Por que parou? Parou por quê?

Estou há mais de 6 meses sem escrever nada aqui. SEIS MESES!!!

Então resolvi parar pra refletir um pouquinho, tentar entender o porquê dessa pausa não planejada e preguiça generalizada de registrar minha vida por aqui.

Já falei outras vezes que minha relação com esse espaço é tipo aquela máxima do queijo suíço:

“Quanto mais queijo, mais buracos

Quanto mais buracos, menos queijo

Portanto… quanto mais queijo, menos queijo”

Quanto mais acontecimentos e mudanças na minha vida, menor a chance de eu parar por tempo suficiente pra refletir e registrar aqui. Porque eu demoro né, comigo não tem essa de escrever rapidinho enquanto a comida esquenta, porque fico pensando na morte da bezerra, traçando paralelos e tal. Aí você diz: bah, Gabi, mas então você escolheu um método muito paradoxal pra fazer teus registros, né. E realmente, o instagram acaba sendo um querido diário muito mais fiel ao meu dia a dia porque leva de alguns segundos a alguns minutos pra postar, dependendo da complexidade da legenda, e ainda que a legenda seja só um emoji da preguiça, a foto estará lá, e eu me lembrarei de quando ela foi tirada.

Só que nesses últimos meses, até isso tem ficado meio em segundo plano. Um tempo atrás recebi uma mensagem privada no instagram de uma menina muito querida e simpática, dizendo que adora minhas fotos mas estava sentindo falta da minha personalidade, das minhas legendas espirituosas e piadinhas que acompanhavam as fotos. Que os posts estavam ficando meio genéricos, ela olhava e não sabia mais quem tinha postado.

A grande verdade é que muitas coisas mudaram (para melhor!!!) na minha vida!

Desde o meu último post aqui no blog, o Alex voltou a morar em Londres, eu passei pelo maior obstáculo profissional (e psicológico) da minha –reconhecidamente– privilegiada existência, nós passamos juntos pela caça ao tesouro imobiliário londrino (e pesadelos associados, haha), fizemos mudança no melhor estilo londrino, usando metrô, muitas malas e muito bíceps, mobiliamos o flat com direito a múltiplas idas à Ikea e muito suor e lágrimas para montar tudo sozinhos (#dramalhão #mentira), estabelecemos uma nova rotina, curtimos muito o verão inglês com direito a inúmeros piqueniques e atividades ao ar livre, e agora sim a vida está estabilizando.

Paralelamente a tudo isso, aconteceram muitas mudanças internas também. Quando eu me mudei pra cá, eu tinha poucos amigos e a natureza do meu trabalho significava que os poucos amigos que eu tinha do trabalho estavam sempre de plantão em horários incompatíveis com os meus, então eu passava muito do meu tempo sozinha. O whatsapp e o instagram eram minhas companhias constantes, e como eu já disse antes, sou muito reflexiva, então usava os posts como forma de externalizar todas essas minhas elucubrações, observações e trocadilhos bobocas que meus amigos gringos provavelmente não entenderiam. Devo muitas das minhas amizades atuais ao instagram, mas à medida que elas foram atravessando a barreira da internet para a vida real, e especialmente depois que o Alex voltou pra cá, eu diria que em boa parte das atividades que faço no meu tempo livre, eu estou acompanhada. Acompanhada de uma pessoa real -seja meu namorado, sejam amigas- cuja companhia eu prezo demais, e portanto tenho feito um esforço consciente de não abandonar a ver navios enquanto enfio a cara no celular pra postar uma foto no instagram com uma legenda enorme e reflexiva. Isso não quer dizer que eu não queira mais ou não goste mais de filosofar – muito pelo contrário, no fundo sou uma pessoa introspectiva, e sinto uma necessidade quase física de curtir minha própria companhia, então sempre procuro assegurar um tempo comigo mesma. Desse tempo invariavelmente surgem reflexões que eu gostaria de, em algum momento, compartilhar, mas o fato é que a esfera virtual não tem sido uma prioridade na minha vida ultimamente.

Outra razão pro meu sumiço é um pouco mais complexa. Eu nunca tive a intenção de escrever para outrem, heheheh. Não me entenda errado: eu adoro as interações da internet – acredito que elas inspiram, agregam, desafiam, engrandecem a gente (se a gente filtrar quem a gente segue, mas isso é assunto para outro post). E também não dá pra negar que todo mundo tem um pouquinho de Narciso dentro de si: é legal ver as pessoas se interessarem pelas tuas opiniões, é legal receber comentários e atenção, e principalmente é recompensador para a psiquê humana receber a validação dos coleguinhas, ainda mais se os coleguinhas forem gente com ideais parecidos, gente que a gente respeita. Por mais blasé e too cool for school que você queira parecer, o seu subconsciente tá lá, se regozijando com cada sinal de aprovação que você recebe, seja online, seja na vida real. Tô pra ver alguém ter a cara de pau de negar. Mas meu objetivo maior com esse espaço é descaradamente egoísta: quero manter um registro da minha vida, dia a dia, mudanças de perspectiva e objetivos, etc etc. Aí você diz: mas Gabi, se é assim então faz um blog privado! E eu respondo: “oi, meu nome é Gabriela, e estou há 0 dias sem procrastinar”. Hahahahah gente, se nem com amigos perguntando de vez em quando “e aí Gabi, abandonou de vez o blog?” eu me mexo pra escrever, imagina se ele fosse trancado só pra mim?! Então fico dividida entre os benefícios do compartilhamento, e uma certa resistência intrínseca de escancarar minha vida privada na internet, mesmo que haja meia dúzia de gatos pingados lendo. Não sou uma pessoa particularmente aberta, quando estou passando por momentos difíceis prefiro dividir só com as pessoas mais próximas, mas ao mesmo tempo não quero que esse blog seja uma coleção superficial dos highlights da minha vida (que aliás nem isso eu tenho conseguido manter). Muito mais do que o fim de semana estendido no Báltico, ou o dia em Wimbledon, ou o piquenique de verão na beira do rio, acredito que o meu eu é definido por aqueles momentos em que apesar das renúncias, de repente em um momento super simples e ordinário toda a sua vida faz sentido, e também pelas grandes superações, pelas dificuldades, perrengues e medos que cada um enfrenta. Dificuldades, perrengues e medos estes que eu não tenho uma habilidade natural, nem facilidade para relatar.

No fim das contas, independentemente de qualquer outra coisa, sempre achei que escrever me ajuda a entender meus próprios sentimentos, sabe, organizar as idéias. Depois de passar naquela prova difícil que passei em maio, um dos requerimentos de um dos mentores que me ajudaram era que eu escrevesse um email pra ele refletindo sobre toda a experiência. Nesse último domingo, precisei procurar um negócio relacionado na minha caixa de emails, e reli tudo. Gente, impressionante como escrever pra mim é o equivalente daquela comunidade antiga do orkut que dizia “Chorar resolve”. Hahahah… Incrível o quanto colocar preto no branco me ajuda a fazer sentido das coisas. Pode até não mudar nada na minha vida no aspecto prático, mas só o fato de colocar pingos nos meus is internos me fortalece e me inspira.

Agora que a vida está se estabilizando, vou voltar a priorizar um tempinho por semana aqui, porque afinal de contas, se ter o registro é importante pra mim, preciso organizar o meu tempo pra fazer acontecer, certo?! Talvez eu tente escrever posts mais curtinhos e frequentes, ao invés de escrever essas odisséias que normalmente escrevo, pra ver se funciona melhor. Então, como diz o exterminador do futuro: I’LL BE BACK! 😂

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Retrospectiva 2016 – o desabafo

Nesse exato momento me encontro no meio do Atlântico, começando 2017 do jeito que eu gosto: viajando! E não tem situação melhor do que um bom e velho vôo longo sem wi-fi pra gente ser forçada a desconectar, e ter tempo pra refletir direito sobre a vida.

Eu tenho muitos defeitos, mas ingrata eu não sou. Tenho plena consciência da minha sorte na vida. De como os quase 30 anos da minha vida se passaram sem grandes percalços, quiçá até sem pequenos percalços. De como tudo que eu quis até hoje, cedo ou tarde eu consegui, e o que não foi possível na hora que eu quis, acabou se revelando melhor pra mim depois. Tenho consciência do quanto a vida é generosa comigo.

2016 foi um rude awakening da minha “vida cor de rosa”. Desde o primeiro minuto. Minha virada foi um plano B traçado às pressas. Ao invés de assitir os fogos de Londres à beira rio com meu namorado, irmão, cunhada e um casal de amigos que veio de Paris, os assisti pela televisão, à 1h da manhã no sul da França, chorando copiosamente e desejando exclusivamente de 2016 a saúde do meu irmão. Uns dias depois o Alex voltou pro Brasil para passar na melhor hipótese 3 meses, mas quem me acompanha já sabe que 2016 não foi o ano das melhores hipóteses. Sozinha em Londres, trabalhando muito na escuridão do inverno e fragilizada pela realidade de que a saúde das pessoas que eu mais amo no mundo não é de aço, janeiro ainda tinha mais dois choques reservados pra mim: uma amiga-irmã passando por uma super crise na vida, e um amigo querido diagnosticado com uma doença terminal aos 31 anos.

O primeiro semestre desse ano foi um abalo sísmico emocional de nível 6 na escala Richter na minha vidinha tão estável – quando uma coisa começava a melhorar, outra aparecia. Teve um momento do ano em que aguardávamos roendo as unhas o veredito da CAPES sobre a liberação do Alex para vir ou não, em que não sabíamos se teríamos que passar mais um ano a um oceano de distância um do outro, eu estava estendendo meu contrato no meu apê “mais um mês” e o fim do meu fellow se aproximava sem que eu tivesse emprego acertado na sequência. Quando achei que não tinha mais o que piorar, passei pela primeira rejeição profissional da minha vida. Nunca achei que mandar currículos e esperar uma chamada para entrevista que nunca veio fosse tão dolorido. Justo eu, que me achava tão proativa, tão desejável como funcionária, tão melhor do que era quando me mudei pra lá.

Isso tudo só no meu microcosmo, sem contar todas as bizarrices no cenário global…

E a cereja do bolo foi a culpa que eu sentia. O Alex sozinho e deprimido no Brasil, ele que se mudou pra lá aos 25 anos pra podermos ficar juntos, ele que encontrou na vida acadêmica uma possibilidade de aliar a paixão por História e Literatura e ao mesmo tempo morar no Brasil sem precisarmos encarar a pressão de um casamento por visto como tanta gente sugeriu na época e que nem eu nem ele jamais quisemos, ele que podia ter uma vida tão diferente, tão melhor (naquele momento) se eu nunca tivesse cruzado o caminho dele. Ele, que estava passando frio no inverno catarinense. E eu em Londres, de sonho realizado, de viagens planejadas, de drinks marcados em rooftops, de piqueniques na grama no verão, de amizades novas se formando.

O que mais nos torturava eram as indefinições. Eu lido muito, muito melhor com uma realidade “ruim” do que com incertezas, e o Alex é igual, então no dia primeiro de julho, resolvemos tomar nosso destino com as próprias mãos e decidimos que, apesar de ser o oposto do que a gente queria, o melhor era sacramentarmos que ele ficaria no Brasil até o começo de 2017 independente da resposta da CAPES, estabelecer uma vida profissional e uma rotina que o fizessem sentir que não fosse um tempo perdido. Eu renovei meu contrato no flat até 2017, marquei uma reunião com meu mentor para pensar em possibilidades profissionais que se encaixassem nos meus planos futuros para depois do fellow, finalmente aceitei o óbvio e decidi adiar uma prova para a qual eu absolutamente não tinha estrutura emocional pra estudar, e marcamos uma ida conjunta para o casamento do melhor amigo do Alex na Itália em setembro.

A partir daí, tudo começou a melhorar. O Alex passou a ensinar inglês e alemão pra várias turmas, prosseguiu com os planos de colaboração na universidade, publicou artigos, palestrou em uma conferência super importante com direito a elogios do diretor do Instituto Shakespeare e de uma das acadêmicas mais respeitadas do mundo na área dele, e eu aos poucos fui delineando novos planos de curto, médio e longo prazo também: um fellow de pesquisa que me permitiria num primeiro momento mais tempo livre pra estudar pras provas do Royal College, e num segundo momento uma melhora significativa do meu currículo; a decisão de encarar de vez uma trajetória difícil para ser anestesista sênior nessa terra, ao invés de um atalho que me custaria uma dor de cabeça e provavelmente menos autonomia depois; a aceitação de que aquela rejeição não foi só pelo modus operandi conservador da minha profissão (em que investir em renda fixa vale mais do que investir em ações, em que contratar uma médica brasileira -espécie raríssima na floresta selvagem de Londres- seria o equivalente a investir numa startup, e não na renda fixa do bom e velho conhecido padrão de treinamento inglês ou europeu), mas também porque eu ainda tenho muito pra melhorar no meu currículo e aprender a me vender. Ironicamente, quando estava tudo 90% acertado pro meu emprego atual, um daqueles hospitais lá de abril entrou em contato comigo querendo marcar entrevista. Provavelmente porque a primeira opção deles deu pra trás, mas enfim.

E nos últimos meses do ano, quando eu já nem esperava mais nada de 2016, mais uma vez meu bordão de que felicidade = expectativa – realidade se comprovou. Criei coragem pra encarar  em novembro aquela prova que eu tinha adiado em setembro e resolvido fazer só em março de 2017 – e passei!!! E pra dar um fatality nesse ano bizarro, ainda terminei o meu logbook de eco, completando o processo de certificação em eco, que coroou o primeiro capítulo da minha vida profissional em Londres, de adaptação, de aprender como funciona a medicina inglesa, de finalizar meu fellow de cardíaca e o meu objetivo original ao vir pra cá.

Eu, que estava louca pra ver 2016 pelas costas, agora o vejo com uma perspectiva totalmente diferente. 2016 foi o ano que mais me fez crescer até hoje, que me mostrou o que realmente importa na vida, que fortaleceu todas, TO-DAS as minhas relações (com meu namorado, com meus pais, com meu irmão, com as minhas melhores amigas). O ano baixinho, sem cara de jogador de vôlei, que levantou a bola bem, bem alto pra eu descer a minha mão direita com vontade em 2017.


Conquistas

Já falei mil vezes: blasé eu não sou. Jamais serei. Me deslumbro com as coisas mesmo, no fundo serei eternamente uma guria do interior que custou a acreditar que ganhar o mundo era um sonho possível, e gosto de comemorar cada pequena vitória na minha vida. Pode parecer narcisismo e auto-congratulação pura, mas a verdade é que é uma estratégia de sobrevivência emocional. Sou muito auto-crítica, então acho importante ressaltar pra mim mesma tudo que eu já consegui conquistar, o quão longe já cheguei, porque minha tendência natural é só enxergar o quanto ainda falta pra chegar onde eu quero – o que, convenhamos, pode ser mais cool mas não é nada saudável.

O último mês foi particularmente surreal nesse quesito. Teve aqueles momentos em que a gente se belisca, pensando “é isso mesmo, produção?!”, como foi o evento fechado ao qual fui convidada na Queen’s Gallery, no Palácio de Buckingham, e terminou no mesmo tom com outro evento de alto escalão que ainda vou voltar pra contar.

Mas melhores ainda são os momentos em que não precisa se beliscar coisa nenhuma, porque o sofrimento que veio antes da conquista é tão, mas TAO real, que a alegria tem gosto de merecimento puro e irrestrito.

Esse mês, eu antecipei uma prova que tinha planejado fazer em março. Meu mentor sentou comigo em meados de setembro e disse: “Gabi, vambora, faz a prova em novembro que se você passar em tudo agora, isso pode te economizar 6 a 12 meses na progressão da carreira”. Respondi que não me sentia pronta, que tinha feito questões e ficado de cabelo em pé, que todos os colegas tinham me assustado falando sobre a dificuldade da prova, que as taxas de aprovação eram 50% mesmo considerando que todo mundo estuda de 4 a 6 meses, certamente não valia a pena queimar uma tentativa tendo estudado menos de 2 meses, e depois ficar marcada no currículo como quem não passou de primeira. Ele disse que não estaria me incentivando se não soubesse que eu era fully capable de estudar e passar no tempo disponível. E que eu não tinha absolutamente nada a perder a não ser o dinheiro da inscrição, já que ninguém olha quantas vezes a pessoa prestou a prova nas entrevistas de emprego lá na frente.

Fiz alguns simulados e me inscrevi. Larguei todo o resto e só estudei por 6 semanas. Depois de várias crises de auto-dúvida ao longo dessas semanas, chegou o dia da prova. Eu gosto de fazer provas quando me sinto preparada. Sabe aquela vibe “VEMNIMIM, quiridu, que quero responder tudo isso aí”?! Foi assim no vestibular, foi assim na prova de residência. Eu gosto de fazer prova quando eu tô preparada. Acredito muito que a chave do sucesso é a auto-confiança, e a chave da auto-confiança é a preparação. Então quando a gente não tá botando fé no próprio taco, fica tudo tão mais difícil! Ao mesmo tempo, como sou super procrastinadora, se não tivesse um empurrãozinho, provavelmente enrolaria eternamente pra fazer essas provas, só pelo medo da fama – dizem que as provas de anestesia são as provas de especialidade mais difíceis do UK. Sabia que antecipar a prova tinha sido a escolha certa, mas estava com medo mesmo assim.

Aí, na manhã da prova, eu vi no instagram uma frase que me atingiu com a força de um meteoro:

THERE IS NEVER THE RIGHT TIME TO DO A DIFFICULT THING. Existe maior verdade que essa?

Ao mesmo tempo, enquanto fazia meus ovos mexidos de café da manhã, comecei a pensar comigo que há quase exatos 2 anos, eu estava sentada na pracinha na frente do Royal College, chorando porque tinham me dito que eu não poderia participar de um programa deles que facilita a vinda de fellows. Comecei a me dar conta que, dentro desses 2 anos, eu consegui um emprego excelente num centro de respeito na minha área, completei meu fellow em cardíaca, me adaptei maravilhosamente bem , ajustei o plano de vôo para acomodar a vontade de ficar por aqui, e agora estava dando os primeiros passos da próxima era da minha carreira. Essa mudança de perspectiva me ajudou a ver que o simples fato de estar FAZENDO a prova era uma conquista. Nem sei se algum outro médico brasileiro já fez essa prova antes. Inscrita e registrada no Royal College of Anaesthetists, tendo o respeito e apoio de gente grande na anestesia londrina, traçando um caminho único e desbravando uma mata virgem que eu não conheço ninguém que tenha feito antes – não importava mais se eu passaria dessa vez ou não. E foi com essa gratidão e auto-confiança encontrada de última hora que eu entrei na mesma sede que me tirou as esperanças de um caminho mais fácil 2 anos atrás.

Saí da prova e bebi meu merecido vinhozinho branco ainda nesse clima, e depois segui pra jantar com a Paola. No dia seguinte, fui pro outlet de Bicester Village procurar uma bolsa que não encontrei, mas comprei um presentinho de consolação pós-prova. Me permiti mais um dia de folga, e no fim de semana tive que encarar a realidade: eu precisava terminar meu logbook de eco, o projeto inicial da minha vinda pra Londres, que eu comecei há quase dois anos e agora precisava finalizar dentro de 15 dias.

De novo passei o fim de semana todo na sofrência, me recusando a encarar a quantidade de trabalho que precisava fazer em tão pouco tempo. Mais uma vez, deixei todo o resto de lado e mergulhei de volta no projeto que se eu fosse mais esperta, teria terminado em setembro. A verdade é que, como minhas prioridades profissionais mudaram e esse projeto do eco exige que a gente faça e envie uma quantidade hercúlea de laudos e mais 6 vídeos com casos completos, eu não aguentava mais ver um eco na minha frente! Claro que ainda adoro, mas é a parte da certificação que vai erodindo a paciência da gente. No fim das contas foi legal voltar pro centro cirúrgico pra coletar umas últimas imagens, fiquei satisfeita com várias mas como sou perfeccionista, acabei montando 8 casos completos e descartando os 2 piores.

Nesse meio tempo, o Royal College liberou os resultados e eu soube que tinha passado na primeira fase da prova!!! Traçar um caminho diferente dos colegas é uma atividade solitária – meus colegas ingleses já fizeram essa mesma prova anos atrás, os colegas europeus não precisam fazer, e os poucos colegas não-europeus desistiram diante da dificuldade. Então eu recebi a notícia enquanto estava no hospital, já contei pra vários chefes e colegas. Gente, a alegria dos chefes que mais me apoiam era surreal, de repente você se dá conta que não está sozinha. Obviamente eu nunca estive, porque o Alex, meus pais, irmão e melhores amigas estavam todos na sofrência e torcida junto comigo, mas no âmbito profissional, fiquei feliz demais!!! O auxiliar de anestesia até tirou uma onda com a minha cara, disse “vê se comemora direito antes de pensar na próxima fase né”.

Enfim, de novo tomei um prossecozinho com a Paolex naquele dia só pra não deixar passar em branco, mas mal pude curtir o gosto da conquista porque tava tão estressada com o outro projeto que tinha que finalizar. Depois de TO-DOS os perrengues tecnológicos possíveis, inclusive problemas no servidor do hospital, depois nos formatos de vídeos, depois na plataforma de envio, eu finalmente cliquei ENVIAR e aí sim pude correr pra galera!!! Fui com a Paola nos iglus mais disputados de Londres pra curtir um prosecco com vista, e depois o Roni chegou do trabalho e jantamos juntos por lá mesmo.

Essas duas conquistas, a primeira fase da prova e o logbook finalizado, são do tipo que falei lá em cima. São aquelas conquistas sofridas, suadas, e apesar de por si só não me levarem a lugares específicos e sim serem somente stepping stones para o futuro que eu almejo, nessas horas eu não tenho pudor nenhum de alimentar meu Narciso interior e dar aquele auto-tapinha nas costas. Muito bem, Gabi. Tem chão ainda, mas não tás fazendo feio não. Keep calm and carry on.

A gente pode escolher entre ser um big fish in a small pond ou um small fish in a big pond. Nos anos que antecederam minha mudança, conheci alguns grandes médicos que fizeram a escolha consciente de ser peixe grande em lago pequeno porque admitiram não conseguiram ou não conseguiriam lidar com a pressão de serem peixes pequenos em grandes lagos. “Gabi, voltei porque prefiro ser cabeça de rato a rabo de baleia”.

Eu sofro sim. Duvido da minha capacidade, me questiono, fico de mimimi que só quem é muito íntimo conhece e atura. Não sei se um dia me juntarei ao coro dos que voltaram, que mudaram de prioridade, que viram o lado bom do lago pequeno. Mas desde os 16 anos, descobri que pular pra lagos maiores obriga a gente a crescer pra sobreviver… tem um tipo de crescimento que é tipo chave secreta de videogame, a gente só desbloqueia quando aceita as mazelas de ser peixe pequeno.

MIND THE savage

Tenho pelo menos 3 coisas na fila do que quero escrever aqui, mas a grande verdade é que o causo de hoje não pode esperar – quero contar com riqueza de detalhes enquanto ele ainda me faz cair em pequenas crises de riso.

Pois bem. Hoje eu fiz parte do corpo docente de um curso com um impacto enorme sobre um assunto que é um dos meus preferidos: patient safety. Um dia quero escrever um post especificamente sobre isso, mas suffice to say que saí de casa as 6:30 da manhã, super feliz com a oportunidade, e nem vi o dia passar.

Mas o fato é que esses cursos que duram o dia inteiro são péssimos pra dieta da gente: mentaliza toda uma vibe excessivamente inglesa cujo aporte nutricional consiste de chá, sanduíches e salgadinhos (batatas fritas de pacote e associados). Agora pensa se isso alimenta uma draga como esta que vos fala? Óbvio que não né.

Então, na corridinha pra estação do metrô, debaixo de chuva, privada de sono e com uma preguiça imensa de preparar qualquer uma das 283 opções de refeição saudável que eu tinha em casa, tomei a decisão que qualquer adulto responsável tomaria: resolvi jantar 6 nuggets do McDonald’s que fica na frente da estação do metrô. No caminho de casa. Dentro do metrô. Tamanha era a minha fome e receio de desfechos piores caso esperasse até chegar em Bermondsey e passar na frente do Tesco.

Pois bem. Moço, 6 nuggets por favor. Molho? Barbecue, please. Segurando minha sacola quentinha e resistindo a tentação, desci até o primeiro patamar, que não era a minha linha, e já de cara avistei uma MULTIDAO descendo em direção à minha linha, querendo fugir da chuva repentina. Chegando na plataforma, tava daquele jeito que dá medo de cair no vão, sabe? Então achei um cantinho lá no final da plataforma, do lado de uns bancos que obviamente estavam ocupados, e resolvi esperar o próximo trem, apostando que a plataforma certamente não ficaria tão superpopulada dentro dos próximos 3 minutos.

Nesse meio tempo, uma menina asiática com seu malão de rodinhas parou pra esperar o trem na parte baixa, enquanto a maioria das estações que têm acesso step-free têm uma parte elevada – ou seja, ela não precisaria levantar o malão, simplesmente rodaria adiante pra dentro do vagão. Avisei a menina e, pra minha surpresa, o cara que tava num dos bancos me elogiou pela gentileza “vejo isso sempre e ninguém nunca avisa a pessoa”. Sorri e agradeci.

Me sentindo extra benevolente, resolvi aproveitar a espera até o próximo trem chegar pra comer meus nuggets enquanto ainda estavam quentinhos.

Abri o molho e joguei a tampinha num dos lixos de plástico transparentes (que assim o são porque em 1991 houve um atentado do IRA em Victoria com uma bomba que foi escondida em uma das lixeiras, e se seguiram 20 anos sem lixeira nenhuma no metrô londrino até que em 2011 algum abençoado teve a brilhante idéia de colocar esses aros amarelos onde se encaixa um plástico transparente)… Mas aí senti um cheiro diferente e pensei “puts que saquinho, o atendente do Mc me deu o molho errado”. Dito e feito, estiquei o pescoço pra ver dentro do lixo transparente e lá estava o culpado: tomate intenso. Migo, tomate intenso também conhecido como catchup né, deixa de onda McDonalds! E joguei o potinho todo fora, porque afinal nem gosto de catchup, essas calorias não valem a pena então não fiz questão de molho e mandei ver os nuggets sozinhos mesmo.

Só que, assim que eu terminei, o próximo trem chegou e a porta mais próxima de mim era de um vagão especialmente tranquilo, então ao invés de andar no sentido oposto e jogar a sacola de papelão no lixo supracitado, resolvi jogar na estação de casa quando chegasse.

Estou plenamente consciente do nível de desinteressância dessa narrativa até agora, que poder-se-ia, se não fosse pelas minhas mesóclises, resumir-se em: TRABALHEI BASTANTE, TAVA COM FOME, COMPREI NUGGETS E COMI NO METRO. Mas né, se você chegou até aqui, só me resta agradecer pelo voto de confiança.

Mas aí entrei no vagão, sentei confortavelmente e pensei comigo “ok, vou só organizar um pouco essa sacola volumosa insuportável, daqui a pouco me livro dela e pronto”. Alguém mais gosta de organizar o lixo antes de jogar fora?  Não entendo gente que entrega tudo separado e zoneado no avião – mas gente, cabe tudo no copo, olha, é só dobrar bem dobradinho!

E como tinha a embalagem quadradinha dos nuggets, dobrei energeticamente… Tão energeticamente, na verdade, que em frações de segundo vi um filme passando em câmera lenta em frente aos meus olhos: uma resistência maior no canto esquerdo da sacola, seguido imediatamente por uma mini explosão, seguida imediatamente por um jato poderoso do DEMO DO MOLHO BARBECUE que no fim das contas o atendente tinha, de fato, me dado. Quando o slow-motion acabou, me dei conta que não somente a coxa esquerda da minha calça jeans, como tambem o canto inferior esquerdo da minha bolsa carésima de couro estavam com aquele grude característico que só uma erupção de glicose faz por você, mas que -horror dos horrores- o canto do casaco da guria do meu lado também tinha sido alvejado!!!! HAHAHAHAH gente não deu nem tempo de registrar a reação da guria, só sei que me encontrei com umas massas amorfas de molho barbecue na minha coxa e mão esquerdas, a minha bolsa xodó atingida em tangente, e a mão direita ocupada com a sacola explodida. Não sabia o que limpava primeiro: o casaco da guria? Mas a minha mão tá suja! A bolsa? A calça? Gente, como eu sou retardada! Puts e agora como que eu vou limpar isso? Já comecei a pedir desculpas profusas logo ali, logicamente.

Eu sempre carrego lenços umedecidos, mas a minha mão estava TAO suja e grudenta que meu maior pânico era sujar o interior da minha bolsa no processo de catar os tais dos lenços, que moram num cantinho lateral bem estreito da bolsa.

Ok, hora de deixar o orgulho de lado. Levantei a cabeça do meu desastre ultraglicêmico: does anyone have a tissue please? E apesar do londrino ser reconhecidamente avesso a interações no metrô em geral, que aliás é uma coisa que eu amo, quando se trata de solidariedade o povo tem de sobra, e dentro de 5 segundos apareceram três lenços de papel, um ticket do metrô em cartolina (you can use it to scoop the sauce, you see) e dois lenços umedecidos, um deles vindo de uma guriazinha risonha de uns 8 anos que obviamente achou o máximo poder ajudar naquela comoção.

Só então é que eu fui registrar a cara da guria do meu lado, com a sua parka verde musgo agora com nuances de vermelho barbecue. Uma lembrança da minha infância piscou vividamente na minha mente nesse momento:

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Juro que a cara da guria era EXATAMENTE  a cara do baixinho da Pantera Cor de Rosa (meu desenho preferido quando criança).

Pouco a pouco fui limpando a lambança, ajudei a guria a limpar o casaco dela e fiquei na torcida pra ela não estar a caminho de um date – mas confesso que julguei pela roupa e pensei que ela devia estar indo pra casa, não, ela certamente tá indo pra casa, vamos pensar positivo. Sorri e agradeci as almas caridosas que me estenderam a mão nesse momento de necessidade, e pouco a pouco foram se dispersando em outras estações.

Só que, logo depois que a poeira abaixou, me dei conta mais ainda do ridículo da situação e tive que passar o resto do trajeto inteiro até em casa me segurando pra não rir!!! A guria continuou fumegando de brabeza e resignação do meu lado.

Ao sair do vagão, pedi desculpas mais uma vez e comecei a rir assim que as portas se fecharam!

“Miga, agora você tá brabeza desse jeito, mas daqui a um, dois, cinco anos você vai rir contando pra alguém sobre a retardada que explodiu na selvageria total um molho barbecue no metrô enquanto tentava organizar o próprio lixo! E vou além: se é pra ser vítima de alguma explosão no metrô, que seja de molho né?!”

O hábito da auto-flagelação

Troquei de coluna na escala a pedido do chefe, o que significa que, até o fim de agosto, terei feito 4 blocos de UTI (13h/dia) dentro das últimas 5 semanas. Nem posso reclamar, pq depois de cada um tive uns dias de folga, tive vários fins de semana de folga e tals, mas a sensação é de que não tenho rotina há séculos!
E bizarramente, depois de ter um verão relativamente tranquilo, apareceram mil atividades sociais nas últimas duas semanas. E são aquelas circunstanciais, que eu não quero deixar passar ou pq a companhia não vai estar aqui, ou pq quero aproveitar o restinho do verão enquanto ainda tá quente e ensolarado. Então semana passada encontrei a Cat, que veio da Áustria a trabalho, a Val, que veio num mochilão com a amiga e nos encontramos duas vezes, fui caminhar com a Sophie que não íamos há um tempão, então está uma delícia. Pra completar, hoje tenho uma reunião no fim do dia com uma ex fellow de pesquisa aqui do hospital, amanhã combinei de comemorar o aniver da minha cunhada com ela e depois a Tati e eu vamos tentar ir jantar pra botar o papo em dia, mas se não der também já tenho um plano B, que é tomar uns drinks com o pessoal do trabalho, que falei que iria caso minha amiga cancelasse. 

Só que no fim dessa maratona tem um fim de semana de plantão, e depois uma noite de plantão, e depois uma viagem! Ou seja, to aqui numa pausa no trabalho tentando fazer um planejamento estratégico usando táticas de guerrilha, pq me sobram exatamente 2 meios períodos pra fazer toda aquela função pre-viagem sabe? E na terça que vem o Alex chega, vamos jantar fora e obviamente quero resolver tudo antes de ir pro aeroporto, porque quero ficar bem de boa curtindo a companhia dele, sem aquela checklist mental de “tenho que separar X Y e Z pra botar na mala”, especialmente considerando que vamos pra um casamento então a mala tem que ser mais planejada.

Só que assim… Tem toda a minha listinha de afazeres da vida normal, sabe aquelas coisas que a gente vai deixando? Falar com ciclano sobre um negócio do trabalho, marcar hotel pra próxima viagem antes que fique muito em cima da hora, organizar o orçamento, separar livros pra estudar, ligar pra amiga que não falo há um mês, responder e-mails que estão mofando com a pomba na balaia, a lista segue.

E se tem uma coisa na vida que eu tenho a maiooor dificuldade de ver pelo lado bom, essa coisa é a minha lista de afazeres!!! To sempre me culpando pq to escrevendo a mesma coisa na listinha da semana há várias semanas, pq to curtindo um oba-oba social sem fazer coisas mais importantes a longo prazo, pq o chefe vai voltar de férias e ficar de cara que ainda não tenho resultados pra mostrar, etc.

Ontem à noite, fiquei vegetando na cama vendo a cerimônia de encerramento das olimpíadas e pensando “MELDELS tenho tanta coisa pra resolver e to aqui vegetando, sou muito inútil mesmo”.

Enfim, uma sofrencia ridícula, mas que faz super parte do meu dia a dia.

Só quando o Alex falou “be kind to yourself” é que fui me tocar que depois de um dia normal de trabalho, passei numa exposição que fica só até sexta e eu queria muito ver, aí cheguei em casa, resolvi um problema com a Amazon de um produto que não veio e jantei uma jantinha saudável ao invés de capitular pra pizza da desistência. Ou seja: podia ter sido melhor, mas podia ter sido muito pior também né?

Então decidi que vou começar a escrever tudo que já fiz/resolvi na minha lista de afazeres só pra riscar – quem sabe assim, eu me forço a registrar conscientemente que, entre o e-mail que eu respondi enquanto tomava meu chá e o almoço do trabalho que deixei pronto no domingo, até que to me virando bem em termos de gerenciamento do tempo – e o que precisa melhorar mesmo é o gerenciamento de prioridades que deve ser o que mais importa pra não ficar com essa sensação de culpa! E que, como boa procrastinadora que sou, vou empurrando com a barriga as coisas mais importantes até que elas sejam urgentes e impossíveis de ignorar. 👍🏻

Água dura em cabelo mole

Tanto bate até que cria uma ENGRONHA CATACLISMICA!

Até umas semanas atrás, tudo ia bem na esfera capilar da minha vida.

Meu cabelo sempre foi bem saudável, tanto que toda vez que vou na Fer Nabuco ela elogia a saúde e maciez dos meus cabelos! Nunca fui de gastar lá muuuita energia neles, mas aprendi desde cedo a diferença que a qualidade da água faz nos cabelos: quando mudei de Caçador (região de montanha, a quase 1000m de altitude) pra Floripa, aos 16 anos de idade, notei imediatamente o quão mais ressecado e menos viçoso meu cabelo ficava. E ir pra Caçador de férias era sempre aquela glória, mal precisava secar o cabelo com secador e já ficava me sentindo a própria Kate Middleton. Então quando vim pra Londres, percebi que desci mais um degrau nesse precipício da água ruim, e que ia ter que me espertar um pouco mais com os cuidados pra não ficar igual a Hermione Granger.

Depois que resolvi fazer luzes, na metade do ano passado, passei a caprichar ainda mais: uso máscara hidratante umas 3x por semana, sendo que uma delas eu realmente deixo agindo uns 20 minutos ou mais, uso um shampoo específico de “limpeza” uma vez por semana, evito secar o cabelo com secador (que é fácil pra mim, já que meu cabelo passa metade da minha vida escondido e amarrotado numa touca de centro cirúrgico #vantagens) e quando uso secador ou babyliss, sempre, sempre uso um protetor térmico antes. A única coisa que nunca consegui adaptar na minha rotina foi o pré-shampoo, sempre esquecia de passar de antemão e aí ficava fazendo hora por 15-30 minutos pra depois lavar, então não rolou.

Mas o fato é que há uns 15 dias, comecei a notar o meu cabelo mais duro, mais “grudado”, menos maleável independente até de quando eu fazia uma escova caprichada levantando a raiz pra ficar com aquele cabelo bouncy, com volume na raiz. Nada, niente, nulla, rien. Cabelo grudado na cabeça nível Severus Snape.

E depois piorou! Uns 10 dias atrás comecei a entrar em pânico que um lado do meu cabelo, sempre o lado direito (sabe-se lá por que cargas d’água, de repente é porque eu durmo desse lado), saía do banho TOTALMENTE EMBARAÇADO. Mas tipo, nível terror e pânico mesmo. Devia ter tirado uma foto pra provar que não tô exagerando, mas não tive essa presença de espírito. Não tô nem falando do aspecto vaidade da coisa, comecei a me preocupar com o tanto de cabelo que eu tava perdendo, porque mesmo que eu desembarace sempre com cuidado e carinho, minha escova sempre ficava lotada de cabelos falecidos.

Passei os primeiros dias em negação, amaldiçoando o dia em que resolvi fazer luzes de novo, porque justo naquele canto mais embaraçado é que tem uma mecha um pouco maior. Depois comecei a culpar o comprimento, já que nunca estive com o cabelo tão reto – to morta de saudade das minhas camadas, já de data marcada pra cortar! Mas aí voltei a pensar racionalmente e cheguei à conclusão de que, no mínimo, tinha que ser uma combinação do canto mais tingido, mais longo, mais agredido e portanto mais poroso, com o raio da água daqui de Londres, que é a mais dura na escala de dureza da região:

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A gente lembra do conceito de água dura que aprendeu no colégio né?! Eu lembro, e depois de vir morar aqui, não tem como negar que de fato afeta a nossa vida, porque os sais de cálcio se depositam na pia, na banheira, na chaleira elétrica… e no cabelo! Então fui ler sobre o assunto como parte da minha busca frenética por uma solução oquantoantespelamordedeus. E aí tudo fez ainda mais sentido.

Sabe esse terreno pedregoso adorável que faz com que a gente consiga ver as pedras no fundo? Que faz com que o rio não seja marrom lamacento? Que faz maravilhas da natureza como os penhascos brancos de Dover e a Jurassic Coast?

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Pois é. A mesma pedra que te dá esse prazer estético é a ruína do teu cabelo. Que beleza de metáfora pra vida né?! Hahahah o nome dela é limestone, calcário em português. Quando a água da chuva cai lá em Caçador, ela rola pedra abaixo sem grandes repercussões, porque o solo lá é rocha basáltica. Aqui, quando a água da chuva cai sobre pedras porosas como o calcário, ela penetra na pedra e vai dissolvendo cálcio e magnésio ao longo do caminho. E é por isso que nossas chaleiras elétricas sempre acumulam umas escamas branquinhas no fundo de tempos em tempos, porque a água vai fervendo e os sais de cálcio e magnésio vão ficando pra trás.

E vão ficando pra trás no nosso cabelo também. Os detergentes e shampoos tradicionais são compostos bicamada, que tem uma parte solúvel em água e outra em gordura, só que quando em contato com água dura, formam compostos insolúveis que se depositam e ficam ali para todo o sempre, amém.

A não ser que a gente use um composto quelante, que forma ligações muito fortes com esses compostos insolúveis e resgatam a dignidade das nossas cozinhas e, mais importante ainda, dos nossos cabelos!

Olha a diferença do meu cabelo entre as fotos acima e essa aqui embaixo, com o cabelo lavado em Amsterdam, cuja água é reconhecidamente das melhores e com menor teor de cálcio na Europa. Sem nem fazer escova!!! 

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A melhor opção seria um sistema de amolecimento da água para toda a casa, mas né… £££. A segunda alternativa é um filtro para o chuveiro, mas ainda assim custa mais de £200 e cada refil do filtro custa £80. Ou seja, nada feito por enquanto. Com esse valor, é mais custo-efetivo enxaguar o cabelo com água mineral sem gás por muito tempo! Opção esta que, aliás, ainda estou considerando.

Mas aí a partir disso, começou minha busca específica por um shampoo com agentes quelantes. A Amazon é minha melhor amiga e nessas horas é que vale a pena ter o Prime, pra receber no dia seguinte, porque todos os shampoos de limpeza profunda de farmácia estavam esgotados (além de nenhum deles mencionar especificamente agentes quelantes voltados à remoção de resíduos de cálcio). Pois bem. Comprei um deles que era mais amigo do bolso e seria entregue no dia seguinte só porque não aguentava mais aquele cabelo gosmento, e um outro mais potente e especializado, mas que chegaria só na semana seguinte.

O Neutrogena Anti-Residue Shampoo chegou no dia seguinte e corri pra lavar o cabelo, ansiosa pra ver o que aconteceria. Lavei uma vez e ao enxaguar já senti uma diferença imediata no couro cabeludo. Mas o canto loucamente embaraçado continuava lá. Lavei de novo e ele diminuiu, mas não sumiu por completo. Nem precisei ter vontade de arrancar os cabelos, porque a minha escova já tava fazendo isso por mim. Mas na verdade, depois de secar já percebi o cabelo uns 60% mais macio do que antes, então útil ele definitivamente é.


Fast forward uns dias… Cheguei da minha corrida no sábado de manhã, tomei meu banho e antes mesmo de sair do banheiro ouvi a batida na porta. Era o entregador com o shampoo novo: o Nioxin Intensive Therapy Clarifying Shampoo, que tem como promessa principal remover depósitos minerais! Aí sim, agora vai, José!


Fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria #not: meia volta volver, abri a caixa correndo, passei a mão numa toalha seca e entrei no banho de novo! Agora vai!

Realmente já senti diferença na hora de enxaguar o cabelo! Que maciez! Quanto tempo! Assim, não vou mentir, ainda tinha uns 10% do embaraçado, mas acho que nas próximas vezes que lavar vai saindo. Essa craca não se acumulou de um dia pro outro, então não vai ser de um dia pro outro que vai sair né?! Vamos ver, ainda dá pra melhorar, mas pelo menos o pesadelo da engronha cataclísmica já passou!!! Aleluia irmãos!
 

A maior burrice da minha vida viajante

Vou começar a registrar minha primeira ida à Espanha e minha paixão pela Andaluzia pelo fundo do poço: contando sobre a maior burrice que já cometi na minha vida viajante!

Normalmente adoro marcar minhas viagens com super antecedência, geralmente 4-6 meses antes e às vezes mais. Nesse caso, como tinha duas colegas que fariam a mesma prova, ficou uma lenga-lenga que eu particularmente odeio, gosto de decidir e reservar tudo o quanto antes, então quando vi que faltava exatamente um mês pra viagem, achei a gota d’água e resolvi fazer tudo independente das decisões delas, porque já sabia o que queria da viagem. Queria vir pro congresso, fazer a prova na sexta, ir pra Córdoba no sábado, já que domingo a mesquita fecha em dois horários pra missa, e voltar o mais tarde possível no domingo.

Pois bem. No meio de um fim de semana de plantões noturnos, pelas 17:30, logo depois de acordar e antes de ir trabalhar, dei aquela última pesquisada no SkyScanner: OPA!!! Esse voo direto da BA pra Gatwick às 21:05 não tava aí antes! Saiu melhor que a encomenda! Que sorte! Fechou!

Marquei pelo eBookers, que eu nunca tinha usado antes. E recebi o e-ticket da ida no mesmo dia, mas por algum motivo o da volta nunca veio. Aí, na semana da viagem, fui no site da BA, em “manage my bookings”, botei o código, achei a reserva e o voo começou a aparecer. Ok, problema resolvido, check in da ida feito, check in da volta só abre 24h antes então vou colocar um lembretinho aqui no celular pra quando estiver na hora.

Fast forward uma semana.

Ontem à noite, cheguei exaaaaausta de Córdoba depois de caminhar 20km pra lá e pra cá o dia todo. Tava morta de sono, mas daquele jeito passando dificuldade pra ficar acordada mesmo sabe, mas pensei “ah não vou arriscar, vou aguentar mais 20 minutinhos acordada até 22:05 que logo o check-in abre e aí eu vou dormir mais tranquila”.

  
Eis que chegou a hora de abrir o check-in. Abri o aplicativo da BA e achei estranho que esse voo tava aparecendo depois dos meus voos de janeiro e de fevereiro… Cliquei nele pra ver qualé desse aplicativo que tá desorientado no tempo:

    

  
O QUÊ???????? MARÇO?????

Gente, nessa hora TUDO passou pela minha cabeça em um segundo, tipo um filminho desses de flashback de filme.

O último voo que eu tinha marcado no SkyScanner no meu desktop tinha sido meu voo pro Brasil, cuja volta é no primeiro fim de semana de março, que tem um sábado dia 5 e um domingo dia 6. Qualquer semelhança não será mera coincidencia!!! Meu SkyScanner abriu o calendário da volta em março de 2016 e como a primeira semana de março é igual à primeira semana de dezembro, não percebi o erro e mandei ver amarradona!!! Ainda achei o máximo minha sorte! Hahahah bem que minha mãe me ensinou a desconfiar quando a esmola é demais!

Não consigo me conformar como pode eu ter visto o negócio tantas mil vezes sem ENXERGAR! Obviamente sempre leio tudo várias vezes antes de confirmar a reserva, então até entendi como a burrice aconteceu, mas não entendi ainda como ela se perpetuou! Hahahaha de repente me vi em Sevilha, com uma semanada de plantões noturnos me esperando em Londres dali a menos de 48h e –quel horreur– sem ver a cereja do bolo Sevillano: o Alcázar! A fortaleza moura que depois teve palácios reais construídos no seu interior, uma pérola da arquitetura Mudéjar que ainda hoje é usada como residência real e ainda o local onde Colombo recebeu oficialmente autorização pra partir para as Américas.

Queria ver um vídeo da minha descoberta, minha cara deve ter sido um sarro! Em 45 minutos, passei de incredulidade pra raiva de mim mesma pra ponderação sobre dormir nos bancos de Barajas pra poder sair de Sevilla no fim da tarde e fazer o dia intenso de turistagem que tinha planejado, pra depois chegar a conclusão de que seria irresponsável começar uma semana de plantões já exausta e mal-dormida, e finalmente um voo marcado com milhas pra Londres via Madrid, que significava que eu tinha que deixar Sevilha em menos de 12h!

Olha, vou dizer que apesar da vergonha incomensuráaaaaaavel de uma burrice dessa monta, ainda consegui ficar orgulhosa do jeito que lidei com o imbroglio. Não entrei em pânico em momento algum e um minuto depois de descobrir, meu cérebro já tava fervilhando com planos B, C, D, E e F, meu celular quase dando tilt com aplicativos de viagem na sequência tentando decidir a melhor combinação, ainda tentando conciliar minha vontade de ficar em Sevilha o mais tempo possível com a responsabilidade de estar em Londres descansada na segunda feira à tarde. Tinha umas 42 horas pra estar em Londres e graças a Deus tinha flexibilidade financeira caso precisasse pagar um voo direto, que obviamente 12h de antecedência tava custando um braço e uma perna. Então fiquei de boa e procurei a opção com melhor custo-beneficio. Acabei comprando um voo com avios + uma parte em dinheiro, que ainda me custou menos do que o voo com pernoite em Madrid, cuja implicação prática é um auto-presente a menos no Natal. Pq afinal de contas, depois dessa, não mereço muita coisa né?! Hahahahaha  

 
Então é isso, lesson learnt 😒

Tenho plena consciência de que se fosse em outro lugar, em outra situacao, poderia ter sido um pesadelo! Então em nenhum momento deixei de agradecer o fato de ter flexibilidade, de ter 3G ilimitado, de estar relativamente perto de onde precisava ir, com milhares de opções, por mais ou menos inconvenientes que fossem. Em aviação e em anestesia, near-misses são um conceito muito reconhecido e valorizado, porque te ensinam a perceber onde começaram os erros e assim a evitar catástrofes. Então 🙏🏻.

Mais um lado bom: eu queria muito ver o Alcázar ao entardecer, porque é o melhor dos dois mundos, pega-se a luz dourada do por do sol e a blue hour já com as construções iluminadas (quem me conhece sabe que amo fotografia noturna!), mas nessa época do ano eles fecham as 17h, e o sol só se põe às 18:10. Além disso, fiquei com o coração na mão de não ir a Granada pra ver a Allambra, mas dessa vez realmente não tinha como estender a viagem por causa dos plantões, que são um saco de trocar. Entao, já que terei que voltar, da próxima vez de repente consigo reunir tudo o que queria!
Meu dia de hoje teria começado no Alcázar, seguido por uma visita ao Archivo de Indias, onde está o Tratado de Tordesillas,  cartas de Colombo descrevendo a América e muitos outros documentos e mapas históricos, depois ia visitar a Plaza de Toros La Maestranza, que é uma das maiores e mais famosas da Espanha e não tem mais touradas mas tem um museu sobre elas. E terminaria o dia no Metropol Parasol, um projeto desses loucamente inovadores que foi feito pra revitalizar a Plaza de La Encarnación. Os projetistas dizem que é a maior estrutura em madeira do mundo! A praça abriga o antiquário da cidade, mas meu maior interesse era subir, perambular e fotografar (d)as passarelas, que rendem uma vista sensacional da cidade histórica ao fundo com a modernidade do próprio Parasol no primeiro plano.

Mas já que tava ali pertinho, levantei cedo e fui fotografar o Parasol logo depois do nascer do sol e deixei Sevilha, metade deprê, metade rindo da minha própria palhaçada, completamente apaixonada pela Andaluzia e mais certa do que nunca de que retornarei!

  

     

 Que eu amei a Andaluzia, eu amei, e passar o inverno nesse solzinho diário que começa com 5-8 graus e ao meio dia tá 23 até que não é má ideia, mas né, tenho um amor maior que tudo por Londres e muitos compromissos, então aqui estou nesse aeroporto confuso mas lindo que é Barajas, aguardando meu voo pra casa! 

  

   
 

Como empacotar um hospital?

Aí vem a parte prática da coisa: como é que se faz a mudança de um hospital?

O cronograma de cirurgias cardíacas marcadas parou na sexta-feira passada, segunda-feira fizemos as últimas cirurgias torácicas e a partir de terça seriam só cirurgias de emergência. Todos os hospitais que normalmente referiam pacientes para o Heart foram avisados e passaram a referir diretamente para o Barts, e então ficamos com uma UTI que foi minguando ao longo da semana.

Sempre tem pacientes crônicos, então sobre esses, precisávamos decidir quem iria de volta para o hospital local do seu distrito (District General Hospital), caso a dependência dele da UTI fosse algo que existiria lá também, tipo desmame da ventilação mecânica, ou se precisavam continuar tendo cuidado super especializado, como por exemplo alguns pacientes com infecção da ferida operatória que precisam ser vistos ao mesmo tempo pelo cirurgião cardíaco e pelo cirurgião plástico, e nesse caso levaríamos eles conosco para o Barts.

Então como eram apenas alguns pacientes, a semana foi bem relax, segunda trabalhei até meio tarde mas de terça em diante tive as tardes livres. Terça de manhã fiz o curso online pra aprender a mexer no sistema de computador no hospital novo, quarta de manhã fui registrar pro meu cartão magnético que dá acesso ao hospital, e quinta de manhã fiz uma transferência.

A transferência em questão era pro Barts, e era um senhor que operou há um mês e estava estável há bastante tempo, só desmamando da ventilação mecânica e cuidando da infecção da ferida operatória. Pois bem, entramos na ambulância, estávamos eu, um enfermeiro sensacional dali do hospital, uma enfermeira excelente da equipe da ambulância com quem eu já tinha feito uma transferência antes e o motorista, um gurizão gente boa que deve ter uns 23 anos.

Arrancamos a ambulância na frente do hospital e antes de completar 3 minutos na estrada, o paciente teve uma arritmia. Aí voltamos para a frente do hospital, porque era obviamente o hospital mais próximo, e conversei com a consultant sobre o que tinha acontecido, ponderando se devíamos levar o paciente pra dentro de novo. Nesse meio tempo, ainda dentro da ambulância e tendo essa conversa, ele voltou ao ritmo e frequência normais. Considerando que metade dos serviços já não estavam mais funcionando, como por exemplo a angioplastia, achamos mais seguro e sábio levar o paciente direto para o Barts.

Ele teve a mesma arritmia mais duas vezes, a pressão caiu um pouquinho, mas eu tratei e estava tudo sob controle. Graças a Deus permaneci calma o tempo todo, como deve ser, acho que também por saber que o Matt e a Victoria são excelentes, tínhamos tudo na mão e teríamos desfibrilado ele dentro de 5 segundos se ele tivesse parado.

Maaaas quando chegamos no outro hospital, assim que pisamos pra fora do elevador, uma enfermeira apareceu do além dizendo “é por isso que nós achamos que transferências devem ser feitas por consultants, isso foi uma transferência de alto risco”. Como estávamos com o paciente e eu tinha mais com que me preocupar do que uma criatura aleatória que antes de nos conhecer já tinha decidido nos odiar, continuei rumo ao leito do paciente.

Quando chegamos lá, mais uma surpresinha: entrou um enfermeiro numa vibe toda macho alfa da parada, estufando o peito pra dizer que ele era o nurse in charge e me perguntando se eu ia comandar a transferência de maca. Falei que sim, e seguimos adiante. O cara começou a encontrar mil coisas pra criticar, reclamou que o paciente não tava sincronizando com o ventilador, inventou que tínhamos perdido o acesso venoso do paciente (sendo que 2 minutos antes, antes de sair da ambulância, eu testei e estava ok), enfim… sabe aquela pessoa que procura defeito em tudo que os outros fizeram como pretexto pra se fazer de boazona e entendida? Pois é.

Nesse meio tempo, o trainee de anestesia de lá tinha sido super gente boa comigo, logo chegou o consultant e o consultant-mór que é um dos chefes. Passei o caso, eles foram agradáveis, me disseram “welcome to the trust”, fizeram uns comentários tipo “eventful transfer, huh?!” como quem sabe que essas coisas acontecem em transferências, por isso mesmo que a gente sempre tem tudo à mão e toma todas as precauções caso uma situação dessas venha a ocorrer.

Enfim, o Matt ficou pra cuidar do paciente o resto do dia porque eles não tinham enfermeiros suficientes (não sei se já falei, mas rola uma falta crônica de enfermeiros e tem trabalho pra dar e vender pra enfermeiros no UK). A Victoria foi no banco da frente com o motorista, e eu voltei na caçamba da ambulância sozinha, olhando Londres lá fora e pensando no que eu faria de diferente caso tivesse exatamente a mesma situação novamente (isso se chama debriefing, foi o Dr. Getulio que nos ensinou a sempre, sempre pensar depois de qualquer coisa que a gente fez o que foi bem, o que foi mal, como a gente melhoraria)…

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Fiquei chocada com a conduta to tal enfermeiro-chefe, porque ele criou um pânico no ambiente que não precisava existir, o paciente tava estável e de volta ao seu normal. As arritmias eram claramente relacionadas à aceleração e desaceleração da ambulância, isso é uma coisa conhecida já, especialmente porque ele tava discretamente desidratado como tentativa de facilitar o desmame da VM… fiquei com raiva e frustrada, porque retrucar rápido nunca foi o meu forte, e em inglês demora pra gente articular uma resposta, então fiquei muito braba porque acabei levando desaforo pra casa mesmo estando convencida de que esse enfermeiro é que tava em pânico por pouca coisa. Quem entra em pânico por pouca coisa não deve trabalhar com cuidados intensivos e nem anestesia, colhega. Ui que ódio de não ter dito nada na hora.

Mas enfim, fui fazendo as pazes com a situação na minha cabeça. Pensei “tudo bem, meu primeiro contato com Barts foi uma porcaria, mas foram só esses dois enfermeiros, os médicos foram legais e o restante da equipe também, de repente esse enfermeiro-chefe tava tendo um mau dia ou sabe-se lá o quê, quem sabe não vai ser tão ruim assim no sentido de eles procurarem defeitos no tratamento dado pela equipe do Heart”.


Cheguei de volta no hospital e assim que entrei na salinha dos plantonistas, me contaram que o tal consultant-mór tinha ligado pro diretor clínico do hospital, que é um consultant ali do Heart, pra dizer que a minha consultant tinha sido imprudente ao não ir junto comigo, que aquela transferência tinha sido de alto risco, que onde é que já se viu, esse tipo de coisa tem que ser feito por um consultant e não uma trainee.

A Liz respondeu “minha trainee é brasileira, amigo, tenho certeza que ela já viu coisa pior e que ela jamais entraria em pânico com uma arritmia”. Todos os outros consultants que estavam na sala disseram “you did well Gabi, unfortunately you’re caught in the middle, they’re all idiots”. Então apoio 100% dos meus staffs! Mas puts, mesmo assim fiquei super chateada de me ver no meio de um imbróglio muito mais político do que médico.

Almoçamos juntos, eu e mais 3 trainees, e fui deixar uns documentos no RH… Quando mais tarde essa minha consultant me mandou uma mensagem dizendo “That’s my girl, mais culhões do que os meninos do Barts” eu achei o máximo e relaxei um pouco. E pra salvar meu dia, fui comprar uns acessórios pra câmera, cheguei em casa, troquei de roupa e corri pra Westminster Bridge pra fotografar o Parlamento na blue hour.

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Eu amo como fotografar me faz esquecer de todo o resto! Tô super aprendendo ainda, mas tive uma conversa muito legal com o vendedor da Camera World, ele me disse que depois que você atingiu um certo patamar, ele não acredita muito em cursos de fotografia, acha que são um desperdício de dinheiro e tempo. Aí comentei que sinto que tô tipo num platô muito amador sabe, que sei usar os controles manuais mas não sei muito pra onde ir pra progredir mais?! Aí lembrei que a situação em que mais me empolguei com fotografia nos últimos meses foi quando resolvi aprender a fotografar fogos de artifício. Aí ele disse: “EXATAMENTE! Daqui pra frente, saiba que o teu progresso provavelmente vai ser assim, você escolhe algo pra aprender a fazer, vai lá e aprende. Sozinha. Com ajuda de livros, do YouTube, de blogs, sei lá. Mas não pague £300 por um curso de fotografia”. E realmente, cheguei ali, vi que pra reproduzir o que eu tava vendo, ia precisar de uma técnica chamada HDR, então agradeci aos deuses do 3G/YouTube/Google e aprendi right there and then como fazer! E olha que não ficou nada mau pra uma primeira tentativa, né?!

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Enquanto eu tava lá fazendo as minhas fotos e curtindo uma musiquinha no fone de ouvido, um casal falou comigo pra perguntar se era proibido pular o portão que leva pra uma escadinha até o Tâmisa. Falei que não sabia e perguntei que foto ele estava imaginando – ele era o fotógrafo e ela era a namorada ultra-mega-paciente com as 2938 tentativas de atingir a foto perfeita (ou seja, ela era o Alex dele :). No fim das contas, o cara é um iraniano criado no Canadá, cuja namorada é uma americana da minha idade, e os dois moram em Miami. Fiquei batendo papo com os dois um tempão, sobre fotografia, sobre política (sabia que só pode votar nos EUA se for cidadão americano?! Nem tendo green card há mil anos e pagando imposto lá. Só sendo cidadão mesmo), sobre impostos (eles pagam 20% só!!! Eu não tinha noção! E com um bom advogado, eles pagaram 18% ano passado) e sobre sistema público de saúde, ou a falta de. Descobri que o cara é médico também, aí foi mais um assunto ainda. Enfim, super legal conhecer gente desse jeito! Trocamos emails e quase causei uma crise no relacionamento quando mostrei umas fotos minhas e dei umas dicas de lugares bons pra fotografia noturna aqui perto e ela tava morreeeendo de frio e louca pra voltar pro hotel! Hahahaha

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Enfim, voltando ao imbróglio da transferência, relaxei mais ainda ontem quando o staff do Heart que vai ser diretor da UTI no Barts me contou que esse consultant-mór ligou pra pedir desculpas, dizer que foi uma overreaction e que o tal enfermeiro é um famoso causador de problemas. Ufa! Pelo menos ficou claro quem é quem! Hehehehe

E aí minha semana terminaria com três noites de plantão, sexta, sábado e domingo. Então sexta de manhã fui ver a exposição Sony World Photography Awards, na Somerset House, voltei pra casa com a intenção de tirar uma sonequinha pré-plantão e qual foi minha surpresa quando a plantonista do dia me liga e diz: “Gabi, transferimos o último paciente. Não tem mais paciente nenhum aqui, o hospital está oficialmente fechado. Tô indo embora logo mais. Aproveite teu findi de folga!”.

CUMA????

Os gerentes da mudança foram tão, mas tão eficientes, que terminaram o tróço todo 3 dias antes do prazo! Eu sabia que seriam plantões tranquilões e já tava dando graças que ia poder ir lá cuidar de um ou dois pacientes, escrever um monte no blog, organizar minha agenda e comer um monte de porcaria porque né, plantão tem que rolar uma auto-recompensazinha, hehehehe.

Só que meus sapatos de centro cirúrgico ainda estavam lá e eu tinha que entregar meu cartão magnético, e além do mais me deu uma baita deprê pensar que eu nunca mais pisaria no hospital! Então troquei de roupa e fui pra lá!

Gente, que coisa louca um hospital totalmente vazio. Parecia uma cidade fantasma! Muito estranho. Aí fiquei batendo papo com as duas colegas que estavam lá e a fellow de pesquisa, tiramos umas fotos, rolou um #mimimi básico sobre como é um lugar legal pra trabalhaaar e como não queríamos ir embooora, etc etc.

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A minha sorte é realmente algo fenomenal: mais do que plantões tranquilos, eu teria o melhor do melhor do mundo: plantões inexistentes!!! E ainda por cima tô de folga a semana toda! Bizarro, acho que nunca mais vou ter tanta sorte numa escala de plantão na vida! Hahahaha

Fiquei quase sem saber o que fazer da vida, sabe como? Meus planos para o fim de semana: trabalhar-dormir-comer-trabalhar-dormir-comer E agora, José? O que fazer com 72h livres que eu até o minuto atrás não teria?!

Então fomos pro pub pra brindar a minha sorte e comemorar the shift that never was e também reforçar nossas esperanças de que as dores de crescimento que estão por vir valham -muito!- a pena pelas oportunidades que teremos em um centro world-class.

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Quem viver, verá!

Flatshare nightmare

(Música no título tava bom enquanto eu tinha idéias espontâneas, agora- alguém me diz que música usar pra falar sobre alugar apartamentos?! Hahahaha tradição sumariamente suspensa até segunda ordem!)

Meu sumiço tem nome, sobrenome e endereço! Flat searching in London.

Imaginem, caros amigos, uma pessoa que nunca procurou um apartamento pra alugar na vida. Agora imaginem essa pessoa procurando apartamento pela primeira vez no mercado imobiliário mais dinâmico e louco do mundo! Thrown in at the deep end, né?! Quem mandou querer pular na parte funda da piscina?! Agora tem que aprender a nadar na marra ;)))

O esquema é o seguinte: um jovem profissional sozinho em Londres tem essencialmente duas opções. Pagar caro (estilo mais da metade do salário a bem mais da metade do salário) pra morar sozinho em um apê razoavelmente novo lá em cafundódojudasshire, passar uma hora e meia no trem-ônibus-metrô todos os dias pra chegar no trabalho e não poder ir nos happy hours cozamigos porque o último trem é a meia noite e pra chegar lá tem que sair do centro de Londres às 23h… ooooou pagar caro (estilo um terço do salário) por um quarto em um apê razoavelmente velho a muito velho no centro de Londres -entendemos por centro de Londres zona 1 e zona 2 do metrô-, conhecendo pessoas diferentes, abrindo a cabeça e aprendendo a conviver com outras culturas, ao mesmo tempo em que otimiza o tempo de viagem para o trabalho e fica bem no meio da muvuca maravilhosa que é essa cidade 😀

Existe ainda a opção secreta número 3, que é dividir um quarto com alguém, que é o mais barato e acaba às vezes sendo a opção de quem acabou de chegar, tá sem emprego ou com poucas horas de trabalho etc. Claro que exige altos níveis de tolerância e abdicação de privacidade em geral, mas é uma possibilidade! E tem gente que até curte, afinal de contas nesse comecinho é tudo festa e nem procurar flat ou dividir apartamento abala a felicidade do mais novo morador de Londres!

Quando é um casal, a coisa muda um pouco de figura, mas esse não é o nosso caso, já que o Alex tinha que estabelecer moradia fixa em Stratford-upon-Avon como parte do contrato do doutorado.

Mas aí assim, escolhida a opção número 2, vamos aos sites de anúncios. Gumtree, FlatShare, SpareRoom, MoveFlat, o que não falta são classificados. Existe todo tipo de pesquisa que você imaginar. Quer escolher pela linha do metrô? Ok. Prefere escolher pelo tempo que vai levar até chegar ao trabalho? Escolhe aí. Ou quem sabe vamos limitar a pesquisa a zona 1-3 do metrô? Passa os fins de semana em outro lugar e quer alugar só de segunda a sexta? Só quer flatmates vegetarianos? Prefere dividir a casa com alguém com outra orientação sexual? Precisa que a casa permita bichos de estimação? Faz questão de ter uma sala de estar?

Quase chorei de rir domingo quando encontrei 22 coisas frustrantes sobre procurar flatshares em Londres!!! Porque por enquanto é isso mesmo: procura frenética com 298 abas abertas no navegador, textinho padrão sobre quem sou e a que vim (haha), caixa de entrada absolutamente lotada de avisos de resposta, já estou macaca velha e quando tem “cosy” no anúncio já fico ligada que pode ser que a porta do quarto nem abra completamente, já estou considerando dividir meu humilde lar com gatos, cachorros e papagaios caso o apê seja bom e os flatmates sejam legais, orientação solar já saiu do rol de pré-requisitos e passou a ser um extra há uns 10 dias, enfim! A maioria dá vontade de sentar no cantinho e chorar, mas a caça ao tesouro imobiliário londrino prossegue!

Sábado fui ver um flat enorme, do outro lado da rua da estação do metrô, quarto bonitinho, espaçoso, sacada, flatmates muito gente boa, cozinha boa, sala de estar, que nem todos os apartamentos têm porque alguns convertem a sala em mais um quarto pra dividir o aluguel em mais pessoas… Confesso que não morri de amores de início mas ao longo do fim de semana fui me empolgando e vendo mais coisas positivas. Depois de aguardar ansiosamente o domingo todo por uma resposta, no fim do dia o guri me avisou que o quarto tinha sido alugado por outra guria. Meu primeiro coração partido em Londres! Hahaha daí passei brevemente pela fase 4 da busca por apartamentos em Londres, ódio por todas as coisas do mundo.

Mas como boa pessoa resignada após um pé na bunda, sentei na frente do computador e não sosseguei até ter pelo menos mais 4 marcados pra ir ver!

Adoro escrever aqui e sempre passo o dobro, triplo do tempo que pretendia, mas preciso dormir. Só quero deixar registrado aqui que para cada momento de desespero e angústia do tipo “CHEG˜A, será que não vou achar um lar nunca?”, existem umas 5 gargalhadas, internamente ou até externamente mesmo. Domingo fui ver um flat lindinho, localização excelente, 3 minutos do metrô, móveis novos, negociação direto com o dono, quarto face leste com solzinho da manhã entrando, chuveiro bom, perto de supermercados, lojinhas, cafés e restaurantes, área boa da cidade. Eis que eu e o guri espanhol que fomos ver ao mesmo tempo estávamos na cozinha fazendo umas últimas perguntas e o dono solta: “a única coisa que vai mudar na verdade é que o vizinho de baixo reclamou que ouve muito os passos das pessoas, então apesar de eu gostar muito do piso que escolhemos originalmente, resolvi mudar e mandar colocar um carpete duplo, wine-proof, em toda a casa, pra evitar problemas”. INCLUSIVE NA COZINHA! Haja amor pelo vizinho, Batman! Eu ia mandar o vizinho arranjar o que fazer fora de casa e morrer abraçada com meu lindo piso laminado de madeira escura! Hahahahaha

Certamente terei mais causos pra compartilhar, essa semana tô na UTI das 8 às 20h, ontem fui ver mais um flat às 21h mas hoje tô exausta, então já marquei mais uns pro fim de semana. Perspectiva é tudo nessa vida! Assim como em qualquer relacionamento ou emprego, não estou procurando um quarto/apê/flatmates perfeitos, mas sim cujos defeitos eu ache que vale a pena tolerar e conviver porque as qualidades ganham! Quem viver, verá!

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre

Quem traz na pele uma marca, Maria Maria mistura a dor e a alegria

Sabe aquela coisa de primeiro dia na escola, assim, que as pessoas te mostram o lugar, “olha, vai funcionar assim e assado”, e no fim das contas tem-se uns 70% de um dia de trabalho, e em ritmo light? Pois é. Meu primeiro dia de trabalho não foi nada disso 🙂 hehehehe. Tanto a Alexa, outra fellow que tá começando comigo, quanto eu já tínhamos passado aqui pelo hospital, eu por um mês e meio como observadora e ela por três meses como residente. Talvez seja por isso. Então quando eu cheguei e fui perguntar quem eu deveria procurar pra um staff que faz torácica toda segunda e tava preparando a anestesia dele, ele simplesmente me respondeu daquele jeitão muito inglês de meia-idade socialmente desajeitado muito característico e engraçado “Oh hi! You’re back, are you? Não sei, as pessoas vêm e vão tanto, que nem sei. Procure um fellow qualquer aí” hahahaha… Perto das 8h chegou a Dominique, que tá assumindo o cargo de fellow sênior no lugar da Adri. Depois daquele oi, tudo bem, bem-vinda de volta, e aí como foram esses meses no Brasil, ela me disse: “te escalei na sala três com a Bee, tá?”. Tá.

E nada da Bee. E de repente o coordenador do CC me diz: “Oi! Bem-vinda de volta! O fulano (staff da sala 3) ligou pra avisar que vocês podem ir começando que ele vai chegar daqui a uns 15 minutos”. Nisso o paciente chegou. E nada da Bee. Eles fazem todo um procedimento de entrega do paciente, pra verificar se tá com a pulseira de identificação, se tem alergia, se tem lente de contato, metal no corpo, dentadura, etc etc. Pois bem, terminou esse primeiro checklist, foram levando a maca do paciente pra salinha de indução. E nada da Bee!

Nisso ela chegou, já tinha visto a paciente, era uma cirurgia relativamente pequena. Depois uma torácica, e depois uma cardíaca, que transcorreram sem maiores problemas. Mas agora olhando pra trás, acho que eu esperava um pouco mais de cerimônia, uma introdução um pouco mais gradual no ritmo da coisa. Enfim, não vou entrar em pormenores médicos, mas o fato é que a cada minuto que passava eu ia me sentindo mais e mais perdida, como se fosse uma R1 de novo. Uma coisa é a gente ver uma coisa sendo feita, a outra é fazer a tal coisa. A memória visual é uma, a memória tátil, procedural é outra. Então não é uma questão de saber induzir um paciente sozinha. Afinal de contas, sou uma anestesista formada. Mas nossa especialidade é praticamente construída em rotinas, pra que a gente então possa adaptar essa rotina de acordo com as particularidades dos pacientes, não é à toa que somos comparados o tempo todo com pilotos de avião. Ordem, precauções, checklists, tarefas encadeadas fazem parte do nosso dia-a-dia. Nesse dia fiquei com saudade da minha rotina de me preparar pra uma anestesia em casa. Saber exatamente o que eu preciso, qual é a cara desse material, onde encontrar, saber que na maioria das vezes preparo tudo isso sozinha e me viro sozinha, tenho uma ordem mental que me é familiar. De repente, tudo diferente! Mas gente, TUDO diferente. Desde o algodão com álcool pra passar na pele antes de pegar a veia, que aqui é tipo um lencinho umedecido com álcool que vem dentro de um pacotinho tipo desses de adoçante, até o fato de siglas simples escritas no prontuário me exigirem 30 segundos de raciocínio, ao invés de 1, quando a associação já tá estabelecida no teu cérebro. O que eu quero dizer é: SIM, na essência é tudo a mesma coisa, afinal as preocupações do anestesista são as mesmas, é o mesmo corpo humano seja no país que for, na cultura que for, com a infra-estrutura que for. Só que as rotinas e os materiais aqui são diferentes. Imagina de repente botar um piloto de avião num cockpit que ele não conhece?! Ele sabe pilotar, mas vai se sentir um peixe fora d’água até se familiarizar com os instrumentos que ele vai usar.

Então a palavra que resumiu meu primeiro dia de trabalho foi overwhelming. Não tem outra. Nessa hora eu só pensava: gente, é muita coisa nova, será que a minha capacidade é a mesma aqui? Fui fazer avaliações pré-anestésicas no fim do dia e me dei conta de que nunca tinha descrito um exame físico em inglês antes, que nunca tinha pensado com que termos pedir que um paciente fizesse os movimentos que preciso pra avaliar a via aérea. Será que sou tão irresponsável assim por nunca ter parado pra pensar nisso? Ou será arrogância, porque me sinto à vontade falando inglês nunca imaginei que fosse ter dificuldades?

Engraçado que, externamente, passei o dia totalmente numa boa. Cheguei em casa e acho que nem eu tinha me dado conta de quanta adrenalina tinha circulando. Quando liguei pro Alex pra contar sobre o meu dia, e quando cheguei na parte do pré, que eu tinha me sentido muito incompetente por ter que ficar procurando palavras e por não entender bem direito o raio do bloco de prescrição das enfermarias (é bizarro! Tão mais lógico do nosso jeito! Hehehe) e comecei a chorar involuntariamente, é que eu me dei conta do QUANTO medo eu tava sentindo! Medo de deixar passar algum detalhe, medo de prejudicar um paciente por não entender o pedido do cirurgião falando inglês com sotaque estrangeiro por baixo da máscara numa sala cirúrgica barulhenta, medo porque o peso da responsabilidade de uma especialidade de cuidado agudo como a minha já é difícil de carregar onde tudo é familiar, justamente porque existem tantas outras variáveis que a gente não pode controlar.

E aí… quem lembra de uma comunidade do finado Orkut que se chamava chorar resolve? Hahahahah aos pouquinhos foi passando a nuvem negra, apareceram uns raios de sol tímidos, depois anjos cantando e fui enxergando as coisas com mais clareza. Isso tem nome! Resiliência é um termo da física que significa a capacidade de um material, quando deformado, voltar ao seu formato inicial. Que emprestado pela psicologia significa simplesmente a capacidade de uma pessoa superar problemas sendo pai e mãe de si mesma, a capacidade de dizer pra si mesmo “não, veja bem, não precisa se desesperar, tem uma luz no fim do túnel”, exatamente como era quando a gente tinha pesadelo quando era criança e o pai ou a mãe vinham no quarto abraçar a gente e dizer que não era verdade.

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De repente me dei conta que SIM, estou com medo. Lógico! Não existe vida sem medo e, especialmente nesse caso, só um irresponsável não teria medo nenhum! O medo também faz parte do pacote! Peguei na mão como quem não quer nada o meu livrinho Keep calm and carry on de citações memoráveis, que tava bem à mão, no parapeito da janela, e li o que precisava ler:

quote-i-learned-that-courage-was-not-the-absence-of-fear-but-the-triumph-over-it-the-brave-man-is-not-nelson-mandela-118468

Nelson-Mandela-Quotes-Fear-Of-Success

Ao longo do meu planejamento para vir, fiz, aos pouquinhos, e vou continuar a fazer diariamente o que está ao meu alcance pra diminuir os riscos. Antes do meu próximo pré, vou pensar palavra por palavra como pedir as coisas que eu quero saber. Quando aparecer na minha frente uma droga que não existe no Brasil, vou colocar numa listinha pra estudar. Vou ajustar minhas expectativas e aceitar que vai levar um tempinho, semanas ou talvez meses, pra conhecer todos os passos e ter a mesma fluidez de movimentos que eu amava tanto ter onde me sentia confortável. A grande questão é: eu não queria estar lá! Eu só queria me sentir como eu me sentia lá. Ninguém gosta de se sentir incompetente, perdido, um peixe fora d’água. Me dei conta de que pode ser que boa parte das pessoas se sinta assim quando vive a vida diária num outro país. Eu certamente me sentiria assim em qualquer outro país que falasse outra língua, ou até a mesma língua com outro sotaque, sei lá. Talvez pelo fato de as minhas transações diárias serem muito mais tranquilas, ir à farmácia, ir ao banco, ir ao mercado, nada disso me fez sentir tão fora do meu lugar quanto o meu primeiro dia de trabalho. Óbvio que o impacto psicológico foi grande. Meu maior desafio vai ser esse. E quando eu decidi morar e trabalhar aqui, eu comprei o pacote completo. Não tem pico da montanha sem subir! E isso faz parte do crescimento pessoal, que por sua vez é parte crucial do pacote que eu comprei e da razão pela qual o comprei. Imigrar não é para os fracos, amigos! Vinde a mim, dores do crescimento!

“A dor é inevitável
O sofrimento é opcional
Fé é colocar seu sonho à prova”