bastante o gosto de carne de veado (venison). Bem diferente mesmo, mas como falei pras meninas no dia, acho que muito do mérito era do molho que era divino.

Depois descobri, conversando com um local super simpático no ônibus de Bled pra Bohinj, que a população de ursos na Eslovênia e no norte da Croácia é monitorada e regulada, que se permite abater 10 a 15% deles na caça e que isso é estudado por biólogos – alguns defendendo que depois dessa estratégia ser implementada a população de ursos tem até crescido, já que antes da legalização da caça, podia-se abater ursos em situações de “conflito homem-urso”, dando margem pra transgressões e exageros como desculpa para dizimar grandes números e afetar a sustentabilidade da espécie. E que só se permite a caça quando a população excede um determinado limiar considerado seguro. Tanto é que nas 4 semanas desde que estivemos lá, o menu degustação já mudou e não inclui mais esse prato.

Enfim, pra completar a noite, a sobremesa foi O MELHOR bolinho de chocolate da minha vida (eles não chamavam de petit gateau, mas obviamente não fotografei o menu lá no dia, então não lembro o nome oficial da sobremesa. Mas era um petit gateau hehehe), imerso num creme de baunilha de chorar no cantinho.

E foi isso! Voltamos pro nosso flat sem nem acreditar na nossa sorte de o outro restaurante estar fechado. Acho que a coisa mais surreal desse jantar foi que, normalmente, quando a pessoa vai a um restaurante desse gabarito, ela já vai com expectativas altíssimas né? Nós não, pelo simples fato de que não sabíamos que o padrão do JB Restavracija era tão alto. Mas uma coisa é fato: o foco, ali, está primariamente na comida. E o resto, por mais milimetricamente planejado e bem-feito que seja, é só o resto!

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Culinária Eslovena: a prata

Ljubljana tem muitos restaurantes. Mas assim, MUITOS! Pra uma cidade tão pequena quanto é, tem opção de sobra pra comer bem por lá. Logo no primeiro dia, uma procura rápida me deixou super impressionada, e pensei na hora na sorte de quem mora por lá, que tem o sossego de uma cidade pequena com a vantagem de muitas opções culinárias!

Como as minhas amigas viriam da Áustria e da Alemanha, ambas de saco cheio da culinária altamente batatônica, salsichônica e cheia de sustança, já tratei de matar minha vontade justamente disso antes que elas chegassem!

Como contei no outro post, pedi pra mãe do dono do nosso flat me indicar um bom restaurante de comida eslovena, e achei um sarro quando ela apontou no mapa imediatamente para o restaurante na próxima esquina, dizendo: “Esse aqui ó. NAO ESSE. Esse”. Fiquei me perguntando qual era a do restaurante que ela desrecomendou, hehehehe.

Mas óbvio que fui na recomendação. Era o Gostilna Šestica, que por coincidência ou não, eu tinha marcado no meu guia de viagem porque li as palavras mágicas goulash com polenta. E ainda bem, porque é daqueles restaurantes com um menu giganteeeesco sabe? Jamais teria visto a polenta lá, acho! O restaurante é o mais antigo de Ljubljana, costumava ser uma pousada antigamente, acho que lá por 1700 e lá vai pedrada, e tem toda aquela vibe amarela, semi-escura, aconchegante, com garçom de bochecha cor de rosa que me lembrou imediatamente a Bavária, hahahah. Matei a saudade de polenta, matei a saudade de goulash, tomei uma tacinha de vinho e paguei módicos DEZ EUROS.

A via gastronômica de Ljubljana é a Cankarjevo nabrežje. Sabe aquele clima de beira-mar, onde todos os restaurantes têm mesas na calçada, com guarda-sóis, pra pessoa ficar ali curtindo o clima? Então.

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Depois que a Cris chegou, na nossa primeira noite lá, escolhemos o Zlata Ribica mesmo sem indicação nem grandes recomendações porque queríamos justamente isso: um jantar tranquilo na beira do rio pra colocar a conversa em dia e curtir um vinhozinho despretensioso. E foi isso que tivemos. Comemos bem, fomos bem atendidas, mas nada de espetacular, e o preço era o que se espera de um restaurante em localização nobre do centro turístico de uma capital européia: meio inflacionadinho.

Na sexta, fomos curtir uns drinks pré-jantar e um por do sol com vista no Nebotičnik, um rooftop que fica no prédio mais alto de Ljubljana, que nem é tão alto assim, mas tem esse nome porque foi construído nos anos 30 e era, na época, o prédio mais alto da Iugoslávia. Sempre acho que subir no ponto turístico mais alto de uma cidade não é necessariamente uma grande vantagem, porque aí você deixa de ter o próprio como parte da vista! Então eu diria que a vista do Nebotičnik é a melhor de Ljubljana justamente por isso. Olha só:

Nosso jantar de sexta acabou sendo num restaurante que merece um post à parte, que será o próximo, mas o de sábado foi no Gostilna na Gradu, que significa literalmente bistrô no castelo e fica no pátio do Ljubljanski Grad, o castelo de Ljubljana.

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Esse era outro dos meus asteriscos no guia de viagem, porque também tem um foco grande em culinária eslovena contemporânea, apesar de ter vários pratos bem internacionais e palatáveis pra quem não quer nada muito diferente. 

Isso por si só já bastaria pra chamar a nossa atenção, mas tem uma cereja nesse bolo: o restaurante é lindo, logo abaixo da torre do relógio do castelo, e com os dias longos da primavera européia, eu sabia que ia ser uma blue hour fenomenal – e realmente ficamos horas batendo papo na nossa mesinha no pátio, falando da vida até praticamente fecharmos o restaurante. Encerrou com chave de ouro nossa estadia em Ljubljana!



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Um PS valido é a sorveteria Cacao, porque sorvete italiano sempre será um PS válido ne?!

Culinária Eslovena: o bronze

Uma das primeiras coisas que eu me surpreendi ao ler sobre a Eslovênia foi que é um destino super foodie, com boa comida a preços justos, e uma onda de alta gastronomia tomando conta de Ljubljana. Pra completar, o país é grande produtor de presunto cru, de um tipo próprio de salame defumado (kranjska klobasa) e de trufas, ou seja: é lóooogico que come-se muito bem por lá!

O vinho eu já sabia que era de respeito, porque um amigo do Alex é importador de vinhos aqui na Inglaterra e foi zoado pela turma de amigos inteira quando anunciou que estava fazendo negócios com produtores eslovenos uns 5 anos atrás – mas a verdade é que a gente não ouve falar mais neles porque a imensa maioria da produção eslovena fica dentro do próprio país, eles adoram os vinhos locais e pouca coisa vai pra exportação justamente porque o mercado interno dá conta de quase tudo.

Eu nem me considero muito foodie e, quando viajo, só dou uma pesquisada em restaurantes por um outro ângulo: sempre procuro provar a culinária típica, experimentar coisas novas, mas nunca fiz questão de alta gastronomia (até pq né, £££) e muito menos reservei restaurantes antes de ir viajar. Meu Lonely Planet, então, foi marcado com três asteriscos: dois deles pela comida típica, e um deles pela vista.

Mas antes de falar de restaurantes específicos, quero falar do mercado de comida de rua mais alto padrão que eu já vi na vida:

Odprta Kuhna significa literalmente cozinha aberta, e é exatamente isso que ele é: uma grande cozinha aberta, na forma de estandes, aos pés da Catedral de São Nicolau, na praça Pogačarjev trg todas as sextas feiras de sol, da primavera ao outono, das 10 da manhã às 9 da noite.


 Olha, Londres é muito bem servida de excelentes mercados de rua, obrigada, mas esse me deixou de queixo caído pela infra-estrutura, qualidade e conforto que oferece. Não só as comidas são todas feitas na hora, como é de praxe nesses mercados, como os estandes são estáveis, espaçosos e bem organizados, os vendedores vendem vinho e espumante geladinho em taças de vidro pra você degustar em mesas de madeira estilo biergarten ou – pra quem curte uma vibe de índio que nem eu – sentar num tapetinho nos degraus da praça com um mini-aparador de madeira pras taças e pratos de comida. Mas ainda não é isso a estrela principal. 

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A estrela principal é, logicamente, a comida! Tem pra todos os gostos: turco, japonês, indiano, chinês, italiano, steak argentino… mas obviamente, vinho branco e rosé geladinho em mãos, fomos inspecionando todos os estandes eslovenos que encontramos!


A primeira escolha foi žlikrofi, que é tipo um tortellini esloveno cujo recheio, ao invés da proteína habitual dos italianos, é batata. Não falei que eles são uma mistura da Itália com a Áustria? Pois bem, esse prato é uma boa ilustração de quando a pasta italiana encontra o lado batatólatra dos germânicos. Eles servem os žlikrofi com molhos variados, e a nossa escolha foi o de trufas.


Depois, enquanto a Cris foi direto na mais alta gastronomia eslovena, eu fui direto na baixa gastronomia, e aí experimentamos os pratos uma da outra:

Ela parou vidrada no estande que tinha os pratos mais bonitos e bem apresentados do mercado, o JB, e pediu um filé de salmão em crosta de [inserir aqui nome do ingrediente que eu não registrei mentalmente nem fotografei pra lembrar]. 😂


E eu fui de pljeskavica, que nada mais é do que um hambúrguer feito de uma mistura de carne bovina, suína e de cordeiro, cortadinho em tiras e servido num flatbread tipo pita, e no meu caso, com um molho bem apimentadinho de pimentões assados chamado ajvar. É um prato balcânico, típico não só da Eslovênia mas de vários outros países da região, incluindo a Sérvia, a Bósnia e a Croácia.


O meu tava ok, mas ficamos muuuuito de cara com a qualidade do prato da Cris, então na hora de devolver a taça de vinho, soltei pro guri do balcão:

— Obrigada moço, tava ótimo. Vocês têm alguma recomendação de restaurante pra gente jantar hoje à noite?

A cara de espanto e ponto de interrogação que ele fez foi IM-PA-GA-VEL, antes de controlar a surpresa e responder com toda a educação:

— Ãhmmm…. o nosso?!

HAHAHAHA gente!!! Eu não tinha me dado conta que ali, diferente do que acontece aqui em Londres, a imensa maioria dos vendedores nesse mercado de rua são na verdade restaurantes conhecidos na cidade que usam o Odprta Kuhna como vitrine do seu trabalho, pra angariar clientes! Colocam uns dois ou três chefs junior lá, com um menu limitado a 2 ou 3 pratos a preços bem camaradas, pra ter exatamente o efeito que o JB Restavracija teve sobre nós. Pois bem. Aceitei o cartão que o moço me deu, notando que o restaurante ficava bem perto do nosso flat, e continuamos turistando. E o resto é história, que eu volto pra contar mais adiante!

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Good at life

Uns tempos atrás um amigo falou “cara, minha flatmate é daquelas pessoas ‘boas na vida’, sabe? Ela tem a vida toda organizada, sai pra balada no fim de semana, chega mais tarde do que eu e quando eu acordo eu encontro ela na cozinha fazendo um café da manhã saudável depois de correr 8km as 8 da manhã ‘pra espantar a ressaca'”.

A partir daí, adotei o termo! Mas nunca achei que fosse good at life, porque convenhamos, tô sempre na correria e especialmente ano passado foi tão frenético entre trabalho e viagens que se eu tivesse luz e papel higiênico em casa, eu já tava mais do que satisfeita com a minha performance na vida.

E olha, amei aquela loucura!!! Ainda quero registrar um post sobre o ano passado, porque foi o ano mais sensacional da minha vida. Acho que lido super bem com esse caos instalado, lembro que entre maio e junho do ano passado teve umas 6 semanas em que fiz 4 viagens e 2 maratonas de plantão. Obviamente meu quarto ficou um verdadeiro bombsite, tinha sempre uma mala por fazer/desfazer num canto, o cesto de roupa suja bombando, a geladeira fazendo eco e eu sobrevivendo semanas a fio à base de refeições prontas do mercado.


Esse ciclo se repetiu algumas vezes durante o ano, e apesar de fisicamente cansada, eu nunca reclamava porque adoro essa adrenalina, essa empolgação de estar sempre cheia de coisas pra fazer, principalmente se uma delas for viagem.

Mas guardadas as devidas proporções (que tipo de gente sai correr pra espantar a ressaca?! Se eu sair correr de ressaca capaz de ter arritmias malignas!), nas últimas semanas eu tenho percebido ao vivo e a cores o poder de uma vida organizada. Com as escolhas profissionais que eu fiz, a rotina é não ter rotina, e acho que por isso mesmo, sempre amei e valorizei longos períodos fazendo mais ou menos a mesma coisa. Amo rituais, tradições e rotinas!

Desde que voltei do Brasil em março, tenho tentado cuidar melhor da minha rotina. Esse ano tem sido bem mais pacato do que 2015, quase sem viagens planejadas, por conta de algumas indefinições na minha vida pessoal e profissional. Então tô dormindo mais cedo, acordando mais cedo, me exercitando com muuuito mais regularidade e comendo mais saudável. Se eu não levo nada pro trabalho, as opções lá são sanduíches que nem bons são ou umas comidas quentes super cheias de fritura, então tô levando meu almoço praticamente todos os dias, preparo na noite anterior ou no fim de semana pra deixar tudo mais prático e tô amando! Meu quarto tem passado a maior parte do tempo limpo e (relativamente) organizado, as roupas pra lavar em dia, a geladeira cheia de comida fresca. Pizza eu não resisto e é a minha exhaustion bailout meal de escolha, mas faz séculos que não como uma lasanha pronta do mercado!


Nesse primeiro semestre eu descobri que lido muito, mas muuuuito melhor com mudanças concretizadas do que com incertezas! Mesmo que algo mude de um jeito que eu não gostaria, eu me adapto bem e facilmente, o que eu acho muito mais difícil é essa sensação de estar prestes a, essa sensação de estar em standby. Então nesse momento, ter uma vida mais estruturada e principalmente me exercitar com regularidade tem ajudado a me manter centrada, sabe?! É sempre um aprendizado.



Só que olha que engraçado: comecei esse post meras três semanas atrás, e nesse meio tempo, deixei a peteca cair valendo. Fiz uma leva de plantões noturnos, seguida por um fim de semana de plantão, seguida por uma apresentação importante no trabalho que tava tomando todo meu tempo livre, e hoje tô começando mais uma maratona de noturnos. Exercício mesmo, tirando a ida e volta pro trabalho a pé, não faço há uma semana acho. E cara, é inevitável que as coisas fiquem caóticas quando a gente passa 13 horas ou mais por dia trabalhando, por vários dias seguidos. Então paciência, ano passado aprendi com maestria a tolerar a zona por um tempinho, e aí quando a vida volta ao normal, faço meu ritual da fênix pra renascer das cinzas: primeiro durmo tudo que preciso, depois me exercito, limpo o quarto, lavo a louça que tiver acumulada (geralmente uns pratos semi-limpos ou potinhos de plástico que lavo meia-boca no trabalho depois de almoçar), vou ao mercado comprar comida e faço aquele banho-e-tosa básico de cuidar da pele, dos cabelos e etc. Sem dramas.

Aí comecei a refletir e acho que ser good at life mesmo é aprender a mudar as prioridades de acordo com o momento: quando estou viajando loucamente ou trabalhando loucamente, minha mente entra em outro comprimento de onda, não sobra espaço pra me preocupar com as roupas pra lavar porque tô ocupada demais vivendo ou trabalhando, e cuidar da casa cai uns bons 3 degraus na minha lista de prioridades (ou 10, hahahahah). Mas quando tô passando um tempo mais pacato em casa, acho que ter essa estrutura e fazer questão de cuidar de mim faz com que eu consiga focar em outras coisas com muito mais serenidade.

Água dura em cabelo mole

Tanto bate até que cria uma ENGRONHA CATACLISMICA!

Até umas semanas atrás, tudo ia bem na esfera capilar da minha vida.

Meu cabelo sempre foi bem saudável, tanto que toda vez que vou na Fer Nabuco ela elogia a saúde e maciez dos meus cabelos! Nunca fui de gastar lá muuuita energia neles, mas aprendi desde cedo a diferença que a qualidade da água faz nos cabelos: quando mudei de Caçador (região de montanha, a quase 1000m de altitude) pra Floripa, aos 16 anos de idade, notei imediatamente o quão mais ressecado e menos viçoso meu cabelo ficava. E ir pra Caçador de férias era sempre aquela glória, mal precisava secar o cabelo com secador e já ficava me sentindo a própria Kate Middleton. Então quando vim pra Londres, percebi que desci mais um degrau nesse precipício da água ruim, e que ia ter que me espertar um pouco mais com os cuidados pra não ficar igual a Hermione Granger.

Depois que resolvi fazer luzes, na metade do ano passado, passei a caprichar ainda mais: uso máscara hidratante umas 3x por semana, sendo que uma delas eu realmente deixo agindo uns 20 minutos ou mais, uso um shampoo específico de “limpeza” uma vez por semana, evito secar o cabelo com secador (que é fácil pra mim, já que meu cabelo passa metade da minha vida escondido e amarrotado numa touca de centro cirúrgico #vantagens) e quando uso secador ou babyliss, sempre, sempre uso um protetor térmico antes. A única coisa que nunca consegui adaptar na minha rotina foi o pré-shampoo, sempre esquecia de passar de antemão e aí ficava fazendo hora por 15-30 minutos pra depois lavar, então não rolou.

Mas o fato é que há uns 15 dias, comecei a notar o meu cabelo mais duro, mais “grudado”, menos maleável independente até de quando eu fazia uma escova caprichada levantando a raiz pra ficar com aquele cabelo bouncy, com volume na raiz. Nada, niente, nulla, rien. Cabelo grudado na cabeça nível Severus Snape.

E depois piorou! Uns 10 dias atrás comecei a entrar em pânico que um lado do meu cabelo, sempre o lado direito (sabe-se lá por que cargas d’água, de repente é porque eu durmo desse lado), saía do banho TOTALMENTE EMBARAÇADO. Mas tipo, nível terror e pânico mesmo. Devia ter tirado uma foto pra provar que não tô exagerando, mas não tive essa presença de espírito. Não tô nem falando do aspecto vaidade da coisa, comecei a me preocupar com o tanto de cabelo que eu tava perdendo, porque mesmo que eu desembarace sempre com cuidado e carinho, minha escova sempre ficava lotada de cabelos falecidos.

Passei os primeiros dias em negação, amaldiçoando o dia em que resolvi fazer luzes de novo, porque justo naquele canto mais embaraçado é que tem uma mecha um pouco maior. Depois comecei a culpar o comprimento, já que nunca estive com o cabelo tão reto – to morta de saudade das minhas camadas, já de data marcada pra cortar! Mas aí voltei a pensar racionalmente e cheguei à conclusão de que, no mínimo, tinha que ser uma combinação do canto mais tingido, mais longo, mais agredido e portanto mais poroso, com o raio da água daqui de Londres, que é a mais dura na escala de dureza da região:

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A gente lembra do conceito de água dura que aprendeu no colégio né?! Eu lembro, e depois de vir morar aqui, não tem como negar que de fato afeta a nossa vida, porque os sais de cálcio se depositam na pia, na banheira, na chaleira elétrica… e no cabelo! Então fui ler sobre o assunto como parte da minha busca frenética por uma solução oquantoantespelamordedeus. E aí tudo fez ainda mais sentido.

Sabe esse terreno pedregoso adorável que faz com que a gente consiga ver as pedras no fundo? Que faz com que o rio não seja marrom lamacento? Que faz maravilhas da natureza como os penhascos brancos de Dover e a Jurassic Coast?

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Pois é. A mesma pedra que te dá esse prazer estético é a ruína do teu cabelo. Que beleza de metáfora pra vida né?! Hahahah o nome dela é limestone, calcário em português. Quando a água da chuva cai lá em Caçador, ela rola pedra abaixo sem grandes repercussões, porque o solo lá é rocha basáltica. Aqui, quando a água da chuva cai sobre pedras porosas como o calcário, ela penetra na pedra e vai dissolvendo cálcio e magnésio ao longo do caminho. E é por isso que nossas chaleiras elétricas sempre acumulam umas escamas branquinhas no fundo de tempos em tempos, porque a água vai fervendo e os sais de cálcio e magnésio vão ficando pra trás.

E vão ficando pra trás no nosso cabelo também. Os detergentes e shampoos tradicionais são compostos bicamada, que tem uma parte solúvel em água e outra em gordura, só que quando em contato com água dura, formam compostos insolúveis que se depositam e ficam ali para todo o sempre, amém.

A não ser que a gente use um composto quelante, que forma ligações muito fortes com esses compostos insolúveis e resgatam a dignidade das nossas cozinhas e, mais importante ainda, dos nossos cabelos!

Olha a diferença do meu cabelo entre as fotos acima e essa aqui embaixo, com o cabelo lavado em Amsterdam, cuja água é reconhecidamente das melhores e com menor teor de cálcio na Europa. Sem nem fazer escova!!! 

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A melhor opção seria um sistema de amolecimento da água para toda a casa, mas né… £££. A segunda alternativa é um filtro para o chuveiro, mas ainda assim custa mais de £200 e cada refil do filtro custa £80. Ou seja, nada feito por enquanto. Com esse valor, é mais custo-efetivo enxaguar o cabelo com água mineral sem gás por muito tempo! Opção esta que, aliás, ainda estou considerando.

Mas aí a partir disso, começou minha busca específica por um shampoo com agentes quelantes. A Amazon é minha melhor amiga e nessas horas é que vale a pena ter o Prime, pra receber no dia seguinte, porque todos os shampoos de limpeza profunda de farmácia estavam esgotados (além de nenhum deles mencionar especificamente agentes quelantes voltados à remoção de resíduos de cálcio). Pois bem. Comprei um deles que era mais amigo do bolso e seria entregue no dia seguinte só porque não aguentava mais aquele cabelo gosmento, e um outro mais potente e especializado, mas que chegaria só na semana seguinte.

O Neutrogena Anti-Residue Shampoo chegou no dia seguinte e corri pra lavar o cabelo, ansiosa pra ver o que aconteceria. Lavei uma vez e ao enxaguar já senti uma diferença imediata no couro cabeludo. Mas o canto loucamente embaraçado continuava lá. Lavei de novo e ele diminuiu, mas não sumiu por completo. Nem precisei ter vontade de arrancar os cabelos, porque a minha escova já tava fazendo isso por mim. Mas na verdade, depois de secar já percebi o cabelo uns 60% mais macio do que antes, então útil ele definitivamente é.


Fast forward uns dias… Cheguei da minha corrida no sábado de manhã, tomei meu banho e antes mesmo de sair do banheiro ouvi a batida na porta. Era o entregador com o shampoo novo: o Nioxin Intensive Therapy Clarifying Shampoo, que tem como promessa principal remover depósitos minerais! Aí sim, agora vai, José!


Fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria #not: meia volta volver, abri a caixa correndo, passei a mão numa toalha seca e entrei no banho de novo! Agora vai!

Realmente já senti diferença na hora de enxaguar o cabelo! Que maciez! Quanto tempo! Assim, não vou mentir, ainda tinha uns 10% do embaraçado, mas acho que nas próximas vezes que lavar vai saindo. Essa craca não se acumulou de um dia pro outro, então não vai ser de um dia pro outro que vai sair né?! Vamos ver, ainda dá pra melhorar, mas pelo menos o pesadelo da engronha cataclísmica já passou!!! Aleluia irmãos!
 

Bohinj

Enquanto eu planejava a nossa viagem pra Eslovênia, acabei caindo na foto de um lugar lindo no coração dos Alpes Julianos, que já encheu minha imaginação de idéias depois que o Alex me apresentou, com toda a pompa e circunstância no ano passado, a cultura do BADESEE (lagos de banho em alemão, em maiúscula – pq alemão na minha mente é sempre em maiúsculas hahahah – que tiraram de mim qualquer resquício de comiseração do tipo “ah coitadinhos dos bávaros e dos austríacos, eles estão tão longe da praia!”). Agora só quero saber de lagos alpinos! Quanto mais, melhor!

Mas assim que vi no mapa, eu sabia que o lago Jasna, da tal da foto, ficaria muito contramão pra nós, já que inicialmente eu vendi pras gurias a idéia de um bate e volta de Ljubljana pra Bled e só – então eu teria que planejar qualquer extra com cuidado pra não esticar a boa vontade delas muito longe!

Então continuei investigando maneiras de conhecer o Parque Nacional do Triglav (fala Triglau), o maior parque nacional esloveno. Eu já tinha lido sobre o monte Triglav, o pico dos Alpes Julianos e maior montanha da Eslovênia. Então quando descobri que tinha um jeito fácil de conhecer outro lago alpino, mais bucólico, autêntico e intocado do que Bled, que ficava no meio do parque Triglav e bem mais conveniente de visitar do que o Jasna, eu me joguei nas investigações!

Descobri que podíamos facilmente ir de Bled para Bohinj de ônibus, e depois comprar uma passagem de Bohinj até Ljubljana. Calculei pra ficarmos mais ou menos 4 horas em Bled e 3 em Bohinj, e propus pras meninas, já mostrando as fotos e fazendo aquela propaganda esperta, porque nessa altura do campeonato eu queria muito ir e não sei o que faria se elas disessem que preferiam passar o dia todo em Bled, heheheh.

Pois bem. Esperamos o busna no horário certo em Bled, que atrasou um pouquinho, e quando chegou, conseguimos sentar bem na frente, com vista panorâmica da viagem. A Cris e a Amanda sentaram juntas de um lado, e eu sentei do lado de uma mulher de uns 50 anos que não tinha a menor pinta de turista. Perguntei de onde ela era, e quando ela contou que era de Bohinj, não escondi minha empolgação! Aí já perguntei o que era mais bonito na cidade, se tinha alguma coisa imperdível pra fazer lá, e nisso o cara que tava sentado atrás da gente já entrou na conversa e começou a me contar sobre a região, que tem uma cachoeira linda aqui, trilhas de bike maravilhosas lá e assim por diante. Aproveitei pra perguntar coisas básicas tipo como se fala Bohinj direito em esloveno (é Bohin, o primeiro J mudo na minha história), qual a diferença entre restauracija e gostilna, e curti o maior papo com os dois eslovenos (que gente simpática e querida!!!) a viagem toda, hehehe.

Descemos em Bohinj já aprovando a decisão de ir: é um vilarejo alpino que parece saído de uma pintura, sabe?

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Vi a torre da igrejinha e comecei a imaginar uma vida medieval por ali. Será que as pessoas ficavam maravilhadas com tanta beleza ou porque nasceram e viveram sempre ali, porque não conheciam um mundo diferente, achavam normal? Será que paravam pra admirar a harmonia estética da paisagem?

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O lago, dramático, profundo, quase como um fiorde no meio dos penhascos, parecia saído de uma cena de O Senhor dos Anéis.

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Toda a atmosfera que Bled tem de balneário turístico, de hotéis com lençóis de algodão egípcio, Bohinj tem de vilarejo despretensioso, intocado, autêntico sabe? Essa foto aí de cima eu tirei sentada numas pedrinhas na beira do lago, onde paramos pra bater papo e curtir a sombra, enquanto à nossa direita um casal de eslovenos curtia um “dia de praia” com a filhinha de uns 4 anos. Não duvido que comece a ser mais explorado turisticamente num futuro próximo, mas como disse o meu amigo esloveno do busão, “espero que a gente consiga preservar nossas riquezas”.

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Obviamente não resisti a botar os pés na água cristalina (e GELAAAADA!).

E ficamos ali, admirando a paisagem, curtindo a sombra e o canto dos pássaros, alternando um estado de silêncio contemplativo (e exausto de sol e calor) e tentativas de captar a beleza do lugar em fotos.


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E eu sabia mesmo enquanto fotografava que, por melhores que fossem as fotos, elas não chegariam aos pés do quão escandalosamente linda Bohinj é. Fiquei realmente muito impressionada!

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Bled

Não é à toa que Bled estampa, com orgulho, a capa da maioria dos guias de viagem da Eslovênia. Quem, em sã consciência, desperdiçaria a oportunidade de vender um país através de um lago alpino de águas cristalinas rodeado por picos nevados, com direito a um castelo no penhasco e uma ilhota no meio com uma igrejinha pitoresca?


Chegamos em Bled num sábado ensolarado e assim que saímos do ônibus já sentimos o clima de balneário, quase dava pra sentir o cheiro de protetor solar, as pessoas passeando de chinelo na beira do lago, com aquela vibe relaxada de quem levantou, tomou seu café da manhã de frutas e croissants no hotel com vista pro lago, e resolveu dar uma caminhadinha pra assentar a comilança.

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Quando chegamos na beira do lago, eu não conseguia acreditar no que via. Tinha uma imagem mental da ilhota com a igrejinha, que é marketeada como o grande atrativo de Bled, mas confesso que achei a ilhota totalmente secundária e o que mais me impressionou e deixou boquiaberta foi o restante da paisagem. Como podia um lugar superar tanto as minhas expectativas?

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Os cisnes no lago, com o castelo pendurado no penhasco atrás. A torre pontiaguda da igrejinha, contraposta aos picos nevados. O verde intenso da água e das árvores, contrastando com o azul de um céu quase sem nuvens.

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Sabe aquele lugar que te dá vontade de passar uns dias, só de preguiça, levantando cedo numa cama de edredom branquinho, pra tomar um chá admirando a paisagem no silêncio total de quando todo mundo ainda tá dormindo? E depois ler um livro na sombra, e depois fazer um piquenique na beira do lago?

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Pra completar nossa felicidade, aquele era o dia da “abertura da temporada”, e além de um cara lendário anunciando as atividades do dia sem parar um megafone primeiro em esloveno, depois em inglês, depois em italiano e depois em alemão (sonho em falar 5 línguas até os 50 anos!), tinha também uma feirinha ao ar livre com tudo que há de melhor nesse mundo culinário: vinhos, queijos, salames, pães e doces italianos.


Chegamos lá às 9 da manhã, então fomos direto na barraquinha dos doces italianos e pude matar a saudade de falar italiano. Compramos várias bombas açucaradas pra complementar nosso café da manhã e fomos passear em volta do lago.

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O entorno todo tem 6km, mas ao invés de completarmos, fizemos a parte mais cenográfica e depois tivemos a brilhante idéia de voltar a tempo de comprar queijos, salames e vinhos pra almoçar por ali mesmo antes de seguir viagem para Bohinj. Isso coincidiu com a hora em que começaram a chegar ônibus e mais ônibus cheios de turistas, então tivemos certeza que chegar lá cedo foi a melhor coisa que fizemos, porque praticamente tivemos o vilarejo só pra nós por quase duas horas! Quando voltamos, a feirinha já estava bombando!

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Pra quem gosta de viajar mais devagar, acho que se hospedar por uma ou duas noites em Bled deve ser muito legal, especialmente pra quem gosta de atividades ao ar livre. Existem milhares de trilhas por ali, que eu acho que devem ser lindíssimas e bem tranquilas de fazer.

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Outro atrativo é ir até a ilhota no centro do lago. Eu tava bem afim de alugar um barquinho e ir remando até lá, mas as gurias não tavam muito nessa vibe semi-atlética e no fim das contas achei que íamos gastar muito tempo pegando um barco de passageiros até lá, sendo que todas concordamos que a igreja da ilhota não devia ser exatamente uma Capela Sistiiina assim e que mais valia um dolce far niente com um vinho branco geladinho, curtindo os 20 e poucos graus e admirando a paisagem, hahaha.

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Ir até lá como um bate e volta de Ljubljana foi muito fácil. Tem ônibus de hora em hora partindo da Avtobusna Postaja, a rodoviária central, e custa módicos 6.30 euros cada perna. A viagem dura aproximadamente 1h15min. Uma coisa importante que eu notei é a importância de evitar voltar pelas 17, 18h porque os ônibus de volta pra Ljubljana partem de muito antes e quando chegam em Bled ficam abarrotados de turistas, então se não tiver muita sorte, a pessoa pode ter que fazer a escolha de Sofia de esperar pelo próximo ônibus (dali a uma hora…..) ou ir em pé! Como só fiz um gol atrás do outro nessa viagem #modesta, nós combinamos a ida a Bled com Bohinj, e portanto voltamos confortavelmente sentadinhas desde lá 🙂

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Ljubljana

Quando uma amiga me contou no início do ano que passaria dois meses em Graz, na Áustria, a primeiríssima coisa que eu fiz, logicamente, foi ir direto pro SkyScanner. Mas né, não tem vôo direto de Londres pra Graz, então o segundo passo foi abrir um mapa e dar aquela escaneada esperta em destinos que ficassem a menos de 3h de trem pra ela e para os quais eu pudesse voar direto daqui. “Amanda, vamos pra Eslovênia?” “Vamos!”. Chamamos a Cris, uma outra amiga que mora na Alemanha, e marcamos a viagem.

Confesso que nem esperava muita coisa não, sabe? Sabia que Ljubljana era uma cidade pequenininha e pitoresca, sem grandes atrações espetaculares, mas achei isso ótimo, já que nunca tinha viajado com as meninas e ia ser fácil planejar a viagem numa vibe mais slow travel, com tempo pra gente botar a conversa em dia, sem deixar a Gabi ditatorial de viagem aflorar! Hahahah #honestidade

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Como o meu vôo de volta seria matinal por causa dos preços e o domingo seria um dia perdido, resolvi ir na quinta mesmo e fui a primeira a chegar. Alugamos um AirBnB SUPER bem localizado, na rua de trás da principal atração turística da cidade. Cheguei lá num dia ensolarado, com o bom humor que só uma viagem proporciona, e aí rolou uma das coisas que mais derretem o meu coração no mundo.

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Como eu tava chegando ao meio dia e o check-in teoricamente seria só às 16h, mandei mensagem uns dias antes pro dono do flat pedindo se podia pelo menos deixar as malas lá pra turistar em paz. (Calma, um early check-in não é uma das coisas que mais derrete o meu coração não! Já chego lá.). Ele não só me respondeu prontamente, como disse que eu podia fazer o check-in mais cedo sem problemas, mas que como ele estaria trabalhando, seria a mãe dele, que entendia e falava um mínimo de inglês, a me entregar as chaves. Então lá fui eu, só que o interfone não estava funcionando, então liguei pro número dela e expliquei do jeito mais claro possível que estava embaixo do prédio, se ela podia descer por favor.

Eu ADORO essa situação em que duas pessoas que não falam a mesma língua querem muito se entender. Já passei por isso muitas vezes na minha vida: fiz estágio na Áustria sem falar alemão e apesar de a maioria dos anestesistas falarem inglês fluente, a maioria do pessoal não falava; meu namorado conheceu meus pais, que falam um pouco de inglês mas não são fluentes, antes de aprender a falar português fluentemente; no início desse ano passei uns dias com a família da namorada do meu irmão me comunicando com meu francês muito rudimentar. Acho emocionante perceber, de novo e de novo, que quando existe boa vontade, e principalmente quando existe amor, existe entendimento. Claro que não dá pra filosofar sobre a vida, falar sobre política e o futuro do mundo, a interação fica limitada né, mas o olhar e a expressão da gente revelam tanta coisa, que basta isso pra estabelecer uma conexão entre duas pessoas.

E aí achei o máximo que ela foi super simpática, me explicou como funcionavam as coisas do apê e ainda consegui pedir onde encontrar comida típica eslovena de qualidade, antes de me despedir dela e ir explorar a cidade.

Acho que vou falar dos restaurantes num post separado, mas fui direto num restaurante típico que ficava a 5 minutos do flat e saí pra dar aquela caminhada de reconhecimento de área. Nessa altura do campeonato o céu já tinha fechado com aquelas nuvens cinzentonas de tempestade que eu amo, então passei a mão na sombrinha e fui.

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Minha primeira impressão de Ljubljana não poderia ter sido melhor: é parecida com uma das cidades mais queridas do meu coração! É impossível não traçar um paralelo com Salzburg. Uma cidade pequena e barroca, centrada num rio de águas verdinhas do derretimento dos Alpes, com uma igreja de domo de cobre oxidado bem verdinho contraposta a uma fortaleza no monte central da cidade.

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Claro que essa fórmula se aplica a milhares de outras cidades porque é uma fórmula de sucesso na história do mundo – as cidades antigas se formavam sempre centradas no rio por motivos óbvios de subsistência e conveniência, o cobre é usado na arquitetura desde o Egito antigo, na Europa medieval toda cidade tinha uma igreja com domo de cobre, e as fortalezas eram sempre construídas num monte central pra permitir que se avistassem inimigos chegando desde muito longe. Mas a gente faz associações entre aquilo que a gente conhece, e juntando a tudo isso a escala pequena e pitoresca da cidade e a arquitetura barroca, já bastou pra que eu ficasse naturalmente predisposta a adorar a cidade!

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Some-se a isso uma língua que por si só já me diverte e pronto: temos uma pessoa apaixonada! Nunca tinha ido a nenhum país de língua eslava, então passei boa parte do tempo rindo sozinha (ou fazendo piada com as gurias, que por sorte tem um senso de humor parecido, senão não iam me aguentar) dos sufixos deles. Tudo é anska, ilna, anski, usna, ija, anta. A igreja mais famosa da cidade é a Catedral Franciscana da Anunciação, essa cor de salmão aí da foto, e o nome original é Frančiškanska Cerkev Marijinega Oznanjanja. A rodoviária se chama Avtobusna Postaja. Restaurante é restavracija. Ou gostilna, o equivalente de um pub, que historicamente era uma guesthouse mas hoje em dia simplesmente denota um restaurante menos formal.

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Uma coisa que me chamou a atenção na estética da cidade e eu gostei muito é que, apesar de a Eslovênia ser o primo rico da Ex-Iugoslávia, ainda assim é um país que sofreu tensões políticas extremas e uma guerra de independência nos anos 90. Então enquanto Salzburg é uma patricinha de unhas feitas e cabelo escovado com seus prédios perfeitamente preservados, Ljubljana é a amiga descabelada e sem maquiagem, mas tão bonita quanto, e existe uma certa poesia no estado de disrepair dos seus prédios sabe?! Uma certa beleza decadente, como se fossem cicatrizes que mostram tudo que a pessoa já passou e sobreviveu, e por isso denotam força.

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Depois de ler e aprender um pouco sobre a Eslovênia, andando por lá eu cheguei à mesma conclusão que chego repetidamente sobre as pessoas: a gente pode até traçar paralelos, tentar comparar, notar semelhanças, mas é na sua história, em tudo que aconteceu – de bom e de ruim – a alguém ou um lugar que a gente vê a sua grande força. A sua singularidade. As trocas frequentes de mãos entre romanos, hunos, ostrogodos e lombardos, depois os quase 600 anos de dominação do Império Áustro-Húngaro, seguidos por anos de decadência comunista e a força que vem de uma independência desejada e batalhada para permitir mais crescimento e melhoria de vida resultaram numa cidade que, ao meu ver, é um amálgama do melhor de cada um dos seus vizinhos e de cada parte da sua história. O hedonismo, humor e simpatia italianos, a paisagem e arquitetura austríacas, a reconstrução e decadência poética ex-comunista, com uma dose extra de força heróica e personalidade que só vem de quem passou por tempos negros e conseguiu mudar uma situação infeliz. Então não, Ljubljana não é só mais uma cidade européia não! IMG_1948

The voiceover

Eu sou uma pessoa bastante reflexiva, já falei aqui que vivo filosofando sobre a vida, criando teorias, traçando paralelos. A qualquer momento, sempre existe a voz de uma Gabi superior narrando meus pensamentos, uma coisa assim bem Carrie Bradshaw meets Meredith Grey de ser, hahahah.

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Então volta e meia eu penso “ah, quero escrever sobre isso no blog”. Ultimamente, tenho pensado com mais frequência ainda, mas toda vez que abria uma janela de rascunho aqui, eu acabava olhando pra tela em branco por um tempo e deixando pra lá. Esse fim de semana reli vários dos posts antigos, aqueles bem do comecinho mesmo, dos meus primeiros dias em Londres, e morri de pena de não estar registrando mais o meu dia a dia, as minhas impressões sobre a vida e as minhas viagens. Aí comecei a pensar por que raios tava hesitando tanto pra escrever e me dei conta do que mudou: depois que coloquei o endereço do blog como “meu website” na descrição do meu perfil no instagram, comecei a ficar meio inibida de escrever o que eu penso. Nos últimos meses ganhei vários seguidores, super pouco em tempos de instacelebridades e youtubers com 100 mil seguidores, mas suficiente pra inibir uma pessoa extrovertida que lá no fundo é meio tímida. Don’t get me wrong, quem me segue é gente que tem uma filosofia de vida parecida, expatriados e expatriadas, etc e eu amo a troca que rola nos comentários e é justamente por causa dessa conexão que eu não tenho um diário privado e sim um blog aberto. Já disse antes que o instagram me ajudou a me sentir menos sozinha enquanto encontro uma rotina de manter contato com as BFFs que ficaram no Brasil (ou na França – oi Mah!) e as amizades londrinas estão em estágio embrionário – que aliás é outra coisa que eu tenho vontade de escrever aqui! Mas como meu perfil é aberto, qualquer um que não me segue também pode ver, e acho que é isso que vem me inibindo.

Quando a gente escreve algo num espaço público, não dá pra querer escolher quem lê, mas prefiro que quem se identifica comigo encontre o seu caminho até aqui de outras maneiras, afinal o Google tá sempre aí, nas raras vezes que comento em blogs amados eu comento com o perfil do WordPress, e foi assim que encontrei os blogs que mais tem a ver comigo. Me questiono qual é o valor de deixar pra qualquer um ver, lá no instagram, uma linha direta até dentro da minha mente. Achei meio bizarro o quão rapidamente uma minoria te julga quando tuas palavras caem sem querer num público que não tem nada a ver com você (alô Dignidade Médica, é com você que estou falando, hahahah!). Não estou numa egotrip pensando “ai nuoooossa tem taaanta gente interessada em ler o que eu penso”, hahahah na verdade é uma coisa puramente psicológica mesmo, até porque a febre de ler blogs esfriou, já que todo mundo tem um (presente!).

Então voilà: tirei o endereço de lá e aqui estou 🙂