Auto-conhecimento

Quanto mais o tempo passa, maior o peso do auto-conhecimento nos meus objetivos de vida.

Ter mais clareza sobre quem a gente é, o que a gente gosta ou desgosta, o que realmente importa na vida da gente, como a gente reage quando está com medo, como a gente lida com mudanças (etc etc, a lista não tem fim) é uma tarefa que eu pessoalmente considero difícil.

Primeiro de tudo porque, do ponto de vista evolucionário, nossa mente não foi feita para ver a vida com clareza. Nossa mente foi feita para ver a vida da maneira que mais contribua para o sucesso evolutivo (leia-se assegurar que nossos genes sejam passados adiante). Veja que isso não está em discussão, nem estou questionando se é justo ou correto. Se você acredita em ciência e na evolução das espécies, isso é apenas mais um fato que decorre muito logicamente dos bilhões de anos de seleção natural. Assim sendo, nossa mente mente pra gente o tempo todo, o que torna a auto-análise e a auto-imagem muito dúbias.

E segundo, porque auto-conhecimento requer reflexão, e em um mundo em movimento incessante, em um mundo que cada vez mais compete pela nossa atenção, cada vez sobra menos tempo para a introspecção verdadeira, para o ócio genuíno, o ócio produtivo – para de fato olhar pra dentro ao invés de pensar nas mensagens não respondidas no WhatsApp.

Em janeiro desse ano, eu tive um insight super importante, eu diria que talvez um dos mais importantes que já tive nos meus tenros 30 anos de vida (hahaha) – e hoje sei que poderia ter me poupado muita frustração se tivesse tido esse mesmo insight 2 ou 3 meses antes! Mas não vou falar o que é porque acabei de voltar de um jantarzinho no Soho com uma amiga e agora tá na hora de ir dormir, porque amanhã tem mais labuta me aguardando, mas como diz um jornalista de telejornal no Brasil, graças a Deus é sexta feira! 😂

Multitasking é uma falácia

O conceito “estar ocupado” é tão glamourizado hoje em dia que as pessoas se sentem praticamente culpadas quando não estão administrando 38 tarefas diferentes ao mesmo tempo. As vezes penso que estamos doentes coletivamente com uma ansiedade endêmica e que o ócio criativo só sobrevive (e bem, obrigada) naquelas cidades de interior onde a gente passa de carro e vê um vôzinho de 80 anos sentado de boa no lado na varanda de casa, contemplando o nada, sabe-se lá pensando em quê.

Não me entendam mal: eu adoro produtividade, adoro automatizar tarefas que não agregam nada à minha vida (como por exemplo pagar contas – existe alguém que ainda paga uma por uma?!) e adoro descobrir maneiras mais eficientes de fazer uma mesma tarefa.

Mas eu acho que as pessoas confundem o conceito de multitasking com o conceito de tocar a própria vida na forma de múltiplos projetos.

Multitasking seria você literalmente fazer varias tarefas ao mesmo tempo: fazer aquela ligação para a operadora de celular enquanto caminha pro trabalho tentando não ser atropelada na rua, conversar com o namorado sobre os planos do fim de semana enquanto atualiza o orçamento no laptop, seja lá o que for. E já está mais do que provado que o cérebro humano não foi feito pra funcionar dessa maneira. A cada interrupção, você tem um gasto de energia adicional ao retornar, até que o seu cérebro processe de novo em que ponto estava, e recapitule o que é necessário fazer agora. Acaba que você faz múltiplas tarefas mas faz múltiplas tarefas mal-feitas.

Já o approach de mini projetos seria você aceitar ir até onde pode com uma determinada tarefa, mas aí tem uma etapa que não está no seu controle, que não depende de você – aí faz sentido abandonar temporariamente e engavetar até que a pendência se resolva, e aí faz sentido usar esse período para avançar em outro mini projeto.

Exemplo: chego em casa e é meu dia de fazer o jantar (projeto A) mas também preciso dobrar as roupas que secaram do dia anterior (projeto B). Se meu jantar vai ser uma refeição fácil e semi-pronta (que é o caso na maioria das vezes), eu coloco o bolinho de peixe para assar com um timer de 10 minutos, abandono e vou dobrar as roupas. Quando o forno apitar, vou ali e coloco os vegetais na panela pra ferver, e coloco mais um timer de 10 minutos. Nesse intervalo, eu posso esquecer que o jantar existe, porque deleguei a função de me lembrar do horário ao timer, e não há nada mais que eu possa fazer para acelerar/finalizar o projeto A. Então nesse período, posso dobrar todas as meias e todas as roupas íntimas, e finalizar o projeto B antes de poder retomar o projeto A. Mas em nenhum momento tentei fazer duas coisas ao mesmo tempo, entende? Só estou usando um intervalo de tempo obrigatório a meu favor. E se eu estiver fazendo um jantar intenso, que me exige ficar na beira do fogão mexendo o tempo todo, logicamente não tentarei fazer mais nada nesse período.

Eu gosto muito de ler ficção, mas também curto muito livros sobre neuropsicologia e o funcionamento da mente humana, por que somos como somos e tal. Um deles é sobre um dos meus conceitos preferidos, que por muitos anos procurei uma explicação e finalmente encontrei – chama-se Flow e trata do (agora já consagrado) estado de fluxo: quando você está no ponto ótimo de concentração e absorção em uma tarefa. Meu primeiro contato com essa sensação foi nas provas de matemática no colégio – eu curtia muito a resolução dos problemas, parecia um transe mesmo, e o tempo parecia simultaneamente se alongar e se encurtar. Não, eu não usava LSD antes das provas de matemática 😂 mas sabe aquela sensação de “nossa, mas já acabou?!” combinada a uma sensação de presença de espírito, de você estar 100% ali, 100% atenta ao momento presente?!

Claro que as atividades que induzem e permitem esse estado de fluxo são muito variadas dependendo de habilidades e gostos pessoais, e obviamente muitas tarefas mundanas jamais elicitarão esse tipo de sensação em ninguém.

Mas quando a gente presta atenção irrestrita no que está fazendo, quando a gente se nega a ser carregado pelos pensamentos para um passado que não pode ser modificado ou para um futuro que pode não acontecer, tudo fica melhor, né?!

Enfim, esse assunto da muito mais pano pra manga, mas agora fiquei tão empolgada escrevendo que acabei de me dar conta que o tempo passou e preciso ir dormir logo porque amanhã a labuta me aguarda e o dia será longo!