(In)tolerância religiosa

Muitos e muitos anos atrás, me encontrei numa roda de conversa com 4 adultos e sem meus pais por perto. Contei orgulhosa que estava fazendo trabalho voluntário em uma instituição de caridade. Só que a instituição era de uma religião diferente à desses adultos, e para minha surpresa e desgosto, ouvi como resposta um uníssono de intolerância religiosa e preconceito, críticas e perguntas sobre por que raios não tinha escolhido uma instituição da religião predominante para voluntariar, e tanta degradação da outra religião, que me lembro distintamente até hoje que fui às lágrimas – de decepção, de raiva, de inconformismo. Não preciso nem explicar que aquilo me marcou profundamente.

Alguns anos depois, enquanto estudava para o vestibular, as aulas de história eram praticamente um refúgio, o momento em que eu relaxava, não anotava nada e lembrava que o vestibular não significava nada no grande esquema do universo, e ouvia fascinada enquanto um dos professores mais marcantes da minha vida falava com o mesmo respeito sobre as religiões “pagãs” da antiguidade, a Bíblia, o Alcorão, o Torah, os ensinamentos de Buda, e qualquer outra religião que fosse mencionada. Esse professor, depois obviamente dos meus pais, foi instrumental para que crescesse em mim o desejo intenso de entender o mundo e de enxergar mais semelhanças do que diferenças entre as pessoas que cruzam o meu caminho.

Nas últimas semanas, visitei pela primeira vez um país de quase totalidade muçulmana (🇲🇦) e logo em seguida um país também de maioria muçulmana, que foi berço de tensões étnicas e religiosas que políticos imorais exploraram como pretexto para seus jogos de poder, e destruíram milhares de vidas no processo (🇽🇰). Naturalmente, venho pensando MUITO sobre (in)tolerância religiosa, então foi quase com um choque que descobri, à medida em que o devorava, que o livro que eu tinha pré-comprado meses atrás e cujo enredo era pra mim um completo mistério teria as guerras religiosas do século 16 como tema central.

Entendo religião como uma maneira que as pessoas encontram de fazer sentido da vida, que é difícil e as vezes muito injusta, e entendo também que muita gente dispense religiões e encontre esse mesmo sentido através de outros instrumentos e atividades. Particularmente, sinto o mesmo arrepio, paz interior e perspectiva sobre a vida quando sobrevôo os Alpes, quando vejo os raios de sol da manhã entrando numa catedral medieval, quando medito em um centro budista, quando escuto a chamada de oração muçulmana, e espero que continue descobrindo novos lugares e situações pelo mundo que me dêem essa mesma sensação.

Continuo tentando entender o porquê de as escolhas particulares alheias incomodarem tanto, e tentando com toda a minha força me livrar do ímpeto de denegrir a escolha alheia para validar a minha própria, seja no âmbito que for.

Vejo qualquer tentativa de manipulação, para um extremo ou outro do espectro, como insulto à minha inteligência e livre-arbítrio.

Eu acredito apaixonadamente no direito de cada pessoa de escolher a sua crença (ou ausência de), e é por isso que tô escrevendo textão pra registrar todo o meu amor por esse livro, numa época em que discursos intolerantes estão tragicamente ganhando espaço na forma falsa e deturpada de “liberdade de discurso”.

Acredito que todo mundo tem o poder de fazer repensar aqueles que o/a respeitam. Deixo aqui minha pequena reflexão para reiterar e prometer que eu, Gabriela, jamais tolerarei intolerância ❤️🌎

(Recomendo fortemente a trilogia de Kingsbridge do Ken Follett, mas em especial esse último, que foi o que mais me fez refletir)

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