A tradição de aniversário

Eu sempre AMEI fazer aniversário. Desde pequena, não me lembro de um setembro em que eu não acordasse já empolgada no dia primeiro do mês porque meu aniversário estava chegando (dali a 28 dias, hahahah)… Então desde que me conheço por gente, setembro é o meu mês preferido do ano e eu sempre procuro fazer com que seja especial.

Em 2013, eu estava no R2 e sabia que queria usar as férias do R3 pra fazer estágio aqui em Londres, então seriam tecnicamente minhas últimas férias longas antes da “vida de trabalho frenético pós-10-anos-de-estudo-pra-começar-a-trabalhar, amém”. Como nossa cidadania italiana tinha sido aprovada há uns dois anos e eu sempre tive vergonha de ser italiana e não falar italiano fluente, resolvi passar 3 semanas viajando pela Itália pra melhorar meu conhecimento e fluência na língua.

Eis que achei um vôo ótimo com a BA que retornava ao Brasil no dia do meu aniver. Começar meu aniver em Roma, fazer escala em Londres e terminar no meio do Atlântico? YES PLEASE!

Apesar de estar viajando sozinha porque o Alex estava no meio do mestrado, achei o máximo dos máximos passar meu aniver em Roma. Já tinha tido a idéia de tirar uma foto pra registrar, comprei vela no mercado e tudo – acho que comprei em Siena antes de ir a Roma, porque não me lembro de ter ido ao mercado em Roma. Quando cheguei no hostel dia 27 à noite, desci pro bar pra beber um drink em homenagem aos meus 26 anos que estavam chegando. Encontrei um dos meus colegas de quarto, que era escandinavo mas não lembro de qual país, e ele estava com duas amigas australianas. Engrenamos o maior papo, e entre piadinhas pra lá e pra cá, e mais uns drinks, perguntei se eles topariam ir comigo ao Coliseu pra passar a meia noite do meu aniver, e eles toparam! Passei a mão no tripé e na câmera, na saída da estação comprei uma pizza bem fuleira, botei as velas em cima e voilà:

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A gente riu tanto, mas TANTO tirando essa foto, que eu não queria mais nada! Adorei. Lembro nitidamente da minha reação ao sair do metrô, uns dias antes do meu aniver, e ver o Coliseu pela primeira vez. Lembro que fiquei até surpresa com a minha emoção, porque não era exatamente um sonho meu nem nada, mas simplesmente fui tomada de gratidão por estar vendo o que, crescendo, só existia nos livros da escola, que nunca imaginei que veria ao vivo. E lembro também da sensação de sorte por estar passando meu aniver ali naquele ponto milenar, onde já andaram imperadores, onde tanta história foi feita. Foi exatamente como imaginei.

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No ano seguinte, pensei em fazer o mesmo e tirar uma foto com alguma comida típica de Floripa na frente da Hercílio Luz, então imagina minha frustração quando o dia chegou e estava frio e chovendo! Fomos jantar na Macarronada e acabei me contentando com a foto com unx camaronx a milanesa, que é o que eu mais associo com Floripa. No fim, acabamos curtindo o jantar, mas confesso que fiquei com aquela irritação basal por causa do tempo ruim (!).

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Ano passado, de novo eu passei boa parte do meu aniversário voando sobre o Atlântico. O Alex foi me buscar no aeroporto com flores e, depois de deixar as malas em casa, fomos pra Waterloo comprar um dos melhores fish’n’chips da cidade pra eu tirar a foto, que nessa altura do campeonato já tinha virado tradição.

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A frustração da vez foi que não conseguíamos tirar a foto antes das velas apagarem tiramos a melhor que conseguimos e depois de uns minutos de ranzinzisse com o vento encanado, esqueci e voltei à minha felicidade habitual de aniversário graças ao Alex que bless him já tem diploma de pós graduação em me ajudar a gerenciar as frustrações sem estragar o momento. Ficamos lá sentadinhos num banco à beira do Tâmisa rindo e falando da vida até que ficasse frio demais, depois compramos uma pint de leite pra fazer chocolate quente quando chegássemos em casa. Muito rock’n’roll!

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Esse ano a tradição já ficou tão estabelecida que quando eu decidi comemorar meu aniver com a Paola em Budapeste, o Alex me pediu “e aí, qual vai ser a comida típica que vai servir de bolo esse ano?”.

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Resposta: um lángos, uma massa de pão em formato redondo, tipo uma mini pizza, que é frita e tradicionalmente com queijo e sour cream em cima – que provamos no dia anterior, mas na hora de fazer as fotos resolvi provar essa com nutella e OLHA, melhor que muito bolo de aniversário por aí! Também, carboidrato frito coberto em nutella, quem é que não vai gostar?! Hahahah…

Eu tinha toda uma programação em mente. Passamos a virada do meu aniver num ruin pub que já foi eleito como um dos melhores bares da Europa e o plano inicial era beber um drinkzinho comportado e voltar pra casa cedo, mas o lugar era TAO, MAS TAO cool e a conversa (e os drinks) tava TAO boa que fomos ficando, ficando, e voltamos pra casa meio de lado, exaustas depois de bater perna o dia todo.


Chegando em casa, foi só ligar a luz da cozinha que um fusível queimou (na verdade foi um disjuntor que caiu, mas não achávamos o raio do treco de jeito nenhum!) e ficamos sem energia, então acendemos velinhas pela casa enquanto nos arrumávamos pra dormir, mandei email pra dona do flat enquanto tinha bateria no celular e pronto.

Então dormimos até tarde, tomamos um super café da manhã e fomos pras termas Gellert, que são um espetáculo art deco à parte. Ficamos lá uma hora e meia virando uva passa na água quentinha, fizemos uma massagem relaxante e seguimos pro mercado público pra almoçar. Porque o meu negócio é circular com tanta naturalidade no rooftop da modinha quanto comendo salsichón no mercado público, morou?! 😂

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Quando estávamos chegando em casa, íamos sair de novo pra tirar a foto mas a Paola precisou fazer uma ligação super importante, então só nos arrumamos pra ir pro rooftop que eu tinha reservado. Chegamos lá em plena blue hour, uma temperatura super agradável, por do sol cor de rosa por trás das montanhas de Buda, vista 360 graus da cidade iluminada, um dos sofás com a melhor vista do bar reservados pra nós… e só nós por lá!!! Como assim gente? Em Londres esse lugar ia estar perpetuamente bombando, faça chuva ou faça sol! Mas ok, o garçom super simpático veio nos atender, uns americanos que estavam hospedados chegaram pra curtir os outros sofás ali perto da gente… mas pera, esse hotel é temático de música e não tá tocando nada? Eles sabiam que era meu aniver e nem um bolinho sequer me trouxeram? Ah, agora sim. Puts, a vela do número 2 quebrou!

O que mais me deixou feliz nesse aniversário de 29 anos foi ver o quanto a minha reação mudou às coisas que não saíram exatamente como eu tinha imaginado. Não deu pra tirar a foto hoje? Beleza, não tem problema, tiramos amanhã, é só pra registrar o evento mesmo, não precisa ser xiita com tirar a foto durante as 24h do meu aniver. Não vou ligar pra isso quando estiver velhinha olhando as fotos. O bar tá sem música? Pois bem, é só pedir pro garçom ligar uma musiquinha e pronto. O bar tá vazio e sem o climinha delícia de rooftop da muóda que eu tinha imaginado? Sem problemas: já que estávamos sozinhas e mandando no negócio todo, então tiramos os sapatos, ficamos à vontade esparramadas nos sofás, com os cobertores no colo, rindo alto, fazendo piada de tudo, falando da vida. Quebrou a vela? Não tem problema, amanhã compramos outra!

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Pra completar, saímos do bar e fomos jantar DENTRO do Danúbio, num barco ancorado com uma vista maravilhosa da Ponte das Correntes e do Palácio de Buda, um plano de última hora porque nem sabíamos se teríamos fome suficiente pra jantar fora, e abortamos a missão da balada que tínhamos pensado praquela noite, já que estávamos ambas exaustas.


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E no dia seguinte, fomos tirar a foto pra posteridade, sem crise. De novo o vento não me deixou tirar a foto com as velas acesas. Então tirei com elas apagadas, sem estresse. E vida a evolução da espécie!

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Quem me conhece bem sabe que sou bem control freak tipo A e que sempre tive dificuldade em lidar com a frustração quando as coisas não saem exatamente como imaginei. Ainda faço isso e sei que é um aprendizado da vida inteira, mas a minha maior felicidade nesse aniver foi perceber que, pouco a pouco, estou ficando mais tranquila, menos neurótica, mais easygoing, sempre dentro dos meus próprios parâmetros, porque dizer que sou easygoing é tipoassim uma certa forçação de barra, hahahah. Mas quanta diferença em relação aos anos anteriores!

E se alguém me desse a opção depois que as coisas aconteceram como aconteceram, eu não trocaria o que tive pelo plano original! Isso se aplica a praticamente tudo que já deu “errado” na minha vida (entre aspas porque foram tão poucas coisas que não tenho direito de reclamar), então por que ficar tão ranzinza quando algo sai diferente do planejado? Esse ano foi um plano B desde o primeiro minuto, literalmente. E hoje vejo que, apesar dos pesares, tudo que aconteceu acabou me colocando numa situação melhor do que antes.

Conversando com a Paola no dia, me dei conta de uma coisa importante: acho que eu gosto tanto de fazer aniversário porque é uma época de reflexão e porque eu nunca acho que andei pra trás. Geralmente já estive melhor em um ou outro aspecto, mas no cômputo geral, sempre acho que estou andando pra frente. E apesar de a minha reação às primeiras ruguinhas ter me surpreendido esse ano (assunto pra outro post), eu jamais trocaria meu corpo, minha pele, meu metabolismo dos 19 anos pela pessoa que eu sou hoje aos 29.

It’s not about what we have, it’s about who we’ve become.

O presente de aniversário que eu mais desejo é sabedoria, é evoluir como pessoa, é ter mais inteligência emocional. Acho que tudo que me tira da minha zona de conforto me ajuda a entender um pouquinho melhor as minhas limitações, a ver um ponto de vista diferente. Por isso que eu quero continuar viajando e conhecendo o máximo possível do mundo, porque não sei se já inventaram coisa melhor pra nos fazer questionar as nossas convicções.

Então espero que meu presente de aniversário venha em parcelas, mesmo que pequenas parcelas anuais, de sabedoria. Já parei pra pensar que essa é uma aspiração bem egoísta, mas acho que quanto mais sabedoria, mais se consegue ajudar aos outros. Assim como acho que ser feliz e realizada é o maior favor que eu faço àqueles que eu amo, porque só assim poderei oferecer o meu melhor a eles.  Assim como “em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, e só auxilie crianças ou pessoas com dificuldade após ter fixado a sua“. Tipo um egoísmo altruísta, sabe?

Espero voltar ano que vem com mais (no mínimo) uma lição aprendida 🙂

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