Ljubljana

Quando uma amiga me contou no início do ano que passaria dois meses em Graz, na Áustria, a primeiríssima coisa que eu fiz, logicamente, foi ir direto pro SkyScanner. Mas né, não tem vôo direto de Londres pra Graz, então o segundo passo foi abrir um mapa e dar aquela escaneada esperta em destinos que ficassem a menos de 3h de trem pra ela e para os quais eu pudesse voar direto daqui. “Amanda, vamos pra Eslovênia?” “Vamos!”. Chamamos a Cris, uma outra amiga que mora na Alemanha, e marcamos a viagem.

Confesso que nem esperava muita coisa não, sabe? Sabia que Ljubljana era uma cidade pequenininha e pitoresca, sem grandes atrações espetaculares, mas achei isso ótimo, já que nunca tinha viajado com as meninas e ia ser fácil planejar a viagem numa vibe mais slow travel, com tempo pra gente botar a conversa em dia, sem deixar a Gabi ditatorial de viagem aflorar! Hahahah #honestidade

IMG_2059

Como o meu vôo de volta seria matinal por causa dos preços e o domingo seria um dia perdido, resolvi ir na quinta mesmo e fui a primeira a chegar. Alugamos um AirBnB SUPER bem localizado, na rua de trás da principal atração turística da cidade. Cheguei lá num dia ensolarado, com o bom humor que só uma viagem proporciona, e aí rolou uma das coisas que mais derretem o meu coração no mundo.

IMG_2028

Como eu tava chegando ao meio dia e o check-in teoricamente seria só às 16h, mandei mensagem uns dias antes pro dono do flat pedindo se podia pelo menos deixar as malas lá pra turistar em paz. (Calma, um early check-in não é uma das coisas que mais derrete o meu coração não! Já chego lá.). Ele não só me respondeu prontamente, como disse que eu podia fazer o check-in mais cedo sem problemas, mas que como ele estaria trabalhando, seria a mãe dele, que entendia e falava um mínimo de inglês, a me entregar as chaves. Então lá fui eu, só que o interfone não estava funcionando, então liguei pro número dela e expliquei do jeito mais claro possível que estava embaixo do prédio, se ela podia descer por favor.

Eu ADORO essa situação em que duas pessoas que não falam a mesma língua querem muito se entender. Já passei por isso muitas vezes na minha vida: fiz estágio na Áustria sem falar alemão e apesar de a maioria dos anestesistas falarem inglês fluente, a maioria do pessoal não falava; meu namorado conheceu meus pais, que falam um pouco de inglês mas não são fluentes, antes de aprender a falar português fluentemente; no início desse ano passei uns dias com a família da namorada do meu irmão me comunicando com meu francês muito rudimentar. Acho emocionante perceber, de novo e de novo, que quando existe boa vontade, e principalmente quando existe amor, existe entendimento. Claro que não dá pra filosofar sobre a vida, falar sobre política e o futuro do mundo, a interação fica limitada né, mas o olhar e a expressão da gente revelam tanta coisa, que basta isso pra estabelecer uma conexão entre duas pessoas.

E aí achei o máximo que ela foi super simpática, me explicou como funcionavam as coisas do apê e ainda consegui pedir onde encontrar comida típica eslovena de qualidade, antes de me despedir dela e ir explorar a cidade.

Acho que vou falar dos restaurantes num post separado, mas fui direto num restaurante típico que ficava a 5 minutos do flat e saí pra dar aquela caminhada de reconhecimento de área. Nessa altura do campeonato o céu já tinha fechado com aquelas nuvens cinzentonas de tempestade que eu amo, então passei a mão na sombrinha e fui.

IMG_1933IMG_1935IMG_1953

Minha primeira impressão de Ljubljana não poderia ter sido melhor: é parecida com uma das cidades mais queridas do meu coração! É impossível não traçar um paralelo com Salzburg. Uma cidade pequena e barroca, centrada num rio de águas verdinhas do derretimento dos Alpes, com uma igreja de domo de cobre oxidado bem verdinho contraposta a uma fortaleza no monte central da cidade.

IMG_1982IMG_2064

Claro que essa fórmula se aplica a milhares de outras cidades porque é uma fórmula de sucesso na história do mundo – as cidades antigas se formavam sempre centradas no rio por motivos óbvios de subsistência e conveniência, o cobre é usado na arquitetura desde o Egito antigo, na Europa medieval toda cidade tinha uma igreja com domo de cobre, e as fortalezas eram sempre construídas num monte central pra permitir que se avistassem inimigos chegando desde muito longe. Mas a gente faz associações entre aquilo que a gente conhece, e juntando a tudo isso a escala pequena e pitoresca da cidade e a arquitetura barroca, já bastou pra que eu ficasse naturalmente predisposta a adorar a cidade!

IMG_1943IMG_1954IMG_1955

Some-se a isso uma língua que por si só já me diverte e pronto: temos uma pessoa apaixonada! Nunca tinha ido a nenhum país de língua eslava, então passei boa parte do tempo rindo sozinha (ou fazendo piada com as gurias, que por sorte tem um senso de humor parecido, senão não iam me aguentar) dos sufixos deles. Tudo é anska, ilna, anski, usna, ija, anta. A igreja mais famosa da cidade é a Catedral Franciscana da Anunciação, essa cor de salmão aí da foto, e o nome original é Frančiškanska Cerkev Marijinega Oznanjanja. A rodoviária se chama Avtobusna Postaja. Restaurante é restavracija. Ou gostilna, o equivalente de um pub, que historicamente era uma guesthouse mas hoje em dia simplesmente denota um restaurante menos formal.

IMG_1980IMG_2138IMG_2001IMG_2145

Uma coisa que me chamou a atenção na estética da cidade e eu gostei muito é que, apesar de a Eslovênia ser o primo rico da Ex-Iugoslávia, ainda assim é um país que sofreu tensões políticas extremas e uma guerra de independência nos anos 90. Então enquanto Salzburg é uma patricinha de unhas feitas e cabelo escovado com seus prédios perfeitamente preservados, Ljubljana é a amiga descabelada e sem maquiagem, mas tão bonita quanto, e existe uma certa poesia no estado de disrepair dos seus prédios sabe?! Uma certa beleza decadente, como se fossem cicatrizes que mostram tudo que a pessoa já passou e sobreviveu, e por isso denotam força.

IMG_1964IMG_1969IMG_2071IMG_2061IMG_2070

Depois de ler e aprender um pouco sobre a Eslovênia, andando por lá eu cheguei à mesma conclusão que chego repetidamente sobre as pessoas: a gente pode até traçar paralelos, tentar comparar, notar semelhanças, mas é na sua história, em tudo que aconteceu – de bom e de ruim – a alguém ou um lugar que a gente vê a sua grande força. A sua singularidade. As trocas frequentes de mãos entre romanos, hunos, ostrogodos e lombardos, depois os quase 600 anos de dominação do Império Áustro-Húngaro, seguidos por anos de decadência comunista e a força que vem de uma independência desejada e batalhada para permitir mais crescimento e melhoria de vida resultaram numa cidade que, ao meu ver, é um amálgama do melhor de cada um dos seus vizinhos e de cada parte da sua história. O hedonismo, humor e simpatia italianos, a paisagem e arquitetura austríacas, a reconstrução e decadência poética ex-comunista, com uma dose extra de força heróica e personalidade que só vem de quem passou por tempos negros e conseguiu mudar uma situação infeliz. Então não, Ljubljana não é só mais uma cidade européia não! IMG_1948

Anúncios

4 respostas em “Ljubljana

  1. Essa comparação que você fez de Ljubljana e Salzburg foi perfeita – e ri muito da “patricinha de unhas feitas”. Que lugar fantástico. Cheguei a acompanhar suas fotos pelo instagram e fiquei boba com a arquitetura e o céuzão de tempestade (que também adoro!). Simplesmente lindo – definitivamente você colocou Eslovênia na minha lista! Obrigada!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s