(In)tolerância religiosa

Muitos e muitos anos atrás, me encontrei numa roda de conversa com 4 adultos e sem meus pais por perto. Contei orgulhosa que estava fazendo trabalho voluntário em uma instituição de caridade. Só que a instituição era de uma religião diferente à desses adultos, e para minha surpresa e desgosto, ouvi como resposta um uníssono de intolerância religiosa e preconceito, críticas e perguntas sobre por que raios não tinha escolhido uma instituição da religião predominante para voluntariar, e tanta degradação da outra religião, que me lembro distintamente até hoje que fui às lágrimas – de decepção, de raiva, de inconformismo. Não preciso nem explicar que aquilo me marcou profundamente.

Alguns anos depois, enquanto estudava para o vestibular, as aulas de história eram praticamente um refúgio, o momento em que eu relaxava, não anotava nada e lembrava que o vestibular não significava nada no grande esquema do universo, e ouvia fascinada enquanto um dos professores mais marcantes da minha vida falava com o mesmo respeito sobre as religiões “pagãs” da antiguidade, a Bíblia, o Alcorão, o Torah, os ensinamentos de Buda, e qualquer outra religião que fosse mencionada. Esse professor, depois obviamente dos meus pais, foi instrumental para que crescesse em mim o desejo intenso de entender o mundo e de enxergar mais semelhanças do que diferenças entre as pessoas que cruzam o meu caminho.

Nas últimas semanas, visitei pela primeira vez um país de quase totalidade muçulmana (🇲🇦) e logo em seguida um país também de maioria muçulmana, que foi berço de tensões étnicas e religiosas que políticos imorais exploraram como pretexto para seus jogos de poder, e destruíram milhares de vidas no processo (🇽🇰). Naturalmente, venho pensando MUITO sobre (in)tolerância religiosa, então foi quase com um choque que descobri, à medida em que o devorava, que o livro que eu tinha pré-comprado meses atrás e cujo enredo era pra mim um completo mistério teria as guerras religiosas do século 16 como tema central.

Entendo religião como uma maneira que as pessoas encontram de fazer sentido da vida, que é difícil e as vezes muito injusta, e entendo também que muita gente dispense religiões e encontre esse mesmo sentido através de outros instrumentos e atividades. Particularmente, sinto o mesmo arrepio, paz interior e perspectiva sobre a vida quando sobrevôo os Alpes, quando vejo os raios de sol da manhã entrando numa catedral medieval, quando medito em um centro budista, quando escuto a chamada de oração muçulmana, e espero que continue descobrindo novos lugares e situações pelo mundo que me dêem essa mesma sensação.

Continuo tentando entender o porquê de as escolhas particulares alheias incomodarem tanto, e tentando com toda a minha força me livrar do ímpeto de denegrir a escolha alheia para validar a minha própria, seja no âmbito que for.

Vejo qualquer tentativa de manipulação, para um extremo ou outro do espectro, como insulto à minha inteligência e livre-arbítrio.

Eu acredito apaixonadamente no direito de cada pessoa de escolher a sua crença (ou ausência de), e é por isso que tô escrevendo textão pra registrar todo o meu amor por esse livro, numa época em que discursos intolerantes estão tragicamente ganhando espaço na forma falsa e deturpada de “liberdade de discurso”.

Acredito que todo mundo tem o poder de fazer repensar aqueles que o/a respeitam. Deixo aqui minha pequena reflexão para reiterar e prometer que eu, Gabriela, jamais tolerarei intolerância ❤️🌎

(Recomendo fortemente a trilogia de Kingsbridge do Ken Follett, mas em especial esse último, que foi o que mais me fez refletir)

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Por que parou? Parou por quê?

Estou há mais de 6 meses sem escrever nada aqui. SEIS MESES!!!

Então resolvi parar pra refletir um pouquinho, tentar entender o porquê dessa pausa não planejada e preguiça generalizada de registrar minha vida por aqui.

Já falei outras vezes que minha relação com esse espaço é tipo aquela máxima do queijo suíço:

“Quanto mais queijo, mais buracos

Quanto mais buracos, menos queijo

Portanto… quanto mais queijo, menos queijo”

Quanto mais acontecimentos e mudanças na minha vida, menor a chance de eu parar por tempo suficiente pra refletir e registrar aqui. Porque eu demoro né, comigo não tem essa de escrever rapidinho enquanto a comida esquenta, porque fico pensando na morte da bezerra, traçando paralelos e tal. Aí você diz: bah, Gabi, mas então você escolheu um método muito paradoxal pra fazer teus registros, né. E realmente, o instagram acaba sendo um querido diário muito mais fiel ao meu dia a dia porque leva de alguns segundos a alguns minutos pra postar, dependendo da complexidade da legenda, e ainda que a legenda seja só um emoji da preguiça, a foto estará lá, e eu me lembrarei de quando ela foi tirada.

Só que nesses últimos meses, até isso tem ficado meio em segundo plano. Um tempo atrás recebi uma mensagem privada no instagram de uma menina muito querida e simpática, dizendo que adora minhas fotos mas estava sentindo falta da minha personalidade, das minhas legendas espirituosas e piadinhas que acompanhavam as fotos. Que os posts estavam ficando meio genéricos, ela olhava e não sabia mais quem tinha postado.

A grande verdade é que muitas coisas mudaram (para melhor!!!) na minha vida!

Desde o meu último post aqui no blog, o Alex voltou a morar em Londres, eu passei pelo maior obstáculo profissional (e psicológico) da minha –reconhecidamente– privilegiada existência, nós passamos juntos pela caça ao tesouro imobiliário londrino (e pesadelos associados, haha), fizemos mudança no melhor estilo londrino, usando metrô, muitas malas e muito bíceps, mobiliamos o flat com direito a múltiplas idas à Ikea e muito suor e lágrimas para montar tudo sozinhos (#dramalhão #mentira), estabelecemos uma nova rotina, curtimos muito o verão inglês com direito a inúmeros piqueniques e atividades ao ar livre, e agora sim a vida está estabilizando.

Paralelamente a tudo isso, aconteceram muitas mudanças internas também. Quando eu me mudei pra cá, eu tinha poucos amigos e a natureza do meu trabalho significava que os poucos amigos que eu tinha do trabalho estavam sempre de plantão em horários incompatíveis com os meus, então eu passava muito do meu tempo sozinha. O whatsapp e o instagram eram minhas companhias constantes, e como eu já disse antes, sou muito reflexiva, então usava os posts como forma de externalizar todas essas minhas elucubrações, observações e trocadilhos bobocas que meus amigos gringos provavelmente não entenderiam. Devo muitas das minhas amizades atuais ao instagram, mas à medida que elas foram atravessando a barreira da internet para a vida real, e especialmente depois que o Alex voltou pra cá, eu diria que em boa parte das atividades que faço no meu tempo livre, eu estou acompanhada. Acompanhada de uma pessoa real -seja meu namorado, sejam amigas- cuja companhia eu prezo demais, e portanto tenho feito um esforço consciente de não abandonar a ver navios enquanto enfio a cara no celular pra postar uma foto no instagram com uma legenda enorme e reflexiva. Isso não quer dizer que eu não queira mais ou não goste mais de filosofar – muito pelo contrário, no fundo sou uma pessoa introspectiva, e sinto uma necessidade quase física de curtir minha própria companhia, então sempre procuro assegurar um tempo comigo mesma. Desse tempo invariavelmente surgem reflexões que eu gostaria de, em algum momento, compartilhar, mas o fato é que a esfera virtual não tem sido uma prioridade na minha vida ultimamente.

Outra razão pro meu sumiço é um pouco mais complexa. Eu nunca tive a intenção de escrever para outrem, heheheh. Não me entenda errado: eu adoro as interações da internet – acredito que elas inspiram, agregam, desafiam, engrandecem a gente (se a gente filtrar quem a gente segue, mas isso é assunto para outro post). E também não dá pra negar que todo mundo tem um pouquinho de Narciso dentro de si: é legal ver as pessoas se interessarem pelas tuas opiniões, é legal receber comentários e atenção, e principalmente é recompensador para a psiquê humana receber a validação dos coleguinhas, ainda mais se os coleguinhas forem gente com ideais parecidos, gente que a gente respeita. Por mais blasé e too cool for school que você queira parecer, o seu subconsciente tá lá, se regozijando com cada sinal de aprovação que você recebe, seja online, seja na vida real. Tô pra ver alguém ter a cara de pau de negar. Mas meu objetivo maior com esse espaço é descaradamente egoísta: quero manter um registro da minha vida, dia a dia, mudanças de perspectiva e objetivos, etc etc. Aí você diz: mas Gabi, se é assim então faz um blog privado! E eu respondo: “oi, meu nome é Gabriela, e estou há 0 dias sem procrastinar”. Hahahahah gente, se nem com amigos perguntando de vez em quando “e aí Gabi, abandonou de vez o blog?” eu me mexo pra escrever, imagina se ele fosse trancado só pra mim?! Então fico dividida entre os benefícios do compartilhamento, e uma certa resistência intrínseca de escancarar minha vida privada na internet, mesmo que haja meia dúzia de gatos pingados lendo. Não sou uma pessoa particularmente aberta, quando estou passando por momentos difíceis prefiro dividir só com as pessoas mais próximas, mas ao mesmo tempo não quero que esse blog seja uma coleção superficial dos highlights da minha vida (que aliás nem isso eu tenho conseguido manter). Muito mais do que o fim de semana estendido no Báltico, ou o dia em Wimbledon, ou o piquenique de verão na beira do rio, acredito que o meu eu é definido por aqueles momentos em que apesar das renúncias, de repente em um momento super simples e ordinário toda a sua vida faz sentido, e também pelas grandes superações, pelas dificuldades, perrengues e medos que cada um enfrenta. Dificuldades, perrengues e medos estes que eu não tenho uma habilidade natural, nem facilidade para relatar.

No fim das contas, independentemente de qualquer outra coisa, sempre achei que escrever me ajuda a entender meus próprios sentimentos, sabe, organizar as idéias. Depois de passar naquela prova difícil que passei em maio, um dos requerimentos de um dos mentores que me ajudaram era que eu escrevesse um email pra ele refletindo sobre toda a experiência. Nesse último domingo, precisei procurar um negócio relacionado na minha caixa de emails, e reli tudo. Gente, impressionante como escrever pra mim é o equivalente daquela comunidade antiga do orkut que dizia “Chorar resolve”. Hahahah… Incrível o quanto colocar preto no branco me ajuda a fazer sentido das coisas. Pode até não mudar nada na minha vida no aspecto prático, mas só o fato de colocar pingos nos meus is internos me fortalece e me inspira.

Agora que a vida está se estabilizando, vou voltar a priorizar um tempinho por semana aqui, porque afinal de contas, se ter o registro é importante pra mim, preciso organizar o meu tempo pra fazer acontecer, certo?! Talvez eu tente escrever posts mais curtinhos e frequentes, ao invés de escrever essas odisséias que normalmente escrevo, pra ver se funciona melhor. Então, como diz o exterminador do futuro: I’LL BE BACK! 😂

Fim de semana à milanesa

Bom, tive um plantão do cão ontem e, nas últimas 36 horas, dormi menos de 3 horas no total. Então estou aqui, numa sexta-feira às 18:00, fazendo de tudo pra aguentar acordada pelo menos até as 20:00 porque senão acordo no meio da noite, totalmente desorientada, sem saber que ano é. E depois meu sono fica estragado por uns 3 dias. Uma delícia.

Então achei que uma maneira fácil de passar o tempo seria registrar o fim de semana passado.

Tudo começou em meados de novembro, quando estava à toa em casa e recebi uma notificação no celular: RYANAIR FLASH SALE! E assim, em condições normais de temperatura e pressão, hoje em dia penso bastante e coloco os custos no papel antes de encarar vôos low cost. Várias vezes quando você soma todos os traslados até o aeroporto, e depois na cidade de origem, já que as low cost tendem a viajar de/para os aeroportos menos nobres e mais afastados de cada cidade, o valor total acaba se aproximando bastante do que se pagaria pra voar com uma companhia aérea tradicional.

Mas dito isso, essas flash sales são aqueles poucos dias no ano em que as passagens são REALMENTE baratas. Estamos falando £7, £10, £15 por trecho! Aí, do alto dos meus 29 anos, resolvi na minha cabeça que não deixaria essa oportunidade passar nem que a vaca tussa e comecei a investigar destinos possíveis pra viajar sozinha – o Alex ainda não estaria aqui e a maioria das minhas amigas tinha compromisso já. Avaliei as opções que ainda estavam disponíveis (incrível como esgota rápido!!!) e achei que Milão seria ideal para um fim de semana indo no sábado de manhã e voltando domingo à noite.

Eu já conhecia a cidade, passei dois dias lá em 2013 e fiz o único lerê turístico do qual eu fazia absoluta questão: A Última Ceia de Leonardo da Vinci. Isso é assunto pra outro dia, mas eu AMEI a visita e ela ficou marcada a ferro e fogo na minha memória como uma das experiências mais tocantes que já tive com arte. Talvez em parte por ter visitado sozinha, ter tido a sorte de uma visita silenciosa (os outros visitantes eram a maioria de meia idade), enfim, outro dia conto mais.

Então eu sabia que iria pra lá sem uma agenda a cumprir, numa viagem sem pressa pra conciliar duas paixões: curtir o lado cosmopolita de Milão e matar minha saudade eterna de uma italianice vera! Aí umas semanas depois eu tava conversando com a Cris, amiga que mora na Alemanha e viajou conosco pra Eslovênia ano passado, ela estava livre e a fim de se juntar a mim, e ecco: tínhamos um plano.

Só que nesse meio tempo, veio janeiro e com ele a famigerada prova, que por bem ou por mal ocupou 100% da minha memória RAM. Simplesmente ignorei a viagem, porque já tinha reservado o hotel meses antes, e não tinha nenhum pré-requisito essencial para fazer na cidade, e pensei que na pior das hipóteses passaria o tempo da viagem em si, entre aeroporto, vôo e trem, matutando o que fazer.

Saí da prova e tinha um email da Cris na minha caixa de entrada: ela é super foodie, amante de gastronomia e de um bom vinho, e queria saber se podia se encarregar de investigar restaurantes pra gente, qual era a minha vibe, o que eu queria comer. Mas é claaaaro que sim! Amo planejar milimetricamente a parte macro das viagens, vôos, hotéis, traslados, mas coisas tipo restaurantes, horários e dias em que vou a uma atração específica, nem tanto. Só falei pra ela que fazia questão de comer os pratos milaneses clássicos, já que da outra vez estava de mochilão comendo panini de almoço e de janta. Aí no dia seguinte ela me mandou uma super seleção de lugares, já tinha reservado um pra garantir, e eu reservei outro que chamou a atenção – aliás, morri de orgulho de ligar pra Itália e fazer a reserva inteirinha em italiano sem titubear, porque achei que meu italiano rudimentar já tinha evaporado por completo. Aproveitei também pra investigar my thing que, como quem me conhece bem sabe, são lugares com vista. ♥️

Chegando lá, nos encontramos na estação central, já que o nosso hotel era pertinho. Já que a noite anterior tinha sido das boas comemorando o aniver da Sophie e da Dri até quase 2 da manhã, e eu tinha dormido míseras 2h antes de acordar pra ir pro aeroporto, precisei primeiro virar gente no hotel.

Seguimos pra Piazza del Duomo pra primeira parada: botar o papo em dia e curtir o por do sol com vista da catedral e do movimento na praça.

O Terrazza Duomo 21 não é exatamente um rooftop propriamente dito, mas sim uma sacada com vista maravilhosa do Duomo, que faz parte de um hotel de luxo anexo à Galleria Vittorio Emanuelle. Chegando lá, ficamos impressionadas com a simpatia dos funcionários, os preços super razoáveis pro bar que provavelmente tem a melhor vista de Milão, e principalmente porque, em plena golden hour, tinha mais de uma mesa de cara pro gol!

Mais uma das vantagens de viajar no inverno né – aposto que em julho deve ser impossível conseguir essa mesma mesa! O bar serve váaarios drinks com Martini, que é o clássico destilado milanês, e que é patrocinador ali. Eu que não sou nada fã de Martini, fui semi-preparada psicologicamente pra só encontrar drinks com ele, mas como estamos falando de Itália, é claro que teria um vinho de casa pra gente escolher também. E com ele, aquela boa e velha lembrança de que você está, de fato, na Itália: umas porções generosas de azeitonas sicilianas e umas batatinhas como aperitivi. Pedimos mais uns petiscos e foi esse nosso almoço, já que tínhamos que guardar fome pro jantar que já tínhamos reservado.

Depois de uma voltinha na própria galeria e a surpresa de achar um Picasso e um Miró originais por preços surpreendentemente aceitáveis, resolvemos dar uma passadinha marota no Cioccolati Italiani que dizem ser A MELHOR sorveteria de Milão. Olha, é uma coisa Dantesca. Eles não só servem aquele gelato italiano que a gente conhece, como o servem quase que à la brasileira (leia-se doçura exagerada): dentro de um cone de biscoito com calda de chocolate dentro, com vários extras disponíveis, 3 bolas empilhadas com uma colherada de merengue italiano por cima. Como era mesmo aquela história de guardar a fome? A gula falou mais alto, esquecemos que podíamos voltar no dia seguinte e calculamos que, com 2h faltando pro jantar, ainda podíamos mandar ver um sorvetão.

 

 

Seguimos caminhando pelo bairro boêmio de Brera, resistindo bravamente às mil ofertas de aperitivi dos barzinhos com mesas ao ar livre. Mas como estávamos adiantadas, paramos pra mais uma tacinha de vinho. Eu ADORO sentar ao ar livre assim no invernão, ficamos comentando como quando a gente chega na Europa a gente acha todo mundo louco de escolher ficar pra fora no frio de 5 graus, mas a grande verdade é que eu me acostumei super rápido e hoje em dia fico até meio agoniada com aquele ar saturado de lugares fechados muito quentes no inverno.

Logo chegamos à grande estrela do fim de semana: o Alice Ristorante, um estrelado Michelin que fica no último andar do Eataly, com vista panorâmica da Piazza 25 Aprile. A Cris me contou que ele é uma iniciativa conjunta de uma chef com uma sommelière, então rola uma vibe bem feminista num mundo tão dominado por homens quanto a gastronomia. Restaurante estrelado Michelin, com vista panorâmica e filosofia feminista? Yes please!

Esse foi só o segundo estrelado Michelin onde já comi na vida, mas de novo a mesma surpresa boa: clima super agradável, nada de empertigações e pretensões, e a mesma conclusão de que as porções pequenas são na verdade a coisa mais genial que existe. É uma quantidade pequena de comida por prato, mas apesar de termos pedido apenas entradas e principais cada uma, e depois uma sobremesa pra dividir, recebemos milhares de amuses-bouches pra começar e depois a coleção mais fofa de micro-sobremesas de que já tive notícia.

Não sou crítica culinária e nem conheço de gastronomia, mas não posso deixar de registrar aqui a SURREALIDADE do ossobuco que eu pedi!!! Sabe como tem gente que diz “ah, eu até como carne vermelha mas não sinto falta não, nem faço questão, não sou fã do gosto em si”?! Pois bem. Eu não faço parte desse time. Adoro carne vermelha, cresci no sul comendo churrasco toda semana, e apesar de hoje em dia comer muito menos carne vermelha e ter me acostumado com isso sem sofrências saudosistas, não deixo passar a oportunidade de comer uma carne de respeito.

O prato era descrito no menu como “ossobuco preparado como churrasco, com diafragma grelhado, tartar piemontês, cebolinha, maionese de mostarda e glaze de vinagre”. Confirmei com a atendente se o diafragma era de fato o diafragma que eu conheço, o bom e velho músculo da respiração, superei rapidinho minha reticência habitual com tartar de carne (nunca consegui comer carne vermelha crua sem fazer careta) e mandei ver.

Gente – GENTE – que negócio maravilhoso. Pra começar que ele vem servido no próprio osso, que ao invés de ser cortado na transversal como de costume, era cortado no sentido longitudinal e a cavidade medular usada como “recipiente” pra arranjar os componentes do prato. Não tenho talento pra descrever comida, mas vou dizer que delirei a cada colherada que carreguei com o cuidado de pegar tudo junto – cubinhos de diafragma grelhado, cubinhos de filé cru bem temperadinho, a maionese de mostarda e a gordura característica da medula. Acho que no fundo eu estava esperando não gostar do tartar, então o prato superou todas as minhas expectativas mais delirantes do quanto eu ia curtir! Sabe aquele prato que você come devagarinho, porque não quer que termine nunca?!

A sobremesa foi meio decepcionante pra falar a verdade, mas a essa altura do campeonato eu já estava vendida e muito mais que satisfeita, e só pedimos a sobremesa naquela vibe meio YOLO (you only live once) de gente gulosa e sem vergonha.

Seguimos a pé para a próxima parada, que era minha escolha: em 2013, fui ao Nottingham Forest, o cocktail bar mais famoso de Milão, super renomado na cena mixologista mundial e que foi uma dica da minha BFF Ju, que tinha ido pra lá umas semanas antes de mim. Bom, sem mais delongas:

Você começa a sentir o tamanho da fama e do hype do lugar pela fila: como ele é super pequenininho, só cabem 40 pessoas por vez. Umas brasileiras que estavam por ali nos ouviram conversando e já adiantaram que o parça que estava na porta gerenciando a fila não era dos mais gentis. Cheguei já falando italiano com todo o charme possível, e quando ele disse que tinha acabado de encerrar a fila de espera, ainda ousei dizer que eu tinha vindo de Londres e minha amiga de Berlim, e porfavormoçopõeagentenalista! E funcionou! Mesmo assim ficamos mais de uma hora esperando ali fora, e entre causos de viagem e people watching (um casal de asiáticos que passou o tempo TODO da espera jogando no celular, com direito a musiquinha e tudo), logo chegou a nossa vez. Infelizmente, o bar fecha relativamente cedo, então só tivemos tempo de beber o drink mais clássico e famoso do menu, que eu quis repetir e era ainda melhor do que eu me lembrava, e pegamos um táxi pro hotel.

No domingo, fizemos o check-out, deixamos nossas malas na recepção e seguimos a pé para o Corso Como pra matar uma horinha na “galeria de arte meets loja de moda e design meets livraria meets restaurante” que é o complexo 10 Corso Como antes de seguir pro nosso almoço que era ali perto.

E se o restaurante do sábado a noite era todo inovador e criativo, o do almoço de domingo era tradicionalíssimo já começando pelo nome: Osteria Brunello. Osteria é o nome dos restaurantes de comida italiana simples e tradicional, geralmente com um menu curtinho. O diferencial da Osteria Brunello é que ela é a casa da cotoletta alla Milanese mais famosa e premiada de Milão! Incapaz de decidir por um só clássico, deixei a entrada de lado e fui de um primo – risotto alla Milanese – e como secondo fui com a costeleta de vitela.

Mais uma vez, uma experiência surreal. Já tô com água na boca só de lembrar. O risoto era uma coisa de outro mundo, o mais cremoso e saboroso que já comi na vida e surpreendentemente leve. E a costeleta era sequinha e crocante, como toda fritura que vale as calorias que carrega nessa vida, hehehehe e a carne de vitela era uma maciez só, como é de se esperar. E como se não bastasse esse fim de semana tão cheio de superlativos gastronômicos, até o purê de batata foi o melhor que já comi na vida! Diz a Cris que o segredo é a quantidade PECAMINOSA de manteiga de 50:50!

Pra encerrar, ainda tive a cara de pau de mandar ver um tiramisu, porque né. A vida é curta. Na dúvida, peça o tiramisu.

Depois de tanta energia, seguimos a pé até o Castelo Sforzesco, que estava desagradavelmente cheio de ambulantes enfiando rosas na nossa cara agressivamente a ponto de precisarmos praticamente sermos mal-educadas no NO, GRAZIE! e pegamos o metrô para Navigli, o bairro boêmio que fica às margens do canal grande de Milão, que foi construído como parte de um sistema de canais para permitir o acesso à cidade pela navegação – trazendo todo tipo de mercadoria, inclusive o mármore usado pra construir o Duomo.

Todos os domingos rola um mercado de pulgas por lá, então estava cheio de famílias, e a maioria dos frequentadores eram claramente locais. Paramos pra um último vinhozinho ao por do sol, e seguimos pra estação central pra começar a peregrinação de retorno.

Ainda na estação, já começamos a planejar a próxima viagem, nos perguntando se os planos da Amanda de vir morar na Áustria estavam encaminhados – e uns dias depois, ela mandou mensagem no grupo confirmando que tinha acabado de chegar lá de mala e cuia, então certamente teremos mais aventuras pela frente!

No caminho pro aeroporto, fiquei pensando no que a Tati me falou outro dia: “mas Gabi tu tem sorte hein? Cheia de amigas espalhadas pela Europa!”. Tenho mesmo. Nunca, jamais vou take for granted a sorte de poder dar uma escapulida de 36 horas pra Milão. Sim, estamos dando passos atrás na carreira. Sim, estamos passando perrengues e tendo que provar nosso valor em ambientes profissionais diferentes de onde aprendemos. Sim, estou tão longe de onde quero chegar que frequentemente esqueço tudo que já conquistei nesses quase 2 anos, de quanto já cresci. Sim, abrimos mão dos pequenos luxos e mordomias da classe média brasileira. Sim, passamos saudade da família e aquela culpa intrínseca do expatriado por estar escolhendo construir uma vida longe de quem se ama. Mas quando a gente vê o mundo… my God it feels good!

Hotel em Londres?

Geralmente quando as pessoas me pedem dicas turísticas de Londres, eu encaminho direto pros blogs da Dri e da Helô, afinal de contas não tem porque tentar reinventar a roda quando as meninas já escreveram tudo e mais um pouco sobre a cidade, e inclusive escreveram os melhores guias de Londres disponíveis em língua portuguesa. Aqui você pode comprar o guia da Helô, e aqui o guia da Dri, ambos disponíveis em versão impressa e PDF, e escritos por quem conhece a cidade como ninguém e já esteve pessoalmente nos lugares recomendados!

Ou ainda, para O Oráculo do viajante independente brasileiro.

Mas lá de vez em quando alguém mais próximo me pergunta porque quer saber a minha opinião pessoal. Uns dias atrás, uma amiga me pediu onde procurar hotel em Londres… Pensei, pensei, pensei e respondi que ia pensar mais um pouco. Hahahah o problema de quem mora em um determinado lugar é aquele velho paradoxo: a pessoa conhece a cidade como ninguém, mas se ela mora lá, ela provavelmente nunca terá se hospedado em hotel nenhum, certo?!

Não me sinto à vontade pra dizer “procura nos bairros X, Y e Z que é batata!”. A hospedagem pode fazer ou arruinar uma viagem, então depois de muito refletir, vim aqui registrar minha opinião, porque é bem provável que outros amigos façam a mesma pergunta no futuro.

Eu, Gabriela, reservo praticamente todas as minhas hospedagens de viagem no Booking.com e modéstia à parte, a essa altura do campeonato, sou fera na manipulação dos filtros. Se fosse um hotel para mim, pensando em explorar Londres turisticamente pela primeira vez, eu faria essa pesquisa AQUI:

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É uma pesquisa beeem restritiva, mas eu pessoalmente prefiro priorizar quase que exclusivamente a localização. Gosto de fazer tudo a pé, de estar no meio de tudo, e não me importo muito com a beleza ou os serviços do hotel. Cabendo no meu bolso, sendo bem localizado e minimamente limpo, tô topando. Geralmente começo limitando os preços, e marco somente os hotéis com nota acima de 8.0 (classificados como very good ou melhor).

Londres facilita porque o circuitão turístico principal, que inclui o South Bank e todas as suas atrações, o Parlamento, o Palácio de Buckingham, Trafalgar Square/National Gallery, British Museum, estão todos dentro dessa demarcação aí em cima. Uma ferramenta nova e excelente do Booking.com é o heat map, que mostra as áreas de interesse turístico nas cidades pra você ver se o seu hotel é bem localizado:

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E eu adoro andar bastante quando viajo, então pra mim, hotéis resultantes dessa pesquisa permitiriam que uns 70% da minha viagem fossem feitos a pé. Ainda assim, eu procuraria o mais próximo possível de uma estação de metrô principal (aquelas que têm mais de uma linha).

Caso não encontrasse nenhum nessa área, expandiria a pesquisa para incluir as regiões de Bayswater/Queensway, ao norte do Hyde Park, que é um super hub de hotéis, a região de South Kensington/Knightsbridge, por perto dos museus de História Natural e V&A, e o entorno da St.Paul’s Cathedral. Outra área que tem muitos hotéis de preço bom pipocando é no lado norte do rio, entre Monument e Tower Hill, onde você fica de cara pra Tower Bridge e pertinho de St.Katharine’s Docks.

Por que não incluiria essas áreas de cara? Porque apesar de ainda serem ótimas áreas, já são afastadas o suficiente para te obrigar a depender muito mais do metrô. E tudo bem depender do metrô numa cidade em que ele funciona tão bem quanto Londres, mas o ideal mesmo na minha opinião é passar o máximo de tempo possível acima da terra, hehehe. Além disso, tanto o entorno da St.Paul’s quanto essa parte norte do rio até Tower Bridge são super movimentados e vivos de dia, mas meio desertos à noite e nos fins de semana, que apesar de ser super seguro, pode parecer meio deprê pra quem gosta de agito.

O mesmo vale para Notting Hill, que é uma área lindinha demais, mas meio afastadona do centro turístico da cidade. Melhor ir pra lá pra curtir Portobello Road, tomar um brunch ou almoçar nas mil opções de Westbourne Grove, mas ficar cruzando todo o lado oeste da cidade, toda a extensão do Hyde Park em todos os seus dias na cidade vai te deixar de saco cheio e gastar tempo que, na minha opinião, poderia ser mais bem empregado.

E por que não incluir a área onde eu moro? Porque as imediações do South Bank na Tower Bridge e o hub de transporte de London Bridge são áreas excelentes pra morar mas, mais uma vez, meio isoladas pra turistar. A não ser que você esteja disposto a caminhar 5km simplesmente pra chegar no centrão marcado aí em cima, vai depender de metrô também.

Mas no fim das contas, apesar de toda essa lenga-lenga, acredito que qualquer lugar na zona 1 do metrô estará ok. Nenhum deles vai estragaaaar a sua viagem, mas esses que eu selecionei lá em cima podem facilitar bastante a vida.

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A amada e idolatrada zona 1 do metrô 🙂

Aí as diferenças ficam por conta de escolhas pessoais: se a pessoa vai chegar de metrô com malas pesadas e não quer passar perrengue em escadas, é importante ficar perto de estações com accessibilidade – aquelas que tem um A verdinho nesse mapa aqui:

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Ou por exemplo, se a pessoa gosta de hotéis mais bacanas em áreas mais bonitas e tradicionais da cidade, aconselharia evitar o South Bank que foi bombardeado loucamente na 2a guerra mundial, e focar nas regiões lindas de Marylebone, Mayfair, Westminster e até mesmo Victoria, Pimlico e imediações do Hyde Park.

Por outro lado, pra quem quer fervo: teatro, restaurantes, bares, baladas etc, a melhor aposta seria ficar entre Soho e Covent Garden, mas essa área apesar de ser super central e maravilhosa pra fazer tudo a pé, não é das mais bonitas de dia, e é relativamente barulhenta à noite.

Pra quem só volta pro hotel pra tomar banho e dormir e não faz questão de que o seu tenha muita personalidade, tem sempre os bons e velhos hotéis de rede, o Ibis e o Premier Inn tem várias unidades bem centrais.

Já pra quem tem um dinheirinho a mais ou está em Londres pra comemorar uma data especial, mas (ainda! Hehehe) não tem condições de ficar nos Ritz e Savoy da vida, tem os DoubleTree da bandeira Hilton e os Park Plaza, que são todos muito bem localizados, e uns degraus acima no quesito conforto, beleza, serviços etc.

Como eu falei, todo mundo fica meio perdido na hora de aconselhar amigos na procura de hotéis, mas a Helô tem uma seleção de recomendações no Booking.com e a Dri tem um guia de hotéis que explica o perfil de cada bairro. Esse post no Viaje na Viagem tem uma infinidade de hotéis comentados por leitores.

Talvez esse post tenha ficado confuso demais, afinal não tenho talento pra isso e sou prolixa demais hahaha mas de uma coisa não há dúvida: seja onde for que você fique no coração de Londres, você terá muuuuito pra explorar!

Retrospectiva 2016: mês a mês

Apesar de saber que, na prática, a troca do ano ou de idade não mudam nada na vida da gente, eu sempre gostei de usar esses marcos como checkpoints da minha existência. Gosto de refletir sobre o que aconteceu naquele período, como eu mudei, no que melhorei, o que gostaria de ter feito e não fiz. De recalibrar minha bússola pessoal e repensar se a minha vida está alinhada com os meus valores. De recalcular a rota caso tenha me desviado de um dos meus grandes objetivos. E também de fugir um pouco daquela sensação de que o tempo está voando e eu não sei o que estou fazendo com o meu.

Em 2014, inspirada pelo post anual da Dri, que é sempre um dos meus preferidos e totalmente #goals, resolvi colocar essas reflexões no papel, mesmo não levando (ainda!) a vida tão cheia de viagens e descobertas que eu almejava e continuo almejando cada vez mais. E não é que a retrospectiva me surpreendeu? Pra quem vê de fora, pode até parecer meio doentia essa minha vontade de registrar tudo o tempo todo, tirar foto daqui, escrever post dali, mas aquilo me serviu de prova que não dá pra confiar na memória da gente. E olha que eu considero que tenho uma memória super boa. Incrível o tanto de coisa que eu estava me esquecendo, e o tanto que compilar tudo aquilo me fez mais grata sobre o ano que tinha passado. Então resolvi que iria fazer uma retrospectiva pessoal todo ano.

Só que aí 2016 chegou na voadeira com todas as trepidações que contei aqui e que,  combinadas com muito trabalho, inviabilizaram os meus rituais nerds de início do ano. Quem sabe uma hora dessas ainda me animo a revisar 2015 que foi um ano tão crucial e de tantas mudanças na minha vida. Mas o importante é que 2017 começou menos corrido, e como isso é uma prioridade pra mim, quis registrar meu 2016 mês a mês.

Janeiro: Apesar dos pesares, a minha virada de 2015-2016 foi tão boa quanto poderia ter sido. A família da minha cunhada é maravilhosa, aquela coisa bem francesa de cidade pequena, aquela alegria de viver, simplicidade e honestidade de propósito que inspiram a gente, sabe? Não me faltou foie gras, magret de canard nem champagne. E nem meia noite: tive três! Uma lá na França, outra no horário do UK, com o Alex no telefone, e outra no horário do Brasil, com meus pais no Skype.

Uns dias depois, a Luiza publicou no Formei, e agora? o post que ela tinha me convidado a escrever sobre a minha relação com a minha profissão e como conciliei o sonho de morar aqui a uma profissão relativamente restritiva geograficamente, e o negócio viralizou de um jeito que eu jamais teria imaginado.

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Ainda em janeiro, emendei uns dias de dolce far niente com o Alex na casa do meu sogro na Alemanha…

… com mais um fim de semana na Occitânia, com o Rodrigo, Lu e família.

Fevereiro: Tive a maior sorte que a defesa da tese de doutorado do Alex e a formatura do meu irmão caíram em datas próximas o suficiente pra eu poder estar no Brasil para os dois eventos! Cheguei, curti meus rituais de retorno de sempre, o barzinho do lado de casa com o Alex, o por do sol em Santo Antonio, a massagem de pedras quentes no Shambala Spa, e corri pra Caçador pra curtir meus pais e a casa antes de todo mundo chegar. Voltamos pra Floripa juntos, e o Rodrigo e a Lu chegaram em seguida.

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Nesse meio tempo, teve a apresentação da tese do Alex, que foi sucesso total e elogiadíssima por toda a banca. É muito gostoso ver o tanto que o pessoal respeita e venera ele no departamento! No mesmo dia, jantamos fora com o orientador dele, que é um mestre no verdadeiro sentido da palavra, e falamos sobre planos futuros. Voltamos pra casa comentando sobre a nossa sorte em termos ambos encontrado inspirações tão importantes nas nossas profissões.

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Foi também a primeira visita da irmã e cunhado do Alex ao Brasil, e depois que eles chegaram, foi só festa. Fomos pra Ilha do Campeche, passeamos por Floripa, fomos pra Caçador de novo, passamos o aniversário do Alex na Serra Catarinense, em Urubici, e voltamos pra Floripa pela Serra do Rio do Rastro. Foram embora conhecendo mais de Santa Catarina do que muito catarinense por aí! Hahahah

 

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Março: O mês começou no Brasil, com a formatura do Rodrigo, que foi super emocionante. Formaturas são muito, muito valorizadas na nossa família por tudo que representam, e todo mundo vai, então é uma delícia ver a família toda (enorme) reunida!

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Abril: Em abril a coisa já estava começando a pegar com várias incertezas na minha vida pessoal e profissional, então o que eu mais me lembro foi de muito trabalho, muitos plantões, muitas corridas pra manter a sanidade mental, e encontros muito necessários com várias amigas queridas.

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Maio: O acontecimento mais marcante de maio foi a viagem pra Eslovênia! Acho que nunca antes nenhuma viagem tinha superado tanto as minhas expectativas! Sabia que seria legal, sabia que iria gostar, mas demos tanta sorte com o tempo e todas as escolhas que fizemos lá, que voltei pra cá com o coração cheio de gratidão.

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Aliás, um dos momentos mais marcantes da minha vida viajante foi nesse vôo de volta. Sobrevoando os Alpes e olhando pela janelinha pensando na vida, fui invadida por uma onda totalmente inesperada de emoção e  me dei conta do porquê do meu amor por viajar, com a maior clareza que já tive até hoje:

Junho: O maior acontecimento de junho foram as listas de cirurgia com o MEU NOME como anestesista mór – num dos hospitais mais antigos, mais respeitados, mais famosos de Londres. Na prática, nada tão diferente assim do que já vinha fazendo, afinal os chefes que me conheciam já estavam me deixando no comando há bastante tempo, mas nada como sentir o peso da responsabilidade pra fazer tudo parecer mais real, certo? Além disso, apresentei um projeto na reunião do departamento que, apesar de pequeno, simbolizou muita coisa pra mim.

E finalizei o mês curtindo uns dias de preguiça na casa da minha sogra.

Julho: Julho foi o mês em que o Alex e eu decidimos tomar as rédeas das nossas vidas, e depois que decidimos que ele ficaria no Brasil, desencadeamos mil decisões produtivas. Marcamos nossa viagem pro casamento do melhor amigo dele, eu fiz uma revolução organizacional no meu quarto, encontrei com meu mentor e defini meu plano profissional, curti várias festinhas de verão e rooftops e piqueniques e as costumeiras noites de sexta papeando e bebendo prosecco com a Paola, e o mês foi de renovação de esperanças de maneira geral.

Já no fim do mês, aproveitei uma oportunidade de última hora de passar um fim de semana veranil com a Marina e o Murilo em Paris, que foi com certeza um dos pontos altos do ano!!!

E pra completar esse mês tão intenso, passei o último dia de julho no campo de lavanda da fazenda Mayfield, no sul de Londres, com amigos queridos.

Agosto: Pra ser bem sincera, agosto é simplesmente um borrão de trabalho na minha mente! Mudei de coluna na escala a pedido do chefe, e o resultado foi que dentro de 5 semanas, fiz 4 rodadas de plantão. Pra completar, uns colegas ficaram doentes e acabei cobrindo uns plantões extras, pra terminar de aniquilar minha qualidade do sono, hahahah. Não lembro de muita coisa além disso.

Uma delas foi a comemoração do aniversário da Linda, quando nós duas fomos brincar de escalada na Arch Climbing Wall, aqui perto de casa, e depois bebemos um vinho no pub. O mais legal é que, como esse ano ela participou de uns projetos mais longos aqui em Londres, nós acabamos nos encontrando só nós duas, que nunca tinha acontecido antes – e como resultado, além de minha cunhada, hoje a considero minha amiga mesmo. Somos bem parecidas em vários quesitos, então a conversa rende que é uma beleza!

A última semana foi o ponto alto: a chegada do Alex!!! Depois de quase 6 meses sem nos vermos, aquela felicidade de aeroporto de novo, e acho que um dos momentos mais felizes do ano foi nosso jantar num bistrozinho francês aqui perto de casa no dia que ele chegou.

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Terminamos o mês do jeito que gente gosta: viajando. Juntos. A caminho da Itália, país que ambos somos apaixonados e não cansamos nunca de visitar!

SetembroMeu mês preferido do ano começou com o pé direito!!! Curtindo um dolce far niente com o Alex nos arredores de Catania, na Sicília, curtindo o ar fresco e um vinhozinho, e subindo um vulcão ativo!!! Na verdade o Etna é um vulcão bem benevolente, mas mesmo assim sentir o calorzinho da energia geotérmica na minha mão foi mais um daqueles momentos surreais da vida, em que a gente se dá conta da nossa própria insignificância diante do que está ali há milhares de anos!

O casamento do Paul e da Grazia foi sensacional!!! Eu ainda quero muito sentar e escrever um post com mais detalhes, mas vou simplificar e dizer que -com todo respeito a todos os outros casamentos que já fui na vida- esse foi o melhor da história!

E nos dias antes e depois do casamento, ainda curtimos um restinho do verão Mediterrâneo em Siracusa.

 

Passar mais tempo com os amigos do Alex foi ótimo também – uns dias nos sentindo como um casal normal eram tudo que a gente queria.

O meio de setembro, mais uma vez, foi um borrão de trabalho, porque mais uma vez cobri vários plantões extra, pela última vez antes da troca de emprego e burocracias associadas. Na penúltima semana, ainda apresentei mais uma palestrinha numa tarde de estudos, e encerrei minhas responsabilidades por lá.

E no fim do mês, teve mais viagem: dessa vez pra Budapeste, com a Paolex, pra comemorar meu aniver de 29 anos em grande estilo!!! AMEI Budapeste e não poderia ter escolhido melhor: passamos 3 dias lá só curtindo muitos spas, muitas massagens, muito vinho húngaro e as vistas maravilhosas da cidade. Na virada do meu aniver, fomos ao bar mais autêntico que já fui na vida, e depois passamos o dia de molho no Gellert spa antes de seguir pra um rooftop pra brindar os meus 29 anos com a vista da cidade ao por do sol.

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Outubro: Logo no começo do mês, decidi encarar logo de uma vez a prova que eu iria fazer em março de 2017, o que significou colocar em standby todo esse oba-oba e enfiar a cara nos livros! Criei minha nova rotina, com o emprego novo e mais tempo livre pra estudar, e meu mês praticamente se resumiu a isso.

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Novembro: O mês começou com uma visitinha esperta à Queen’s Gallery que foi sem dúvida uma das experiências mais marcantes do ano. Logo em seguida, veio a famigerada prova, e logo em seguida precisei me plantar na frente do laptop até encerrar meu projeto de certificação em eco, que submeti exatamente no último dia do mês – e depois fui pra galeeeera beber um prosequinho com vista da cidade com a Paola e o Roni, minha familinha londrina.

Dezembro: Mais um daqueles eventos em que ozamigos ingleses, blasé que são, fingem costume enquanto eu fico totalmente deslumbrada, morrendo de felicidade e orgulho por estar ali bebericando meu champagne por ande andou a Rainha Vitória.

Aproveitei pra descansar um pouquinho na casa da sogra…

E me mandei pro Brasil!

A primeira semana foi um pula-pula: passei uns dias com o Alex só curtindo nós dois, depois fui pro Paraná visitar meu vô, depois voltei pra Floripa e encontrei em cima da mesa pra me surpreender uma passagem só de ida pra Londres de um certo Englishman, e depois fui encontrar minhas amigas no Rio pra uma viagenzinha de comemoração de muitas coisas: mini-despedida de solteira da Lutty, aniver da Mel, 6 anos da nossa formatura, reunião do quarteto que estamos sempre mortas de saudade, e primeira viagem só nós 4 desde a faculdade!

Quando as meninas foram embora, o Alex foi pro Rio me encontrar pra curtirmos 2 dias por lá, já que em todos esses anos, tínhamos ido ao Rio várias vezes cada um, mas nunca juntos!

Voltando pra Floripa, passei o resto do ano curtindo a família exatamente do jeito que eu queria: sem mil atividades, sem horários, sem stress, bem como sempre foram as nossas férias em Jurerê!

Nossa virada foi bem pacata, em casa, na chuva, porque no dia seguinte logo de manhã eu tinha que estar no aeroporto e achamos que enfrentar os engarrafamentos perrenguentos de Floripa no Reveillon pra passar duas horas em qualquer lugar não valia a pena. E no fim das contas foi uma ótima decisão, porque antes da 1 da manhã eu já tava capotada na cama!

O que eu já sei sobre 2017

Esse é um ano engraçado porque, com o retorno do Alex pra Londres e com a minha vida profissional basicamente dependendo do meu sucesso ou não nas provas, nem sequer sabemos como estarão nossas rotinas na maior parte do ano. Então minha nóia de querer planejar tudo está em semi-suspensão!

Janeiro vai ser um mês pacato necessariamente, porque tenho mais uma prova no fim do mês, que aliás não vou nem falar nada… Mas logo depois da prova, me mando pra um bate e volta de fim de semana em Milão, e uma amiga que mora na Alemanha vai pra lá me encontrar.

Fevereiro vai ser cheio de emoções!!! Já na segunda semana o Alex chega, vamos pra Dorset deixar as mil bagagens que ele acumulou em 5 anos morando no Brasil, curtir uns dias de sossego juntos e saborear a felicidade de estarmos -finalmente!- reunidos. Uns dias depois, vou pra Lisboa com a Mah, curtir bem a companhia da minha amiga numa girls’ trip pré-chegada dos gêmeos!

Entre o fim de fevereiro e começo de março, estarei na Bavária, onde eu e o Alex vamos passar uns dias na casa do meu sogro.

Abril tem Brasil de novo e dessa vez vou ficar quase o tempo todo na casa dos meus pais, só curtindo a companhia deles! A razão da viagem ser agora, tão cedo depois de ter passado o fim de ano lá, é o casamento da Lutty no oeste do Paraná – e vou aproveitar a deixa pra voltar a Foz do Iguaçu e ver as cataratas mais uma vez, dessa vez com a Ju, porque eu é que não ia perder uma oportunidade dessas!

E para o restante do ano, os únicos planos concretos são o grande acontecimento de agosto, que vai ser o casamento da minha cunhada no norte da Inglaterra, e o grande acontecimento de setembro que são os meus 30 anos Brasilllll!!!! Que quero comemorar em grande estilo e em algum lugar novo, e até já tive umas idéias mas não comecei a planejar nada concreto ainda.

Também em algum momento do segundo semestre os meus pais devem vir pra cá e/ou pra França, e a Ju também virá nos visitar entre setembro e outubro. E por enquanto é isso!!!

Restrospectiva 2016 – os hábitos

Apesar de 2016 ter sido um ano difícil, foi o ano em que eu consegui criar vários (e manter alguns) bons hábitos.

Hábitos são reconhecidamente difíceis de criar e mais difíceis ainda de manter, mas como acredito muito no poder que eles têm de mudar a nossa vida, nesse ano me esforcei muito mais do que em anteriores. Não tenho grandes dificuldades em fazer coisas que me proponho a fazer, mas o que me falta é consistência, e isso é uma das características que mais me deixa desmoralizada. Por isso, considero esses novos hábitos a minha maior conquista de 2016.

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Então, como parte dos meus rituais de ano novo, resolvi refletir sobre os hábitos de 2016 e aqueles que quero para 2017.

A Única Coisa: esse é o hábito que tornou possível mudar mais hábitos em 2016. No final de 2015, eu li um livro chamado The One Thing, em que o autor basicamente comprova que multitasking é uma falácia e que o cérebro humano só consegue se concentrar em uma coisa por vez. O que a gente chama de multitarefa é, na verdade, uma alternância frenética entre uma tarefa e outra, que funciona em certas ocasiões mas na maioria das vezes deixa a gente estressado e confuso. Ele defende que a gente se pergunte:

Qual é a única coisa que eu posso fazer de modo que fazê-la torne todas as restantes mais fáceis ou desnecessárias?

Então passei o ano de 2016 todo me perguntando isso sempre que possível, e tentando resistir ao ímpeto ansioso de resolver ou de mudar muitas coisas por vez. É difícil pensar assim em todas as áreas da vida, mas é a esse mindset que eu atribuo o meu sucesso no único hábito que eu queria mudar em 2016, que tornaria todo o resto mais fácil – e de fato tornou, que é esse aqui abaixo.

Higiene do sono: já falei várias vezes aqui que tenho a mente muito ativa, né?! Por muitos anos tive problemas sérios com insônia do tipo inicial e, portanto, também muita dificuldade para acordar de manhã. Durante e depois da residência, a dificuldade para pegar no sono melhorou, já que eu vivia completamente exausta e cronicamente privada de sono. Mas apesar de conseguir dormir facilmente quando deitava a cabeça no travesseiro, minha vida funcionava de tal maneira que eu nunca conseguia ir para a cama cedo suficiente pra me permitir uma quantidade de sono minimamente aceitável. E justamente por isso, a dificuldade para acordar de manhã continuava. Em 2016 eu decidi que isso seria minha prioridade absoluta, minha grande resolução de ano novo, e incluía estabelecer um ritual noturno, acordar mais cedo e um ritual matinal. Tive diferentes graus de sucesso nos 3, mas em todos melhorei e continuo melhorando:

  • Ritual noturno:
    • 15h – Sem cafeína: como não tomo café, sou super sensível à cafeína. Adotei há vários anos o hábito inglês de tomar chá preto com leite, mas depois de me mudar pra cá, como toda sala de descanso por aqui tem uma torneirinha de água fervente, chá e leite à vontade, comecei a tomar demais, o dia inteiro mesmo, e percebi que quando tomava chá até o fim do dia, tinha mais dificuldade pra dormir. Então passei a explorar opções de infusões herbais e eliminei a cafeína depois das 15h.
    • 21h – Luz baixa: a partir das 21h, procuro apagar a luz de cima e ficar só com iluminação indireta das luminárias e luzinhas que tenho no parapeito da janela.
    • 21h – Evitar atividades mentais muito estimulantes: as duas principais são falar no telefone e fazer coisas relacionadas ao trabalho. A segunda nem sempre é possível, mas percebi que falar no telefone me acorda como poucas coisas, então às vezes prefiro falar no whatsapp com o Alex ou meus pais depois desse horário, que estimula mas não tanto quanto ouvir a voz deles e falar.
    • Chá antes de dormir: adoro o quentinho, aquela molezinha que um chá bem quentinho me dá antes de dormir. Então depois que comecei a explorar mais os chás sem cafeína, todas as noites, começo minha função noturna fazendo um dos meus preferidos (atualmente limão&gengibre ou camomila&mel) e trazendo pra cima comigo.
    • Cuidados com a pele: enquanto o chá esfria um pouquinho, começo a skincare rigmarole como o Alex apelidou. Coisas básicas: lavar, ingredientes ativos, hidratar. Os produtos foram mudando porque minha pele mudou muito esse ano (depois quero escrever um post só sobre ela) mas a lógica e o tempo passado nisso são os mesmos.
    • 22h – Desconectar: antes de desligar o wi-fi, dou aquela última olhada no email e no instagram e procuro colocar o celular de lado de vez. Claro que essa é a rotina mais difícil de todas e aquela que eu mais furei ao longo do ano, mas apesar disso, consegui progressos enormes.
    • Aplicativo do sono: desde novembro de 2015, venho usando o aplicativo Sleep Cycle, que usa o microfone e o acelerômetro do iPhone pra mapear a profundidade do sono. Não sei se é assim um primor da acurácia, mas costuma bater bem com os horários que eu de fato durmo e minha impressão geral da qualidade do sono. Sou a maior nerd dos gráficos, então qualquer coisa que mapeie uma coisa x que eu faça e exponha em gráficos de coisa x versus tempo com médias, tendências e nerdices associadas terá minha atenção e interesse. Ele me ajudou a perceber várias das coisas que eu descrevi aí em cima.  Resta saber se vai funcionar direito com duas pessoas na mesma cama – depois que eu e o Alex nos mudarmos, volto pra contar.


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    • Leitura: depois de colocar o celular de lado, procuro ler um livro físico por alguns minutos até o sono bater. Geralmente tento ler ficção, ou livros mais light. Nada de “Getting Things Done” e outras coisas que sirvam de gatilho pra minha lista de afazeres mental!
  • Acordar mais cedo:
    • Eu costumo dizer que sou uma pessoa matinal presa no corpo de uma pessoa preguiçosa, hahahah… A verdade é que eu sempre me senti melhor de manhã, sempre achei péssimo fazer coisas produtivas à noite, mas nem a criatura mais matinal do mundo, se viver mal dormida como eu vivia, vai conseguir acordar com tempo extra para curtir a paz da manhã. Então meu status quo era acordar com tempo totalmente cronometrado pra lavar o rosto, escovar os dentes, passar meus cremes, botar uma roupa qualquer, passar a mão em uma banana e sair correndo de casa às 06:45. Minha taxa de sucesso nesse quesito foi super variável ao longo do ano, porque o meu trabalho começa tão cedo que se eu quiser um tempo pra mim, tenho que acordar muito cedo mesmo. Mas agora eu já consigo acordar com tempo pra tomar um chá e comer ovos mexidos com calma, às vezes lavar o cabelo quando preciso, e no último verão eu acordava com a maior facilidade pra me exercitar às 5:30 – e me sentia a dona do universo quando fazia, então essa eu definitivamente quero continuar melhorando esse ano! Outra coisa que comprei pra esse inverno é uma lâmpada daquelas que simula o nascer do sol, porque fiquei chocada com a minha facilidade de acordar na claridade precoce do verão então tô ainda começando a desfrutar, mas acho que vai ajudar.
  • Ritual matinal:
    • A primeira coisa que eu faço: variou entre meditar por 10 minutos, pegar o celular e checar email e instagram, e descer pra colocar a chaleira elétrica pra funcionar. Muito espaço pra melhorar ainda.
    • Chá preto e café da manhã: quando me exercito, saio comendo uma banana pelo caminho, e na volta tomo o café direito, que no começo do ano era uma crepioca de queijo feta e hoje em dia eu eliminei o polvilho e faço só ovos mexidos com queijo feta, porque é mais rápido e tão gostoso quanto.
    • Exercício: tenho bem mais pra falar sobre isso mais adiante, mas alternei entre corrida, mais uma tentativa frustrada de incluir a academia na minha vida, e uns exercícios funcionais em casa.
    • Creams rigmarole: dessa vez incluindo o protetor solar nosso de cada dia e um mínimo de maquiagem, geralmente só uma base, delineador e rímel.

Leitura: eu era uma leitora voraz até os 16, 17 anos. Mas assim, VORAZ mesmo, de passar as tardes livres lendo quando estava no colégio. Depois que entrei na faculdade, acho que por conta da culpa perpétua que eu sentia por não estar estudando o suficiente, fui deixando a leitura por prazer um pouco de lado porque achava que não estava merecendo esse luxo. Claro que ao longo dos anos fui lendo um ou outro livro de ficção, mas não consistentemente, não todo dia, sabe? Esse ano eu consegui resgatar esse hábito e não poderia estar mais feliz com isso! Já estou com a lista cheia de clássicos pra ler esse ano!

Atividade Física: me exercitei em 2016 com muito mais frequência do que em 2015, mas ainda não achei um ponto de equilíbrio, algo que funcione o suficiente pra mim para se tornar consistente. Um fator complicador foi que, depois de setembro, meu dia a dia passou a ser muuuito menos ativo do que antes, tanto pela localização quanto pela natureza do trabalho, então terminei o ano pior do que comecei em termos de nível de atividade e satisfação com o meu corpo. Com a corrida, continuo naquele iô-iô que já é meu velho conhecido: recomeço-lesão-recomeço-lesão. Em 2016 consegui frear os terrible toos (too much, too fast), mas ainda assim em outubro-novembro comecei com dores no quadril e perna direita. Às vezes penso que estou insistindo demais, que tem gente que não nasceu pra ser corredor(a), que minha anatomia é muito propensa a lesões, mas por outro lado acho que ainda estou fazendo as coisas errado, que ainda tem o que corrigir. Já pensei em desistir de vez e achar outra atividade, mas o problema é que eu gosto de correr! Não daquele tipo que “aaai nooossa, se eu fico sem correr 3 dias eu fico na fissura igual viciado”, mas me sinto muito, muito bem depois de correr, e percebo que isso contribui para que eu faça escolhas mais saudáveis na alimentação também. Academia ou exercícios funcionais são um mal necessário, digamos assim, caso eu queira realmente investir na corrida e também perder os kg extra. Então veremos, meu plano para esse ano é ser mais consistente. Nada de sedentarismo intermitente.

Meditação: Fiz um curso de meditação para iniciantes em outubro e AMEI! Passei o mês todo meditando todos os dias, e aí em novembro a coisa foi miando, e em dezembro mesmo nem sequer me lembrei de fazer. É uma daquelas coisas que só o hábito é que dá resultado, em que a persistência é que dá recompensas, então definitivamente pretendo continuar tentando.

E agora, o único hábito que eu quero criar em 2017:

Minha relação com a alimentação! Sou super ansiosa e comilona, tipo viciada em comida mesmo, tanto que isso é motivo de piada mór entre família e amigos. Em 2017 quero aprender a me alimentar melhor, a escolher comidas que me façam bem. Sem nóia, mas acho importante criar uma rotina sustentável ao longo da vida. Eu tenho muita sorte, porque com o tanto que eu como, era pra pesar muito mais, porém ninguém aqui está ficando mais jovem  e não há genética boa que aguente insultos constantes né. Desse jeito comendo mal, ganhando um quilinho aqui e ali à medida que vou ficando mais velha, daqui a pouco estarei hipertensa e diabética. Ando me esforçando para mudar, e hoje me alimento muito melhor do que no passado, mas volta e meia capitulo e como trocentas calorias numa sentada só, depois fico me sentindo super desmoralizada. E para mim, é mais simbólico ainda que eu consiga dominar minha Magali interior até os 30 anos, que completo em setembro. Alea jacta est! No fim do ano eu volto pra contar!

Retrospectiva 2016 – o desabafo

Nesse exato momento me encontro no meio do Atlântico, começando 2017 do jeito que eu gosto: viajando! E não tem situação melhor do que um bom e velho vôo longo sem wi-fi pra gente ser forçada a desconectar, e ter tempo pra refletir direito sobre a vida.

Eu tenho muitos defeitos, mas ingrata eu não sou. Tenho plena consciência da minha sorte na vida. De como os quase 30 anos da minha vida se passaram sem grandes percalços, quiçá até sem pequenos percalços. De como tudo que eu quis até hoje, cedo ou tarde eu consegui, e o que não foi possível na hora que eu quis, acabou se revelando melhor pra mim depois. Tenho consciência do quanto a vida é generosa comigo.

2016 foi um rude awakening da minha “vida cor de rosa”. Desde o primeiro minuto. Minha virada foi um plano B traçado às pressas. Ao invés de assitir os fogos de Londres à beira rio com meu namorado, irmão, cunhada e um casal de amigos que veio de Paris, os assisti pela televisão, à 1h da manhã no sul da França, chorando copiosamente e desejando exclusivamente de 2016 a saúde do meu irmão. Uns dias depois o Alex voltou pro Brasil para passar na melhor hipótese 3 meses, mas quem me acompanha já sabe que 2016 não foi o ano das melhores hipóteses. Sozinha em Londres, trabalhando muito na escuridão do inverno e fragilizada pela realidade de que a saúde das pessoas que eu mais amo no mundo não é de aço, janeiro ainda tinha mais dois choques reservados pra mim: uma amiga-irmã passando por uma super crise na vida, e um amigo querido diagnosticado com uma doença terminal aos 31 anos.

O primeiro semestre desse ano foi um abalo sísmico emocional de nível 6 na escala Richter na minha vidinha tão estável – quando uma coisa começava a melhorar, outra aparecia. Teve um momento do ano em que aguardávamos roendo as unhas o veredito da CAPES sobre a liberação do Alex para vir ou não, em que não sabíamos se teríamos que passar mais um ano a um oceano de distância um do outro, eu estava estendendo meu contrato no meu apê “mais um mês” e o fim do meu fellow se aproximava sem que eu tivesse emprego acertado na sequência. Quando achei que não tinha mais o que piorar, passei pela primeira rejeição profissional da minha vida. Nunca achei que mandar currículos e esperar uma chamada para entrevista que nunca veio fosse tão dolorido. Justo eu, que me achava tão proativa, tão desejável como funcionária, tão melhor do que era quando me mudei pra lá.

Isso tudo só no meu microcosmo, sem contar todas as bizarrices no cenário global…

E a cereja do bolo foi a culpa que eu sentia. O Alex sozinho e deprimido no Brasil, ele que se mudou pra lá aos 25 anos pra podermos ficar juntos, ele que encontrou na vida acadêmica uma possibilidade de aliar a paixão por História e Literatura e ao mesmo tempo morar no Brasil sem precisarmos encarar a pressão de um casamento por visto como tanta gente sugeriu na época e que nem eu nem ele jamais quisemos, ele que podia ter uma vida tão diferente, tão melhor (naquele momento) se eu nunca tivesse cruzado o caminho dele. Ele, que estava passando frio no inverno catarinense. E eu em Londres, de sonho realizado, de viagens planejadas, de drinks marcados em rooftops, de piqueniques na grama no verão, de amizades novas se formando.

O que mais nos torturava eram as indefinições. Eu lido muito, muito melhor com uma realidade “ruim” do que com incertezas, e o Alex é igual, então no dia primeiro de julho, resolvemos tomar nosso destino com as próprias mãos e decidimos que, apesar de ser o oposto do que a gente queria, o melhor era sacramentarmos que ele ficaria no Brasil até o começo de 2017 independente da resposta da CAPES, estabelecer uma vida profissional e uma rotina que o fizessem sentir que não fosse um tempo perdido. Eu renovei meu contrato no flat até 2017, marquei uma reunião com meu mentor para pensar em possibilidades profissionais que se encaixassem nos meus planos futuros para depois do fellow, finalmente aceitei o óbvio e decidi adiar uma prova para a qual eu absolutamente não tinha estrutura emocional pra estudar, e marcamos uma ida conjunta para o casamento do melhor amigo do Alex na Itália em setembro.

A partir daí, tudo começou a melhorar. O Alex passou a ensinar inglês e alemão pra várias turmas, prosseguiu com os planos de colaboração na universidade, publicou artigos, palestrou em uma conferência super importante com direito a elogios do diretor do Instituto Shakespeare e de uma das acadêmicas mais respeitadas do mundo na área dele, e eu aos poucos fui delineando novos planos de curto, médio e longo prazo também: um fellow de pesquisa que me permitiria num primeiro momento mais tempo livre pra estudar pras provas do Royal College, e num segundo momento uma melhora significativa do meu currículo; a decisão de encarar de vez uma trajetória difícil para ser anestesista sênior nessa terra, ao invés de um atalho que me custaria uma dor de cabeça e provavelmente menos autonomia depois; a aceitação de que aquela rejeição não foi só pelo modus operandi conservador da minha profissão (em que investir em renda fixa vale mais do que investir em ações, em que contratar uma médica brasileira -espécie raríssima na floresta selvagem de Londres- seria o equivalente a investir numa startup, e não na renda fixa do bom e velho conhecido padrão de treinamento inglês ou europeu), mas também porque eu ainda tenho muito pra melhorar no meu currículo e aprender a me vender. Ironicamente, quando estava tudo 90% acertado pro meu emprego atual, um daqueles hospitais lá de abril entrou em contato comigo querendo marcar entrevista. Provavelmente porque a primeira opção deles deu pra trás, mas enfim.

E nos últimos meses do ano, quando eu já nem esperava mais nada de 2016, mais uma vez meu bordão de que felicidade = expectativa – realidade se comprovou. Criei coragem pra encarar  em novembro aquela prova que eu tinha adiado em setembro e resolvido fazer só em março de 2017 – e passei!!! E pra dar um fatality nesse ano bizarro, ainda terminei o meu logbook de eco, completando o processo de certificação em eco, que coroou o primeiro capítulo da minha vida profissional em Londres, de adaptação, de aprender como funciona a medicina inglesa, de finalizar meu fellow de cardíaca e o meu objetivo original ao vir pra cá.

Eu, que estava louca pra ver 2016 pelas costas, agora o vejo com uma perspectiva totalmente diferente. 2016 foi o ano que mais me fez crescer até hoje, que me mostrou o que realmente importa na vida, que fortaleceu todas, TO-DAS as minhas relações (com meu namorado, com meus pais, com meu irmão, com as minhas melhores amigas). O ano baixinho, sem cara de jogador de vôlei, que levantou a bola bem, bem alto pra eu descer a minha mão direita com vontade em 2017.


Conquistas

Já falei mil vezes: blasé eu não sou. Jamais serei. Me deslumbro com as coisas mesmo, no fundo serei eternamente uma guria do interior que custou a acreditar que ganhar o mundo era um sonho possível, e gosto de comemorar cada pequena vitória na minha vida. Pode parecer narcisismo e auto-congratulação pura, mas a verdade é que é uma estratégia de sobrevivência emocional. Sou muito auto-crítica, então acho importante ressaltar pra mim mesma tudo que eu já consegui conquistar, o quão longe já cheguei, porque minha tendência natural é só enxergar o quanto ainda falta pra chegar onde eu quero – o que, convenhamos, pode ser mais cool mas não é nada saudável.

O último mês foi particularmente surreal nesse quesito. Teve aqueles momentos em que a gente se belisca, pensando “é isso mesmo, produção?!”, como foi o evento fechado ao qual fui convidada na Queen’s Gallery, no Palácio de Buckingham, e terminou no mesmo tom com outro evento de alto escalão que ainda vou voltar pra contar.

Mas melhores ainda são os momentos em que não precisa se beliscar coisa nenhuma, porque o sofrimento que veio antes da conquista é tão, mas TAO real, que a alegria tem gosto de merecimento puro e irrestrito.

Esse mês, eu antecipei uma prova que tinha planejado fazer em março. Meu mentor sentou comigo em meados de setembro e disse: “Gabi, vambora, faz a prova em novembro que se você passar em tudo agora, isso pode te economizar 6 a 12 meses na progressão da carreira”. Respondi que não me sentia pronta, que tinha feito questões e ficado de cabelo em pé, que todos os colegas tinham me assustado falando sobre a dificuldade da prova, que as taxas de aprovação eram 50% mesmo considerando que todo mundo estuda de 4 a 6 meses, certamente não valia a pena queimar uma tentativa tendo estudado menos de 2 meses, e depois ficar marcada no currículo como quem não passou de primeira. Ele disse que não estaria me incentivando se não soubesse que eu era fully capable de estudar e passar no tempo disponível. E que eu não tinha absolutamente nada a perder a não ser o dinheiro da inscrição, já que ninguém olha quantas vezes a pessoa prestou a prova nas entrevistas de emprego lá na frente.

Fiz alguns simulados e me inscrevi. Larguei todo o resto e só estudei por 6 semanas. Depois de várias crises de auto-dúvida ao longo dessas semanas, chegou o dia da prova. Eu gosto de fazer provas quando me sinto preparada. Sabe aquela vibe “VEMNIMIM, quiridu, que quero responder tudo isso aí”?! Foi assim no vestibular, foi assim na prova de residência. Eu gosto de fazer prova quando eu tô preparada. Acredito muito que a chave do sucesso é a auto-confiança, e a chave da auto-confiança é a preparação. Então quando a gente não tá botando fé no próprio taco, fica tudo tão mais difícil! Ao mesmo tempo, como sou super procrastinadora, se não tivesse um empurrãozinho, provavelmente enrolaria eternamente pra fazer essas provas, só pelo medo da fama – dizem que as provas de anestesia são as provas de especialidade mais difíceis do UK. Sabia que antecipar a prova tinha sido a escolha certa, mas estava com medo mesmo assim.

Aí, na manhã da prova, eu vi no instagram uma frase que me atingiu com a força de um meteoro:

THERE IS NEVER THE RIGHT TIME TO DO A DIFFICULT THING. Existe maior verdade que essa?

Ao mesmo tempo, enquanto fazia meus ovos mexidos de café da manhã, comecei a pensar comigo que há quase exatos 2 anos, eu estava sentada na pracinha na frente do Royal College, chorando porque tinham me dito que eu não poderia participar de um programa deles que facilita a vinda de fellows. Comecei a me dar conta que, dentro desses 2 anos, eu consegui um emprego excelente num centro de respeito na minha área, completei meu fellow em cardíaca, me adaptei maravilhosamente bem , ajustei o plano de vôo para acomodar a vontade de ficar por aqui, e agora estava dando os primeiros passos da próxima era da minha carreira. Essa mudança de perspectiva me ajudou a ver que o simples fato de estar FAZENDO a prova era uma conquista. Nem sei se algum outro médico brasileiro já fez essa prova antes. Inscrita e registrada no Royal College of Anaesthetists, tendo o respeito e apoio de gente grande na anestesia londrina, traçando um caminho único e desbravando uma mata virgem que eu não conheço ninguém que tenha feito antes – não importava mais se eu passaria dessa vez ou não. E foi com essa gratidão e auto-confiança encontrada de última hora que eu entrei na mesma sede que me tirou as esperanças de um caminho mais fácil 2 anos atrás.

Saí da prova e bebi meu merecido vinhozinho branco ainda nesse clima, e depois segui pra jantar com a Paola. No dia seguinte, fui pro outlet de Bicester Village procurar uma bolsa que não encontrei, mas comprei um presentinho de consolação pós-prova. Me permiti mais um dia de folga, e no fim de semana tive que encarar a realidade: eu precisava terminar meu logbook de eco, o projeto inicial da minha vinda pra Londres, que eu comecei há quase dois anos e agora precisava finalizar dentro de 15 dias.

De novo passei o fim de semana todo na sofrência, me recusando a encarar a quantidade de trabalho que precisava fazer em tão pouco tempo. Mais uma vez, deixei todo o resto de lado e mergulhei de volta no projeto que se eu fosse mais esperta, teria terminado em setembro. A verdade é que, como minhas prioridades profissionais mudaram e esse projeto do eco exige que a gente faça e envie uma quantidade hercúlea de laudos e mais 6 vídeos com casos completos, eu não aguentava mais ver um eco na minha frente! Claro que ainda adoro, mas é a parte da certificação que vai erodindo a paciência da gente. No fim das contas foi legal voltar pro centro cirúrgico pra coletar umas últimas imagens, fiquei satisfeita com várias mas como sou perfeccionista, acabei montando 8 casos completos e descartando os 2 piores.

Nesse meio tempo, o Royal College liberou os resultados e eu soube que tinha passado na primeira fase da prova!!! Traçar um caminho diferente dos colegas é uma atividade solitária – meus colegas ingleses já fizeram essa mesma prova anos atrás, os colegas europeus não precisam fazer, e os poucos colegas não-europeus desistiram diante da dificuldade. Então eu recebi a notícia enquanto estava no hospital, já contei pra vários chefes e colegas. Gente, a alegria dos chefes que mais me apoiam era surreal, de repente você se dá conta que não está sozinha. Obviamente eu nunca estive, porque o Alex, meus pais, irmão e melhores amigas estavam todos na sofrência e torcida junto comigo, mas no âmbito profissional, fiquei feliz demais!!! O auxiliar de anestesia até tirou uma onda com a minha cara, disse “vê se comemora direito antes de pensar na próxima fase né”.

Enfim, de novo tomei um prossecozinho com a Paolex naquele dia só pra não deixar passar em branco, mas mal pude curtir o gosto da conquista porque tava tão estressada com o outro projeto que tinha que finalizar. Depois de TO-DOS os perrengues tecnológicos possíveis, inclusive problemas no servidor do hospital, depois nos formatos de vídeos, depois na plataforma de envio, eu finalmente cliquei ENVIAR e aí sim pude correr pra galera!!! Fui com a Paola nos iglus mais disputados de Londres pra curtir um prosecco com vista, e depois o Roni chegou do trabalho e jantamos juntos por lá mesmo.

Essas duas conquistas, a primeira fase da prova e o logbook finalizado, são do tipo que falei lá em cima. São aquelas conquistas sofridas, suadas, e apesar de por si só não me levarem a lugares específicos e sim serem somente stepping stones para o futuro que eu almejo, nessas horas eu não tenho pudor nenhum de alimentar meu Narciso interior e dar aquele auto-tapinha nas costas. Muito bem, Gabi. Tem chão ainda, mas não tás fazendo feio não. Keep calm and carry on.

A gente pode escolher entre ser um big fish in a small pond ou um small fish in a big pond. Nos anos que antecederam minha mudança, conheci alguns grandes médicos que fizeram a escolha consciente de ser peixe grande em lago pequeno porque admitiram não conseguiram ou não conseguiriam lidar com a pressão de serem peixes pequenos em grandes lagos. “Gabi, voltei porque prefiro ser cabeça de rato a rabo de baleia”.

Eu sofro sim. Duvido da minha capacidade, me questiono, fico de mimimi que só quem é muito íntimo conhece e atura. Não sei se um dia me juntarei ao coro dos que voltaram, que mudaram de prioridade, que viram o lado bom do lago pequeno. Mas desde os 16 anos, descobri que pular pra lagos maiores obriga a gente a crescer pra sobreviver… tem um tipo de crescimento que é tipo chave secreta de videogame, a gente só desbloqueia quando aceita as mazelas de ser peixe pequeno.

Welcome to the Queen’s Gallery, miss

Semana passada eu tive um momento daqueles #vencendonavida.

Coloquei meu little black dress, entrei no metrô, atravessei o Green Park batendo cabelo, parei num cantinho pra trocar a sapatilha pelo salto, e entrei no Palácio de Buckingham, onde uma recepcionista cheia de pompa verificou meu nome e um moço servindo vinho branco geladinho me aguardava prontamente.

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Hahahaha excelente né?! Na verdade é muito menos glamour do que parece, mas ainda assim não poderia deixar de comemorar ver meu nome na lista de convidados de um evento privé na casa da realeza britânica, certo? Já falei que blasé e cool eu definitivamente não sou, e celebro até as coisas mais banais.

É aquela velha história do “conheço alguém que conhece alguém”, então quando a amiga da minha cunhada nos chamou pra esse evento de preview da nova exposição no palácio, eu respondi sem pestanejar que estaria lá, apesar de o evento ser em plena segunda feira, uma semana antes da tal prova importante que estava consumindo meu tempo.

O evento não era no prédio principal do palácio e sim na Queen’s Gallery, que tecnicamente fica dentro do palácio mas é uma galeria normalmente aberta ao público, com uma entrada separada, expondo a coleção de obras de arte da realeza britânica. Inclusive foi a primeira galeria de arte que visitei aqui, há quase 8 anos! A história é um sarro na verdade, e contando pra essa amiga, nos demos conta que ela estava estagiando lá exatamente nessa época e podemos até ter nos esbarrado! Que mundo louco, né?

Um evento turistão recomendado fortemente pela comunidade no orkut (hahahah) onde passei hoooras planejando a viagem antes de vir em 2008 era a troca da guarda no Palácio de Buckingham. Eu sei, kuen kuen kuen. Suffice to say que em pleno 27 de dezembro, não foi a melhor idéia do mundo e depois de “chegar cedo pra ver bem” e esperar uma eternidade esmagadas conta o portão do palácio, Joy e eu estávamos congeladas real oficial e não tinha chá que resolvesse. Como queríamos continuar na função, falei JA SEI, olha ali aquela plaquinha da Queen’s Gallery, vamos entrar e ver qual é, já aproveitamos e nos esquentamos antes de continuar batendo perna!

No fim das contas, foi um dos nossos lugares preferidos! A família real tem muitos, muitos Rubens e Van Dyck e nós, mesmo sendo turistas incultas e incautas, nos apaixonamos pela estética dos artistas flamengos. Era dia 27 de dezembro e eu lembro exatamente da nossa empolgação com a árvore de natal linda da galeria, decorada toda com mini coroas! Antes de sair, comprei uma latinha de chá do Palácio de Buckingham pra minha mãe e outra pra minha vó, que elas guardam até hoje porque é a côsa mash quirida e ainda mais linda do que essa do link, um vermelho escarlate decorado com o brasão da rainha Elizabeth II.

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Fast forward 8 anos, eis que eu entro de novo na mesma galeria. Dessa vez, sem frio, sem pés congelando, sem jeans amarrotado de estudante, sem cabelo esculhambado lavado no cubículo do banheiro compartilhado do hostel e, mesmo que não tenha sido mérito meu, cheia de gratidão pelos caminhos que a minha vida tomou. E o mesmo deslumbre com a árvore de natal.


Não sou entendedora de arte, mas sempre gostei muito de aprender sobre a vida dos artistas e as peculiaridades de cada época e estilo, como o contexto da vida deles influenciou as telas que vemos hoje – já falei antes sobre a minha predileção pelo Impressionismo e lembro nitidamente que lá pelo meio da faculdade, nos idos de 2007, quando estava frustrada com o quanto a medicina estava engolindo a minha identidade, procurei cursos tanto de História Clássica quanto História da Arte em Floripa. Não encontrei nenhum curso de história da arte, e nem pude ser aluna ouvinte de uma das cadeiras de história da UFSC. Hoje em dia, meu interesse em história geral é muito maior ainda e sigo querendo fazer um curso desses, mas continuo gostando muito de agradar meus olhos com imagens que saíram da cabeça e mãos de alguém, por vezes muitos séculos atrás.

Então o mais legal desse evento não foi nem sequer o fato de ser um evento privado, com um número limitado de pessoas circulando em paz sem aglomeração pela galeria com suas taças de vinho, e sim o fato de que essa amiga é PhD em história da arte – que significa que, além dos discursos de abertura da exposição e as mini talks sobre 3 quadros escolhidos, tivemos o privilégio de perambular pelas salas recebendo pequenas doses de conhecimento técnico à medida em que progredíamos.

Ela nos mostrou, em dois quadros que estavam lado a lado, a diferença entre as pinceladas dos holandeses e dos italianos do século XVII, que faz com que os conoisseurs batam o olho de longe e saibam de onde e de que época uma tela é. Nos contou alguns detalhes sobre as novas tecnologias que permitem datar com precisão algumas obras, como por exemplo a análise da madeira base, e que existe toda uma área de conhecimento especializada nas molduras.

A exposição se chama Portrait of the Artist e quando fiz meu primeiro comentário perguntando se a escolha tinha algum paralelo com o narcisismo e obsessão com selfies de hoje em dia, ela me contou que o Telegraph tinha levantado a mesma possibilidade depois do evento pra imprensa, mas que uma exposição dessas leva tempo, uns 4 anos pra planejar, desde a idéia inicial, passando pela pesquisa, levantamento de obras da Royal Collection e produção de legendas que criem uma narrativa em torno do tema da exposição.

Como sou super curiosa sobre a realeza e tudo que os diz respeito, fiz algumas perguntas sobre a Royal Collection. Ela contou que eles nunca emprestam obras de arte de outras coleções: absolutamente tudo que está ali exposto pertence à família real. Mas dentro do acervo real, eles podem fazer todas as combinações e arranjos possíveis: os quadros e gravuras que estavam ali tinham vindo de Windsor, Balmoral, quaisquer outros palácios e residências reais.

Perguntei se eles poderiam, por exemplo, expor um quadro que estivesse em um dos cômodos privados do palácio de Buckingham ou Kensington etc. E aí ela me contou também que existe a coleção real, a Royal Collection, que é pública e pertence à realeza como um todo, e as coleções privadas da Rainha, do Príncipe Phillip e do Príncipe de Gales. E que, no caso de existir algum quadro pessoal da Rainha que eles queiram expor, é necessária uma solicitação especial aos curadores da coleção pessoal dela, explicando a relevância da obra, por quanto tempo ficaria exposta, e organizar uma obra adequada para substituir o lugar daquela durante o tal período. Acho fascinante toda a função envolvida!

Inclusive tinha ali uma dupla super interessante que faz parte de uma coleção privada: um quadro pintado por [artista cujo nome não lembro] retratando o Duque de Edinburgo pintando um quadro no deck do barco real Britannia, e o quadro que ele pintava naquele momento, que por sua vez retratava o [artista cujo nome não lembro] pintando o seu quadro. Eu nem sabia que o Príncipe Phillip pintava, e ele não é nada mau!

Enfim, foi uma experiência sensacional, daquelas que você jamais imaginou que fosse viver, sabe? Fiquei pensando… ano passado passei por um momento desses de “MELDELS essa gente acha tudo muito normal e blasé, mas tô aqui no meu novo-mundismo totalmente deslumbrada” bebericando meu vinho branco num evento privado na Banqueting House de Whitehall, esse ano no Palácio de Buckingham. Desse jeito vou ficar muito mal acostumada! Ô sorte na vida!

Quanto mais queijo, menos queijo

Eu adoro escrever aqui, mas quanto mais coisas acontecem, menos provável é eu sentar pra registrá-las. É o paradoxo do queijo suíço. Quanto mais queijo, mais buracos, e quanto mais buracos, menos queijo. Logo, quanto mais queijo, menos queijo. Quanto mais posts, menos posts.

Desde setembro, não só aconteceram mil coisas que eu quero registrar, como também minha rotina mudou por completo. Estou trabalhando menos e com uma rotina muito, muito mais previsível #aleluiairmãos. Mas também estou estudando pra uma prova importante e super difícil, então o fato de ter mais tempo disponível não significa que tenho mais tempo livre. Acabo não me permitindo abrir o painel do blog pra escrever porque quando me empolgo fico séculos divagando, e agora não dá pra abrir espaço pra essa empolgação, hehehe.

Porém, contudo, todavia… acabei de sair de um plantão e essas primeiras horas eu nem tento estudar, porque é frustração na certa. Então vim tomar um café da manhã na Patisserie Valerie antes de ir pra casa e resolvi aproveitar pra dar as caras por aqui enquanto termino meu enésimo chá do dia antes das 11 da manhã!

Nos últimos dois meses, eu passei uma semana na Itália com o Alex e os amigos dele, subi um vulcão em atividade, fui ao meu primeiro casamento gringo, arrumei meu home office (e -pasmem!- mantive organizado), saí de um emprego, comecei em outro, me dei conta de algumas coisas curiosas sobre dividir apê, voltei a me exercitar regularmente, comemorei meus 29 anos na Hungria, fiz um curso de meditação para iniciantes, finalmente marquei e planejei minha ida ao Brasil em dezembro, passei pelo meu primeiro perrengue tipicamente setentrional, aprendendo um bocado sobre aquecimento central no processo, e… resolvi de última hora fazer uma prova em novembro que estava planejada para março de 2017.

A prova é semana que vem, e depois dela eu tenho mais uma maratona que é a finalização do meu objetivo profissional inicial ao vir pra cá, a certificação em eco transesofágico. E como eu seeempre faço isso comigo mesma, meu tempo já está todo contado desde o dia da prova até a entrega do logbook, que é seguida imediatamente por um plantão, uma mini viagem, outro plantão, e a minha ida ao Brasil! Não pára, não pára, não pára não!

Mas como depois da prova tudo fica um pouco mais relax, quero sentar pra escrever sobre pelo menos metade das coisas que eu descrevi ali em cima, porque senão começa 2017 e, apesar desse ano ter sido meio ˜ixcroto˜ como diria um colega de residência lendariamente carioca, acho que nenhum ano antes na minha vida contribuiu tanto pro meu crescimento!!! Então nada mais justo com o meu eu futuro que eu registre aqui pra posteridade tanto quanto possível the good, the bad and the ugly de 2016 certo?!