Há flores em tudo que eu vejo

(ATENÇAO: overdose de fotos porque fiquei orgulhosa, ok?! Malzaê pelos 9173 minutos que vai levar pra carregar)

Eu sempre tive o maior fascínio por campos de lavanda. Aquele lilás a perder de vista, e o imaginário do cheirinho de lavanda no ar, sempre me fascinaram. Aquela imagem mental de guia de viagem da França, sabe?

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Essa imagem morava no mesmo lugar da minha mente que os ciprestes da Toscana e os campos de tulipas da Holanda, ambos desejos antigos que sou muito, muito grata por já ter realizado. Eu tinha certeza que, se um dia na vida fosse à Provence, seria na primavera, e planejaria a viagem toda em torno do cronograma de floração das lavandas. Só que, ao mesmo tempo, não é uma viagem em destaque nas minhas prioridades, porque pode ser feita em qualquer época da vida, talvez até melhor numa vibe mais slow travel, então enquanto o orçamento e o tempo são limitados (#otimista), vou pensando naquelas que exigem mais energia ou menos tempo/dinheiro. Mas sempre com aquela imagem mental em 3D com cheiro de lavanda!

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Até que, ano passado, vários brasileiros que eu sigo aqui em Londres foram ao Mayfield Lavender Farm, uma fazenda de lavanda orgânica no sul de Londres. Matar uma vontade antiga com menos tempo e menos dinheiro envolvidos? PRESENTE!

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Aí umas semanas atrás falei com a Helena e o Léo, uns QUIRIDUX de Floripa que se mudaram pra cá na mesma época que eu e o Alex. Eu sabia que esse era um programa perfeito pra amantes de fotografia, e eles toparam na hora. Chegou o fim de semana que tínhamos combinado. No sábado à noite, todas, TO-DAS as etapas do meu vôo de volta de Paris atrasaram. Cheguei em casa ligada no 220, não conseguia dormir por nada, mas às 7 da manhã do domingo, acordei num pulo: SOL!!!

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Às vezes até eu me surpreendo com a minha disposição, mas a verdade é que eu adoro os efeitos da imprevisibilidade do tempo aqui na Inglaterra. Fez sol? Fez calor? VAMOS PRA RUA, mermão, porque pode acabar amanhã mesmo! Acho isso um ótimo exercício pra vida. Afinal de contas, tudo pode –mesmo– acabar amanhã mesmo. Né?!

Chegamos cedo, mas naquele deslumbre de fotografar, fotografar, fotografar, já nos agachamos com nossas câmeras (e narizes inebriados de lavanda) no meio das 1038 abelhas que estavam fazendo a festa por lá, e ficamos por ali mesmo, rindo horrores das tentativas frustradas de fotografar as bumble bees, as abelhas peludinhas que parecem de desenho animado.

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Eis que, um tempão depois, descobrimos que tinha uma outra metade do campo lá pra cima que estava BEM mais cheia e viçosa!! Os donos são espertos e seguem a lógica do Keukenhof, de plantar as mudas em tempos diferentes pra que sempre haja arbustos no auge da floração desde julho até setembro, que é a epoca da lavanda aqui na Inglaterra.

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Verdade seja dita, o campo é praticamente uma versão lavandística do Keukenhof, porque mesmo que a gente chegue cedo, num domingo de sol, é im-pos-sí-vel tê-lo pra você mesmo, e ele é pequeno demais pra que a gente se perca por lá e fique totalmente circundado por lavandas em flor, daquele jeito que só o Plateau de Valensole faz por você. Então é tudo uma questão de perspectiva (#comotudonavida) e você só teria noção real do lugar se forçasse todo mundo a tirar fotos de ângulo aberto, da altura do olho.

Essa foto aqui embaixo eu tirei agachada, na altura das lavandas, e se tivesse tirado do alto dos meus 1.74m de altura, vocês veriam que tinha um bando de turistas asiáticos que praticamente montou acampamento por ali, apesar de estar explicitado no site que fazer piqueniques no campo não é mais permitido.

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A sorte é que, na vida, ninguém é forçado a só tirar fotos de ângulo aberto, da altura dos olhos! Às vezes você precisa se agachar, dar zoom, se esconder atrás de um arbusto, esperar o sol aparecer, esperar as pessoas saírem do seu enquadramento, mas a beleza está sempre ali, pronta pra se revelar pra quem espera e procura. Às vezes, não existe beleza clássica, porque a vida é cruel e injusta, mas o meu fotógrafo preferido ganhou a vida e ganhou o mundo mostrando que até no sofrimento existe beleza. Uma beleza melancólica, triste, de coração partido, mas que não deixa de ser bela. Que só basta procurar, exercitar a sensibilidade, ter olhos de ver.  E através desse prisma, ele mudou uma vida pra sempre – e muitas, muitas outras no processo, através de uma das iniciativas que eu, na minha humilde opinião, acho que tem maior poder de mudar o mundo: educar e empoderar mulheres para serem o que quiserem ser. E isso tudo com um otimismo realista que é a base do meu ideal de vida.

Não sei, já falei aqui meio superficialmente sobre a minha relação com a internet e mídias sociais, e como amante de fotografia e procuradora da beleza estética em tudo que eu vivo e vejo, eu acho isso muito natural… Não me sinto como se estivesse ludibriando ninguém por mostrar o lado mais bonito, mais poético, mais estético dos lugares aonde vou e da vida que eu levo. Isso existe desde os primórdios da humanidade, o que mudaram são os meios!

Os românticos sempre pintaram, retrataram, versaram sobre o mundo melhor do que ele é. Isso não quer dizer que são mais felizes do que os realistas, os niilistas ou quaisquer outros istas. Simplesmente escolhem ver o mundo com as lentes do otimismo. E que, irremediáveis como são, insistem em ver beleza até na tristeza.

“Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

(…)

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não”

Samba da Bênção, Vinicius de Moraes

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Enfim, não sei se é a Gabi médica que vê diariamente o quanto a vida é breve, ou se é a Gabi fotógrafa que sabe que as melhores composições são aquelas que a gente se contorce, se abaixa, procura ativamente e portanto tem aquela sensação de merecimento, mas o fato é que eu curto o exercício de procurar beleza, de procurar o lado bom. Nem sempre funciona. Nem sempre o botãozinho Pollyana está ligado, e sinceramente? Quem me conhece de fato sabe muito bem disso!

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Mas, as far as philosophies of life go, essa é a minha!

“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
Pertece ao seu tempo
-Entrai,irmãos meus!”

Poética II, Vinicius de Moraes

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3 respostas em “Há flores em tudo que eu vejo

      • Eu não sei nem como vc consegue escrever “esses poucos”, devido a correria que é a sua vida! Rs….
        Mas o importante não é a quantidade e sim, a qualidade. E isso seus textos têm de sobra! Sempre valem a paradinha entre um afazer e outro para a leitura! 😘

        Curtir

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