Always a good idea

Uma das citações mais velha conhecida dos apaixonados por viajar – justamente por ser tão, TAO verdadeira – é o trecho de Viagem a Portugal, do Saramago:

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”

Essa última parte, pra mim, é a mais real. Voltar a lugares marcantes é sempre uma experiência de auto-conhecimento, e de uma certa forma sempre um recomeço. A gente se lembra das outras vezes que esteve lá, das primeiras impressões, mas principalmente de quem a gente era em cada uma dessas vezes.

Os posts que eu mais gosto de escrever são os mais íntimos, mais filosóficos, que envolvem mais reflexão. Infelizmente, são também os que eu mais enrolo pra escrever, porque começo, penso penso penso na vida e quando começo a escrever de fato, é hora de fazer outra coisa, heheheh. Então, por enquanto, basta dizer que desde a última vez que eu estive em Paris há 10 meses pra visitar o meu irmão, praticamente nada aconteceu como eu imaginava, nem para mim, nem para a maioria das pessoas do meu círculo mais próximo. Como a vida, mesmo nas dificuldades, continua sendo muito generosa, estão (estamos!) todos nos encaminhando, e mais fortes do que antes.

Então quando surgiu a chance de passar um fim de semana com uma das minhas melhores amigas da vida e o marido querido dela em Paris, fiz questão de não deixar passar! Saí de uma das rodadas de plantões noturnos mais brutais que já fiz desde que comecei a trabalhar aqui, dormi uma hora e meia, e como raios eu dei conta da minha listinha de afazeres pré-viagem em uma hora e meia antes de sair de casa, até agora eu não sei. Mas sei que entrei no trem pro aeroporto em alfa, devidamente envolvida pela trilha sonora de Amelie Poulain e morrendo de alegria por estar viajando de novo depois de quase dois meses.

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Mais tarde nesse mesmo dia, nos demos conta de que a nossa amizade já tem 10 anos – uma amizade que nasceu puramente do “santo que bate” numa aula de dança que fazíamos juntas! E nesses 10 anos, já acompanhamos várias fases da vida uma da outra, e nos últimos deles, tive o prazer de conviver com o Murilo, que é uma pessoa tão maravilhosa e que eu admiro tanto quanto a Mah. Então quando cheguei e brindamos com um champagne e comemos uns queijinhos enquanto colocávamos o papo em dia, me senti em casa – no sentido emocional tanto quanto físico – como não me sentia há tempos!

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Seguimos pro rooftop mais badalado de Paris, um pop-up cocktail bar que fica no terraço da loja de departamentos BHV, que por sua vez tem uma localização fenomenal, imediatamente oposta ao Hôtel de Ville. O Le Perchoir Marais foi A descoberta da Marina porque tem simplesmente A MELHOR VISTA da cidade, com direito ao sol se pondo atrás da Torre Eiffel com o Hôtel de Ville em primeiro plano, num ambiente super descontraído e despretensioso. Então bebemos uns drinks, conversamos horrores sobre a vida, conhecemos uns franceses e americanos aleatórios que renderam umas boas risadas, curtimos demais a noite e voltamos pra casa como na época da faculdade – com uma sacola de McDonald’s no colo! Hahahah muito, muito bom mesmo.

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Passamos a sexta-feira flanando pela cidade, começando pela mítica Citypharma, onde mais uma vez morri de dó de não ter sido po$$ível ir de Eurostar dessa vez, porque a variedade de produtos e os preços são bons demais!

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Seguimos em direção à Notre Dame, depois passamos em frente ao Hôtel de Ville onde tava rolando um vôlei de praia que eu achei O MAXIMO, e seguimos para a Paris Plage – a praia temporária que já virou tradição anual à beira do Sena.

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Amei demais o clima veranil na cidade! Nunca tinha visto a beira-rio tão arborizada, e até o próprio rio estava verde! Caminhamos por todo o percurso, batendo papo, até chegarmos ao Museu d’Orsay, que ambas adoramos e que apesar de ser o meu preferido, eu nunca mais tinha voltado desde 2009!

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Almoçamos uma quiche Lorraine maravilhosa no café dos Irmãos Campana, admiramos a vista linda da cidade que se tem a partir do terraço do museu, e seguimos para o famosérrimo relógio que proporciona um jogo de luz e sombra de levar qualquer amante de fotografia à loucura! Depois, claro, curtimos o pièce de résistance do museu: a ala impressionista. Lembro exatamente de ficar hipnotizada ao ver uma professora ensinando seus pupilos de uns 5, 6 anos, todos sentadinhos embaixo de uma das telas mais famosas de Monet. Vou colocar a foto aqui embaixo se tiver paciência de ir catar uma foto de mil anos atrás!

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Seguimos pra Montmartre pra curtir a vista da cidade ao por do sol e jantar no clima boêmio do bairro, apesar de que nenhum de nós queria nem uma gota de álcool, hahaha.

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E no sábado, começamos pelo Museu Rodin, que eu nunca tinha visitado e adorei. Tive um momento quase surreal quando chegamos em frente à Porta do Inferno, que é inspirada na primeira seção da Divina Comédia de Dante Alighieri, O Inferno. Meu avô materno, falecido há quase dois anos, tinha uma cópia grandona desse livro que ficava na parte mais baixa do guarda roupa dele, bem na altura de uma criança de 6,7 anos. Eis que eu tinha um fascínio por aquele livrão enorme (nem deve ser tão grande, mas na época eu achava enorme!) e não sei até que ponto eu posso estar imaginando ou de fato são lembranças, mas eu lembro nitidamente de abrir o livro e nas primeiras páginas ter uma ilustração parecidíssima com a obra de Rodin. Até queria voltar e ver o livro, pra ver qual é, mas achei muito legal como, independente da acurácia da minha memória, aquela obra de arte me teletransportou imediatamente pro quarto dos meus avós, 20 anos atrás!

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Depois dali, fomos a outro museu que eu queria muito visitar: o Musée de l’Orangerie. Outra experiência emocionante. Nem sequer me lembro quando surgiu o meu interesse pela obra de Monet, lembro vagamente das aulas de arte no colégio, do primeiro quadro dele, Impression: soleil levant, cujo nome nunca mais me esqueci, e só sei mesmo que apesar de não ser uma pessoa entendida de arte, minha época preferida sempre foi o Impressionismo. Então de repente me ver numa sala branca, minimalista, iluminada de um jeito etéreo que difunde a luz do dia que entra pela clarabóia, totalmente envolta pelos painéis das famosas ninféias (Nenúfares, em português). Por sorte, o museu estava super vazio, então pudemos sentar e admirar um pouquinho sem que milhares de pessoas tirassem a aura especial do momento.

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Outra coisa sensacional foi que tinha um parque de diversões no Jardin des Tuilleries com um desses air swings sabe, tipo o famoso do parque Tivoli na Dinamarca? Eu tinha aquela imagem mental de um negócio que aplica uma força centrífuga ferrenha na pessoa lá no alto, sem nenhuma proteção, só numa cadeirinha de metal – ou seja, MEDO. Mas na verdade esse é bem menor, e é um jeito sensacional de ver Paris do alto, rodando em alta velocidade, hehehehe.

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Depois encontramos o Murilo na Champs Élysées e fomos visitar a nave-mãe, onde ganhamos uma maquiagem digrátis, então aproveitamos e pedimos uma aulinha de contorno.

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Aí seguimos para as imediações da torre pra almoçar num restaurante EXCELENTE que eles conheciam, o Les Cocottes do chef Christian Constant, que é o bistrô com preços mais acessíveis do que seus restaurantes estrelados.

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Demos mais uma passeada nas imediações da torre, passamos em casa pra buscar minhas malas e eles ainda fizeram a super gentileza de me levar pro aeroporto, com um papo super legal no caminho. Voltei pra casa de alma leve e energia renovada!

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5 respostas em “Always a good idea

  1. Me fez viajar junto e desejar voltar a Paris pra viver um pouquinho mais dessa atmosfera que vc descreveu e que parece q nem conheci kkkkkk
    Gabi, como eh gostoso ler seus textos… Pena que vc tem pouco tempo p poder escrever mais e me deixar mais relaxada e motivada a pensar e fazer outras coisas!

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    • Obrigada, Caline!!! Pois é, eu adoraria escrever mais, mas demoro horrores pra escrever cada um pq fico pensando na vida ao invés de só sentar e escrever, hehehe. Às vezes me empolgo e saem vários, vamos ver se rola agora!

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  2. Pingback: Welcome to the Queen’s Gallery, miss | Gabi em Londres

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