Retrospectiva 2016 – o desabafo

Nesse exato momento me encontro no meio do Atlântico, começando 2017 do jeito que eu gosto: viajando! E não tem situação melhor do que um bom e velho vôo longo sem wi-fi pra gente ser forçada a desconectar, e ter tempo pra refletir direito sobre a vida.

Eu tenho muitos defeitos, mas ingrata eu não sou. Tenho plena consciência da minha sorte na vida. De como os quase 30 anos da minha vida se passaram sem grandes percalços, quiçá até sem pequenos percalços. De como tudo que eu quis até hoje, cedo ou tarde eu consegui, e o que não foi possível na hora que eu quis, acabou se revelando melhor pra mim depois. Tenho consciência do quanto a vida é generosa comigo.

2016 foi um rude awakening da minha “vida cor de rosa”. Desde o primeiro minuto. Minha virada foi um plano B traçado às pressas. Ao invés de assitir os fogos de Londres à beira rio com meu namorado, irmão, cunhada e um casal de amigos que veio de Paris, os assisti pela televisão, à 1h da manhã no sul da França, chorando copiosamente e desejando exclusivamente de 2016 a saúde do meu irmão. Uns dias depois o Alex voltou pro Brasil para passar na melhor hipótese 3 meses, mas quem me acompanha já sabe que 2016 não foi o ano das melhores hipóteses. Sozinha em Londres, trabalhando muito na escuridão do inverno e fragilizada pela realidade de que a saúde das pessoas que eu mais amo no mundo não é de aço, janeiro ainda tinha mais dois choques reservados pra mim: uma amiga-irmã passando por uma super crise na vida, e um amigo querido diagnosticado com uma doença terminal aos 31 anos.

O primeiro semestre desse ano foi um abalo sísmico emocional de nível 6 na escala Richter na minha vidinha tão estável – quando uma coisa começava a melhorar, outra aparecia. Teve um momento do ano em que aguardávamos roendo as unhas o veredito da CAPES sobre a liberação do Alex para vir ou não, em que não sabíamos se teríamos que passar mais um ano a um oceano de distância um do outro, eu estava estendendo meu contrato no meu apê “mais um mês” e o fim do meu fellow se aproximava sem que eu tivesse emprego acertado na sequência. Quando achei que não tinha mais o que piorar, passei pela primeira rejeição profissional da minha vida. Nunca achei que mandar currículos e esperar uma chamada para entrevista que nunca veio fosse tão dolorido. Justo eu, que me achava tão proativa, tão desejável como funcionária, tão melhor do que era quando me mudei pra lá.

Isso tudo só no meu microcosmo, sem contar todas as bizarrices no cenário global…

E a cereja do bolo foi a culpa que eu sentia. O Alex sozinho e deprimido no Brasil, ele que se mudou pra lá aos 25 anos pra podermos ficar juntos, ele que encontrou na vida acadêmica uma possibilidade de aliar a paixão por História e Literatura e ao mesmo tempo morar no Brasil sem precisarmos encarar a pressão de um casamento por visto como tanta gente sugeriu na época e que nem eu nem ele jamais quisemos, ele que podia ter uma vida tão diferente, tão melhor (naquele momento) se eu nunca tivesse cruzado o caminho dele. Ele, que estava passando frio no inverno catarinense. E eu em Londres, de sonho realizado, de viagens planejadas, de drinks marcados em rooftops, de piqueniques na grama no verão, de amizades novas se formando.

O que mais nos torturava eram as indefinições. Eu lido muito, muito melhor com uma realidade “ruim” do que com incertezas, e o Alex é igual, então no dia primeiro de julho, resolvemos tomar nosso destino com as próprias mãos e decidimos que, apesar de ser o oposto do que a gente queria, o melhor era sacramentarmos que ele ficaria no Brasil até o começo de 2017 independente da resposta da CAPES, estabelecer uma vida profissional e uma rotina que o fizessem sentir que não fosse um tempo perdido. Eu renovei meu contrato no flat até 2017, marquei uma reunião com meu mentor para pensar em possibilidades profissionais que se encaixassem nos meus planos futuros para depois do fellow, finalmente aceitei o óbvio e decidi adiar uma prova para a qual eu absolutamente não tinha estrutura emocional pra estudar, e marcamos uma ida conjunta para o casamento do melhor amigo do Alex na Itália em setembro.

A partir daí, tudo começou a melhorar. O Alex passou a ensinar inglês e alemão pra várias turmas, prosseguiu com os planos de colaboração na universidade, publicou artigos, palestrou em uma conferência super importante com direito a elogios do diretor do Instituto Shakespeare e de uma das acadêmicas mais respeitadas do mundo na área dele, e eu aos poucos fui delineando novos planos de curto, médio e longo prazo também: um fellow de pesquisa que me permitiria num primeiro momento mais tempo livre pra estudar pras provas do Royal College, e num segundo momento uma melhora significativa do meu currículo; a decisão de encarar de vez uma trajetória difícil para ser anestesista sênior nessa terra, ao invés de um atalho que me custaria uma dor de cabeça e provavelmente menos autonomia depois; a aceitação de que aquela rejeição não foi só pelo modus operandi conservador da minha profissão (em que investir em renda fixa vale mais do que investir em ações, em que contratar uma médica brasileira -espécie raríssima na floresta selvagem de Londres- seria o equivalente a investir numa startup, e não na renda fixa do bom e velho conhecido padrão de treinamento inglês ou europeu), mas também porque eu ainda tenho muito pra melhorar no meu currículo e aprender a me vender. Ironicamente, quando estava tudo 90% acertado pro meu emprego atual, um daqueles hospitais lá de abril entrou em contato comigo querendo marcar entrevista. Provavelmente porque a primeira opção deles deu pra trás, mas enfim.

E nos últimos meses do ano, quando eu já nem esperava mais nada de 2016, mais uma vez meu bordão de que felicidade = expectativa – realidade se comprovou. Criei coragem pra encarar  em novembro aquela prova que eu tinha adiado em setembro e resolvido fazer só em março de 2017 – e passei!!! E pra dar um fatality nesse ano bizarro, ainda terminei o meu logbook de eco, completando o processo de certificação em eco, que coroou o primeiro capítulo da minha vida profissional em Londres, de adaptação, de aprender como funciona a medicina inglesa, de finalizar meu fellow de cardíaca e o meu objetivo original ao vir pra cá.

Eu, que estava louca pra ver 2016 pelas costas, agora o vejo com uma perspectiva totalmente diferente. 2016 foi o ano que mais me fez crescer até hoje, que me mostrou o que realmente importa na vida, que fortaleceu todas, TO-DAS as minhas relações (com meu namorado, com meus pais, com meu irmão, com as minhas melhores amigas). O ano baixinho, sem cara de jogador de vôlei, que levantou a bola bem, bem alto pra eu descer a minha mão direita com vontade em 2017.


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4 respostas em “Retrospectiva 2016 – o desabafo

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