Culinária Eslovena: o ouro!

Deixei a melhor parte por último, e hoje vim registrar a melhor experiência gastronômica que tivemos em Ljubljana e certamente uma das melhores da minha -até agora- breve existência (#jovem hahahah)

Como falei no post sobre o mercado de rua Odprta Kuhna, ficamos muito impressionadas com a qualidade de um dos estandes e consequentemente curiosíssimas a respeito do restaurante pai do estande, o JB Restavracija. O guri me deu um cartão, que guardei na bolsa e não pensei mais no assunto.

Quando chegamos em casa no fim do dia, com pressa de tomar banho e trocar de roupa a tempo de uns drinks pré-jantar ao por do sol no melhor rooftop da cidade, demos aquela olhada rápida no site do JB e de um outro lugar que estávamos de olho, o Gostilna As. Ambos tinham a mesma pegada culinaria eslovena meets alta gastronomia, sabe?! Estávamos super na dúvida e resolvemos ligar no Gostilna As primeiro – que, por sorte, não tinha mais reserva naquela noite! Liguei no JB já meio desesperançosa, afinal era sexta feira já no fim do dia, mas pra minha surpresa, o atendente confirmou nossa reserva e fomos felizes curtir nosso por do sol.

Nessa hora, vale lembrar que não tinhamos lido mil coisas nem explorado direito os sites nem os menus. Marcamos na pressa de quem tá turistando, achando que seria um restaurante bacaninha e bombado, sabendo que seria o jantar mais especial dessa viagem mas tipo… achamos que era mais um dos melhores restaurantes de Ljubljana, sabe?

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Chegando lá, quando nos receberam com pompa, circunstância e um prosecco rosé geladinho, caiu a ficha de que estávamos em um restaurante exclusivo. Poucas mesas, serviço impecável com vários garçons 100% atentos aos teus menores movimentos pra atender imediatamente, com aquela formalidade e deferência que deixam claro que você não está prestes a jantar – você está prestes a ter uma experiência gastronômica que foi pensada nos mínimos detalhes para deixar um marco na sua memória.


Logo na entrada, percebemos a quantidade de placas de prêmios que o chef já recebeu, inclusive o prêmio de um dos melhores 100 restaurantes do mundo pela revista Restaurant. E pensar que até uma hora antes, estávamos tentando reservar outro restaurante!!!

Resolvemos pedir o menu degustação na sua versão mais simples, e na hora que abrimos o cardápio…

Pera… BEAR thigh?

Não gurias, certamente é um erro de digitação, deve ser BOAR, wild boar é javali.

  • Moço, esse prato é carne de javali?
  • Não não, de urso.
  • DE URSO? Como assim?
  • É, de urso, (e apontou pra própria coxa), da coxa do urso.
  • Mas daonde vem o urso?

Nessa hora ele sorriu e gesticulou preguiçosamente em direção aos Alpes:

  • Da floresta!
  • Mas é permitido, é LEGAL comer carne de urso? – pausa para a espontaneidade da criatura que pergunta na cara dura em (supostamente) um dos 100 melhores restaurantes do mundo se estão servindo um prato ILEGAL.
  • Sim, claro, a caça de ursos é legalizada aqui na Eslovênia. E a carne é muito boa.

Sorri e agradeci pela resposta, e enfiei a cara no cardápio de novo.

Ficamos nos olhando uns minutinhos, naquele debate ético, pensando que nunca tinhamos aprendido que havia ursos na Europa central, muito menos ouvido falar em ninguém comendo a carne deles.

Olha, não vou ficar me justificando aqui, confesso que racionalizo totalmente os meus motivos para comer carne animal, porque amo o sabor e sou carnívora mesmo. Acredito na necessidade de proteína animal no desenvolvimento e manutenção do corpo humano e já assisti documentários de história natural demais pra duvidar da lógica que um dia a gente é caça, e outro o caçador (#fabiojrfeelings). Cansei de morrer de pena do bicho sendo caçado pra depois ver que a loba caçando os filhotes dos outros tava voltando pra casa de patas abanando pros próprios filhotes que estavam prestes a morrer desnutridos, e ver os papéis se invertendo de novo e de novo. Mas mesmo assim, nunca assisti a documentários pró-vegetarianismo e sei que só consigo continuar comendo porque desvinculo totalmente a imagem do animal da imagem da carne na geladeira ou no prato. E sigo mais ou menos a lógica de Sir David Attenborough, meu herói em vários aspectos, inclusive no que diz respeito à nossa relação com a natureza:

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Então nessa hora confesso que fui simplista e egoísta, pensando que provavelmente nunca mais teria essa oportunidade a não ser que um dia vá pro Alaska, e resolvi pedir o menu como estava, ao invés de trocar meu prato principal como fizeram as minhas amigas.

E aí começou um desfile de maravilhas que não dá nem pra explicar direito. Um couvert de creme de aspargos com caviar, seguido de um sashimi de atum do Adriático com wasabi e gengibre…

Seguido de ravióli recheado com queijo cottage e pistache acompanhado de foie gras, e ele, o prato principal: coxa de urso ensopada em molho de alho preto, com “štruklji” de cebolinha e creme de cranberry.

Maciiiia, as fibras de desfaziam sabe, não precisava nem cortar, só afastar com o garfo. Meio adocicada, me lembrou bastante o gosto de carne de veado (venison). Bem diferente mesmo, mas como falei pras meninas no dia, acho que muito do mérito era do molho que era divino.

Depois descobri, conversando com um local super simpático no ônibus de Bled pra Bohinj, que a população de ursos na Eslovênia e no norte da Croácia é monitorada e regulada, que se permite abater 10 a 15% deles na caça e que isso é estudado por biólogos – alguns defendendo que depois dessa estratégia ser implementada a população de ursos tem até crescido, já que antes da legalização da caça, podia-se abater ursos em situações de “conflito homem-urso”, dando margem pra transgressões e exageros como desculpa para dizimar grandes números e afetar a sustentabilidade da espécie. E que só se permite a caça quando a população excede um determinado limiar considerado seguro. Tanto é que nas 4 semanas desde que estivemos lá, o menu degustação já mudou e não inclui mais esse prato.

Enfim, pra completar a noite, a sobremesa foi O MELHOR bolinho de chocolate da minha vida (eles não chamavam de petit gateau, mas obviamente não fotografei o menu lá no dia, então não lembro o nome oficial da sobremesa. Mas era um petit gateau hehehe), imerso num creme de baunilha de chorar no cantinho.

E foi isso! Voltamos pro nosso flat sem nem acreditar na nossa sorte de o outro restaurante estar fechado. Acho que a coisa mais surreal desse jantar foi que, normalmente, quando a pessoa vai a um restaurante desse gabarito, ela já vai com expectativas altíssimas né? Nós não, pelo simples fato de que não sabíamos que o padrão do JB Restavracija era tão alto. Mas uma coisa é fato: o foco, ali, está primariamente na comida. E o resto, por mais milimetricamente planejado e bem-feito que seja, é só o resto!

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Culinária Eslovena: a prata

Ljubljana tem muitos restaurantes. Mas assim, MUITOS! Pra uma cidade tão pequena quanto é, tem opção de sobra pra comer bem por lá. Logo no primeiro dia, uma procura rápida me deixou super impressionada, e pensei na hora na sorte de quem mora por lá, que tem o sossego de uma cidade pequena com a vantagem de muitas opções culinárias!

Como as minhas amigas viriam da Áustria e da Alemanha, ambas de saco cheio da culinária altamente batatônica, salsichônica e cheia de sustança, já tratei de matar minha vontade justamente disso antes que elas chegassem!

Como contei no outro post, pedi pra mãe do dono do nosso flat me indicar um bom restaurante de comida eslovena, e achei um sarro quando ela apontou no mapa imediatamente para o restaurante na próxima esquina, dizendo: “Esse aqui ó. NAO ESSE. Esse”. Fiquei me perguntando qual era a do restaurante que ela desrecomendou, hehehehe.

Mas óbvio que fui na recomendação. Era o Gostilna Šestica, que por coincidência ou não, eu tinha marcado no meu guia de viagem porque li as palavras mágicas goulash com polenta. E ainda bem, porque é daqueles restaurantes com um menu giganteeeesco sabe? Jamais teria visto a polenta lá, acho! O restaurante é o mais antigo de Ljubljana, costumava ser uma pousada antigamente, acho que lá por 1700 e lá vai pedrada, e tem toda aquela vibe amarela, semi-escura, aconchegante, com garçom de bochecha cor de rosa que me lembrou imediatamente a Bavária, hahahah. Matei a saudade de polenta, matei a saudade de goulash, tomei uma tacinha de vinho e paguei módicos DEZ EUROS.

A via gastronômica de Ljubljana é a Cankarjevo nabrežje. Sabe aquele clima de beira-mar, onde todos os restaurantes têm mesas na calçada, com guarda-sóis, pra pessoa ficar ali curtindo o clima? Então.

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Depois que a Cris chegou, na nossa primeira noite lá, escolhemos o Zlata Ribica mesmo sem indicação nem grandes recomendações porque queríamos justamente isso: um jantar tranquilo na beira do rio pra colocar a conversa em dia e curtir um vinhozinho despretensioso. E foi isso que tivemos. Comemos bem, fomos bem atendidas, mas nada de espetacular, e o preço era o que se espera de um restaurante em localização nobre do centro turístico de uma capital européia: meio inflacionadinho.

Na sexta, fomos curtir uns drinks pré-jantar e um por do sol com vista no Nebotičnik, um rooftop que fica no prédio mais alto de Ljubljana, que nem é tão alto assim, mas tem esse nome porque foi construído nos anos 30 e era, na época, o prédio mais alto da Iugoslávia. Sempre acho que subir no ponto turístico mais alto de uma cidade não é necessariamente uma grande vantagem, porque aí você deixa de ter o próprio como parte da vista! Então eu diria que a vista do Nebotičnik é a melhor de Ljubljana justamente por isso. Olha só:

Nosso jantar de sexta acabou sendo num restaurante que merece um post à parte, que será o próximo, mas o de sábado foi no Gostilna na Gradu, que significa literalmente bistrô no castelo e fica no pátio do Ljubljanski Grad, o castelo de Ljubljana.

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Esse era outro dos meus asteriscos no guia de viagem, porque também tem um foco grande em culinária eslovena contemporânea, apesar de ter vários pratos bem internacionais e palatáveis pra quem não quer nada muito diferente. 

Isso por si só já bastaria pra chamar a nossa atenção, mas tem uma cereja nesse bolo: o restaurante é lindo, logo abaixo da torre do relógio do castelo, e com os dias longos da primavera européia, eu sabia que ia ser uma blue hour fenomenal – e realmente ficamos horas batendo papo na nossa mesinha no pátio, falando da vida até praticamente fecharmos o restaurante. Encerrou com chave de ouro nossa estadia em Ljubljana!



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Um PS valido é a sorveteria Cacao, porque sorvete italiano sempre será um PS válido ne?!

Culinária Eslovena: o bronze

Uma das primeiras coisas que eu me surpreendi ao ler sobre a Eslovênia foi que é um destino super foodie, com boa comida a preços justos, e uma onda de alta gastronomia tomando conta de Ljubljana. Pra completar, o país é grande produtor de presunto cru, de um tipo próprio de salame defumado (kranjska klobasa) e de trufas, ou seja: é lóooogico que come-se muito bem por lá!

O vinho eu já sabia que era de respeito, porque um amigo do Alex é importador de vinhos aqui na Inglaterra e foi zoado pela turma de amigos inteira quando anunciou que estava fazendo negócios com produtores eslovenos uns 5 anos atrás – mas a verdade é que a gente não ouve falar mais neles porque a imensa maioria da produção eslovena fica dentro do próprio país, eles adoram os vinhos locais e pouca coisa vai pra exportação justamente porque o mercado interno dá conta de quase tudo.

Eu nem me considero muito foodie e, quando viajo, só dou uma pesquisada em restaurantes por um outro ângulo: sempre procuro provar a culinária típica, experimentar coisas novas, mas nunca fiz questão de alta gastronomia (até pq né, £££) e muito menos reservei restaurantes antes de ir viajar. Meu Lonely Planet, então, foi marcado com três asteriscos: dois deles pela comida típica, e um deles pela vista.

Mas antes de falar de restaurantes específicos, quero falar do mercado de comida de rua mais alto padrão que eu já vi na vida:

Odprta Kuhna significa literalmente cozinha aberta, e é exatamente isso que ele é: uma grande cozinha aberta, na forma de estandes, aos pés da Catedral de São Nicolau, na praça Pogačarjev trg todas as sextas feiras de sol, da primavera ao outono, das 10 da manhã às 9 da noite.


 Olha, Londres é muito bem servida de excelentes mercados de rua, obrigada, mas esse me deixou de queixo caído pela infra-estrutura, qualidade e conforto que oferece. Não só as comidas são todas feitas na hora, como é de praxe nesses mercados, como os estandes são estáveis, espaçosos e bem organizados, os vendedores vendem vinho e espumante geladinho em taças de vidro pra você degustar em mesas de madeira estilo biergarten ou – pra quem curte uma vibe de índio que nem eu – sentar num tapetinho nos degraus da praça com um mini-aparador de madeira pras taças e pratos de comida. Mas ainda não é isso a estrela principal. 

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A estrela principal é, logicamente, a comida! Tem pra todos os gostos: turco, japonês, indiano, chinês, italiano, steak argentino… mas obviamente, vinho branco e rosé geladinho em mãos, fomos inspecionando todos os estandes eslovenos que encontramos!


A primeira escolha foi žlikrofi, que é tipo um tortellini esloveno cujo recheio, ao invés da proteína habitual dos italianos, é batata. Não falei que eles são uma mistura da Itália com a Áustria? Pois bem, esse prato é uma boa ilustração de quando a pasta italiana encontra o lado batatólatra dos germânicos. Eles servem os žlikrofi com molhos variados, e a nossa escolha foi o de trufas.


Depois, enquanto a Cris foi direto na mais alta gastronomia eslovena, eu fui direto na baixa gastronomia, e aí experimentamos os pratos uma da outra:

Ela parou vidrada no estande que tinha os pratos mais bonitos e bem apresentados do mercado, o JB, e pediu um filé de salmão em crosta de [inserir aqui nome do ingrediente que eu não registrei mentalmente nem fotografei pra lembrar]. 😂


E eu fui de pljeskavica, que nada mais é do que um hambúrguer feito de uma mistura de carne bovina, suína e de cordeiro, cortadinho em tiras e servido num flatbread tipo pita, e no meu caso, com um molho bem apimentadinho de pimentões assados chamado ajvar. É um prato balcânico, típico não só da Eslovênia mas de vários outros países da região, incluindo a Sérvia, a Bósnia e a Croácia.


O meu tava ok, mas ficamos muuuuito de cara com a qualidade do prato da Cris, então na hora de devolver a taça de vinho, soltei pro guri do balcão:

— Obrigada moço, tava ótimo. Vocês têm alguma recomendação de restaurante pra gente jantar hoje à noite?

A cara de espanto e ponto de interrogação que ele fez foi IM-PA-GA-VEL, antes de controlar a surpresa e responder com toda a educação:

— Ãhmmm…. o nosso?!

HAHAHAHA gente!!! Eu não tinha me dado conta que ali, diferente do que acontece aqui em Londres, a imensa maioria dos vendedores nesse mercado de rua são na verdade restaurantes conhecidos na cidade que usam o Odprta Kuhna como vitrine do seu trabalho, pra angariar clientes! Colocam uns dois ou três chefs junior lá, com um menu limitado a 2 ou 3 pratos a preços bem camaradas, pra ter exatamente o efeito que o JB Restavracija teve sobre nós. Pois bem. Aceitei o cartão que o moço me deu, notando que o restaurante ficava bem perto do nosso flat, e continuamos turistando. E o resto é história, que eu volto pra contar mais adiante!

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Ljubljana

Quando uma amiga me contou no início do ano que passaria dois meses em Graz, na Áustria, a primeiríssima coisa que eu fiz, logicamente, foi ir direto pro SkyScanner. Mas né, não tem vôo direto de Londres pra Graz, então o segundo passo foi abrir um mapa e dar aquela escaneada esperta em destinos que ficassem a menos de 3h de trem pra ela e para os quais eu pudesse voar direto daqui. “Amanda, vamos pra Eslovênia?” “Vamos!”. Chamamos a Cris, uma outra amiga que mora na Alemanha, e marcamos a viagem.

Confesso que nem esperava muita coisa não, sabe? Sabia que Ljubljana era uma cidade pequenininha e pitoresca, sem grandes atrações espetaculares, mas achei isso ótimo, já que nunca tinha viajado com as meninas e ia ser fácil planejar a viagem numa vibe mais slow travel, com tempo pra gente botar a conversa em dia, sem deixar a Gabi ditatorial de viagem aflorar! Hahahah #honestidade

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Como o meu vôo de volta seria matinal por causa dos preços e o domingo seria um dia perdido, resolvi ir na quinta mesmo e fui a primeira a chegar. Alugamos um AirBnB SUPER bem localizado, na rua de trás da principal atração turística da cidade. Cheguei lá num dia ensolarado, com o bom humor que só uma viagem proporciona, e aí rolou uma das coisas que mais derretem o meu coração no mundo.

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Como eu tava chegando ao meio dia e o check-in teoricamente seria só às 16h, mandei mensagem uns dias antes pro dono do flat pedindo se podia pelo menos deixar as malas lá pra turistar em paz. (Calma, um early check-in não é uma das coisas que mais derrete o meu coração não! Já chego lá.). Ele não só me respondeu prontamente, como disse que eu podia fazer o check-in mais cedo sem problemas, mas que como ele estaria trabalhando, seria a mãe dele, que entendia e falava um mínimo de inglês, a me entregar as chaves. Então lá fui eu, só que o interfone não estava funcionando, então liguei pro número dela e expliquei do jeito mais claro possível que estava embaixo do prédio, se ela podia descer por favor.

Eu ADORO essa situação em que duas pessoas que não falam a mesma língua querem muito se entender. Já passei por isso muitas vezes na minha vida: fiz estágio na Áustria sem falar alemão e apesar de a maioria dos anestesistas falarem inglês fluente, a maioria do pessoal não falava; meu namorado conheceu meus pais, que falam um pouco de inglês mas não são fluentes, antes de aprender a falar português fluentemente; no início desse ano passei uns dias com a família da namorada do meu irmão me comunicando com meu francês muito rudimentar. Acho emocionante perceber, de novo e de novo, que quando existe boa vontade, e principalmente quando existe amor, existe entendimento. Claro que não dá pra filosofar sobre a vida, falar sobre política e o futuro do mundo, a interação fica limitada né, mas o olhar e a expressão da gente revelam tanta coisa, que basta isso pra estabelecer uma conexão entre duas pessoas.

E aí achei o máximo que ela foi super simpática, me explicou como funcionavam as coisas do apê e ainda consegui pedir onde encontrar comida típica eslovena de qualidade, antes de me despedir dela e ir explorar a cidade.

Acho que vou falar dos restaurantes num post separado, mas fui direto num restaurante típico que ficava a 5 minutos do flat e saí pra dar aquela caminhada de reconhecimento de área. Nessa altura do campeonato o céu já tinha fechado com aquelas nuvens cinzentonas de tempestade que eu amo, então passei a mão na sombrinha e fui.

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Minha primeira impressão de Ljubljana não poderia ter sido melhor: é parecida com uma das cidades mais queridas do meu coração! É impossível não traçar um paralelo com Salzburg. Uma cidade pequena e barroca, centrada num rio de águas verdinhas do derretimento dos Alpes, com uma igreja de domo de cobre oxidado bem verdinho contraposta a uma fortaleza no monte central da cidade.

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Claro que essa fórmula se aplica a milhares de outras cidades porque é uma fórmula de sucesso na história do mundo – as cidades antigas se formavam sempre centradas no rio por motivos óbvios de subsistência e conveniência, o cobre é usado na arquitetura desde o Egito antigo, na Europa medieval toda cidade tinha uma igreja com domo de cobre, e as fortalezas eram sempre construídas num monte central pra permitir que se avistassem inimigos chegando desde muito longe. Mas a gente faz associações entre aquilo que a gente conhece, e juntando a tudo isso a escala pequena e pitoresca da cidade e a arquitetura barroca, já bastou pra que eu ficasse naturalmente predisposta a adorar a cidade!

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Some-se a isso uma língua que por si só já me diverte e pronto: temos uma pessoa apaixonada! Nunca tinha ido a nenhum país de língua eslava, então passei boa parte do tempo rindo sozinha (ou fazendo piada com as gurias, que por sorte tem um senso de humor parecido, senão não iam me aguentar) dos sufixos deles. Tudo é anska, ilna, anski, usna, ija, anta. A igreja mais famosa da cidade é a Catedral Franciscana da Anunciação, essa cor de salmão aí da foto, e o nome original é Frančiškanska Cerkev Marijinega Oznanjanja. A rodoviária se chama Avtobusna Postaja. Restaurante é restavracija. Ou gostilna, o equivalente de um pub, que historicamente era uma guesthouse mas hoje em dia simplesmente denota um restaurante menos formal.

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Uma coisa que me chamou a atenção na estética da cidade e eu gostei muito é que, apesar de a Eslovênia ser o primo rico da Ex-Iugoslávia, ainda assim é um país que sofreu tensões políticas extremas e uma guerra de independência nos anos 90. Então enquanto Salzburg é uma patricinha de unhas feitas e cabelo escovado com seus prédios perfeitamente preservados, Ljubljana é a amiga descabelada e sem maquiagem, mas tão bonita quanto, e existe uma certa poesia no estado de disrepair dos seus prédios sabe?! Uma certa beleza decadente, como se fossem cicatrizes que mostram tudo que a pessoa já passou e sobreviveu, e por isso denotam força.

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Depois de ler e aprender um pouco sobre a Eslovênia, andando por lá eu cheguei à mesma conclusão que chego repetidamente sobre as pessoas: a gente pode até traçar paralelos, tentar comparar, notar semelhanças, mas é na sua história, em tudo que aconteceu – de bom e de ruim – a alguém ou um lugar que a gente vê a sua grande força. A sua singularidade. As trocas frequentes de mãos entre romanos, hunos, ostrogodos e lombardos, depois os quase 600 anos de dominação do Império Áustro-Húngaro, seguidos por anos de decadência comunista e a força que vem de uma independência desejada e batalhada para permitir mais crescimento e melhoria de vida resultaram numa cidade que, ao meu ver, é um amálgama do melhor de cada um dos seus vizinhos e de cada parte da sua história. O hedonismo, humor e simpatia italianos, a paisagem e arquitetura austríacas, a reconstrução e decadência poética ex-comunista, com uma dose extra de força heróica e personalidade que só vem de quem passou por tempos negros e conseguiu mudar uma situação infeliz. Então não, Ljubljana não é só mais uma cidade européia não! IMG_1948