Cereal Killer

Já tava quaaase esquecendo de escrever aqui hoje!

Hoje de manhã, apesar da chuvinha chata, fomos a Shoreditch porque eu tava querendo ir a um café que tem um conceito muito legal: é um lugar especializado em todo tipo de cereal matinal, desses das antigas mesmo, aquelas caixas que quem foi criança nos anos 80 e 90 conhece tão bem.

Meu preferido era o do elefante, o Choco Krispies, e lembro que o do Rodrigo (acho) que era Fruit Loops. Aí chegamos lá e o menu é super inusitado, eles têm umas tigelas “sugeridas” em que eles misturam alguns tipos de cereal que acham que combinam – por exemplo o Alex pediu uma tigela toda centrada nos sabores de manteiga de amendoim, com umas bolinhas de chocolate e leite sabor banana. Já eu, como a razão da visita eram os floquinhos de arroz estourado cobertos de chocolate, acabei pedindo uma “monte sua tigela” com esses e uns Cinnabons, que são um cereal de canela super doce que eu teria amado se existissem na infância, e freeze-dried unicorn marshmallows 😂

Muito legal mesmo, e aí além de usarem os próprios cereais como decoração, eles seguiram o “tema” anos 80-90 com uns trolls nas prateleiras, uns bichinhos de pelúcia, e uma trilha sonora engraçadíssima de hits da época. E como se isso tudo não bastasse, ainda te trazem a conta dentro de uma capa de vídeo das antigas em VHS!

Pena que não deu pra esticar o passeio como eu tinha planejado inicialmente, eu AMO o Columbia Rd Flower Market então seria perfeito irmos lá, depois tomarmos o café da manhã e continuarmos perambulando por Brick Lane até vir pra casa. Mas na chuva não teria a mesma graça, então resolvi deixar pra lá e vir pra casa agilizar a vida pra essas próximas duas semanas que serão bem corridas – mas mesmo assim não consegui fazer tudo que queria 😣 Vou ter que me virar nos 30!

Flanando por Londres

Hoje o dia foi de flanar pela cidade e me despedir da Dri, que tá de mudança pros Estados Unidos essa semana. Então a Soph reservou pra gente almoçar num restaurante novo no rooftop da Selfridges: Il Tetto – e cara, que bola dentro!!! Comida italiana de verdade e um clima muito gostoso!!!

Depois cruzamos o Hyde Park passeando, tirando uma foto aqui e outra ali, beirando a Serpentine, paramos pra tomar um chá e papear mais… e depois fomos ao Victoria and Albert Museum. A Dri não ia lá há anos e queria voltar, e eu adorei a escolha dela porque nunca tinha ido. Com certeza não será minha última visita!!! Tem umas peças de decoração muito lindas, uns tapetes persas de cair o queixo, mas fiquei surpresa ao ver tantas esculturas – eu na minha ignorância achava que era um museu só de design e moda, mas na verdade depois descobri que ele tem a maior coleção de esculturas renascentistas fora da Itália! E além de ter tudo isso, tem uma arquitetura maravilhosa que só perde pro vizinho Natural History Museum.

Então chegamos lá e aproveitamos o solzinho pra sentar no courtyard, olhar as crianças brincando no espelho d’água e falar da vida. Muito muito gostoso, curti demais.

Até tentamos encerrar o dia com um drink NO Tâmisa, no Tattershall Castle que eu curto muito, mas as meninas imediatamente notaram o balanço do barco e decretaram que não ia rolar, hehehe… então cruzamos pro South Bank, jantamos no Wagamama e encerramos o dia com um brinde no Founders Arms.

O dia foi uma delicia, só flanando por Londres, falando da vida e de planos, dos novos capítulos que cada uma tem pela frente, muita energia boa mesmo. Sempre admirei demais a maneira da Dri encarar a vida de braços abertos e hoje foi mais uma celebração dessa filosofia de vida, que nós três compartilhamos ❤️

Pra encerrar com chave de ouro, vim pra casa a pé ouvindo música, pra completar minha caminhada preferida no mundo, deitei no sofá com o Alex e estamos aqui de preguiça, ele vendo os melhores momentos do futebol, eu escrevendo aqui, e daqui a pouco saem empadinhas quentinhas do forno pra completar nossa domestic bliss! Hehehehe

É primaveraaaa

Hoje fez um dia lindo, super agradável e ameno, aquela luz dourada já mais veranil – é incrível como a gente nota muito claramente as diferenças no ângulo de incidência da luz aqui conforme as estações.

Terminei minhas anestesias relativamente cedo, ainda fiz a boa moça e fui me oferecer pra liberar dois colegas para lancharem, etc etc, e ainda assim sai do hospital antes das 17h!!! AI QUE FESTA!

Aí no caminho pra casa mandei mensagem pra umas amigas perguntando se alguém queria me encontrar em Shad Thames pra tomar um drink na beira do rio. A Paola veio, e depois a Dri, que tinha ido encontrar uma amiga em outro lugar, também resolveu ir pra lá nos encontrar. No fim das contas acabamos as 4 rindo horrores, falando alto e fazendo mil piadas em português no restaurante!

Falei no Instagram (@gabiemlondres) sobre QUÃO feliz o londrino fica quando faz um dia bonito!!! É muito legal essa gratidão e vontade de viver que toma conta da cidade em dias bonitos!

Auto-conhecimento

Quanto mais o tempo passa, maior o peso do auto-conhecimento nos meus objetivos de vida.

Ter mais clareza sobre quem a gente é, o que a gente gosta ou desgosta, o que realmente importa na vida da gente, como a gente reage quando está com medo, como a gente lida com mudanças (etc etc, a lista não tem fim) é uma tarefa que eu pessoalmente considero difícil.

Primeiro de tudo porque, do ponto de vista evolucionário, nossa mente não foi feita para ver a vida com clareza. Nossa mente foi feita para ver a vida da maneira que mais contribua para o sucesso evolutivo (leia-se assegurar que nossos genes sejam passados adiante). Veja que isso não está em discussão, nem estou questionando se é justo ou correto. Se você acredita em ciência e na evolução das espécies, isso é apenas mais um fato que decorre muito logicamente dos bilhões de anos de seleção natural. Assim sendo, nossa mente mente pra gente o tempo todo, o que torna a auto-análise e a auto-imagem muito dúbias.

E segundo, porque auto-conhecimento requer reflexão, e em um mundo em movimento incessante, em um mundo que cada vez mais compete pela nossa atenção, cada vez sobra menos tempo para a introspecção verdadeira, para o ócio genuíno, o ócio produtivo – para de fato olhar pra dentro ao invés de pensar nas mensagens não respondidas no WhatsApp.

Em janeiro desse ano, eu tive um insight super importante, eu diria que talvez um dos mais importantes que já tive nos meus tenros 30 anos de vida (hahaha) – e hoje sei que poderia ter me poupado muita frustração se tivesse tido esse mesmo insight 2 ou 3 meses antes! Mas não vou falar o que é porque acabei de voltar de um jantarzinho no Soho com uma amiga e agora tá na hora de ir dormir, porque amanhã tem mais labuta me aguardando, mas como diz um jornalista de telejornal no Brasil, graças a Deus é sexta feira! 😂

Multitasking é uma falácia

O conceito “estar ocupado” é tão glamourizado hoje em dia que as pessoas se sentem praticamente culpadas quando não estão administrando 38 tarefas diferentes ao mesmo tempo. As vezes penso que estamos doentes coletivamente com uma ansiedade endêmica e que o ócio criativo só sobrevive (e bem, obrigada) naquelas cidades de interior onde a gente passa de carro e vê um vôzinho de 80 anos sentado de boa no lado na varanda de casa, contemplando o nada, sabe-se lá pensando em quê.

Não me entendam mal: eu adoro produtividade, adoro automatizar tarefas que não agregam nada à minha vida (como por exemplo pagar contas – existe alguém que ainda paga uma por uma?!) e adoro descobrir maneiras mais eficientes de fazer uma mesma tarefa.

Mas eu acho que as pessoas confundem o conceito de multitasking com o conceito de tocar a própria vida na forma de múltiplos projetos.

Multitasking seria você literalmente fazer varias tarefas ao mesmo tempo: fazer aquela ligação para a operadora de celular enquanto caminha pro trabalho tentando não ser atropelada na rua, conversar com o namorado sobre os planos do fim de semana enquanto atualiza o orçamento no laptop, seja lá o que for. E já está mais do que provado que o cérebro humano não foi feito pra funcionar dessa maneira. A cada interrupção, você tem um gasto de energia adicional ao retornar, até que o seu cérebro processe de novo em que ponto estava, e recapitule o que é necessário fazer agora. Acaba que você faz múltiplas tarefas mas faz múltiplas tarefas mal-feitas.

Já o approach de mini projetos seria você aceitar ir até onde pode com uma determinada tarefa, mas aí tem uma etapa que não está no seu controle, que não depende de você – aí faz sentido abandonar temporariamente e engavetar até que a pendência se resolva, e aí faz sentido usar esse período para avançar em outro mini projeto.

Exemplo: chego em casa e é meu dia de fazer o jantar (projeto A) mas também preciso dobrar as roupas que secaram do dia anterior (projeto B). Se meu jantar vai ser uma refeição fácil e semi-pronta (que é o caso na maioria das vezes), eu coloco o bolinho de peixe para assar com um timer de 10 minutos, abandono e vou dobrar as roupas. Quando o forno apitar, vou ali e coloco os vegetais na panela pra ferver, e coloco mais um timer de 10 minutos. Nesse intervalo, eu posso esquecer que o jantar existe, porque deleguei a função de me lembrar do horário ao timer, e não há nada mais que eu possa fazer para acelerar/finalizar o projeto A. Então nesse período, posso dobrar todas as meias e todas as roupas íntimas, e finalizar o projeto B antes de poder retomar o projeto A. Mas em nenhum momento tentei fazer duas coisas ao mesmo tempo, entende? Só estou usando um intervalo de tempo obrigatório a meu favor. E se eu estiver fazendo um jantar intenso, que me exige ficar na beira do fogão mexendo o tempo todo, logicamente não tentarei fazer mais nada nesse período.

Eu gosto muito de ler ficção, mas também curto muito livros sobre neuropsicologia e o funcionamento da mente humana, por que somos como somos e tal. Um deles é sobre um dos meus conceitos preferidos, que por muitos anos procurei uma explicação e finalmente encontrei – chama-se Flow e trata do (agora já consagrado) estado de fluxo: quando você está no ponto ótimo de concentração e absorção em uma tarefa. Meu primeiro contato com essa sensação foi nas provas de matemática no colégio – eu curtia muito a resolução dos problemas, parecia um transe mesmo, e o tempo parecia simultaneamente se alongar e se encurtar. Não, eu não usava LSD antes das provas de matemática 😂 mas sabe aquela sensação de “nossa, mas já acabou?!” combinada a uma sensação de presença de espírito, de você estar 100% ali, 100% atenta ao momento presente?!

Claro que as atividades que induzem e permitem esse estado de fluxo são muito variadas dependendo de habilidades e gostos pessoais, e obviamente muitas tarefas mundanas jamais elicitarão esse tipo de sensação em ninguém.

Mas quando a gente presta atenção irrestrita no que está fazendo, quando a gente se nega a ser carregado pelos pensamentos para um passado que não pode ser modificado ou para um futuro que pode não acontecer, tudo fica melhor, né?!

Enfim, esse assunto da muito mais pano pra manga, mas agora fiquei tão empolgada escrevendo que acabei de me dar conta que o tempo passou e preciso ir dormir logo porque amanhã a labuta me aguarda e o dia será longo!

Novo velho ritmo

Gente, é só o terceiro dia do mês e eu já quase esqueci de escrever aqui!

Como falei ontem, em março eu mudei de emprego, e não só eu voltei para o dia a dia de anestesista que por si só é muito mais dinâmico do que o de intensivista, mas ainda por cima estou trabalhando em áreas da anestesia que são o expoente disso – quando vim pra cá, fiz um ano e meio de cardiaca, que são cirurgias super longas e apesar de estarmos trabalhando o dia inteiro, temos 2 ou 3 cirurgias por dia, e só.

Hoje de manhã eu cheguei no trabalho, fiz avaliação pré-anestésica de 7 pacientes, depois anestesiei as 7 pacientes, engoli meu almoço em 15 minutos e depois vi os 3 pacientes da tarde, que por sorte foi relativamente curta porque o 4o paciente não foi! E mesmo assim cheguei em casa um caco de tanto correr pra lá e pra cá!

É quase um cansaço gostoso, aquela sensação de ter trabalhado, de merecer o descanso, mas ao mesmo tempo estou surpresa porque ando tendo uns sintomas de velhice tipo dor nas pernas no fim do dia, coisa que nunca tinha tido antes, nem nos dias mais corridos da residência 😳 Eu hein!

Mas não to entregando os pontos ainda, acho que é só um período de readaptação mesmo ao velho ritmo de trabalho. Senão daqui a pouco vou ter que começar a usar meias Kendall, e todo mundo sabe que a partir daí é só ladeira abaixo né?! Hahahaha

Emprego novo

Como tem muita novidade pra contar, vou escrevendo aleatoriamente mesmo, ao invés de tentar relatar cronologicamente os fatos.

Acabei de voltar de um jantar com uma amiga alemã que fiz no meu primeiro emprego aqui em Londres, e isso me fez pensar bastante nas mudanças profissionais pelas quais passei desde então.

Quando resolvi ir ficando e planejar uma carreira sustentável por aqui, isso incluiu um passo crucial que foi fazer a primeira parte das provas do Royal College. Acontece que, com o ritmo de trabalho que eu tinha, somado ao fato de as provas serem muito diferentes (e muito mais difíceis) do que eu estava acostumada, fui aconselhada pelos meus mentores a mudar para um emprego com horários mais compatíveis, que me permitisse focar a minha atenção e energia nos estudos – e assim foi, e sou muito grata por esse conselho porque realmente foi instrumental. E ainda assim a prova foi a coisa mais difícil que já fiz, do ponto de vista técnico inclusive, mas principalmente do ponto de vista emocional.

Só que esse emprego era em UTI, que ainda é uma especialidade irmã da Anestesia aqui, e pela qual sou muito grata porque me faz uma médica melhor mas que, com todo o respeito, não foi o que eu escolhi. E enquanto eu estava envolvida com outras coisas foi ótimo, mas quando varias outras burocracias começaram a dar errado, que outra hora eu conto melhor, comecei a sentir o peso de trabalhar com algo que não é o que escolhi, que não me desperta tanto prazer e curiosidade, e só nos últimos dois meses é que fui me dar conta do quanto aquilo estava me chateando.

E olha, quando eu falo isso, nem sequer quero dizer que estava fazendo um trabalho que eu desgosto! Simplesmente não me trazia tanta satisfação e significado quanto a Anestesia, que sempre foi minha paixão. Então ao mesmo tempo em que andava super chateada com varias coisas, confesso que até curtindo uma auto-piedade pelas coisas que estavam dando errado, no fundo da minha mente eu tinha consciência que tenho mesmo é que ser grata porque mesmo meu emprego sub-ótimo ainda me trazia momentos muito bons e cheios de significado. E também suspeito que o caso específico de um paciente acabou me marcando e contribuindo pro meu desanimo nesse período.

Enfim, tudo isso pra contar que finalmente estou de volta à minha grande paixão, anestesiando muito e matando muitas, muitas saudades!!!

😷

Ressurreição

Oláaaaaa,

Nessa Páscoa resolvi fazer uma coisa nova: uma tentativa comprometida de ressuscitar este modesto diário (HAHAHA tá mais pra anuário né?!).

Falei uns posts atrás que acabo não escrevendo quando as coisas vão melhor do que o normal, e também já deixei de escrever quando as coisas iam pior do que o normal, donde se conclui que -conforme essa lógica- eu precisaria que as estrelas todas se alinhassem de uma maneira específica, que não houvesse nem demais nem de menos acontecendo na minha vida, para que eu pudesse sentar aqui pra registrar o que estivesse acontecendo (ou deixando de acontecer na minha vida). Sem sentido, certo?

Então vou tentar a estratégia inversa – vou escrever algo, mesmo que um só parágrafo, todos os dias desse mês. Praticamente um stream of consciousness, quer haja assunto, quer não. Quem sabe assim volto a cumprir o propósito desse espaço?!