Fim de semana à milanesa

Bom, tive um plantão do cão ontem e, nas últimas 36 horas, dormi menos de 3 horas no total. Então estou aqui, numa sexta-feira às 18:00, fazendo de tudo pra aguentar acordada pelo menos até as 20:00 porque senão acordo no meio da noite, totalmente desorientada, sem saber que ano é. E depois meu sono fica estragado por uns 3 dias. Uma delícia.

Então achei que uma maneira fácil de passar o tempo seria registrar o fim de semana passado.

Tudo começou em meados de novembro, quando estava à toa em casa e recebi uma notificação no celular: RYANAIR FLASH SALE! E assim, em condições normais de temperatura e pressão, hoje em dia penso bastante e coloco os custos no papel antes de encarar vôos low cost. Várias vezes quando você soma todos os traslados até o aeroporto, e depois na cidade de origem, já que as low cost tendem a viajar de/para os aeroportos menos nobres e mais afastados de cada cidade, o valor total acaba se aproximando bastante do que se pagaria pra voar com uma companhia aérea tradicional.

Mas dito isso, essas flash sales são aqueles poucos dias no ano em que as passagens são REALMENTE baratas. Estamos falando £7, £10, £15 por trecho! Aí, do alto dos meus 29 anos, resolvi na minha cabeça que não deixaria essa oportunidade passar nem que a vaca tussa e comecei a investigar destinos possíveis pra viajar sozinha – o Alex ainda não estaria aqui e a maioria das minhas amigas tinha compromisso já. Avaliei as opções que ainda estavam disponíveis (incrível como esgota rápido!!!) e achei que Milão seria ideal para um fim de semana indo no sábado de manhã e voltando domingo à noite.

Eu já conhecia a cidade, passei dois dias lá em 2013 e fiz o único lerê turístico do qual eu fazia absoluta questão: A Última Ceia de Leonardo da Vinci. Isso é assunto pra outro dia, mas eu AMEI a visita e ela ficou marcada a ferro e fogo na minha memória como uma das experiências mais tocantes que já tive com arte. Talvez em parte por ter visitado sozinha, ter tido a sorte de uma visita silenciosa (os outros visitantes eram a maioria de meia idade), enfim, outro dia conto mais.

Então eu sabia que iria pra lá sem uma agenda a cumprir, numa viagem sem pressa pra conciliar duas paixões: curtir o lado cosmopolita de Milão e matar minha saudade eterna de uma italianice vera! Aí umas semanas depois eu tava conversando com a Cris, amiga que mora na Alemanha e viajou conosco pra Eslovênia ano passado, ela estava livre e a fim de se juntar a mim, e ecco: tínhamos um plano.

Só que nesse meio tempo, veio janeiro e com ele a famigerada prova, que por bem ou por mal ocupou 100% da minha memória RAM. Simplesmente ignorei a viagem, porque já tinha reservado o hotel meses antes, e não tinha nenhum pré-requisito essencial para fazer na cidade, e pensei que na pior das hipóteses passaria o tempo da viagem em si, entre aeroporto, vôo e trem, matutando o que fazer.

Saí da prova e tinha um email da Cris na minha caixa de entrada: ela é super foodie, amante de gastronomia e de um bom vinho, e queria saber se podia se encarregar de investigar restaurantes pra gente, qual era a minha vibe, o que eu queria comer. Mas é claaaaro que sim! Amo planejar milimetricamente a parte macro das viagens, vôos, hotéis, traslados, mas coisas tipo restaurantes, horários e dias em que vou a uma atração específica, nem tanto. Só falei pra ela que fazia questão de comer os pratos milaneses clássicos, já que da outra vez estava de mochilão comendo panini de almoço e de janta. Aí no dia seguinte ela me mandou uma super seleção de lugares, já tinha reservado um pra garantir, e eu reservei outro que chamou a atenção – aliás, morri de orgulho de ligar pra Itália e fazer a reserva inteirinha em italiano sem titubear, porque achei que meu italiano rudimentar já tinha evaporado por completo. Aproveitei também pra investigar my thing que, como quem me conhece bem sabe, são lugares com vista. ♥️

Chegando lá, nos encontramos na estação central, já que o nosso hotel era pertinho. Já que a noite anterior tinha sido das boas comemorando o aniver da Sophie e da Dri até quase 2 da manhã, e eu tinha dormido míseras 2h antes de acordar pra ir pro aeroporto, precisei primeiro virar gente no hotel.

Seguimos pra Piazza del Duomo pra primeira parada: botar o papo em dia e curtir o por do sol com vista da catedral e do movimento na praça.

O Terrazza Duomo 21 não é exatamente um rooftop propriamente dito, mas sim uma sacada com vista maravilhosa do Duomo, que faz parte de um hotel de luxo anexo à Galleria Vittorio Emanuelle. Chegando lá, ficamos impressionadas com a simpatia dos funcionários, os preços super razoáveis pro bar que provavelmente tem a melhor vista de Milão, e principalmente porque, em plena golden hour, tinha mais de uma mesa de cara pro gol!

Mais uma das vantagens de viajar no inverno né – aposto que em julho deve ser impossível conseguir essa mesma mesa! O bar serve váaarios drinks com Martini, que é o clássico destilado milanês, e que é patrocinador ali. Eu que não sou nada fã de Martini, fui semi-preparada psicologicamente pra só encontrar drinks com ele, mas como estamos falando de Itália, é claro que teria um vinho de casa pra gente escolher também. E com ele, aquela boa e velha lembrança de que você está, de fato, na Itália: umas porções generosas de azeitonas sicilianas e umas batatinhas como aperitivi. Pedimos mais uns petiscos e foi esse nosso almoço, já que tínhamos que guardar fome pro jantar que já tínhamos reservado.

Depois de uma voltinha na própria galeria e a surpresa de achar um Picasso e um Miró originais por preços surpreendentemente aceitáveis, resolvemos dar uma passadinha marota no Cioccolati Italiani que dizem ser A MELHOR sorveteria de Milão. Olha, é uma coisa Dantesca. Eles não só servem aquele gelato italiano que a gente conhece, como o servem quase que à la brasileira (leia-se doçura exagerada): dentro de um cone de biscoito com calda de chocolate dentro, com vários extras disponíveis, 3 bolas empilhadas com uma colherada de merengue italiano por cima. Como era mesmo aquela história de guardar a fome? A gula falou mais alto, esquecemos que podíamos voltar no dia seguinte e calculamos que, com 2h faltando pro jantar, ainda podíamos mandar ver um sorvetão.

 

 

Seguimos caminhando pelo bairro boêmio de Brera, resistindo bravamente às mil ofertas de aperitivi dos barzinhos com mesas ao ar livre. Mas como estávamos adiantadas, paramos pra mais uma tacinha de vinho. Eu ADORO sentar ao ar livre assim no invernão, ficamos comentando como quando a gente chega na Europa a gente acha todo mundo louco de escolher ficar pra fora no frio de 5 graus, mas a grande verdade é que eu me acostumei super rápido e hoje em dia fico até meio agoniada com aquele ar saturado de lugares fechados muito quentes no inverno.

Logo chegamos à grande estrela do fim de semana: o Alice Ristorante, um estrelado Michelin que fica no último andar do Eataly, com vista panorâmica da Piazza 25 Aprile. A Cris me contou que ele é uma iniciativa conjunta de uma chef com uma sommelière, então rola uma vibe bem feminista num mundo tão dominado por homens quanto a gastronomia. Restaurante estrelado Michelin, com vista panorâmica e filosofia feminista? Yes please!

Esse foi só o segundo estrelado Michelin onde já comi na vida, mas de novo a mesma surpresa boa: clima super agradável, nada de empertigações e pretensões, e a mesma conclusão de que as porções pequenas são na verdade a coisa mais genial que existe. É uma quantidade pequena de comida por prato, mas apesar de termos pedido apenas entradas e principais cada uma, e depois uma sobremesa pra dividir, recebemos milhares de amuses-bouches pra começar e depois a coleção mais fofa de micro-sobremesas de que já tive notícia.

Não sou crítica culinária e nem conheço de gastronomia, mas não posso deixar de registrar aqui a SURREALIDADE do ossobuco que eu pedi!!! Sabe como tem gente que diz “ah, eu até como carne vermelha mas não sinto falta não, nem faço questão, não sou fã do gosto em si”?! Pois bem. Eu não faço parte desse time. Adoro carne vermelha, cresci no sul comendo churrasco toda semana, e apesar de hoje em dia comer muito menos carne vermelha e ter me acostumado com isso sem sofrências saudosistas, não deixo passar a oportunidade de comer uma carne de respeito.

O prato era descrito no menu como “ossobuco preparado como churrasco, com diafragma grelhado, tartar piemontês, cebolinha, maionese de mostarda e glaze de vinagre”. Confirmei com a atendente se o diafragma era de fato o diafragma que eu conheço, o bom e velho músculo da respiração, superei rapidinho minha reticência habitual com tartar de carne (nunca consegui comer carne vermelha crua sem fazer careta) e mandei ver.

Gente – GENTE – que negócio maravilhoso. Pra começar que ele vem servido no próprio osso, que ao invés de ser cortado na transversal como de costume, era cortado no sentido longitudinal e a cavidade medular usada como “recipiente” pra arranjar os componentes do prato. Não tenho talento pra descrever comida, mas vou dizer que delirei a cada colherada que carreguei com o cuidado de pegar tudo junto – cubinhos de diafragma grelhado, cubinhos de filé cru bem temperadinho, a maionese de mostarda e a gordura característica da medula. Acho que no fundo eu estava esperando não gostar do tartar, então o prato superou todas as minhas expectativas mais delirantes do quanto eu ia curtir! Sabe aquele prato que você come devagarinho, porque não quer que termine nunca?!

A sobremesa foi meio decepcionante pra falar a verdade, mas a essa altura do campeonato eu já estava vendida e muito mais que satisfeita, e só pedimos a sobremesa naquela vibe meio YOLO (you only live once) de gente gulosa e sem vergonha.

Seguimos a pé para a próxima parada, que era minha escolha: em 2013, fui ao Nottingham Forest, o cocktail bar mais famoso de Milão, super renomado na cena mixologista mundial e que foi uma dica da minha BFF Ju, que tinha ido pra lá umas semanas antes de mim. Bom, sem mais delongas:

Você começa a sentir o tamanho da fama e do hype do lugar pela fila: como ele é super pequenininho, só cabem 40 pessoas por vez. Umas brasileiras que estavam por ali nos ouviram conversando e já adiantaram que o parça que estava na porta gerenciando a fila não era dos mais gentis. Cheguei já falando italiano com todo o charme possível, e quando ele disse que tinha acabado de encerrar a fila de espera, ainda ousei dizer que eu tinha vindo de Londres e minha amiga de Berlim, e porfavormoçopõeagentenalista! E funcionou! Mesmo assim ficamos mais de uma hora esperando ali fora, e entre causos de viagem e people watching (um casal de asiáticos que passou o tempo TODO da espera jogando no celular, com direito a musiquinha e tudo), logo chegou a nossa vez. Infelizmente, o bar fecha relativamente cedo, então só tivemos tempo de beber o drink mais clássico e famoso do menu, que eu quis repetir e era ainda melhor do que eu me lembrava, e pegamos um táxi pro hotel.

No domingo, fizemos o check-out, deixamos nossas malas na recepção e seguimos a pé para o Corso Como pra matar uma horinha na “galeria de arte meets loja de moda e design meets livraria meets restaurante” que é o complexo 10 Corso Como antes de seguir pro nosso almoço que era ali perto.

E se o restaurante do sábado a noite era todo inovador e criativo, o do almoço de domingo era tradicionalíssimo já começando pelo nome: Osteria Brunello. Osteria é o nome dos restaurantes de comida italiana simples e tradicional, geralmente com um menu curtinho. O diferencial da Osteria Brunello é que ela é a casa da cotoletta alla Milanese mais famosa e premiada de Milão! Incapaz de decidir por um só clássico, deixei a entrada de lado e fui de um primo – risotto alla Milanese – e como secondo fui com a costeleta de vitela.

Mais uma vez, uma experiência surreal. Já tô com água na boca só de lembrar. O risoto era uma coisa de outro mundo, o mais cremoso e saboroso que já comi na vida e surpreendentemente leve. E a costeleta era sequinha e crocante, como toda fritura que vale as calorias que carrega nessa vida, hehehehe e a carne de vitela era uma maciez só, como é de se esperar. E como se não bastasse esse fim de semana tão cheio de superlativos gastronômicos, até o purê de batata foi o melhor que já comi na vida! Diz a Cris que o segredo é a quantidade PECAMINOSA de manteiga de 50:50!

Pra encerrar, ainda tive a cara de pau de mandar ver um tiramisu, porque né. A vida é curta. Na dúvida, peça o tiramisu.

Depois de tanta energia, seguimos a pé até o Castelo Sforzesco, que estava desagradavelmente cheio de ambulantes enfiando rosas na nossa cara agressivamente a ponto de precisarmos praticamente sermos mal-educadas no NO, GRAZIE! e pegamos o metrô para Navigli, o bairro boêmio que fica às margens do canal grande de Milão, que foi construído como parte de um sistema de canais para permitir o acesso à cidade pela navegação – trazendo todo tipo de mercadoria, inclusive o mármore usado pra construir o Duomo.

Todos os domingos rola um mercado de pulgas por lá, então estava cheio de famílias, e a maioria dos frequentadores eram claramente locais. Paramos pra um último vinhozinho ao por do sol, e seguimos pra estação central pra começar a peregrinação de retorno.

Ainda na estação, já começamos a planejar a próxima viagem, nos perguntando se os planos da Amanda de vir morar na Áustria estavam encaminhados – e uns dias depois, ela mandou mensagem no grupo confirmando que tinha acabado de chegar lá de mala e cuia, então certamente teremos mais aventuras pela frente!

No caminho pro aeroporto, fiquei pensando no que a Tati me falou outro dia: “mas Gabi tu tem sorte hein? Cheia de amigas espalhadas pela Europa!”. Tenho mesmo. Nunca, jamais vou take for granted a sorte de poder dar uma escapulida de 36 horas pra Milão. Sim, estamos dando passos atrás na carreira. Sim, estamos passando perrengues e tendo que provar nosso valor em ambientes profissionais diferentes de onde aprendemos. Sim, estou tão longe de onde quero chegar que frequentemente esqueço tudo que já conquistei nesses quase 2 anos, de quanto já cresci. Sim, abrimos mão dos pequenos luxos e mordomias da classe média brasileira. Sim, passamos saudade da família e aquela culpa intrínseca do expatriado por estar escolhendo construir uma vida longe de quem se ama. Mas quando a gente vê o mundo… my God it feels good!

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Hotel em Londres?

Geralmente quando as pessoas me pedem dicas turísticas de Londres, eu encaminho direto pros blogs da Dri e da Helô, afinal de contas não tem porque tentar reinventar a roda quando as meninas já escreveram tudo e mais um pouco sobre a cidade, e inclusive escreveram os melhores guias de Londres disponíveis em língua portuguesa. Aqui você pode comprar o guia da Helô, e aqui o guia da Dri, ambos disponíveis em versão impressa e PDF, e escritos por quem conhece a cidade como ninguém e já esteve pessoalmente nos lugares recomendados!

Ou ainda, para O Oráculo do viajante independente brasileiro.

Mas lá de vez em quando alguém mais próximo me pergunta porque quer saber a minha opinião pessoal. Uns dias atrás, uma amiga me pediu onde procurar hotel em Londres… Pensei, pensei, pensei e respondi que ia pensar mais um pouco. Hahahah o problema de quem mora em um determinado lugar é aquele velho paradoxo: a pessoa conhece a cidade como ninguém, mas se ela mora lá, ela provavelmente nunca terá se hospedado em hotel nenhum, certo?!

Não me sinto à vontade pra dizer “procura nos bairros X, Y e Z que é batata!”. A hospedagem pode fazer ou arruinar uma viagem, então depois de muito refletir, vim aqui registrar minha opinião, porque é bem provável que outros amigos façam a mesma pergunta no futuro.

Eu, Gabriela, reservo praticamente todas as minhas hospedagens de viagem no Booking.com e modéstia à parte, a essa altura do campeonato, sou fera na manipulação dos filtros. Se fosse um hotel para mim, pensando em explorar Londres turisticamente pela primeira vez, eu faria essa pesquisa AQUI:

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É uma pesquisa beeem restritiva, mas eu pessoalmente prefiro priorizar quase que exclusivamente a localização. Gosto de fazer tudo a pé, de estar no meio de tudo, e não me importo muito com a beleza ou os serviços do hotel. Cabendo no meu bolso, sendo bem localizado e minimamente limpo, tô topando. Geralmente começo limitando os preços, e marco somente os hotéis com nota acima de 8.0 (classificados como very good ou melhor).

Londres facilita porque o circuitão turístico principal, que inclui o South Bank e todas as suas atrações, o Parlamento, o Palácio de Buckingham, Trafalgar Square/National Gallery, British Museum, estão todos dentro dessa demarcação aí em cima. Uma ferramenta nova e excelente do Booking.com é o heat map, que mostra as áreas de interesse turístico nas cidades pra você ver se o seu hotel é bem localizado:

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E eu adoro andar bastante quando viajo, então pra mim, hotéis resultantes dessa pesquisa permitiriam que uns 70% da minha viagem fossem feitos a pé. Ainda assim, eu procuraria o mais próximo possível de uma estação de metrô principal (aquelas que têm mais de uma linha).

Caso não encontrasse nenhum nessa área, expandiria a pesquisa para incluir as regiões de Bayswater/Queensway, ao norte do Hyde Park, que é um super hub de hotéis, a região de South Kensington/Knightsbridge, por perto dos museus de História Natural e V&A, e o entorno da St.Paul’s Cathedral. Outra área que tem muitos hotéis de preço bom pipocando é no lado norte do rio, entre Monument e Tower Hill, onde você fica de cara pra Tower Bridge e pertinho de St.Katharine’s Docks.

Por que não incluiria essas áreas de cara? Porque apesar de ainda serem ótimas áreas, já são afastadas o suficiente para te obrigar a depender muito mais do metrô. E tudo bem depender do metrô numa cidade em que ele funciona tão bem quanto Londres, mas o ideal mesmo na minha opinião é passar o máximo de tempo possível acima da terra, hehehe. Além disso, tanto o entorno da St.Paul’s quanto essa parte norte do rio até Tower Bridge são super movimentados e vivos de dia, mas meio desertos à noite e nos fins de semana, que apesar de ser super seguro, pode parecer meio deprê pra quem gosta de agito.

O mesmo vale para Notting Hill, que é uma área lindinha demais, mas meio afastadona do centro turístico da cidade. Melhor ir pra lá pra curtir Portobello Road, tomar um brunch ou almoçar nas mil opções de Westbourne Grove, mas ficar cruzando todo o lado oeste da cidade, toda a extensão do Hyde Park em todos os seus dias na cidade vai te deixar de saco cheio e gastar tempo que, na minha opinião, poderia ser mais bem empregado.

E por que não incluir a área onde eu moro? Porque as imediações do South Bank na Tower Bridge e o hub de transporte de London Bridge são áreas excelentes pra morar mas, mais uma vez, meio isoladas pra turistar. A não ser que você esteja disposto a caminhar 5km simplesmente pra chegar no centrão marcado aí em cima, vai depender de metrô também.

Mas no fim das contas, apesar de toda essa lenga-lenga, acredito que qualquer lugar na zona 1 do metrô estará ok. Nenhum deles vai estragaaaar a sua viagem, mas esses que eu selecionei lá em cima podem facilitar bastante a vida.

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A amada e idolatrada zona 1 do metrô 🙂

Aí as diferenças ficam por conta de escolhas pessoais: se a pessoa vai chegar de metrô com malas pesadas e não quer passar perrengue em escadas, é importante ficar perto de estações com accessibilidade – aquelas que tem um A verdinho nesse mapa aqui:

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Ou por exemplo, se a pessoa gosta de hotéis mais bacanas em áreas mais bonitas e tradicionais da cidade, aconselharia evitar o South Bank que foi bombardeado loucamente na 2a guerra mundial, e focar nas regiões lindas de Marylebone, Mayfair, Westminster e até mesmo Victoria, Pimlico e imediações do Hyde Park.

Por outro lado, pra quem quer fervo: teatro, restaurantes, bares, baladas etc, a melhor aposta seria ficar entre Soho e Covent Garden, mas essa área apesar de ser super central e maravilhosa pra fazer tudo a pé, não é das mais bonitas de dia, e é relativamente barulhenta à noite.

Pra quem só volta pro hotel pra tomar banho e dormir e não faz questão de que o seu tenha muita personalidade, tem sempre os bons e velhos hotéis de rede, o Ibis e o Premier Inn tem várias unidades bem centrais.

Já pra quem tem um dinheirinho a mais ou está em Londres pra comemorar uma data especial, mas (ainda! Hehehe) não tem condições de ficar nos Ritz e Savoy da vida, tem os DoubleTree da bandeira Hilton e os Park Plaza, que são todos muito bem localizados, e uns degraus acima no quesito conforto, beleza, serviços etc.

Como eu falei, todo mundo fica meio perdido na hora de aconselhar amigos na procura de hotéis, mas a Helô tem uma seleção de recomendações no Booking.com e a Dri tem um guia de hotéis que explica o perfil de cada bairro. Esse post no Viaje na Viagem tem uma infinidade de hotéis comentados por leitores.

Talvez esse post tenha ficado confuso demais, afinal não tenho talento pra isso e sou prolixa demais hahaha mas de uma coisa não há dúvida: seja onde for que você fique no coração de Londres, você terá muuuuito pra explorar!

A tradição de aniversário

Eu sempre AMEI fazer aniversário. Desde pequena, não me lembro de um setembro em que eu não acordasse já empolgada no dia primeiro do mês porque meu aniversário estava chegando (dali a 28 dias, hahahah)… Então desde que me conheço por gente, setembro é o meu mês preferido do ano e eu sempre procuro fazer com que seja especial.

Em 2013, eu estava no R2 e sabia que queria usar as férias do R3 pra fazer estágio aqui em Londres, então seriam tecnicamente minhas últimas férias longas antes da “vida de trabalho frenético pós-10-anos-de-estudo-pra-começar-a-trabalhar, amém”. Como nossa cidadania italiana tinha sido aprovada há uns dois anos e eu sempre tive vergonha de ser italiana e não falar italiano fluente, resolvi passar 3 semanas viajando pela Itália pra melhorar meu conhecimento e fluência na língua.

Eis que achei um vôo ótimo com a BA que retornava ao Brasil no dia do meu aniver. Começar meu aniver em Roma, fazer escala em Londres e terminar no meio do Atlântico? YES PLEASE!

Apesar de estar viajando sozinha porque o Alex estava no meio do mestrado, achei o máximo dos máximos passar meu aniver em Roma. Já tinha tido a idéia de tirar uma foto pra registrar, comprei vela no mercado e tudo – acho que comprei em Siena antes de ir a Roma, porque não me lembro de ter ido ao mercado em Roma. Quando cheguei no hostel dia 27 à noite, desci pro bar pra beber um drink em homenagem aos meus 26 anos que estavam chegando. Encontrei um dos meus colegas de quarto, que era escandinavo mas não lembro de qual país, e ele estava com duas amigas australianas. Engrenamos o maior papo, e entre piadinhas pra lá e pra cá, e mais uns drinks, perguntei se eles topariam ir comigo ao Coliseu pra passar a meia noite do meu aniver, e eles toparam! Passei a mão no tripé e na câmera, na saída da estação comprei uma pizza bem fuleira, botei as velas em cima e voilà:

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A gente riu tanto, mas TANTO tirando essa foto, que eu não queria mais nada! Adorei. Lembro nitidamente da minha reação ao sair do metrô, uns dias antes do meu aniver, e ver o Coliseu pela primeira vez. Lembro que fiquei até surpresa com a minha emoção, porque não era exatamente um sonho meu nem nada, mas simplesmente fui tomada de gratidão por estar vendo o que, crescendo, só existia nos livros da escola, que nunca imaginei que veria ao vivo. E lembro também da sensação de sorte por estar passando meu aniver ali naquele ponto milenar, onde já andaram imperadores, onde tanta história foi feita. Foi exatamente como imaginei.

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No ano seguinte, pensei em fazer o mesmo e tirar uma foto com alguma comida típica de Floripa na frente da Hercílio Luz, então imagina minha frustração quando o dia chegou e estava frio e chovendo! Fomos jantar na Macarronada e acabei me contentando com a foto com unx camaronx a milanesa, que é o que eu mais associo com Floripa. No fim, acabamos curtindo o jantar, mas confesso que fiquei com aquela irritação basal por causa do tempo ruim (!).

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Ano passado, de novo eu passei boa parte do meu aniversário voando sobre o Atlântico. O Alex foi me buscar no aeroporto com flores e, depois de deixar as malas em casa, fomos pra Waterloo comprar um dos melhores fish’n’chips da cidade pra eu tirar a foto, que nessa altura do campeonato já tinha virado tradição.

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A frustração da vez foi que não conseguíamos tirar a foto antes das velas apagarem tiramos a melhor que conseguimos e depois de uns minutos de ranzinzisse com o vento encanado, esqueci e voltei à minha felicidade habitual de aniversário graças ao Alex que bless him já tem diploma de pós graduação em me ajudar a gerenciar as frustrações sem estragar o momento. Ficamos lá sentadinhos num banco à beira do Tâmisa rindo e falando da vida até que ficasse frio demais, depois compramos uma pint de leite pra fazer chocolate quente quando chegássemos em casa. Muito rock’n’roll!

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Esse ano a tradição já ficou tão estabelecida que quando eu decidi comemorar meu aniver com a Paola em Budapeste, o Alex me pediu “e aí, qual vai ser a comida típica que vai servir de bolo esse ano?”.

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Resposta: um lángos, uma massa de pão em formato redondo, tipo uma mini pizza, que é frita e tradicionalmente com queijo e sour cream em cima – que provamos no dia anterior, mas na hora de fazer as fotos resolvi provar essa com nutella e OLHA, melhor que muito bolo de aniversário por aí! Também, carboidrato frito coberto em nutella, quem é que não vai gostar?! Hahahah…

Eu tinha toda uma programação em mente. Passamos a virada do meu aniver num ruin pub que já foi eleito como um dos melhores bares da Europa e o plano inicial era beber um drinkzinho comportado e voltar pra casa cedo, mas o lugar era TAO, MAS TAO cool e a conversa (e os drinks) tava TAO boa que fomos ficando, ficando, e voltamos pra casa meio de lado, exaustas depois de bater perna o dia todo.


Chegando em casa, foi só ligar a luz da cozinha que um fusível queimou (na verdade foi um disjuntor que caiu, mas não achávamos o raio do treco de jeito nenhum!) e ficamos sem energia, então acendemos velinhas pela casa enquanto nos arrumávamos pra dormir, mandei email pra dona do flat enquanto tinha bateria no celular e pronto.

Então dormimos até tarde, tomamos um super café da manhã e fomos pras termas Gellert, que são um espetáculo art deco à parte. Ficamos lá uma hora e meia virando uva passa na água quentinha, fizemos uma massagem relaxante e seguimos pro mercado público pra almoçar. Porque o meu negócio é circular com tanta naturalidade no rooftop da modinha quanto comendo salsichón no mercado público, morou?! 😂

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Quando estávamos chegando em casa, íamos sair de novo pra tirar a foto mas a Paola precisou fazer uma ligação super importante, então só nos arrumamos pra ir pro rooftop que eu tinha reservado. Chegamos lá em plena blue hour, uma temperatura super agradável, por do sol cor de rosa por trás das montanhas de Buda, vista 360 graus da cidade iluminada, um dos sofás com a melhor vista do bar reservados pra nós… e só nós por lá!!! Como assim gente? Em Londres esse lugar ia estar perpetuamente bombando, faça chuva ou faça sol! Mas ok, o garçom super simpático veio nos atender, uns americanos que estavam hospedados chegaram pra curtir os outros sofás ali perto da gente… mas pera, esse hotel é temático de música e não tá tocando nada? Eles sabiam que era meu aniver e nem um bolinho sequer me trouxeram? Ah, agora sim. Puts, a vela do número 2 quebrou!

O que mais me deixou feliz nesse aniversário de 29 anos foi ver o quanto a minha reação mudou às coisas que não saíram exatamente como eu tinha imaginado. Não deu pra tirar a foto hoje? Beleza, não tem problema, tiramos amanhã, é só pra registrar o evento mesmo, não precisa ser xiita com tirar a foto durante as 24h do meu aniver. Não vou ligar pra isso quando estiver velhinha olhando as fotos. O bar tá sem música? Pois bem, é só pedir pro garçom ligar uma musiquinha e pronto. O bar tá vazio e sem o climinha delícia de rooftop da muóda que eu tinha imaginado? Sem problemas: já que estávamos sozinhas e mandando no negócio todo, então tiramos os sapatos, ficamos à vontade esparramadas nos sofás, com os cobertores no colo, rindo alto, fazendo piada de tudo, falando da vida. Quebrou a vela? Não tem problema, amanhã compramos outra!

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Pra completar, saímos do bar e fomos jantar DENTRO do Danúbio, num barco ancorado com uma vista maravilhosa da Ponte das Correntes e do Palácio de Buda, um plano de última hora porque nem sabíamos se teríamos fome suficiente pra jantar fora, e abortamos a missão da balada que tínhamos pensado praquela noite, já que estávamos ambas exaustas.


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E no dia seguinte, fomos tirar a foto pra posteridade, sem crise. De novo o vento não me deixou tirar a foto com as velas acesas. Então tirei com elas apagadas, sem estresse. E vida a evolução da espécie!

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Quem me conhece bem sabe que sou bem control freak tipo A e que sempre tive dificuldade em lidar com a frustração quando as coisas não saem exatamente como imaginei. Ainda faço isso e sei que é um aprendizado da vida inteira, mas a minha maior felicidade nesse aniver foi perceber que, pouco a pouco, estou ficando mais tranquila, menos neurótica, mais easygoing, sempre dentro dos meus próprios parâmetros, porque dizer que sou easygoing é tipoassim uma certa forçação de barra, hahahah. Mas quanta diferença em relação aos anos anteriores!

E se alguém me desse a opção depois que as coisas aconteceram como aconteceram, eu não trocaria o que tive pelo plano original! Isso se aplica a praticamente tudo que já deu “errado” na minha vida (entre aspas porque foram tão poucas coisas que não tenho direito de reclamar), então por que ficar tão ranzinza quando algo sai diferente do planejado? Esse ano foi um plano B desde o primeiro minuto, literalmente. E hoje vejo que, apesar dos pesares, tudo que aconteceu acabou me colocando numa situação melhor do que antes.

Conversando com a Paola no dia, me dei conta de uma coisa importante: acho que eu gosto tanto de fazer aniversário porque é uma época de reflexão e porque eu nunca acho que andei pra trás. Geralmente já estive melhor em um ou outro aspecto, mas no cômputo geral, sempre acho que estou andando pra frente. E apesar de a minha reação às primeiras ruguinhas ter me surpreendido esse ano (assunto pra outro post), eu jamais trocaria meu corpo, minha pele, meu metabolismo dos 19 anos pela pessoa que eu sou hoje aos 29.

It’s not about what we have, it’s about who we’ve become.

O presente de aniversário que eu mais desejo é sabedoria, é evoluir como pessoa, é ter mais inteligência emocional. Acho que tudo que me tira da minha zona de conforto me ajuda a entender um pouquinho melhor as minhas limitações, a ver um ponto de vista diferente. Por isso que eu quero continuar viajando e conhecendo o máximo possível do mundo, porque não sei se já inventaram coisa melhor pra nos fazer questionar as nossas convicções.

Então espero que meu presente de aniversário venha em parcelas, mesmo que pequenas parcelas anuais, de sabedoria. Já parei pra pensar que essa é uma aspiração bem egoísta, mas acho que quanto mais sabedoria, mais se consegue ajudar aos outros. Assim como acho que ser feliz e realizada é o maior favor que eu faço àqueles que eu amo, porque só assim poderei oferecer o meu melhor a eles.  Assim como “em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, e só auxilie crianças ou pessoas com dificuldade após ter fixado a sua“. Tipo um egoísmo altruísta, sabe?

Espero voltar ano que vem com mais (no mínimo) uma lição aprendida 🙂

Há flores em tudo que eu vejo

(ATENÇAO: overdose de fotos porque fiquei orgulhosa, ok?! Malzaê pelos 9173 minutos que vai levar pra carregar)

Eu sempre tive o maior fascínio por campos de lavanda. Aquele lilás a perder de vista, e o imaginário do cheirinho de lavanda no ar, sempre me fascinaram. Aquela imagem mental de guia de viagem da França, sabe?

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Essa imagem morava no mesmo lugar da minha mente que os ciprestes da Toscana e os campos de tulipas da Holanda, ambos desejos antigos que sou muito, muito grata por já ter realizado. Eu tinha certeza que, se um dia na vida fosse à Provence, seria na primavera, e planejaria a viagem toda em torno do cronograma de floração das lavandas. Só que, ao mesmo tempo, não é uma viagem em destaque nas minhas prioridades, porque pode ser feita em qualquer época da vida, talvez até melhor numa vibe mais slow travel, então enquanto o orçamento e o tempo são limitados (#otimista), vou pensando naquelas que exigem mais energia ou menos tempo/dinheiro. Mas sempre com aquela imagem mental em 3D com cheiro de lavanda!

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Até que, ano passado, vários brasileiros que eu sigo aqui em Londres foram ao Mayfield Lavender Farm, uma fazenda de lavanda orgânica no sul de Londres. Matar uma vontade antiga com menos tempo e menos dinheiro envolvidos? PRESENTE!

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Aí umas semanas atrás falei com a Helena e o Léo, uns QUIRIDUX de Floripa que se mudaram pra cá na mesma época que eu e o Alex. Eu sabia que esse era um programa perfeito pra amantes de fotografia, e eles toparam na hora. Chegou o fim de semana que tínhamos combinado. No sábado à noite, todas, TO-DAS as etapas do meu vôo de volta de Paris atrasaram. Cheguei em casa ligada no 220, não conseguia dormir por nada, mas às 7 da manhã do domingo, acordei num pulo: SOL!!!

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Às vezes até eu me surpreendo com a minha disposição, mas a verdade é que eu adoro os efeitos da imprevisibilidade do tempo aqui na Inglaterra. Fez sol? Fez calor? VAMOS PRA RUA, mermão, porque pode acabar amanhã mesmo! Acho isso um ótimo exercício pra vida. Afinal de contas, tudo pode –mesmo– acabar amanhã mesmo. Né?!

Chegamos cedo, mas naquele deslumbre de fotografar, fotografar, fotografar, já nos agachamos com nossas câmeras (e narizes inebriados de lavanda) no meio das 1038 abelhas que estavam fazendo a festa por lá, e ficamos por ali mesmo, rindo horrores das tentativas frustradas de fotografar as bumble bees, as abelhas peludinhas que parecem de desenho animado.

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Eis que, um tempão depois, descobrimos que tinha uma outra metade do campo lá pra cima que estava BEM mais cheia e viçosa!! Os donos são espertos e seguem a lógica do Keukenhof, de plantar as mudas em tempos diferentes pra que sempre haja arbustos no auge da floração desde julho até setembro, que é a epoca da lavanda aqui na Inglaterra.

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Verdade seja dita, o campo é praticamente uma versão lavandística do Keukenhof, porque mesmo que a gente chegue cedo, num domingo de sol, é im-pos-sí-vel tê-lo pra você mesmo, e ele é pequeno demais pra que a gente se perca por lá e fique totalmente circundado por lavandas em flor, daquele jeito que só o Plateau de Valensole faz por você. Então é tudo uma questão de perspectiva (#comotudonavida) e você só teria noção real do lugar se forçasse todo mundo a tirar fotos de ângulo aberto, da altura do olho.

Essa foto aqui embaixo eu tirei agachada, na altura das lavandas, e se tivesse tirado do alto dos meus 1.74m de altura, vocês veriam que tinha um bando de turistas asiáticos que praticamente montou acampamento por ali, apesar de estar explicitado no site que fazer piqueniques no campo não é mais permitido.

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A sorte é que, na vida, ninguém é forçado a só tirar fotos de ângulo aberto, da altura dos olhos! Às vezes você precisa se agachar, dar zoom, se esconder atrás de um arbusto, esperar o sol aparecer, esperar as pessoas saírem do seu enquadramento, mas a beleza está sempre ali, pronta pra se revelar pra quem espera e procura. Às vezes, não existe beleza clássica, porque a vida é cruel e injusta, mas o meu fotógrafo preferido ganhou a vida e ganhou o mundo mostrando que até no sofrimento existe beleza. Uma beleza melancólica, triste, de coração partido, mas que não deixa de ser bela. Que só basta procurar, exercitar a sensibilidade, ter olhos de ver.  E através desse prisma, ele mudou uma vida pra sempre – e muitas, muitas outras no processo, através de uma das iniciativas que eu, na minha humilde opinião, acho que tem maior poder de mudar o mundo: educar e empoderar mulheres para serem o que quiserem ser. E isso tudo com um otimismo realista que é a base do meu ideal de vida.

Não sei, já falei aqui meio superficialmente sobre a minha relação com a internet e mídias sociais, e como amante de fotografia e procuradora da beleza estética em tudo que eu vivo e vejo, eu acho isso muito natural… Não me sinto como se estivesse ludibriando ninguém por mostrar o lado mais bonito, mais poético, mais estético dos lugares aonde vou e da vida que eu levo. Isso existe desde os primórdios da humanidade, o que mudaram são os meios!

Os românticos sempre pintaram, retrataram, versaram sobre o mundo melhor do que ele é. Isso não quer dizer que são mais felizes do que os realistas, os niilistas ou quaisquer outros istas. Simplesmente escolhem ver o mundo com as lentes do otimismo. E que, irremediáveis como são, insistem em ver beleza até na tristeza.

“Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

(…)

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não”

Samba da Bênção, Vinicius de Moraes

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Enfim, não sei se é a Gabi médica que vê diariamente o quanto a vida é breve, ou se é a Gabi fotógrafa que sabe que as melhores composições são aquelas que a gente se contorce, se abaixa, procura ativamente e portanto tem aquela sensação de merecimento, mas o fato é que eu curto o exercício de procurar beleza, de procurar o lado bom. Nem sempre funciona. Nem sempre o botãozinho Pollyana está ligado, e sinceramente? Quem me conhece de fato sabe muito bem disso!

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Mas, as far as philosophies of life go, essa é a minha!

“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
Pertece ao seu tempo
-Entrai,irmãos meus!”

Poética II, Vinicius de Moraes

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Always a good idea

Uma das citações mais velha conhecida dos apaixonados por viajar – justamente por ser tão, TAO verdadeira – é o trecho de Viagem a Portugal, do Saramago:

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”

Essa última parte, pra mim, é a mais real. Voltar a lugares marcantes é sempre uma experiência de auto-conhecimento, e de uma certa forma sempre um recomeço. A gente se lembra das outras vezes que esteve lá, das primeiras impressões, mas principalmente de quem a gente era em cada uma dessas vezes.

Os posts que eu mais gosto de escrever são os mais íntimos, mais filosóficos, que envolvem mais reflexão. Infelizmente, são também os que eu mais enrolo pra escrever, porque começo, penso penso penso na vida e quando começo a escrever de fato, é hora de fazer outra coisa, heheheh. Então, por enquanto, basta dizer que desde a última vez que eu estive em Paris há 10 meses pra visitar o meu irmão, praticamente nada aconteceu como eu imaginava, nem para mim, nem para a maioria das pessoas do meu círculo mais próximo. Como a vida, mesmo nas dificuldades, continua sendo muito generosa, estão (estamos!) todos nos encaminhando, e mais fortes do que antes.

Então quando surgiu a chance de passar um fim de semana com uma das minhas melhores amigas da vida e o marido querido dela em Paris, fiz questão de não deixar passar! Saí de uma das rodadas de plantões noturnos mais brutais que já fiz desde que comecei a trabalhar aqui, dormi uma hora e meia, e como raios eu dei conta da minha listinha de afazeres pré-viagem em uma hora e meia antes de sair de casa, até agora eu não sei. Mas sei que entrei no trem pro aeroporto em alfa, devidamente envolvida pela trilha sonora de Amelie Poulain e morrendo de alegria por estar viajando de novo depois de quase dois meses.

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Mais tarde nesse mesmo dia, nos demos conta de que a nossa amizade já tem 10 anos – uma amizade que nasceu puramente do “santo que bate” numa aula de dança que fazíamos juntas! E nesses 10 anos, já acompanhamos várias fases da vida uma da outra, e nos últimos deles, tive o prazer de conviver com o Murilo, que é uma pessoa tão maravilhosa e que eu admiro tanto quanto a Mah. Então quando cheguei e brindamos com um champagne e comemos uns queijinhos enquanto colocávamos o papo em dia, me senti em casa – no sentido emocional tanto quanto físico – como não me sentia há tempos!

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Seguimos pro rooftop mais badalado de Paris, um pop-up cocktail bar que fica no terraço da loja de departamentos BHV, que por sua vez tem uma localização fenomenal, imediatamente oposta ao Hôtel de Ville. O Le Perchoir Marais foi A descoberta da Marina porque tem simplesmente A MELHOR VISTA da cidade, com direito ao sol se pondo atrás da Torre Eiffel com o Hôtel de Ville em primeiro plano, num ambiente super descontraído e despretensioso. Então bebemos uns drinks, conversamos horrores sobre a vida, conhecemos uns franceses e americanos aleatórios que renderam umas boas risadas, curtimos demais a noite e voltamos pra casa como na época da faculdade – com uma sacola de McDonald’s no colo! Hahahah muito, muito bom mesmo.

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Passamos a sexta-feira flanando pela cidade, começando pela mítica Citypharma, onde mais uma vez morri de dó de não ter sido po$$ível ir de Eurostar dessa vez, porque a variedade de produtos e os preços são bons demais!

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Seguimos em direção à Notre Dame, depois passamos em frente ao Hôtel de Ville onde tava rolando um vôlei de praia que eu achei O MAXIMO, e seguimos para a Paris Plage – a praia temporária que já virou tradição anual à beira do Sena.

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Amei demais o clima veranil na cidade! Nunca tinha visto a beira-rio tão arborizada, e até o próprio rio estava verde! Caminhamos por todo o percurso, batendo papo, até chegarmos ao Museu d’Orsay, que ambas adoramos e que apesar de ser o meu preferido, eu nunca mais tinha voltado desde 2009!

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Almoçamos uma quiche Lorraine maravilhosa no café dos Irmãos Campana, admiramos a vista linda da cidade que se tem a partir do terraço do museu, e seguimos para o famosérrimo relógio que proporciona um jogo de luz e sombra de levar qualquer amante de fotografia à loucura! Depois, claro, curtimos o pièce de résistance do museu: a ala impressionista. Lembro exatamente de ficar hipnotizada ao ver uma professora ensinando seus pupilos de uns 5, 6 anos, todos sentadinhos embaixo de uma das telas mais famosas de Monet. Vou colocar a foto aqui embaixo se tiver paciência de ir catar uma foto de mil anos atrás!

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Seguimos pra Montmartre pra curtir a vista da cidade ao por do sol e jantar no clima boêmio do bairro, apesar de que nenhum de nós queria nem uma gota de álcool, hahaha.

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E no sábado, começamos pelo Museu Rodin, que eu nunca tinha visitado e adorei. Tive um momento quase surreal quando chegamos em frente à Porta do Inferno, que é inspirada na primeira seção da Divina Comédia de Dante Alighieri, O Inferno. Meu avô materno, falecido há quase dois anos, tinha uma cópia grandona desse livro que ficava na parte mais baixa do guarda roupa dele, bem na altura de uma criança de 6,7 anos. Eis que eu tinha um fascínio por aquele livrão enorme (nem deve ser tão grande, mas na época eu achava enorme!) e não sei até que ponto eu posso estar imaginando ou de fato são lembranças, mas eu lembro nitidamente de abrir o livro e nas primeiras páginas ter uma ilustração parecidíssima com a obra de Rodin. Até queria voltar e ver o livro, pra ver qual é, mas achei muito legal como, independente da acurácia da minha memória, aquela obra de arte me teletransportou imediatamente pro quarto dos meus avós, 20 anos atrás!

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Depois dali, fomos a outro museu que eu queria muito visitar: o Musée de l’Orangerie. Outra experiência emocionante. Nem sequer me lembro quando surgiu o meu interesse pela obra de Monet, lembro vagamente das aulas de arte no colégio, do primeiro quadro dele, Impression: soleil levant, cujo nome nunca mais me esqueci, e só sei mesmo que apesar de não ser uma pessoa entendida de arte, minha época preferida sempre foi o Impressionismo. Então de repente me ver numa sala branca, minimalista, iluminada de um jeito etéreo que difunde a luz do dia que entra pela clarabóia, totalmente envolta pelos painéis das famosas ninféias (Nenúfares, em português). Por sorte, o museu estava super vazio, então pudemos sentar e admirar um pouquinho sem que milhares de pessoas tirassem a aura especial do momento.

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Outra coisa sensacional foi que tinha um parque de diversões no Jardin des Tuilleries com um desses air swings sabe, tipo o famoso do parque Tivoli na Dinamarca? Eu tinha aquela imagem mental de um negócio que aplica uma força centrífuga ferrenha na pessoa lá no alto, sem nenhuma proteção, só numa cadeirinha de metal – ou seja, MEDO. Mas na verdade esse é bem menor, e é um jeito sensacional de ver Paris do alto, rodando em alta velocidade, hehehehe.

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Depois encontramos o Murilo na Champs Élysées e fomos visitar a nave-mãe, onde ganhamos uma maquiagem digrátis, então aproveitamos e pedimos uma aulinha de contorno.

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Aí seguimos para as imediações da torre pra almoçar num restaurante EXCELENTE que eles conheciam, o Les Cocottes do chef Christian Constant, que é o bistrô com preços mais acessíveis do que seus restaurantes estrelados.

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Demos mais uma passeada nas imediações da torre, passamos em casa pra buscar minhas malas e eles ainda fizeram a super gentileza de me levar pro aeroporto, com um papo super legal no caminho. Voltei pra casa de alma leve e energia renovada!

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Culinária Eslovena: o ouro!

Deixei a melhor parte por último, e hoje vim registrar a melhor experiência gastronômica que tivemos em Ljubljana e certamente uma das melhores da minha -até agora- breve existência (#jovem hahahah)

Como falei no post sobre o mercado de rua Odprta Kuhna, ficamos muito impressionadas com a qualidade de um dos estandes e consequentemente curiosíssimas a respeito do restaurante pai do estande, o JB Restavracija. O guri me deu um cartão, que guardei na bolsa e não pensei mais no assunto.

Quando chegamos em casa no fim do dia, com pressa de tomar banho e trocar de roupa a tempo de uns drinks pré-jantar ao por do sol no melhor rooftop da cidade, demos aquela olhada rápida no site do JB e de um outro lugar que estávamos de olho, o Gostilna As. Ambos tinham a mesma pegada culinaria eslovena meets alta gastronomia, sabe?! Estávamos super na dúvida e resolvemos ligar no Gostilna As primeiro – que, por sorte, não tinha mais reserva naquela noite! Liguei no JB já meio desesperançosa, afinal era sexta feira já no fim do dia, mas pra minha surpresa, o atendente confirmou nossa reserva e fomos felizes curtir nosso por do sol.

Nessa hora, vale lembrar que não tinhamos lido mil coisas nem explorado direito os sites nem os menus. Marcamos na pressa de quem tá turistando, achando que seria um restaurante bacaninha e bombado, sabendo que seria o jantar mais especial dessa viagem mas tipo… achamos que era mais um dos melhores restaurantes de Ljubljana, sabe?

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Chegando lá, quando nos receberam com pompa, circunstância e um prosecco rosé geladinho, caiu a ficha de que estávamos em um restaurante exclusivo. Poucas mesas, serviço impecável com vários garçons 100% atentos aos teus menores movimentos pra atender imediatamente, com aquela formalidade e deferência que deixam claro que você não está prestes a jantar – você está prestes a ter uma experiência gastronômica que foi pensada nos mínimos detalhes para deixar um marco na sua memória.


Logo na entrada, percebemos a quantidade de placas de prêmios que o chef já recebeu, inclusive o prêmio de um dos melhores 100 restaurantes do mundo pela revista Restaurant. E pensar que até uma hora antes, estávamos tentando reservar outro restaurante!!!

Resolvemos pedir o menu degustação na sua versão mais simples, e na hora que abrimos o cardápio…

Pera… BEAR thigh?

Não gurias, certamente é um erro de digitação, deve ser BOAR, wild boar é javali.

  • Moço, esse prato é carne de javali?
  • Não não, de urso.
  • DE URSO? Como assim?
  • É, de urso, (e apontou pra própria coxa), da coxa do urso.
  • Mas daonde vem o urso?

Nessa hora ele sorriu e gesticulou preguiçosamente em direção aos Alpes:

  • Da floresta!
  • Mas é permitido, é LEGAL comer carne de urso? – pausa para a espontaneidade da criatura que pergunta na cara dura em (supostamente) um dos 100 melhores restaurantes do mundo se estão servindo um prato ILEGAL.
  • Sim, claro, a caça de ursos é legalizada aqui na Eslovênia. E a carne é muito boa.

Sorri e agradeci pela resposta, e enfiei a cara no cardápio de novo.

Ficamos nos olhando uns minutinhos, naquele debate ético, pensando que nunca tinhamos aprendido que havia ursos na Europa central, muito menos ouvido falar em ninguém comendo a carne deles.

Olha, não vou ficar me justificando aqui, confesso que racionalizo totalmente os meus motivos para comer carne animal, porque amo o sabor e sou carnívora mesmo. Acredito na necessidade de proteína animal no desenvolvimento e manutenção do corpo humano e já assisti documentários de história natural demais pra duvidar da lógica que um dia a gente é caça, e outro o caçador (#fabiojrfeelings). Cansei de morrer de pena do bicho sendo caçado pra depois ver que a loba caçando os filhotes dos outros tava voltando pra casa de patas abanando pros próprios filhotes que estavam prestes a morrer desnutridos, e ver os papéis se invertendo de novo e de novo. Mas mesmo assim, nunca assisti a documentários pró-vegetarianismo e sei que só consigo continuar comendo porque desvinculo totalmente a imagem do animal da imagem da carne na geladeira ou no prato. E sigo mais ou menos a lógica de Sir David Attenborough, meu herói em vários aspectos, inclusive no que diz respeito à nossa relação com a natureza:

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Então nessa hora confesso que fui simplista e egoísta, pensando que provavelmente nunca mais teria essa oportunidade a não ser que um dia vá pro Alaska, e resolvi pedir o menu como estava, ao invés de trocar meu prato principal como fizeram as minhas amigas.

E aí começou um desfile de maravilhas que não dá nem pra explicar direito. Um couvert de creme de aspargos com caviar, seguido de um sashimi de atum do Adriático com wasabi e gengibre…

Seguido de ravióli recheado com queijo cottage e pistache acompanhado de foie gras, e ele, o prato principal: coxa de urso ensopada em molho de alho preto, com “štruklji” de cebolinha e creme de cranberry.

Maciiiia, as fibras de desfaziam sabe, não precisava nem cortar, só afastar com o garfo. Meio adocicada, me lembrou bastante o gosto de carne de veado (venison). Bem diferente mesmo, mas como falei pras meninas no dia, acho que muito do mérito era do molho que era divino.

Depois descobri, conversando com um local super simpático no ônibus de Bled pra Bohinj, que a população de ursos na Eslovênia e no norte da Croácia é monitorada e regulada, que se permite abater 10 a 15% deles na caça e que isso é estudado por biólogos – alguns defendendo que depois dessa estratégia ser implementada a população de ursos tem até crescido, já que antes da legalização da caça, podia-se abater ursos em situações de “conflito homem-urso”, dando margem pra transgressões e exageros como desculpa para dizimar grandes números e afetar a sustentabilidade da espécie. E que só se permite a caça quando a população excede um determinado limiar considerado seguro. Tanto é que nas 4 semanas desde que estivemos lá, o menu degustação já mudou e não inclui mais esse prato.

Enfim, pra completar a noite, a sobremesa foi O MELHOR bolinho de chocolate da minha vida (eles não chamavam de petit gateau, mas obviamente não fotografei o menu lá no dia, então não lembro o nome oficial da sobremesa. Mas era um petit gateau hehehe), imerso num creme de baunilha de chorar no cantinho.

E foi isso! Voltamos pro nosso flat sem nem acreditar na nossa sorte de o outro restaurante estar fechado. Acho que a coisa mais surreal desse jantar foi que, normalmente, quando a pessoa vai a um restaurante desse gabarito, ela já vai com expectativas altíssimas né? Nós não, pelo simples fato de que não sabíamos que o padrão do JB Restavracija era tão alto. Mas uma coisa é fato: o foco, ali, está primariamente na comida. E o resto, por mais milimetricamente planejado e bem-feito que seja, é só o resto!

Culinária Eslovena: a prata

Ljubljana tem muitos restaurantes. Mas assim, MUITOS! Pra uma cidade tão pequena quanto é, tem opção de sobra pra comer bem por lá. Logo no primeiro dia, uma procura rápida me deixou super impressionada, e pensei na hora na sorte de quem mora por lá, que tem o sossego de uma cidade pequena com a vantagem de muitas opções culinárias!

Como as minhas amigas viriam da Áustria e da Alemanha, ambas de saco cheio da culinária altamente batatônica, salsichônica e cheia de sustança, já tratei de matar minha vontade justamente disso antes que elas chegassem!

Como contei no outro post, pedi pra mãe do dono do nosso flat me indicar um bom restaurante de comida eslovena, e achei um sarro quando ela apontou no mapa imediatamente para o restaurante na próxima esquina, dizendo: “Esse aqui ó. NAO ESSE. Esse”. Fiquei me perguntando qual era a do restaurante que ela desrecomendou, hehehehe.

Mas óbvio que fui na recomendação. Era o Gostilna Šestica, que por coincidência ou não, eu tinha marcado no meu guia de viagem porque li as palavras mágicas goulash com polenta. E ainda bem, porque é daqueles restaurantes com um menu giganteeeesco sabe? Jamais teria visto a polenta lá, acho! O restaurante é o mais antigo de Ljubljana, costumava ser uma pousada antigamente, acho que lá por 1700 e lá vai pedrada, e tem toda aquela vibe amarela, semi-escura, aconchegante, com garçom de bochecha cor de rosa que me lembrou imediatamente a Bavária, hahahah. Matei a saudade de polenta, matei a saudade de goulash, tomei uma tacinha de vinho e paguei módicos DEZ EUROS.

A via gastronômica de Ljubljana é a Cankarjevo nabrežje. Sabe aquele clima de beira-mar, onde todos os restaurantes têm mesas na calçada, com guarda-sóis, pra pessoa ficar ali curtindo o clima? Então.

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Depois que a Cris chegou, na nossa primeira noite lá, escolhemos o Zlata Ribica mesmo sem indicação nem grandes recomendações porque queríamos justamente isso: um jantar tranquilo na beira do rio pra colocar a conversa em dia e curtir um vinhozinho despretensioso. E foi isso que tivemos. Comemos bem, fomos bem atendidas, mas nada de espetacular, e o preço era o que se espera de um restaurante em localização nobre do centro turístico de uma capital européia: meio inflacionadinho.

Na sexta, fomos curtir uns drinks pré-jantar e um por do sol com vista no Nebotičnik, um rooftop que fica no prédio mais alto de Ljubljana, que nem é tão alto assim, mas tem esse nome porque foi construído nos anos 30 e era, na época, o prédio mais alto da Iugoslávia. Sempre acho que subir no ponto turístico mais alto de uma cidade não é necessariamente uma grande vantagem, porque aí você deixa de ter o próprio como parte da vista! Então eu diria que a vista do Nebotičnik é a melhor de Ljubljana justamente por isso. Olha só:

Nosso jantar de sexta acabou sendo num restaurante que merece um post à parte, que será o próximo, mas o de sábado foi no Gostilna na Gradu, que significa literalmente bistrô no castelo e fica no pátio do Ljubljanski Grad, o castelo de Ljubljana.

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Esse era outro dos meus asteriscos no guia de viagem, porque também tem um foco grande em culinária eslovena contemporânea, apesar de ter vários pratos bem internacionais e palatáveis pra quem não quer nada muito diferente. 

Isso por si só já bastaria pra chamar a nossa atenção, mas tem uma cereja nesse bolo: o restaurante é lindo, logo abaixo da torre do relógio do castelo, e com os dias longos da primavera européia, eu sabia que ia ser uma blue hour fenomenal – e realmente ficamos horas batendo papo na nossa mesinha no pátio, falando da vida até praticamente fecharmos o restaurante. Encerrou com chave de ouro nossa estadia em Ljubljana!



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Um PS valido é a sorveteria Cacao, porque sorvete italiano sempre será um PS válido ne?!

Culinária Eslovena: o bronze

Uma das primeiras coisas que eu me surpreendi ao ler sobre a Eslovênia foi que é um destino super foodie, com boa comida a preços justos, e uma onda de alta gastronomia tomando conta de Ljubljana. Pra completar, o país é grande produtor de presunto cru, de um tipo próprio de salame defumado (kranjska klobasa) e de trufas, ou seja: é lóooogico que come-se muito bem por lá!

O vinho eu já sabia que era de respeito, porque um amigo do Alex é importador de vinhos aqui na Inglaterra e foi zoado pela turma de amigos inteira quando anunciou que estava fazendo negócios com produtores eslovenos uns 5 anos atrás – mas a verdade é que a gente não ouve falar mais neles porque a imensa maioria da produção eslovena fica dentro do próprio país, eles adoram os vinhos locais e pouca coisa vai pra exportação justamente porque o mercado interno dá conta de quase tudo.

Eu nem me considero muito foodie e, quando viajo, só dou uma pesquisada em restaurantes por um outro ângulo: sempre procuro provar a culinária típica, experimentar coisas novas, mas nunca fiz questão de alta gastronomia (até pq né, £££) e muito menos reservei restaurantes antes de ir viajar. Meu Lonely Planet, então, foi marcado com três asteriscos: dois deles pela comida típica, e um deles pela vista.

Mas antes de falar de restaurantes específicos, quero falar do mercado de comida de rua mais alto padrão que eu já vi na vida:

Odprta Kuhna significa literalmente cozinha aberta, e é exatamente isso que ele é: uma grande cozinha aberta, na forma de estandes, aos pés da Catedral de São Nicolau, na praça Pogačarjev trg todas as sextas feiras de sol, da primavera ao outono, das 10 da manhã às 9 da noite.


 Olha, Londres é muito bem servida de excelentes mercados de rua, obrigada, mas esse me deixou de queixo caído pela infra-estrutura, qualidade e conforto que oferece. Não só as comidas são todas feitas na hora, como é de praxe nesses mercados, como os estandes são estáveis, espaçosos e bem organizados, os vendedores vendem vinho e espumante geladinho em taças de vidro pra você degustar em mesas de madeira estilo biergarten ou – pra quem curte uma vibe de índio que nem eu – sentar num tapetinho nos degraus da praça com um mini-aparador de madeira pras taças e pratos de comida. Mas ainda não é isso a estrela principal. 

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A estrela principal é, logicamente, a comida! Tem pra todos os gostos: turco, japonês, indiano, chinês, italiano, steak argentino… mas obviamente, vinho branco e rosé geladinho em mãos, fomos inspecionando todos os estandes eslovenos que encontramos!


A primeira escolha foi žlikrofi, que é tipo um tortellini esloveno cujo recheio, ao invés da proteína habitual dos italianos, é batata. Não falei que eles são uma mistura da Itália com a Áustria? Pois bem, esse prato é uma boa ilustração de quando a pasta italiana encontra o lado batatólatra dos germânicos. Eles servem os žlikrofi com molhos variados, e a nossa escolha foi o de trufas.


Depois, enquanto a Cris foi direto na mais alta gastronomia eslovena, eu fui direto na baixa gastronomia, e aí experimentamos os pratos uma da outra:

Ela parou vidrada no estande que tinha os pratos mais bonitos e bem apresentados do mercado, o JB, e pediu um filé de salmão em crosta de [inserir aqui nome do ingrediente que eu não registrei mentalmente nem fotografei pra lembrar]. 😂


E eu fui de pljeskavica, que nada mais é do que um hambúrguer feito de uma mistura de carne bovina, suína e de cordeiro, cortadinho em tiras e servido num flatbread tipo pita, e no meu caso, com um molho bem apimentadinho de pimentões assados chamado ajvar. É um prato balcânico, típico não só da Eslovênia mas de vários outros países da região, incluindo a Sérvia, a Bósnia e a Croácia.


O meu tava ok, mas ficamos muuuuito de cara com a qualidade do prato da Cris, então na hora de devolver a taça de vinho, soltei pro guri do balcão:

— Obrigada moço, tava ótimo. Vocês têm alguma recomendação de restaurante pra gente jantar hoje à noite?

A cara de espanto e ponto de interrogação que ele fez foi IM-PA-GA-VEL, antes de controlar a surpresa e responder com toda a educação:

— Ãhmmm…. o nosso?!

HAHAHAHA gente!!! Eu não tinha me dado conta que ali, diferente do que acontece aqui em Londres, a imensa maioria dos vendedores nesse mercado de rua são na verdade restaurantes conhecidos na cidade que usam o Odprta Kuhna como vitrine do seu trabalho, pra angariar clientes! Colocam uns dois ou três chefs junior lá, com um menu limitado a 2 ou 3 pratos a preços bem camaradas, pra ter exatamente o efeito que o JB Restavracija teve sobre nós. Pois bem. Aceitei o cartão que o moço me deu, notando que o restaurante ficava bem perto do nosso flat, e continuamos turistando. E o resto é história, que eu volto pra contar mais adiante!

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Bohinj

Enquanto eu planejava a nossa viagem pra Eslovênia, acabei caindo na foto de um lugar lindo no coração dos Alpes Julianos, que já encheu minha imaginação de idéias depois que o Alex me apresentou, com toda a pompa e circunstância no ano passado, a cultura do BADESEE (lagos de banho em alemão, em maiúscula – pq alemão na minha mente é sempre em maiúsculas hahahah – que tiraram de mim qualquer resquício de comiseração do tipo “ah coitadinhos dos bávaros e dos austríacos, eles estão tão longe da praia!”). Agora só quero saber de lagos alpinos! Quanto mais, melhor!

Mas assim que vi no mapa, eu sabia que o lago Jasna, da tal da foto, ficaria muito contramão pra nós, já que inicialmente eu vendi pras gurias a idéia de um bate e volta de Ljubljana pra Bled e só – então eu teria que planejar qualquer extra com cuidado pra não esticar a boa vontade delas muito longe!

Então continuei investigando maneiras de conhecer o Parque Nacional do Triglav (fala Triglau), o maior parque nacional esloveno. Eu já tinha lido sobre o monte Triglav, o pico dos Alpes Julianos e maior montanha da Eslovênia. Então quando descobri que tinha um jeito fácil de conhecer outro lago alpino, mais bucólico, autêntico e intocado do que Bled, que ficava no meio do parque Triglav e bem mais conveniente de visitar do que o Jasna, eu me joguei nas investigações!

Descobri que podíamos facilmente ir de Bled para Bohinj de ônibus, e depois comprar uma passagem de Bohinj até Ljubljana. Calculei pra ficarmos mais ou menos 4 horas em Bled e 3 em Bohinj, e propus pras meninas, já mostrando as fotos e fazendo aquela propaganda esperta, porque nessa altura do campeonato eu queria muito ir e não sei o que faria se elas disessem que preferiam passar o dia todo em Bled, heheheh.

Pois bem. Esperamos o busna no horário certo em Bled, que atrasou um pouquinho, e quando chegou, conseguimos sentar bem na frente, com vista panorâmica da viagem. A Cris e a Amanda sentaram juntas de um lado, e eu sentei do lado de uma mulher de uns 50 anos que não tinha a menor pinta de turista. Perguntei de onde ela era, e quando ela contou que era de Bohinj, não escondi minha empolgação! Aí já perguntei o que era mais bonito na cidade, se tinha alguma coisa imperdível pra fazer lá, e nisso o cara que tava sentado atrás da gente já entrou na conversa e começou a me contar sobre a região, que tem uma cachoeira linda aqui, trilhas de bike maravilhosas lá e assim por diante. Aproveitei pra perguntar coisas básicas tipo como se fala Bohinj direito em esloveno (é Bohin, o primeiro J mudo na minha história), qual a diferença entre restauracija e gostilna, e curti o maior papo com os dois eslovenos (que gente simpática e querida!!!) a viagem toda, hehehe.

Descemos em Bohinj já aprovando a decisão de ir: é um vilarejo alpino que parece saído de uma pintura, sabe?

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Vi a torre da igrejinha e comecei a imaginar uma vida medieval por ali. Será que as pessoas ficavam maravilhadas com tanta beleza ou porque nasceram e viveram sempre ali, porque não conheciam um mundo diferente, achavam normal? Será que paravam pra admirar a harmonia estética da paisagem?

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O lago, dramático, profundo, quase como um fiorde no meio dos penhascos, parecia saído de uma cena de O Senhor dos Anéis.

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Toda a atmosfera que Bled tem de balneário turístico, de hotéis com lençóis de algodão egípcio, Bohinj tem de vilarejo despretensioso, intocado, autêntico sabe? Essa foto aí de cima eu tirei sentada numas pedrinhas na beira do lago, onde paramos pra bater papo e curtir a sombra, enquanto à nossa direita um casal de eslovenos curtia um “dia de praia” com a filhinha de uns 4 anos. Não duvido que comece a ser mais explorado turisticamente num futuro próximo, mas como disse o meu amigo esloveno do busão, “espero que a gente consiga preservar nossas riquezas”.

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Obviamente não resisti a botar os pés na água cristalina (e GELAAAADA!).

E ficamos ali, admirando a paisagem, curtindo a sombra e o canto dos pássaros, alternando um estado de silêncio contemplativo (e exausto de sol e calor) e tentativas de captar a beleza do lugar em fotos.


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E eu sabia mesmo enquanto fotografava que, por melhores que fossem as fotos, elas não chegariam aos pés do quão escandalosamente linda Bohinj é. Fiquei realmente muito impressionada!

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Bled

Não é à toa que Bled estampa, com orgulho, a capa da maioria dos guias de viagem da Eslovênia. Quem, em sã consciência, desperdiçaria a oportunidade de vender um país através de um lago alpino de águas cristalinas rodeado por picos nevados, com direito a um castelo no penhasco e uma ilhota no meio com uma igrejinha pitoresca?


Chegamos em Bled num sábado ensolarado e assim que saímos do ônibus já sentimos o clima de balneário, quase dava pra sentir o cheiro de protetor solar, as pessoas passeando de chinelo na beira do lago, com aquela vibe relaxada de quem levantou, tomou seu café da manhã de frutas e croissants no hotel com vista pro lago, e resolveu dar uma caminhadinha pra assentar a comilança.

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Quando chegamos na beira do lago, eu não conseguia acreditar no que via. Tinha uma imagem mental da ilhota com a igrejinha, que é marketeada como o grande atrativo de Bled, mas confesso que achei a ilhota totalmente secundária e o que mais me impressionou e deixou boquiaberta foi o restante da paisagem. Como podia um lugar superar tanto as minhas expectativas?

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Os cisnes no lago, com o castelo pendurado no penhasco atrás. A torre pontiaguda da igrejinha, contraposta aos picos nevados. O verde intenso da água e das árvores, contrastando com o azul de um céu quase sem nuvens.

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Sabe aquele lugar que te dá vontade de passar uns dias, só de preguiça, levantando cedo numa cama de edredom branquinho, pra tomar um chá admirando a paisagem no silêncio total de quando todo mundo ainda tá dormindo? E depois ler um livro na sombra, e depois fazer um piquenique na beira do lago?

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Pra completar nossa felicidade, aquele era o dia da “abertura da temporada”, e além de um cara lendário anunciando as atividades do dia sem parar um megafone primeiro em esloveno, depois em inglês, depois em italiano e depois em alemão (sonho em falar 5 línguas até os 50 anos!), tinha também uma feirinha ao ar livre com tudo que há de melhor nesse mundo culinário: vinhos, queijos, salames, pães e doces italianos.


Chegamos lá às 9 da manhã, então fomos direto na barraquinha dos doces italianos e pude matar a saudade de falar italiano. Compramos várias bombas açucaradas pra complementar nosso café da manhã e fomos passear em volta do lago.

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O entorno todo tem 6km, mas ao invés de completarmos, fizemos a parte mais cenográfica e depois tivemos a brilhante idéia de voltar a tempo de comprar queijos, salames e vinhos pra almoçar por ali mesmo antes de seguir viagem para Bohinj. Isso coincidiu com a hora em que começaram a chegar ônibus e mais ônibus cheios de turistas, então tivemos certeza que chegar lá cedo foi a melhor coisa que fizemos, porque praticamente tivemos o vilarejo só pra nós por quase duas horas! Quando voltamos, a feirinha já estava bombando!

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Pra quem gosta de viajar mais devagar, acho que se hospedar por uma ou duas noites em Bled deve ser muito legal, especialmente pra quem gosta de atividades ao ar livre. Existem milhares de trilhas por ali, que eu acho que devem ser lindíssimas e bem tranquilas de fazer.

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Outro atrativo é ir até a ilhota no centro do lago. Eu tava bem afim de alugar um barquinho e ir remando até lá, mas as gurias não tavam muito nessa vibe semi-atlética e no fim das contas achei que íamos gastar muito tempo pegando um barco de passageiros até lá, sendo que todas concordamos que a igreja da ilhota não devia ser exatamente uma Capela Sistiiina assim e que mais valia um dolce far niente com um vinho branco geladinho, curtindo os 20 e poucos graus e admirando a paisagem, hahaha.

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Ir até lá como um bate e volta de Ljubljana foi muito fácil. Tem ônibus de hora em hora partindo da Avtobusna Postaja, a rodoviária central, e custa módicos 6.30 euros cada perna. A viagem dura aproximadamente 1h15min. Uma coisa importante que eu notei é a importância de evitar voltar pelas 17, 18h porque os ônibus de volta pra Ljubljana partem de muito antes e quando chegam em Bled ficam abarrotados de turistas, então se não tiver muita sorte, a pessoa pode ter que fazer a escolha de Sofia de esperar pelo próximo ônibus (dali a uma hora…..) ou ir em pé! Como só fiz um gol atrás do outro nessa viagem #modesta, nós combinamos a ida a Bled com Bohinj, e portanto voltamos confortavelmente sentadinhas desde lá 🙂

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