Culinária Eslovena: o ouro!

Deixei a melhor parte por último, e hoje vim registrar a melhor experiência gastronômica que tivemos em Ljubljana e certamente uma das melhores da minha -até agora- breve existência (#jovem hahahah)

Como falei no post sobre o mercado de rua Odprta Kuhna, ficamos muito impressionadas com a qualidade de um dos estandes e consequentemente curiosíssimas a respeito do restaurante pai do estande, o JB Restavracija. O guri me deu um cartão, que guardei na bolsa e não pensei mais no assunto.

Quando chegamos em casa no fim do dia, com pressa de tomar banho e trocar de roupa a tempo de uns drinks pré-jantar ao por do sol no melhor rooftop da cidade, demos aquela olhada rápida no site do JB e de um outro lugar que estávamos de olho, o Gostilna As. Ambos tinham a mesma pegada culinaria eslovena meets alta gastronomia, sabe?! Estávamos super na dúvida e resolvemos ligar no Gostilna As primeiro – que, por sorte, não tinha mais reserva naquela noite! Liguei no JB já meio desesperançosa, afinal era sexta feira já no fim do dia, mas pra minha surpresa, o atendente confirmou nossa reserva e fomos felizes curtir nosso por do sol.

Nessa hora, vale lembrar que não tinhamos lido mil coisas nem explorado direito os sites nem os menus. Marcamos na pressa de quem tá turistando, achando que seria um restaurante bacaninha e bombado, sabendo que seria o jantar mais especial dessa viagem mas tipo… achamos que era mais um dos melhores restaurantes de Ljubljana, sabe?

IMG_2316

Chegando lá, quando nos receberam com pompa, circunstância e um prosecco rosé geladinho, caiu a ficha de que estávamos em um restaurante exclusivo. Poucas mesas, serviço impecável com vários garçons 100% atentos aos teus menores movimentos pra atender imediatamente, com aquela formalidade e deferência que deixam claro que você não está prestes a jantar – você está prestes a ter uma experiência gastronômica que foi pensada nos mínimos detalhes para deixar um marco na sua memória.


Logo na entrada, percebemos a quantidade de placas de prêmios que o chef já recebeu, inclusive o prêmio de um dos melhores 100 restaurantes do mundo pela revista Restaurant. E pensar que até uma hora antes, estávamos tentando reservar outro restaurante!!!

Resolvemos pedir o menu degustação na sua versão mais simples, e na hora que abrimos o cardápio…

Pera… BEAR thigh?

Não gurias, certamente é um erro de digitação, deve ser BOAR, wild boar é javali.

  • Moço, esse prato é carne de javali?
  • Não não, de urso.
  • DE URSO? Como assim?
  • É, de urso, (e apontou pra própria coxa), da coxa do urso.
  • Mas daonde vem o urso?

Nessa hora ele sorriu e gesticulou preguiçosamente em direção aos Alpes:

  • Da floresta!
  • Mas é permitido, é LEGAL comer carne de urso? – pausa para a espontaneidade da criatura que pergunta na cara dura em (supostamente) um dos 100 melhores restaurantes do mundo se estão servindo um prato ILEGAL.
  • Sim, claro, a caça de ursos é legalizada aqui na Eslovênia. E a carne é muito boa.

Sorri e agradeci pela resposta, e enfiei a cara no cardápio de novo.

Ficamos nos olhando uns minutinhos, naquele debate ético, pensando que nunca tinhamos aprendido que havia ursos na Europa central, muito menos ouvido falar em ninguém comendo a carne deles.

Olha, não vou ficar me justificando aqui, confesso que racionalizo totalmente os meus motivos para comer carne animal, porque amo o sabor e sou carnívora mesmo. Acredito na necessidade de proteína animal no desenvolvimento e manutenção do corpo humano e já assisti documentários de história natural demais pra duvidar da lógica que um dia a gente é caça, e outro o caçador (#fabiojrfeelings). Cansei de morrer de pena do bicho sendo caçado pra depois ver que a loba caçando os filhotes dos outros tava voltando pra casa de patas abanando pros próprios filhotes que estavam prestes a morrer desnutridos, e ver os papéis se invertendo de novo e de novo. Mas mesmo assim, nunca assisti a documentários pró-vegetarianismo e sei que só consigo continuar comendo porque desvinculo totalmente a imagem do animal da imagem da carne na geladeira ou no prato. E sigo mais ou menos a lógica de Sir David Attenborough, meu herói em vários aspectos, inclusive no que diz respeito à nossa relação com a natureza:

Screen Shot 2016-06-29 at 11.52.14 PM

Então nessa hora confesso que fui simplista e egoísta, pensando que provavelmente nunca mais teria essa oportunidade a não ser que um dia vá pro Alaska, e resolvi pedir o menu como estava, ao invés de trocar meu prato principal como fizeram as minhas amigas.

E aí começou um desfile de maravilhas que não dá nem pra explicar direito. Um couvert de creme de aspargos com caviar, seguido de um sashimi de atum do Adriático com wasabi e gengibre…

Seguido de ravióli recheado com queijo cottage e pistache acompanhado de foie gras, e ele, o prato principal: coxa de urso ensopada em molho de alho preto, com “štruklji” de cebolinha e creme de cranberry.

Maciiiia, as fibras de desfaziam sabe, não precisava nem cortar, só afastar com o garfo. Meio adocicada, me lembrou bastante o gosto de carne de veado (venison). Bem diferente mesmo, mas como falei pras meninas no dia, acho que muito do mérito era do molho que era divino.

Depois descobri, conversando com um local super simpático no ônibus de Bled pra Bohinj, que a população de ursos na Eslovênia e no norte da Croácia é monitorada e regulada, que se permite abater 10 a 15% deles na caça e que isso é estudado por biólogos – alguns defendendo que depois dessa estratégia ser implementada a população de ursos tem até crescido, já que antes da legalização da caça, podia-se abater ursos em situações de “conflito homem-urso”, dando margem pra transgressões e exageros como desculpa para dizimar grandes números e afetar a sustentabilidade da espécie. E que só se permite a caça quando a população excede um determinado limiar considerado seguro. Tanto é que nas 4 semanas desde que estivemos lá, o menu degustação já mudou e não inclui mais esse prato.

Enfim, pra completar a noite, a sobremesa foi O MELHOR bolinho de chocolate da minha vida (eles não chamavam de petit gateau, mas obviamente não fotografei o menu lá no dia, então não lembro o nome oficial da sobremesa. Mas era um petit gateau hehehe), imerso num creme de baunilha de chorar no cantinho.

E foi isso! Voltamos pro nosso flat sem nem acreditar na nossa sorte de o outro restaurante estar fechado. Acho que a coisa mais surreal desse jantar foi que, normalmente, quando a pessoa vai a um restaurante desse gabarito, ela já vai com expectativas altíssimas né? Nós não, pelo simples fato de que não sabíamos que o padrão do JB Restavracija era tão alto. Mas uma coisa é fato: o foco, ali, está primariamente na comida. E o resto, por mais milimetricamente planejado e bem-feito que seja, é só o resto!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s