Cereal Killer

Já tava quaaase esquecendo de escrever aqui hoje!

Hoje de manhã, apesar da chuvinha chata, fomos a Shoreditch porque eu tava querendo ir a um café que tem um conceito muito legal: é um lugar especializado em todo tipo de cereal matinal, desses das antigas mesmo, aquelas caixas que quem foi criança nos anos 80 e 90 conhece tão bem.

Meu preferido era o do elefante, o Choco Krispies, e lembro que o do Rodrigo (acho) que era Fruit Loops. Aí chegamos lá e o menu é super inusitado, eles têm umas tigelas “sugeridas” em que eles misturam alguns tipos de cereal que acham que combinam – por exemplo o Alex pediu uma tigela toda centrada nos sabores de manteiga de amendoim, com umas bolinhas de chocolate e leite sabor banana. Já eu, como a razão da visita eram os floquinhos de arroz estourado cobertos de chocolate, acabei pedindo uma “monte sua tigela” com esses e uns Cinnabons, que são um cereal de canela super doce que eu teria amado se existissem na infância, e freeze-dried unicorn marshmallows 😂

Muito legal mesmo, e aí além de usarem os próprios cereais como decoração, eles seguiram o “tema” anos 80-90 com uns trolls nas prateleiras, uns bichinhos de pelúcia, e uma trilha sonora engraçadíssima de hits da época. E como se isso tudo não bastasse, ainda te trazem a conta dentro de uma capa de vídeo das antigas em VHS!

Pena que não deu pra esticar o passeio como eu tinha planejado inicialmente, eu AMO o Columbia Rd Flower Market então seria perfeito irmos lá, depois tomarmos o café da manhã e continuarmos perambulando por Brick Lane até vir pra casa. Mas na chuva não teria a mesma graça, então resolvi deixar pra lá e vir pra casa agilizar a vida pra essas próximas duas semanas que serão bem corridas – mas mesmo assim não consegui fazer tudo que queria 😣 Vou ter que me virar nos 30!

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Flanando por Londres

Hoje o dia foi de flanar pela cidade e me despedir da Dri, que tá de mudança pros Estados Unidos essa semana. Então a Soph reservou pra gente almoçar num restaurante novo no rooftop da Selfridges: Il Tetto – e cara, que bola dentro!!! Comida italiana de verdade e um clima muito gostoso!!!

Depois cruzamos o Hyde Park passeando, tirando uma foto aqui e outra ali, beirando a Serpentine, paramos pra tomar um chá e papear mais… e depois fomos ao Victoria and Albert Museum. A Dri não ia lá há anos e queria voltar, e eu adorei a escolha dela porque nunca tinha ido. Com certeza não será minha última visita!!! Tem umas peças de decoração muito lindas, uns tapetes persas de cair o queixo, mas fiquei surpresa ao ver tantas esculturas – eu na minha ignorância achava que era um museu só de design e moda, mas na verdade depois descobri que ele tem a maior coleção de esculturas renascentistas fora da Itália! E além de ter tudo isso, tem uma arquitetura maravilhosa que só perde pro vizinho Natural History Museum.

Então chegamos lá e aproveitamos o solzinho pra sentar no courtyard, olhar as crianças brincando no espelho d’água e falar da vida. Muito muito gostoso, curti demais.

Até tentamos encerrar o dia com um drink NO Tâmisa, no Tattershall Castle que eu curto muito, mas as meninas imediatamente notaram o balanço do barco e decretaram que não ia rolar, hehehe… então cruzamos pro South Bank, jantamos no Wagamama e encerramos o dia com um brinde no Founders Arms.

O dia foi uma delicia, só flanando por Londres, falando da vida e de planos, dos novos capítulos que cada uma tem pela frente, muita energia boa mesmo. Sempre admirei demais a maneira da Dri encarar a vida de braços abertos e hoje foi mais uma celebração dessa filosofia de vida, que nós três compartilhamos ❤️

Pra encerrar com chave de ouro, vim pra casa a pé ouvindo música, pra completar minha caminhada preferida no mundo, deitei no sofá com o Alex e estamos aqui de preguiça, ele vendo os melhores momentos do futebol, eu escrevendo aqui, e daqui a pouco saem empadinhas quentinhas do forno pra completar nossa domestic bliss! Hehehehe

É primaveraaaa

Hoje fez um dia lindo, super agradável e ameno, aquela luz dourada já mais veranil – é incrível como a gente nota muito claramente as diferenças no ângulo de incidência da luz aqui conforme as estações.

Terminei minhas anestesias relativamente cedo, ainda fiz a boa moça e fui me oferecer pra liberar dois colegas para lancharem, etc etc, e ainda assim sai do hospital antes das 17h!!! AI QUE FESTA!

Aí no caminho pra casa mandei mensagem pra umas amigas perguntando se alguém queria me encontrar em Shad Thames pra tomar um drink na beira do rio. A Paola veio, e depois a Dri, que tinha ido encontrar uma amiga em outro lugar, também resolveu ir pra lá nos encontrar. No fim das contas acabamos as 4 rindo horrores, falando alto e fazendo mil piadas em português no restaurante!

Falei no Instagram (@gabiemlondres) sobre QUÃO feliz o londrino fica quando faz um dia bonito!!! É muito legal essa gratidão e vontade de viver que toma conta da cidade em dias bonitos!

Auto-conhecimento

Quanto mais o tempo passa, maior o peso do auto-conhecimento nos meus objetivos de vida.

Ter mais clareza sobre quem a gente é, o que a gente gosta ou desgosta, o que realmente importa na vida da gente, como a gente reage quando está com medo, como a gente lida com mudanças (etc etc, a lista não tem fim) é uma tarefa que eu pessoalmente considero difícil.

Primeiro de tudo porque, do ponto de vista evolucionário, nossa mente não foi feita para ver a vida com clareza. Nossa mente foi feita para ver a vida da maneira que mais contribua para o sucesso evolutivo (leia-se assegurar que nossos genes sejam passados adiante). Veja que isso não está em discussão, nem estou questionando se é justo ou correto. Se você acredita em ciência e na evolução das espécies, isso é apenas mais um fato que decorre muito logicamente dos bilhões de anos de seleção natural. Assim sendo, nossa mente mente pra gente o tempo todo, o que torna a auto-análise e a auto-imagem muito dúbias.

E segundo, porque auto-conhecimento requer reflexão, e em um mundo em movimento incessante, em um mundo que cada vez mais compete pela nossa atenção, cada vez sobra menos tempo para a introspecção verdadeira, para o ócio genuíno, o ócio produtivo – para de fato olhar pra dentro ao invés de pensar nas mensagens não respondidas no WhatsApp.

Em janeiro desse ano, eu tive um insight super importante, eu diria que talvez um dos mais importantes que já tive nos meus tenros 30 anos de vida (hahaha) – e hoje sei que poderia ter me poupado muita frustração se tivesse tido esse mesmo insight 2 ou 3 meses antes! Mas não vou falar o que é porque acabei de voltar de um jantarzinho no Soho com uma amiga e agora tá na hora de ir dormir, porque amanhã tem mais labuta me aguardando, mas como diz um jornalista de telejornal no Brasil, graças a Deus é sexta feira! 😂

Multitasking é uma falácia

O conceito “estar ocupado” é tão glamourizado hoje em dia que as pessoas se sentem praticamente culpadas quando não estão administrando 38 tarefas diferentes ao mesmo tempo. As vezes penso que estamos doentes coletivamente com uma ansiedade endêmica e que o ócio criativo só sobrevive (e bem, obrigada) naquelas cidades de interior onde a gente passa de carro e vê um vôzinho de 80 anos sentado de boa no lado na varanda de casa, contemplando o nada, sabe-se lá pensando em quê.

Não me entendam mal: eu adoro produtividade, adoro automatizar tarefas que não agregam nada à minha vida (como por exemplo pagar contas – existe alguém que ainda paga uma por uma?!) e adoro descobrir maneiras mais eficientes de fazer uma mesma tarefa.

Mas eu acho que as pessoas confundem o conceito de multitasking com o conceito de tocar a própria vida na forma de múltiplos projetos.

Multitasking seria você literalmente fazer varias tarefas ao mesmo tempo: fazer aquela ligação para a operadora de celular enquanto caminha pro trabalho tentando não ser atropelada na rua, conversar com o namorado sobre os planos do fim de semana enquanto atualiza o orçamento no laptop, seja lá o que for. E já está mais do que provado que o cérebro humano não foi feito pra funcionar dessa maneira. A cada interrupção, você tem um gasto de energia adicional ao retornar, até que o seu cérebro processe de novo em que ponto estava, e recapitule o que é necessário fazer agora. Acaba que você faz múltiplas tarefas mas faz múltiplas tarefas mal-feitas.

Já o approach de mini projetos seria você aceitar ir até onde pode com uma determinada tarefa, mas aí tem uma etapa que não está no seu controle, que não depende de você – aí faz sentido abandonar temporariamente e engavetar até que a pendência se resolva, e aí faz sentido usar esse período para avançar em outro mini projeto.

Exemplo: chego em casa e é meu dia de fazer o jantar (projeto A) mas também preciso dobrar as roupas que secaram do dia anterior (projeto B). Se meu jantar vai ser uma refeição fácil e semi-pronta (que é o caso na maioria das vezes), eu coloco o bolinho de peixe para assar com um timer de 10 minutos, abandono e vou dobrar as roupas. Quando o forno apitar, vou ali e coloco os vegetais na panela pra ferver, e coloco mais um timer de 10 minutos. Nesse intervalo, eu posso esquecer que o jantar existe, porque deleguei a função de me lembrar do horário ao timer, e não há nada mais que eu possa fazer para acelerar/finalizar o projeto A. Então nesse período, posso dobrar todas as meias e todas as roupas íntimas, e finalizar o projeto B antes de poder retomar o projeto A. Mas em nenhum momento tentei fazer duas coisas ao mesmo tempo, entende? Só estou usando um intervalo de tempo obrigatório a meu favor. E se eu estiver fazendo um jantar intenso, que me exige ficar na beira do fogão mexendo o tempo todo, logicamente não tentarei fazer mais nada nesse período.

Eu gosto muito de ler ficção, mas também curto muito livros sobre neuropsicologia e o funcionamento da mente humana, por que somos como somos e tal. Um deles é sobre um dos meus conceitos preferidos, que por muitos anos procurei uma explicação e finalmente encontrei – chama-se Flow e trata do (agora já consagrado) estado de fluxo: quando você está no ponto ótimo de concentração e absorção em uma tarefa. Meu primeiro contato com essa sensação foi nas provas de matemática no colégio – eu curtia muito a resolução dos problemas, parecia um transe mesmo, e o tempo parecia simultaneamente se alongar e se encurtar. Não, eu não usava LSD antes das provas de matemática 😂 mas sabe aquela sensação de “nossa, mas já acabou?!” combinada a uma sensação de presença de espírito, de você estar 100% ali, 100% atenta ao momento presente?!

Claro que as atividades que induzem e permitem esse estado de fluxo são muito variadas dependendo de habilidades e gostos pessoais, e obviamente muitas tarefas mundanas jamais elicitarão esse tipo de sensação em ninguém.

Mas quando a gente presta atenção irrestrita no que está fazendo, quando a gente se nega a ser carregado pelos pensamentos para um passado que não pode ser modificado ou para um futuro que pode não acontecer, tudo fica melhor, né?!

Enfim, esse assunto da muito mais pano pra manga, mas agora fiquei tão empolgada escrevendo que acabei de me dar conta que o tempo passou e preciso ir dormir logo porque amanhã a labuta me aguarda e o dia será longo!

Novo velho ritmo

Gente, é só o terceiro dia do mês e eu já quase esqueci de escrever aqui!

Como falei ontem, em março eu mudei de emprego, e não só eu voltei para o dia a dia de anestesista que por si só é muito mais dinâmico do que o de intensivista, mas ainda por cima estou trabalhando em áreas da anestesia que são o expoente disso – quando vim pra cá, fiz um ano e meio de cardiaca, que são cirurgias super longas e apesar de estarmos trabalhando o dia inteiro, temos 2 ou 3 cirurgias por dia, e só.

Hoje de manhã eu cheguei no trabalho, fiz avaliação pré-anestésica de 7 pacientes, depois anestesiei as 7 pacientes, engoli meu almoço em 15 minutos e depois vi os 3 pacientes da tarde, que por sorte foi relativamente curta porque o 4o paciente não foi! E mesmo assim cheguei em casa um caco de tanto correr pra lá e pra cá!

É quase um cansaço gostoso, aquela sensação de ter trabalhado, de merecer o descanso, mas ao mesmo tempo estou surpresa porque ando tendo uns sintomas de velhice tipo dor nas pernas no fim do dia, coisa que nunca tinha tido antes, nem nos dias mais corridos da residência 😳 Eu hein!

Mas não to entregando os pontos ainda, acho que é só um período de readaptação mesmo ao velho ritmo de trabalho. Senão daqui a pouco vou ter que começar a usar meias Kendall, e todo mundo sabe que a partir daí é só ladeira abaixo né?! Hahahaha

Emprego novo

Como tem muita novidade pra contar, vou escrevendo aleatoriamente mesmo, ao invés de tentar relatar cronologicamente os fatos.

Acabei de voltar de um jantar com uma amiga alemã que fiz no meu primeiro emprego aqui em Londres, e isso me fez pensar bastante nas mudanças profissionais pelas quais passei desde então.

Quando resolvi ir ficando e planejar uma carreira sustentável por aqui, isso incluiu um passo crucial que foi fazer a primeira parte das provas do Royal College. Acontece que, com o ritmo de trabalho que eu tinha, somado ao fato de as provas serem muito diferentes (e muito mais difíceis) do que eu estava acostumada, fui aconselhada pelos meus mentores a mudar para um emprego com horários mais compatíveis, que me permitisse focar a minha atenção e energia nos estudos – e assim foi, e sou muito grata por esse conselho porque realmente foi instrumental. E ainda assim a prova foi a coisa mais difícil que já fiz, do ponto de vista técnico inclusive, mas principalmente do ponto de vista emocional.

Só que esse emprego era em UTI, que ainda é uma especialidade irmã da Anestesia aqui, e pela qual sou muito grata porque me faz uma médica melhor mas que, com todo o respeito, não foi o que eu escolhi. E enquanto eu estava envolvida com outras coisas foi ótimo, mas quando varias outras burocracias começaram a dar errado, que outra hora eu conto melhor, comecei a sentir o peso de trabalhar com algo que não é o que escolhi, que não me desperta tanto prazer e curiosidade, e só nos últimos dois meses é que fui me dar conta do quanto aquilo estava me chateando.

E olha, quando eu falo isso, nem sequer quero dizer que estava fazendo um trabalho que eu desgosto! Simplesmente não me trazia tanta satisfação e significado quanto a Anestesia, que sempre foi minha paixão. Então ao mesmo tempo em que andava super chateada com varias coisas, confesso que até curtindo uma auto-piedade pelas coisas que estavam dando errado, no fundo da minha mente eu tinha consciência que tenho mesmo é que ser grata porque mesmo meu emprego sub-ótimo ainda me trazia momentos muito bons e cheios de significado. E também suspeito que o caso específico de um paciente acabou me marcando e contribuindo pro meu desanimo nesse período.

Enfim, tudo isso pra contar que finalmente estou de volta à minha grande paixão, anestesiando muito e matando muitas, muitas saudades!!!

😷

Ressurreição

Oláaaaaa,

Nessa Páscoa resolvi fazer uma coisa nova: uma tentativa comprometida de ressuscitar este modesto diário (HAHAHA tá mais pra anuário né?!).

Falei uns posts atrás que acabo não escrevendo quando as coisas vão melhor do que o normal, e também já deixei de escrever quando as coisas iam pior do que o normal, donde se conclui que -conforme essa lógica- eu precisaria que as estrelas todas se alinhassem de uma maneira específica, que não houvesse nem demais nem de menos acontecendo na minha vida, para que eu pudesse sentar aqui pra registrar o que estivesse acontecendo (ou deixando de acontecer na minha vida). Sem sentido, certo?

Então vou tentar a estratégia inversa – vou escrever algo, mesmo que um só parágrafo, todos os dias desse mês. Praticamente um stream of consciousness, quer haja assunto, quer não. Quem sabe assim volto a cumprir o propósito desse espaço?!

 

(In)tolerância religiosa

Muitos e muitos anos atrás, me encontrei numa roda de conversa com 4 adultos e sem meus pais por perto. Contei orgulhosa que estava fazendo trabalho voluntário em uma instituição de caridade. Só que a instituição era de uma religião diferente à desses adultos, e para minha surpresa e desgosto, ouvi como resposta um uníssono de intolerância religiosa e preconceito, críticas e perguntas sobre por que raios não tinha escolhido uma instituição da religião predominante para voluntariar, e tanta degradação da outra religião, que me lembro distintamente até hoje que fui às lágrimas – de decepção, de raiva, de inconformismo. Não preciso nem explicar que aquilo me marcou profundamente.

Alguns anos depois, enquanto estudava para o vestibular, as aulas de história eram praticamente um refúgio, o momento em que eu relaxava, não anotava nada e lembrava que o vestibular não significava nada no grande esquema do universo, e ouvia fascinada enquanto um dos professores mais marcantes da minha vida falava com o mesmo respeito sobre as religiões “pagãs” da antiguidade, a Bíblia, o Alcorão, o Torah, os ensinamentos de Buda, e qualquer outra religião que fosse mencionada. Esse professor, depois obviamente dos meus pais, foi instrumental para que crescesse em mim o desejo intenso de entender o mundo e de enxergar mais semelhanças do que diferenças entre as pessoas que cruzam o meu caminho.

Nas últimas semanas, visitei pela primeira vez um país de quase totalidade muçulmana (🇲🇦) e logo em seguida um país também de maioria muçulmana, que foi berço de tensões étnicas e religiosas que políticos imorais exploraram como pretexto para seus jogos de poder, e destruíram milhares de vidas no processo (🇽🇰). Naturalmente, venho pensando MUITO sobre (in)tolerância religiosa, então foi quase com um choque que descobri, à medida em que o devorava, que o livro que eu tinha pré-comprado meses atrás e cujo enredo era pra mim um completo mistério teria as guerras religiosas do século 16 como tema central.

Entendo religião como uma maneira que as pessoas encontram de fazer sentido da vida, que é difícil e as vezes muito injusta, e entendo também que muita gente dispense religiões e encontre esse mesmo sentido através de outros instrumentos e atividades. Particularmente, sinto o mesmo arrepio, paz interior e perspectiva sobre a vida quando sobrevôo os Alpes, quando vejo os raios de sol da manhã entrando numa catedral medieval, quando medito em um centro budista, quando escuto a chamada de oração muçulmana, e espero que continue descobrindo novos lugares e situações pelo mundo que me dêem essa mesma sensação.

Continuo tentando entender o porquê de as escolhas particulares alheias incomodarem tanto, e tentando com toda a minha força me livrar do ímpeto de denegrir a escolha alheia para validar a minha própria, seja no âmbito que for.

Vejo qualquer tentativa de manipulação, para um extremo ou outro do espectro, como insulto à minha inteligência e livre-arbítrio.

Eu acredito apaixonadamente no direito de cada pessoa de escolher a sua crença (ou ausência de), e é por isso que tô escrevendo textão pra registrar todo o meu amor por esse livro, numa época em que discursos intolerantes estão tragicamente ganhando espaço na forma falsa e deturpada de “liberdade de discurso”.

Acredito que todo mundo tem o poder de fazer repensar aqueles que o/a respeitam. Deixo aqui minha pequena reflexão para reiterar e prometer que eu, Gabriela, jamais tolerarei intolerância ❤️🌎

(Recomendo fortemente a trilogia de Kingsbridge do Ken Follett, mas em especial esse último, que foi o que mais me fez refletir)

Por que parou? Parou por quê?

Estou há mais de 6 meses sem escrever nada aqui. SEIS MESES!!!

Então resolvi parar pra refletir um pouquinho, tentar entender o porquê dessa pausa não planejada e preguiça generalizada de registrar minha vida por aqui.

Já falei outras vezes que minha relação com esse espaço é tipo aquela máxima do queijo suíço:

“Quanto mais queijo, mais buracos

Quanto mais buracos, menos queijo

Portanto… quanto mais queijo, menos queijo”

Quanto mais acontecimentos e mudanças na minha vida, menor a chance de eu parar por tempo suficiente pra refletir e registrar aqui. Porque eu demoro né, comigo não tem essa de escrever rapidinho enquanto a comida esquenta, porque fico pensando na morte da bezerra, traçando paralelos e tal. Aí você diz: bah, Gabi, mas então você escolheu um método muito paradoxal pra fazer teus registros, né. E realmente, o instagram acaba sendo um querido diário muito mais fiel ao meu dia a dia porque leva de alguns segundos a alguns minutos pra postar, dependendo da complexidade da legenda, e ainda que a legenda seja só um emoji da preguiça, a foto estará lá, e eu me lembrarei de quando ela foi tirada.

Só que nesses últimos meses, até isso tem ficado meio em segundo plano. Um tempo atrás recebi uma mensagem privada no instagram de uma menina muito querida e simpática, dizendo que adora minhas fotos mas estava sentindo falta da minha personalidade, das minhas legendas espirituosas e piadinhas que acompanhavam as fotos. Que os posts estavam ficando meio genéricos, ela olhava e não sabia mais quem tinha postado.

A grande verdade é que muitas coisas mudaram (para melhor!!!) na minha vida!

Desde o meu último post aqui no blog, o Alex voltou a morar em Londres, eu passei pelo maior obstáculo profissional (e psicológico) da minha –reconhecidamente– privilegiada existência, nós passamos juntos pela caça ao tesouro imobiliário londrino (e pesadelos associados, haha), fizemos mudança no melhor estilo londrino, usando metrô, muitas malas e muito bíceps, mobiliamos o flat com direito a múltiplas idas à Ikea e muito suor e lágrimas para montar tudo sozinhos (#dramalhão #mentira), estabelecemos uma nova rotina, curtimos muito o verão inglês com direito a inúmeros piqueniques e atividades ao ar livre, e agora sim a vida está estabilizando.

Paralelamente a tudo isso, aconteceram muitas mudanças internas também. Quando eu me mudei pra cá, eu tinha poucos amigos e a natureza do meu trabalho significava que os poucos amigos que eu tinha do trabalho estavam sempre de plantão em horários incompatíveis com os meus, então eu passava muito do meu tempo sozinha. O whatsapp e o instagram eram minhas companhias constantes, e como eu já disse antes, sou muito reflexiva, então usava os posts como forma de externalizar todas essas minhas elucubrações, observações e trocadilhos bobocas que meus amigos gringos provavelmente não entenderiam. Devo muitas das minhas amizades atuais ao instagram, mas à medida que elas foram atravessando a barreira da internet para a vida real, e especialmente depois que o Alex voltou pra cá, eu diria que em boa parte das atividades que faço no meu tempo livre, eu estou acompanhada. Acompanhada de uma pessoa real -seja meu namorado, sejam amigas- cuja companhia eu prezo demais, e portanto tenho feito um esforço consciente de não abandonar a ver navios enquanto enfio a cara no celular pra postar uma foto no instagram com uma legenda enorme e reflexiva. Isso não quer dizer que eu não queira mais ou não goste mais de filosofar – muito pelo contrário, no fundo sou uma pessoa introspectiva, e sinto uma necessidade quase física de curtir minha própria companhia, então sempre procuro assegurar um tempo comigo mesma. Desse tempo invariavelmente surgem reflexões que eu gostaria de, em algum momento, compartilhar, mas o fato é que a esfera virtual não tem sido uma prioridade na minha vida ultimamente.

Outra razão pro meu sumiço é um pouco mais complexa. Eu nunca tive a intenção de escrever para outrem, heheheh. Não me entenda errado: eu adoro as interações da internet – acredito que elas inspiram, agregam, desafiam, engrandecem a gente (se a gente filtrar quem a gente segue, mas isso é assunto para outro post). E também não dá pra negar que todo mundo tem um pouquinho de Narciso dentro de si: é legal ver as pessoas se interessarem pelas tuas opiniões, é legal receber comentários e atenção, e principalmente é recompensador para a psiquê humana receber a validação dos coleguinhas, ainda mais se os coleguinhas forem gente com ideais parecidos, gente que a gente respeita. Por mais blasé e too cool for school que você queira parecer, o seu subconsciente tá lá, se regozijando com cada sinal de aprovação que você recebe, seja online, seja na vida real. Tô pra ver alguém ter a cara de pau de negar. Mas meu objetivo maior com esse espaço é descaradamente egoísta: quero manter um registro da minha vida, dia a dia, mudanças de perspectiva e objetivos, etc etc. Aí você diz: mas Gabi, se é assim então faz um blog privado! E eu respondo: “oi, meu nome é Gabriela, e estou há 0 dias sem procrastinar”. Hahahahah gente, se nem com amigos perguntando de vez em quando “e aí Gabi, abandonou de vez o blog?” eu me mexo pra escrever, imagina se ele fosse trancado só pra mim?! Então fico dividida entre os benefícios do compartilhamento, e uma certa resistência intrínseca de escancarar minha vida privada na internet, mesmo que haja meia dúzia de gatos pingados lendo. Não sou uma pessoa particularmente aberta, quando estou passando por momentos difíceis prefiro dividir só com as pessoas mais próximas, mas ao mesmo tempo não quero que esse blog seja uma coleção superficial dos highlights da minha vida (que aliás nem isso eu tenho conseguido manter). Muito mais do que o fim de semana estendido no Báltico, ou o dia em Wimbledon, ou o piquenique de verão na beira do rio, acredito que o meu eu é definido por aqueles momentos em que apesar das renúncias, de repente em um momento super simples e ordinário toda a sua vida faz sentido, e também pelas grandes superações, pelas dificuldades, perrengues e medos que cada um enfrenta. Dificuldades, perrengues e medos estes que eu não tenho uma habilidade natural, nem facilidade para relatar.

No fim das contas, independentemente de qualquer outra coisa, sempre achei que escrever me ajuda a entender meus próprios sentimentos, sabe, organizar as idéias. Depois de passar naquela prova difícil que passei em maio, um dos requerimentos de um dos mentores que me ajudaram era que eu escrevesse um email pra ele refletindo sobre toda a experiência. Nesse último domingo, precisei procurar um negócio relacionado na minha caixa de emails, e reli tudo. Gente, impressionante como escrever pra mim é o equivalente daquela comunidade antiga do orkut que dizia “Chorar resolve”. Hahahah… Incrível o quanto colocar preto no branco me ajuda a fazer sentido das coisas. Pode até não mudar nada na minha vida no aspecto prático, mas só o fato de colocar pingos nos meus is internos me fortalece e me inspira.

Agora que a vida está se estabilizando, vou voltar a priorizar um tempinho por semana aqui, porque afinal de contas, se ter o registro é importante pra mim, preciso organizar o meu tempo pra fazer acontecer, certo?! Talvez eu tente escrever posts mais curtinhos e frequentes, ao invés de escrever essas odisséias que normalmente escrevo, pra ver se funciona melhor. Então, como diz o exterminador do futuro: I’LL BE BACK! 😂