Hotel em Londres?

Geralmente quando as pessoas me pedem dicas turísticas de Londres, eu encaminho direto pros blogs da Dri e da Helô, afinal de contas não tem porque tentar reinventar a roda quando as meninas já escreveram tudo e mais um pouco sobre a cidade, e inclusive escreveram os melhores guias de Londres disponíveis em língua portuguesa. Aqui você pode comprar o guia da Helô, e aqui o guia da Dri, ambos disponíveis em versão impressa e PDF, e escritos por quem conhece a cidade como ninguém e já esteve pessoalmente nos lugares recomendados!

Ou ainda, para O Oráculo do viajante independente brasileiro.

Mas lá de vez em quando alguém mais próximo me pergunta porque quer saber a minha opinião pessoal. Uns dias atrás, uma amiga me pediu onde procurar hotel em Londres… Pensei, pensei, pensei e respondi que ia pensar mais um pouco. Hahahah o problema de quem mora em um determinado lugar é aquele velho paradoxo: a pessoa conhece a cidade como ninguém, mas se ela mora lá, ela provavelmente nunca terá se hospedado em hotel nenhum, certo?!

Não me sinto à vontade pra dizer “procura nos bairros X, Y e Z que é batata!”. A hospedagem pode fazer ou arruinar uma viagem, então depois de muito refletir, vim aqui registrar minha opinião, porque é bem provável que outros amigos façam a mesma pergunta no futuro.

Eu, Gabriela, reservo praticamente todas as minhas hospedagens de viagem no Booking.com e modéstia à parte, a essa altura do campeonato, sou fera na manipulação dos filtros. Se fosse um hotel para mim, pensando em explorar Londres turisticamente pela primeira vez, eu faria essa pesquisa AQUI:

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É uma pesquisa beeem restritiva, mas eu pessoalmente prefiro priorizar quase que exclusivamente a localização. Gosto de fazer tudo a pé, de estar no meio de tudo, e não me importo muito com a beleza ou os serviços do hotel. Cabendo no meu bolso, sendo bem localizado e minimamente limpo, tô topando. Geralmente começo limitando os preços, e marco somente os hotéis com nota acima de 8.0 (classificados como very good ou melhor).

Londres facilita porque o circuitão turístico principal, que inclui o South Bank e todas as suas atrações, o Parlamento, o Palácio de Buckingham, Trafalgar Square/National Gallery, British Museum, estão todos dentro dessa demarcação aí em cima. Uma ferramenta nova e excelente do Booking.com é o heat map, que mostra as áreas de interesse turístico nas cidades pra você ver se o seu hotel é bem localizado:

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E eu adoro andar bastante quando viajo, então pra mim, hotéis resultantes dessa pesquisa permitiriam que uns 70% da minha viagem fossem feitos a pé. Ainda assim, eu procuraria o mais próximo possível de uma estação de metrô principal (aquelas que têm mais de uma linha).

Caso não encontrasse nenhum nessa área, expandiria a pesquisa para incluir as regiões de Bayswater/Queensway, ao norte do Hyde Park, que é um super hub de hotéis, a região de South Kensington/Knightsbridge, por perto dos museus de História Natural e V&A, e o entorno da St.Paul’s Cathedral. Outra área que tem muitos hotéis de preço bom pipocando é no lado norte do rio, entre Monument e Tower Hill, onde você fica de cara pra Tower Bridge e pertinho de St.Katharine’s Docks.

Por que não incluiria essas áreas de cara? Porque apesar de ainda serem ótimas áreas, já são afastadas o suficiente para te obrigar a depender muito mais do metrô. E tudo bem depender do metrô numa cidade em que ele funciona tão bem quanto Londres, mas o ideal mesmo na minha opinião é passar o máximo de tempo possível acima da terra, hehehe. Além disso, tanto o entorno da St.Paul’s quanto essa parte norte do rio até Tower Bridge são super movimentados e vivos de dia, mas meio desertos à noite e nos fins de semana, que apesar de ser super seguro, pode parecer meio deprê pra quem gosta de agito.

O mesmo vale para Notting Hill, que é uma área lindinha demais, mas meio afastadona do centro turístico da cidade. Melhor ir pra lá pra curtir Portobello Road, tomar um brunch ou almoçar nas mil opções de Westbourne Grove, mas ficar cruzando todo o lado oeste da cidade, toda a extensão do Hyde Park em todos os seus dias na cidade vai te deixar de saco cheio e gastar tempo que, na minha opinião, poderia ser mais bem empregado.

E por que não incluir a área onde eu moro? Porque as imediações do South Bank na Tower Bridge e o hub de transporte de London Bridge são áreas excelentes pra morar mas, mais uma vez, meio isoladas pra turistar. A não ser que você esteja disposto a caminhar 5km simplesmente pra chegar no centrão marcado aí em cima, vai depender de metrô também.

Mas no fim das contas, apesar de toda essa lenga-lenga, acredito que qualquer lugar na zona 1 do metrô estará ok. Nenhum deles vai estragaaaar a sua viagem, mas esses que eu selecionei lá em cima podem facilitar bastante a vida.

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A amada e idolatrada zona 1 do metrô 🙂

Aí as diferenças ficam por conta de escolhas pessoais: se a pessoa vai chegar de metrô com malas pesadas e não quer passar perrengue em escadas, é importante ficar perto de estações com accessibilidade – aquelas que tem um A verdinho nesse mapa aqui:

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Ou por exemplo, se a pessoa gosta de hotéis mais bacanas em áreas mais bonitas e tradicionais da cidade, aconselharia evitar o South Bank que foi bombardeado loucamente na 2a guerra mundial, e focar nas regiões lindas de Marylebone, Mayfair, Westminster e até mesmo Victoria, Pimlico e imediações do Hyde Park.

Por outro lado, pra quem quer fervo: teatro, restaurantes, bares, baladas etc, a melhor aposta seria ficar entre Soho e Covent Garden, mas essa área apesar de ser super central e maravilhosa pra fazer tudo a pé, não é das mais bonitas de dia, e é relativamente barulhenta à noite.

Pra quem só volta pro hotel pra tomar banho e dormir e não faz questão de que o seu tenha muita personalidade, tem sempre os bons e velhos hotéis de rede, o Ibis e o Premier Inn tem várias unidades bem centrais.

Já pra quem tem um dinheirinho a mais ou está em Londres pra comemorar uma data especial, mas (ainda! Hehehe) não tem condições de ficar nos Ritz e Savoy da vida, tem os DoubleTree da bandeira Hilton e os Park Plaza, que são todos muito bem localizados, e uns degraus acima no quesito conforto, beleza, serviços etc.

Como eu falei, todo mundo fica meio perdido na hora de aconselhar amigos na procura de hotéis, mas a Helô tem uma seleção de recomendações no Booking.com e a Dri tem um guia de hotéis que explica o perfil de cada bairro. Esse post no Viaje na Viagem tem uma infinidade de hotéis comentados por leitores.

Talvez esse post tenha ficado confuso demais, afinal não tenho talento pra isso e sou prolixa demais hahaha mas de uma coisa não há dúvida: seja onde for que você fique no coração de Londres, você terá muuuuito pra explorar!

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Há flores em tudo que eu vejo

(ATENÇAO: overdose de fotos porque fiquei orgulhosa, ok?! Malzaê pelos 9173 minutos que vai levar pra carregar)

Eu sempre tive o maior fascínio por campos de lavanda. Aquele lilás a perder de vista, e o imaginário do cheirinho de lavanda no ar, sempre me fascinaram. Aquela imagem mental de guia de viagem da França, sabe?

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Essa imagem morava no mesmo lugar da minha mente que os ciprestes da Toscana e os campos de tulipas da Holanda, ambos desejos antigos que sou muito, muito grata por já ter realizado. Eu tinha certeza que, se um dia na vida fosse à Provence, seria na primavera, e planejaria a viagem toda em torno do cronograma de floração das lavandas. Só que, ao mesmo tempo, não é uma viagem em destaque nas minhas prioridades, porque pode ser feita em qualquer época da vida, talvez até melhor numa vibe mais slow travel, então enquanto o orçamento e o tempo são limitados (#otimista), vou pensando naquelas que exigem mais energia ou menos tempo/dinheiro. Mas sempre com aquela imagem mental em 3D com cheiro de lavanda!

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Até que, ano passado, vários brasileiros que eu sigo aqui em Londres foram ao Mayfield Lavender Farm, uma fazenda de lavanda orgânica no sul de Londres. Matar uma vontade antiga com menos tempo e menos dinheiro envolvidos? PRESENTE!

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Aí umas semanas atrás falei com a Helena e o Léo, uns QUIRIDUX de Floripa que se mudaram pra cá na mesma época que eu e o Alex. Eu sabia que esse era um programa perfeito pra amantes de fotografia, e eles toparam na hora. Chegou o fim de semana que tínhamos combinado. No sábado à noite, todas, TO-DAS as etapas do meu vôo de volta de Paris atrasaram. Cheguei em casa ligada no 220, não conseguia dormir por nada, mas às 7 da manhã do domingo, acordei num pulo: SOL!!!

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Às vezes até eu me surpreendo com a minha disposição, mas a verdade é que eu adoro os efeitos da imprevisibilidade do tempo aqui na Inglaterra. Fez sol? Fez calor? VAMOS PRA RUA, mermão, porque pode acabar amanhã mesmo! Acho isso um ótimo exercício pra vida. Afinal de contas, tudo pode –mesmo– acabar amanhã mesmo. Né?!

Chegamos cedo, mas naquele deslumbre de fotografar, fotografar, fotografar, já nos agachamos com nossas câmeras (e narizes inebriados de lavanda) no meio das 1038 abelhas que estavam fazendo a festa por lá, e ficamos por ali mesmo, rindo horrores das tentativas frustradas de fotografar as bumble bees, as abelhas peludinhas que parecem de desenho animado.

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Eis que, um tempão depois, descobrimos que tinha uma outra metade do campo lá pra cima que estava BEM mais cheia e viçosa!! Os donos são espertos e seguem a lógica do Keukenhof, de plantar as mudas em tempos diferentes pra que sempre haja arbustos no auge da floração desde julho até setembro, que é a epoca da lavanda aqui na Inglaterra.

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Verdade seja dita, o campo é praticamente uma versão lavandística do Keukenhof, porque mesmo que a gente chegue cedo, num domingo de sol, é im-pos-sí-vel tê-lo pra você mesmo, e ele é pequeno demais pra que a gente se perca por lá e fique totalmente circundado por lavandas em flor, daquele jeito que só o Plateau de Valensole faz por você. Então é tudo uma questão de perspectiva (#comotudonavida) e você só teria noção real do lugar se forçasse todo mundo a tirar fotos de ângulo aberto, da altura do olho.

Essa foto aqui embaixo eu tirei agachada, na altura das lavandas, e se tivesse tirado do alto dos meus 1.74m de altura, vocês veriam que tinha um bando de turistas asiáticos que praticamente montou acampamento por ali, apesar de estar explicitado no site que fazer piqueniques no campo não é mais permitido.

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A sorte é que, na vida, ninguém é forçado a só tirar fotos de ângulo aberto, da altura dos olhos! Às vezes você precisa se agachar, dar zoom, se esconder atrás de um arbusto, esperar o sol aparecer, esperar as pessoas saírem do seu enquadramento, mas a beleza está sempre ali, pronta pra se revelar pra quem espera e procura. Às vezes, não existe beleza clássica, porque a vida é cruel e injusta, mas o meu fotógrafo preferido ganhou a vida e ganhou o mundo mostrando que até no sofrimento existe beleza. Uma beleza melancólica, triste, de coração partido, mas que não deixa de ser bela. Que só basta procurar, exercitar a sensibilidade, ter olhos de ver.  E através desse prisma, ele mudou uma vida pra sempre – e muitas, muitas outras no processo, através de uma das iniciativas que eu, na minha humilde opinião, acho que tem maior poder de mudar o mundo: educar e empoderar mulheres para serem o que quiserem ser. E isso tudo com um otimismo realista que é a base do meu ideal de vida.

Não sei, já falei aqui meio superficialmente sobre a minha relação com a internet e mídias sociais, e como amante de fotografia e procuradora da beleza estética em tudo que eu vivo e vejo, eu acho isso muito natural… Não me sinto como se estivesse ludibriando ninguém por mostrar o lado mais bonito, mais poético, mais estético dos lugares aonde vou e da vida que eu levo. Isso existe desde os primórdios da humanidade, o que mudaram são os meios!

Os românticos sempre pintaram, retrataram, versaram sobre o mundo melhor do que ele é. Isso não quer dizer que são mais felizes do que os realistas, os niilistas ou quaisquer outros istas. Simplesmente escolhem ver o mundo com as lentes do otimismo. E que, irremediáveis como são, insistem em ver beleza até na tristeza.

“Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

(…)

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não”

Samba da Bênção, Vinicius de Moraes

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Enfim, não sei se é a Gabi médica que vê diariamente o quanto a vida é breve, ou se é a Gabi fotógrafa que sabe que as melhores composições são aquelas que a gente se contorce, se abaixa, procura ativamente e portanto tem aquela sensação de merecimento, mas o fato é que eu curto o exercício de procurar beleza, de procurar o lado bom. Nem sempre funciona. Nem sempre o botãozinho Pollyana está ligado, e sinceramente? Quem me conhece de fato sabe muito bem disso!

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Mas, as far as philosophies of life go, essa é a minha!

“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
Pertece ao seu tempo
-Entrai,irmãos meus!”

Poética II, Vinicius de Moraes

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Viralizando!

Uns dias antes do Natal, quando coloquei o ponto final no longo texto que escrevi, de férias num vilarejo no interior da Inglaterra, de vez em quando levantando a cabeça com o olhar perdido, pensando em todas as grandes escolhas que fiz até hoje nos meus 28 anos de vida, jamais me passou pela cabeça o tamanho da repercussão que aquelas palavras iriam causar.

A Luiza publicou o texto no Formei, e agora? na quarta-feira passada, no meio da tarde. Só que quinta-feira eu tinha uma apresentação importante no trabalho, a primeira palestra de um evento, sobre um assunto que eu adoro mas é super desafiador, e como boa procrastinadora que sou, ainda tinha a apresentação em ppt pra finalizar e a palestra em si pra ensaiar. Postei a publicação no Instagram, desliguei o celular e mergulhei de cabeça no planejamento.

Qual foi minha surpresa, algumas horas depois ao ligar meu celular de novo, ao receber várias mensagens de amigos no WhatsApp, inclusive os que não tem Instagram e portanto não poderiam ter ficado sabendo do post através de mim! Vários amigos, familiares e conhecidos que leram o texto “porque fulano compartilhou no Facebook”.

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Nessa hora, a curiosidade matou o gato e pedi o login da minha mãe (haha!) pra ver as postagens, compartilhamentos e comentários. Fiquei super, super feliz com a onda de energia positiva que comecei a receber quase incessantemente: mensagens no insta, amigos no whats, emails atraves do blog, de pessoas dizendo que de alguma maneira se identificaram com as minhas palavras e se sentiram inspiradas a seguir os próprios sonhos. Amigos do coração dizendo que se emocionaram lendo a minha história e entenderam melhor as próprias decisões. Professores e amigos de infância compartilhando no Facebook. Gente me dizendo que tem um sonho há tempos, que tinha colocado em standby e resolveu voltar a pesquisar. Gente no meio da faculdade, falando que se sente assim e também nunca imaginou que os colegas podiam estar passando pelas mesmas angústias.

Tenho uma relação meio conturbada com a internet, fisoloficamente, que um dia explico melhor num post separado, mas um fato irrefutável é que ela é um instrumento incrivelmente poderoso de conexão humana. Eu passei anos me alimentando de inspiração através de brasileiros que tinham realizado seus próprios sonhos de morar no exterior, então acho sensacional de repente me ver do outro lado da moeda, de certa forma dando continuidade a esse ciclo e (espero) mostrando pra alguém que com paciência, perseverança e foco, a gente chega lá. E acho ainda que inspiração é uma coisa só, não é porque o seu sonho é outro que a inspiração não te serve – sigo uma guria que após a morte do pai, resolveu arrumar a única coisa que não gostava na sua vida e levar a sério a relação com o próprio corpo, assim como uma outra colega de faculdade que superou a si mesma através do triatlon. Não almejo um percentual de gordura corporal de 10% e nem pretendo fazer triatlon, mas a mensagem que eu levo, e o que eu enxergo nessas pessoas é sempre um mesmo tema: disciplina, trabalho árduo, força de vontade, independência de ir atrás do que se quer e mudar uma realidade que incomoda. Não concordo com ostentação por ostentação em redes sociais e, apesar de saber que às vezes é difícil resistir a postar um negócio banal que não acrescenta nada a ninguém, procuro no mínimo me policiar pra postar inspiração, informação, positividade e beleza (beleza no sentido geral – como boa amante de fotografia, passo meus dias procurando ângulos e composições que mostrem a beleza no meu dia a dia, desde um punhado de grãos de feijão até uma reflexão em poça d’água e assim por diante). Então aos pouquinhos tenho feito as pazes com a internet e achado um equilíbrio dentro daquilo que acredito.

Nos dias que se seguiram, o ritmo dos compartilhamentos no Facebook tomou uma nova dimensão completamente surreal: minhas palavras alcançaram mais duas grandes audiências, o Meus Nervos, do colega anestesista Solon Maia, e a maior comunidade médica no Facebook, o Dignidade Médica.

Logicamente, surgiram uns poucos comentários negativos, que achei até engraçados. Acredito muito que “o que Pedro fala sobre Paulo revela mais sobre Pedro do que sobre Paulo”. Então achei interessante, especialmente do meu ponto de vista de voyeur, sem ter Facebook, ver discussões se desenrolando sobre a minha vida e as minhas escolhas. “Ela só mudou de endereço”, “ela revolucionou a própria vida sendo… certinha?”, “ela não mencionou família, namorado, filhos, então deve ter aberto mão de tudo isso”, “ela só fez isso porque tem dinheiro” e até mesmo “ela continua falando só de medicina do começo ao fim do texto”(?!). Quem entendeu a minha lógica deve ter percebido que eu nunca, jamais pretendi escrever um texto para médicos. Aliás, achei que pouquíssimos médicos frequentariam a página do Formei! Achei que estava escrevendo minha história para jovens graduandos de todas as áreas, sofrendo com dúvidas sobre as suas escolhas e incertezas sobre o futuro, exatamente como eu tinha e continuo tendo. Essa é a dimensão do quanto eu achava que estava sozinha na minha área. E do quanto eu subestimei o alcance do post.

As pessoas interpretam cada uma à sua maneira, e felizmente, a imensa maioria entendeu que o que eu tiro disso tudo é muito simples – e principalmente, é universal a qualquer profissão, quiçá a qualquer área da vida:

  • quando a gente se dá conta que está insatisfeito com uma situação, é responsabilidade nossa (e só nossa) buscar uma mudança;
  • mudança nenhuma acontece se a gente não tornar aquilo uma prioridade;
  • nossos planos raramente se desenrolam no tempo e da maneira que a gente quer – por isso a gente tem que ser flexível e ajustar as expectativas, ter paciência porque pode levar mais tempo do que imaginamos, etc;
  • ter dúvidas sobre as nossas escolhas é normal!!!
  • e principalmente: que as escolhas que fizemos no passado, quando éramos “outra pessoa” e tínhamos outras prioridades, jamais vão nos prender no futuro (a não ser que tenha sido um crime, hahaha), e que sempre, sempre tem jeito de recalcular a nossa rota na vida. Exige paciência, foco, criatividade pra ver uma saída? Exige. Exige coragem pra trocar o certo pelo incerto? Exige. A vida tá cheia de exemplos de gente que descobriu que o seu plano inicial não era viável e se realizou em outra área, que mudou de profissão e tá trilhando um caminho jamais imaginado no Brasil, enfim… O que não vale é a gente se comportar como prisioneiro de desenho animado, com uma bola de ferro acorrentada ao calcanhar.

Enfim, cada vez que a Luiza me conta uma nova estatística, fico mais boquiaberta! Só através dessas 3 grandes audiências, foram:

  • 3x o tráfego mensal do Formei em 24h
  • mais de 1100 likes, 200 compartilhamentos e 100 comentários
  • mais de 100 mil visitas ao link do texto em menos de uma semana!!!

Não sou desse meio internético então não tenho muita noção do quão comum e corriqueiro isso é, mas pra mim, é absolutamente fantástico imaginar que minhas palavras, que vieram de dentro da minha cabeça numa tarde cinzenta e preguiçosa de inverno, tiveram um alcance tão grande. Hahahaha 🙂

Quero aproveitar e agradecer imensamente a quem dedicou o seu tempo a me escrever!!! Vou responder todos os emails que recebi, mas peço a paciência de vocês porque foram vários. Pouco a pouco, eu chego lá! Já pensei em escrever um post sobre a medicina no Reino Unido, mas como meu próprio texto deixa claro, quero muito evitar que essa esfera da minha vida seja dominada pela minha profissão também. Talvez eu acabe fazendo pra facilitar minha própria vida, já que desde antes do texto eu já recebia perguntas frequentes sobre isso, mas por enquanto, continuamos com a nossa programação normal de querido diário, filosofias de boteco, viagens e grandes marcos na minha humilde existência!

 

 

Formei, e agora?

Fiquei em dúvida quando a querida Luiza do projeto Formei, e agora? me convidou pra contar minha trajetória profissional no blog – afinal de contas, minha trajetória profissional está só começando!

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As lentes cor de rosa das mídias sociais fazem parecer que algumas pessoas “chegaram lá”, mas a grande verdade é que isso não existe. Sempre existirão as próximas escolhas a serem feitas (lembrando que permanecer aonde e como está também é uma escolha!) e portanto, quanto mais cedo a gente fizer as pazes com as incertezas da vida, maior a leveza com que a gente consegue levá-la 🙂

Pra quem quiser ler, o texto está aqui. Obrigada Luiza pela oportunidade de refletir sobre a minha vida nessa época tão propícia!

Londres natalina

Esses últimos dias tem sido bem do jeito que eu gosto: mil atividades e aquela sensação gostosa de folga bem aproveitada no fim do dia, sabe?! Durante a faculdade e a residência eu vivia me sentindo tão culpada por não estar estudando, que acabava não aproveitando direito meu tempo de folga. Além disso eu me sentia sempre cansada, sem energia, então acabava perdendo meu tempo na internet, ou assistindo séries, ou dormindo. Não necessariamente nessa ordem. Heheheh não que essas sejam coisas ruins, mas é o conceito de dark playground explicado nesse artigo maravilhosamente verdadeiro que todo procrastinador deveria ler na vida!

E uma das coisas que eu mais estou amando na minha vida londrina é que eu tenho valorizado e aproveitado muito bem meu tempo de folga! E como consequência, tô muito mais satisfeita com a vida que levo. As gurias do trabalho um tempo atrás me disseram que achavam surreal o quanto eu aproveitava meu tempo livre e daonde eu tirava tanta energia. A resposta é: não sei! Mas alguma coisa acontece no meu coração londrino que a energia simplesmente brota da fonte nos momentos mais inesperados!

Apesar de estar oficialmente de folga do hospital desde semana passada quando terminei meus plantões, fiquei aqui em Londres mais uns dias porque me voluntariei pra ser tutora de habilidades clínicas pra alunos do terceiro ano da faculdade em umas sessões de simulação.

Aí como tinha isso na quinta e sexta o dia todo, resolvi marcar minha passagem pra Dorset na segunda de manhã, porque aí ainda poderia aproveitar mais um fim de semana de espírito natalino em Londres e tals.

Quinta já comecei o dia cedo: a Bee tá indo morar na África do Sul por 3 meses, então eu sugeri tomarmos café da manhã juntas pra nos despedirmos, já que o dia dela no departamento começava ao mesmo tempo que a minha função com as simulações. Aí ela falou: “AH TENHO UMA IDEIA: você topa me encontrar no Monument as 7 da manhã? Eu e a Anne esperamos você lá”. Na hora concordei amarradona, mas depois o Alex decidiu voltar pra Dorset bem nesse dia, então foi uma novela pra me arrastar da cama quentinha e me despedir dele, mas né, fui.

E olha, valeu a pena!!! Chegando lá, me dei conta na hora que ela tinha reservado uma mesa no topo do Walkie Talkie, pra gente. Fomos no Sky Pod bar, que é no saguão principal. Ali eles servem salgados e doces frios, e bebidas. Na Darwin Brasserie, que fica na cápsula, aí rola um esquema mais brunch mesmo, com pratos quentes e tals, mas não teríamos tempo suficiente pra curtir, já que tínhamos que caminhar em meio ao exército de homens de preto da City até o hospital em breve.  

   
Quando mandaram o email recrutando voluntários pra essas sessões, eu respondi na hora me oferecendo porque achei uma maneira boa e mínimo esforço (já que era no próprio hospital) de ganhar um pouco mais de experiência sobre o sistema inglês, melhorar meu currículo e revisar uns conceitos básicos.

Fiquei meio ansiosa antes de começar porque não tive nada parecido enquanto eu era estudante, mas a cada grupo de alunos, eu ia melhorando uma coisa ou outra que não tinha ficado muito boa e perdendo a vergonha. Só que a guria que era minha dupla era ainda mais tímida do que eu, então ela acabava ficando mais no controle do simulador e eu na parte de interação com os alunos. Como na quinta-feira eram cenários clínicos e “a paciente tá deteriorando agudamente e você é chamado com urgência para avaliá-la” (12 vezes seguidassss), tinha aquele clima tenso de urgência, e por estar totalmente fora da minha zona de conforto, terminei o dia exausta.

Tudo que eu queria era voltar pra casa, ficar quieta no meu canto e ir dormir cedo. Mas no meu último plantão, um dos meus colegas comentou que nesse dia ia rolar a comemoração de natal mais famosa da St. Paul’s Cathedral, os cantos de natal. Coloquei meu casaco e saí do hospital pensando em ir direto pra casa, mas aí em menos de 200m me dei conta de que não sei onde vou estar no ano que vem e que essa era uma oportunidade genial de entrar na St. Paul’s pela primeira vez.

  
Vi que a fila tava dobrando a esquina mais de 1h antes da cerimônia começar e pensei “ah, vou ficar aqui na fila e ver qual é”. Um dos seguranças veio avisando que “as pessoas depois da esquina podem não entrar, ok pessoal?” mas aí a guria na minha frente na fila, a guria atrás de mim e eu começamos a bater o maior papo, quando vimos a fila foi andando e logo já estávamos lá dentro! Mas não sem antes beber um quentão com a guria da nossa frente, hahahaha ela tinha trazido uma garrafa térmica e duas canecas (!) dentro da bolsa. Como não amar os ingleses né cara, além de curtir uma fila meticulosamente organizada, eles ainda vêm preparados com farofada em mãos pra não ficarem ranzinza enquanto esperam!

  
Ficamos bem lá atrás, então tecnicamente nem posso dizer que “vi a igreja”, mas em compensação a experiência em si foi tipo uma fração do Nirvana, hehehehe. Já falei num post bem do começo do ano como eu amo a Evensong da Westminster Abbey né. Não sou uma pessoa religiosa, mas adoro a energia etérea de qualquer templo, seja de qual religião for. E gosto muito do fato de as igrejas anglicanas serem menos rebuscadas na decoração do que as católicas, porque aí a arquitetura é a estrela da festa. A maneira que a luz incide nas pedras, o formato dos arcos e das janelas, enfim… Aí quando se soma a isso o silêncio sepulcral de uma cerimônia sendo interrompido só pelo coral, acho extremamente relaxante, quase como se fosse uma meditação. Quando é no tom grave dos cantos gregorianos mesmo, bah, só queria que ao invés de bancos a igreja tivesse poltronas do vovô. Hahahaha a primeira vez que entrei no Mosteiro São Bento, em SP, foi assim também, e me marcou pra sempre!

Aí na saída, batemos mais um papo e troquei telefones com a Natalie, a guria inglesa que tava atrás de mim na fila. Ela também tinha ido sozinha porque as amigas estavam ocupadas, e como trabalhamos pertinho e o papo super rendeu, combinamos de de repente fazermos algo natalino por esses dias. Fazendo amigos na igreja! Hahahaha

Sexta as simulações eram mais light, então o tempo passou rapidinho e até tive o luxo de uma pausa decente pro almoço! O que achei mais legal é que, de 5 tutores, 4 de nós tínhamos experiências de multilinguismo, aí ficamos trocando altas idéias enquanto os alunos não chegavam. Uma guria falou que por mais fluente que você seja em outras línguas, a tua língua mãe é aquela que você usa pra contar mentalmente quando te dão um maço de dinheiro e dizem “conte isso o mais rápido possível”. Por exemplo, um deles é filho de pais franceses mas fala inglês com o pai e francês com a mãe desde pequeno, cresceu falando primeiro francês mas foi pra faculdade em inglês e hoje em dia, fala francês em casa e inglês na rua. E quando perguntamos, ele disse que conta mentalmente em inglês. Uma outra menina criada na Inglaterra que não tem sotaque estrangeiro nenhum também confirmou que contaria em chinês.

  
Como se não bastasse todo esse amor por Londres, vim caminhando pra casa e curtindo as luzes de natal e o clima gostoso que toma conta da cidade inteira. Aí parei pra comprar minha agenda pra 2016 e quando saí da loja, já tava escuro, as 15:50! Não sei explicar, mas nessa hora me veio uma onda de felicidade do tipo “cara, eu não só moro aqui mas me sinto em casa aqui!!!”, aquela familiaridade de saber que em poucos minutos estaria no aconchego do lar, curtindo minha noite de muitas horas que começa as 16h, heheheh. Não sei se ainda é a lua de mel com a cidade, mas de fato gosto demais dessa sazonalidade da vida aqui.

Cheguei em casa e fiz meu prato preferido, assistindo Masterchef – The Professionals, meu mais novo vício, tomei um vinhozinho branco e depois um banho de espuma. O que mais querer dessa vida?

   
 
Sábado acordei cedo pra ir pra Oxford Street pela última vez (amém!) pra comprar o último presente de natal que faltava, comprei umas peruagens básicas e vim pra casa com essa vista:

   
 À noite fui com o Daniel (meu flatmate espanhol) e mais dois amigos dele patinar no gelo do Natural History Museum. Acho o NHM o museu mais lindo de Londres e a pista é lindinha, mas nada supera a Club Night da Somerset House. Primeiro que tendo criança pequena patinando às 21h da noite (!) rola aquele receio de um bando de adultos caírem por cima e esmagarem os coitados. Segundo que eles vendem 2847 ingressos pra uma pista minúscula, então rola uma patinação com obstáculos (humanos), hehehe. Mas mesmo assim vale muito a pena, só de curtir a patinação com a vista do museu já vale!

  

  
   
   
Depois fomos encher a cara de pizza no Franco Manca, uma pizzaria de preço amigo, forno a lenha e massa excelente que os italianos que a gente conhece assinam embaixo, e como não poderia deixar de ser, fomos terminar a noite com “só um drink” no Soho, no bar gay mais famoso da cidade, cheio de música boa e garçons sem camisa, ou seja: o que tem pra não gostar, não é mesmo?!

  

   
 
 E hoje de manhã já acordei empolgada porque ia encontrar a Natalie no South Bank pra passearmos pelos mercadinhos de natal! Passamos pelo próprio South Bank e a feirinha de livros que eu adoro, depois o mercadinho do Tate Modern e subimos até o restaurante do sexto andar pra tomar um quentão com vista da St. Paul’s, depois ela seguiu pra encontrar umas amigas num museu em Hoxton mas eu preferi vir caminhando pra casa, com direito a mais uma passadinha no mercado de natal de London Bridge.

   
     
  Adoro como em Londres tudo recebe um raio multiculturalizador! Hahahaha mercado de natal com direito a comida asiática, marroquina, halal e falafel? YES PLEASE! Se você for bem cínico, você poderia argumentar que culturas que nem sequer celebram o natal só estão ali vendendo as suas comidas típicas pela oportunidade de negócio, só porque é lucro garantido. Mas minha opinião é que apesar de o natal, a rigor, significar a celebração do nascimento de Cristo, acho irrelevante você acreditar ou não em Cristo pra celebrá-lo. Porque o natal é uma época de pensar mais em valores fundamentais, em unir a família, demonstrar amor, fazer o bem e ser a melhor pessoa que a gente puder ser. E pra isso, não precisa nem ter religião. Né?!

 

O melhor 13/12 até hoje!

Eu e o Alex não comemoramos aniversário de namoro, e sim da data em que a gente se conheceu, que foi 13/12/2008. Dessa vez, nosso dia 13 foi um dia intenso de comemorações e atividades desde a meia noite do sábado até à meia noite do domingo!

Fazia um tempão que eu queria tirar uma foto nossa na Tower Bridge, basicamente uma versão de uma foto que eu já tinha feito antes e amo, só que com nós dois no meio! Como ele ia voltar da biblioteca as 22:30 e passar por ali, nos encontramos as 23 na Tower Bridge, e tipo… Vamos concordar que um aniversário de namoro que começa na Tower Bridge não tem como não ser maravilhoso né?!

Aí expliquei pra ele como queria a foto e lá fomos nós ficar beeem paradinhos pra ficarmos focados na longa exposição, e apesar de ficar com uma certa vergonha do nível de breguice envolvido, eu achava mais provável de dar certo com a gente se beijando do que com a gente olhando pra câmera (e tinha razão, porque tentamos dos dois jeitos e a do beijo ficou bem melhor!). O Alex mesmo tava morto de vergonha e, to add insult to injury, várias gurias que passavam soltavam bem alto um “awnnnn you guys are so cuuuuute” hahahaha mas aí foi super gostoso, porque estragamos algumas das tentativas de tanto que caímos na gargalhada no meio do beijo, ficando totalmente fora de foco, até que a última tentativa ficou EXATAMENTE como eu queria!

  
  
Aí aconteceu um negocio bizarro que certamente vamos nos lembrar pra sempre: logo depois de virar a meia noite, nos abraçamos, desejamos happy anniversary, brincamos que jamais imaginamos que estaríamos ali 7 anos depois e tals… estávamos ainda rindo, fazendo piada, atravessando a ponte a caminho de casa quando vi uma mulher tentando subir na proteção lateral. Imediatamente lembrei de um documentário que assistimos na faculdade durante as aulas de Psiquiatria, chamado The Bridge, que filmou a Golden Gate Bridge por um ano e mostrou não só a hesitação, as tentativas de ajuda dos passantes, as quedas, mas também conversou com familiares e amigos das vítimas e inclusive com algumas pessoas que se jogaram e sobreviveram à queda. Aquilo me deixou muito impressionada por semanas a fio, a gente aprende, lê, estuda, mas ver de uma maneira tão gráfica e pessoal colocou tudo em perspectiva pra mim. Então quando vi a mulher subindo, claramente alcoolizada, parei, segurei o punho dela e disse pra voltar pra calçada, que ela precisava de ajuda. Aí nem me lembro mais com muitos detalhes, mas acabou que fui falando com ela e pedi pro Alex ir chamar a segurança da ponte é uma ambulância. Nesse meio tempo tentei conversar com ela, que obviamente não queria conversa nenhuma e só repetia que queria acabar com tudo. Ela me respondeu qual era o nome dela, mas nada mais. Só consegui distraí-la quando comecei a contar de mim, que sou brasileira, moro aqui há 10 meses etc. Aí ela me contou que era londrina, tinha morado aqui a vida inteira, tinha 44 anos e morava aqui por perto mas por pouco tempo, porque seria despejada em janeiro. Nisso o Alex voltou e ainda tivemos que segurá-la mais umas vezes (ela continuava voltando pro beiral) até que o segurança chegasse, e ficamos ali até que a polícia e ambulância chegassem também. Nessa hora, ela sentou na calçada e aí viemos pra casa. Não sei se ela de fato faria, mas a primeira coisa que a gente aprende é que ideias suicidas devem sempre ser levadas a sério, porque é impossível distinguir ou prever quem vai de fato executá-las. Então ficamos felizes porque ela ia receber ajuda, provavelmente receber acompanhamento e enfim… Mais uma experiência que por mais adversa que tenha sido nos uniu, como tantas outras até agora.

Acordei no dia seguinte com uma foto no WhatsApp do MEGA café da manhã inglês que o Alex tava preparando na cozinha. Eu tinha tirado um sarro da cara dele no dia anterior que era suuuper romântico um café da manhã gordurento desses, mas aí ele comprou hash browns, que são uns bolinhos de batata tipo rösti que eu amoooo, e me mandou a foto do pacotinho que ele tinha saído pra comprar antes de eu sair da cama dizendo “absolutely romantic!”.
  
Aí começamos a peregrinação até White Hart Lane pra ver o jogo do Tottenham. Batemos um papo com um casal israelense na ida, e chegando lá fomos beber umas no pub que é um sarro, a atmosfera é muito massa porque os torcedores dos Spurs realmente são fiéis, da vida inteira, que provavelmente vão ali no mesmo pub antes do jogo desde a infância! Então rolam várias musiquinhas de grito de guerra e o maior clima de camaradagem. Meio overwhelming de tão cheio, mas é só por um tempinho curto até todo mundo ir se encaminhando pro estádio, então não tem tempo ruim.
    
   

A experiência no estádio em si é um espetáculo à parte, tudo super organizado e seguro. Bebida alcoólica só pode no intervalo, mas se quiser pode levar chá pro assento (HAHAHA 🇬🇧), e em geral é um clima bem família.

   

  

  

  

  

   

Confesso que prestei mais atenção num gurizinho de uns 6 anos que tava do nosso lado do que no próprio jogo! A parte mais genial de ter filhos deve ser ficar observando as reações deles ao mundo né?! Fiquei olhando o guri e achando tudo um sarro, o olhão esbugalhado quando a torcida adversária começou a fazer mais barulho que a nossa, os comentários que ele cutucava o pai pra fazer, a hora que se encheu o saco e resolveu folhear o programa oficial e que ver as fotos dos jogadores era mais interessante do que ver os próprios em campo. Hahahaha mas enfim, ainda bem que eles saíram uns 8 minutos antes de o jogo acabar, porque pelo menos o gurizinho não viu o gol de virada do Newcastle!

     

Mas não acabou!!! Depois do jogo fomos espertamente pro pub beber mais uma enquanto a maioria dos torcedores se apertava no trem, e fomos confortavelmente sentados no trem seguinte. Milagrosamente ainda consegui encaixar uma soneca de 10 minutos antes de me arrumar pra ir jantar fora! Hahaha aproveitamento de tempo 100%!
O restaurante em si é simples e aqui perto de casa, mas a atração principal é que ele tem uma das melhores vistas de Londres! Tower of London e Tower Bridge de camarote enquanto conversamos sobre a vida? YES PLEASE!

    

Ficamos lá até sermos os últimos a sair do lugar e depois como o tempo estava tranquilo ainda ficamos conversando e ouvindo as gaivotas (sim, gaivotas no centro de Londres!) na beira do rio. Como se não bastasse tudo que tivemos de bom nesse dia, Londres ainda nos presenteou com uma noite estrelada, coisa raríssima por aqui! Nosso relacionamento e nossas vidas não são perfeitos, mas só temos a agradecer porque tem sido como um bom vinho: mais encorpado e cheio de personalidade a cada ano que passa!

SKATE at Somerset House

Uma das coisas que eu mais amo em Londres é a sazonalidade da vida: cada estação traz consigo um pacotão de “atividades tipicas”.

Então nessa época de Natal começam a surgir vários rinques de patinação no gelo – geralmente na frente de um ponto turístico, com uma árvore de natal enorme e maravilhosa do lado, música animada e um lugar em anexo pra tomar um drink ou chocolate quente depois.

Eu era aquela criança que não queria voltar pra casa na hora do jantar porque tava andando de roller rua acima e abaixo, então mesmo antes de tentar patinar no gelo, eu sabia que ia amar!
Aí semana passada quando a Cat me falou que estaria aqui a trabalho, eu respondi imediatamente sem pensar duas vezes: VAMOS PATINAR NO GELO?!

As pistas funcionam o dia todo porque são abertas pra gente de todas as idades, mas assim que comecei a investigar as opções, eu vi que na pista da Somerset House rola um negócio chamado Club Nights, em que DJs renomados são convidados pra fazer setlists especiais e uma vibe mais adulta e baladinha mesmo, então reservei pra gente. Como tudo em Londres, os ingressos já estavam quase esgotados, então marcamos o último horário, das 22:30 às 23:30!

Aí como estaríamos em Covent Garden mesmo, resolvemos sair pra jantar e beber uns drinks num restaurante mexicano ali por perto antes. Pensando em retrospectiva, comida apimentada e margaritas antes de ir patinar poderiam ter sido uma receita para um desastre, hahahah mas saiu mais certo que a encomenda!

Escolhemos o Cantina Laredo, que não decepcionou. Nunca fui muito fã de guacamole, mas ontem descobri que era porque nunca tinha provado um guacamole de respeito: gente que delicia!!! Adoro comida bem temperada e amei todos os pratos! Os drinks também não ficaram pra trás: um melhor que o outro e todos bem generosos (leia-se enormes). Acabei não fotografando muito o jantar nem o restaurante porque engatamos o maior papo assim que chegamos, ela e o Bobby estavam nos EUA quando fomos pra Salzburg em agosto, então não nos víamos desde abril!  

Acho a Somerset House maravilhosa, chegamos lá no intervalo entre um grupo e outro pra dar de cara com ISSO:
  
 
A Somerset House sozinha já faz verão, mas com esse rinque iluminado, essa árvore maravilhosa (a parceria é com a Fortnum & Mason, que abriu um pop-up restaurant ali do lado) e a lua cheia pra completar, fiquei ali uns minutinhos boquiaberta morrendo de amor por Londres e pensando que não queria mais nada da vida!
Minha primeira impressão ao botar os patins no gelo foi WHOA QUE NEGÓCIO LISO, mas assim que a gente aprende a manter o centro de gravidade, a coisa engrena. É bem mais difícil do que o roller porque a lâmina é fininha e o gelo é super escorregadio, então o atrito é muito menor, é muito mais instável e mesmo parado, se você se inclinar pra trás, você vai pro chão! Hahaha enfim, depois de aprender essa parte, os movimentos em si são iguais a qualquer patins né, então parecia uma criança de tão empolgada e me diverti horrores!

    

O legal é que tá todo mundo no mesmo barco, tinha umas 3 ou 4 pessoas fazendo mil acrobacias e patinando com um pé só, mas a imensa maioria são pessoas como eu e você, que estão ali pela primeira vez ou patinaram pela última vez ano passado, então rola aquela camaradagem e todo mundo rindo de si mesmo!     

O DJ tocou várias clássicas que todo mundo adora, Vanilla Ice, Cindy Lauper, Michael Jackson… Enfim, amei de paixão e espero poder ir mais vezes antes que os rinques fechem! To de olho no do Natural History Museum que eu acho um dos prédios mais maravilhosos de Londres e a pista é parceria com a Swarovski, e o da Tower of London, mas não sei, porque apesar da vista maravilhosa acho que é mais pra criancas e tem poucos horários. Quem viver, verá!

One world

Esse post seria um dos tópicos do próximo, continuando as lições que aprendi nos meus 27 anos. Mas depois dos atentados em Paris na semana passada, tenho pensado um monte nisso, então resolvi escrever separado.

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A primeira vez na vida que eu me dei conta do quanto duas pessoas de países diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes podem ser parecidas foi quando eu conheci o Alex. Logo depois de sermos apresentados, começamos a conversar e não paramos nunca mais! Um dia, depois de passarmos horas e horas conversando sobre mil assuntos, eu me dei conta de que parecia que eu tava falando a minha própria língua. A conversa fluía tão bem, era tão gostoso estar com ele, que eu esquecia completamente que ele tinha tido uma vida totalmente diferente da minha. Tínhamos muito mais semelhanças do que diferenças, e as diferenças eram tão fascinantes que eu só queria descobrir mais sobre elas. Claro que nem tudo são rosas e diferenças culturais podem ser difíceis de contornar, e desde então já descobrimos essas também, mas foi a primeira vez na vida em que eu vi alguém que parecia tão diferente de mim como meu igual!

A segunda vez que senti isso foi agora, quando me mudei pra Londres e passei a praticar Medicina aqui. Uma das minhas maiores alegrias é interagir diariamente com gente do mundo inteiro. Médicos ingleses, irlandeses, italianos, croatas, búlgaros, sul-africanos. Enfermeiros nigerianos, filipinos, espanhóis, indianos. Mas o maior aprendizado de todos, como sempre, vem dos pacientes. Me sinto extremamente rica e grata por conversar com um paciente nepalês de manhã, um paciente cipriota a tarde e uma paciente afegã no fim do dia. Mais do que isso, quando faço a consulta pré-anestésica, pra conhecer o paciente, perguntar sobre doenças prévias, que medicações tomam, etc, eu tenho o privilégio de ver diante dos meus olhos a interação dessas pessoas com os próprios familiares! Muitas, muitas vezes fico emocionada com as histórias que ouço, como sou a maior manteiga derretida, várias vezes tenho que usar minhas táticas de guerra pra não ficar lá de olhos marejados na frente deles, heheheh, volto pra casa pensando neles e na vida.

Tanto pela minha experiência pessoal quanto profissional, eu tenho plena consciência do peso das diferenças culturais e de linguagem. Do quanto podem causar mal-entendidos, expectativas frustradas ou até perigos. Não estou negando nada disso.

Mas o que eu aprendi, e continuo aprendendo diariamente, é que todas essas coisas são roupas, e que quando se despem, o que sobra é humanidade pura e simples. Somos todos iguais. A emoção de uma mãe após o parto, a curiosidade de uma criança de 3 anos de idade sobre o mundo, o olhar que só se tem pra quem se ama, a saudade que se sente de alguém que já partiu, a tristeza quando se vê um massacre como o da semana passada… As lágrimas nos olhos quando os pacientes se despedem das suas famílias antes de ir pro centro cirúrgico são as mesmas. Talvez por trabalhar com cirurgias de grande porte, eu veja as pessoas numa situação mais vulnerável, quando não tem espaço pra mesquinharias cotidianas. No dia a dia, pode ser mais difícil ver com tanta clareza. Mas depois que eu vi, não consigo desver. Não importa se o meu paciente tá segurando um rosário e com a Bíblia na cabeceira da cama, se tá usando hijab e lendo o Alcorão quando eu chego, se tá usando um turbante Sikh ou se tem a cabeça raspada de uma monge budista, eu vejo tudo isso como uma coisa só. Fé. O carinho dos filhos com os pais velhinhos é o mesmo, “deixa que eu pego teus remédios na mala, pai, sei que você fica com falta de ar fazendo sozinho”.

As pessoas podem expressar os seus sentimentos de maneiras bem diferentes, mas a essência humana é a mesma, e o corpo humano certamente também.

Quão menos ódio existiria no mundo se a gente focasse nas semelhanças ao invés das diferenças… Uma vez li que quando você tá com raiva de alguém, tipo um colega de trabalho otário, ajuda lembrar que aquela pessoa é filha de alguém, que é amada por alguém, que não apesar de estar fazendo algo com que você discorda, ela não é uma pessoa intrinsicamente má. Claro que é difícil né, ainda mais na hora da brabeza, mas eu acho que a chave pra um mundo mais pacífico é justamente esse pensamento agregador, que enxerga através de todas as diferenças, que vê um denominador comum ao invés de criar divisões e categorias de gente.

Hoje de manhã eu tava conversando sobre isso com o Alex e ele me contou sobre o conceito de continuous thinking vs. discontinuous thinking. Exatamente o que eu falei ali em cima, continuous thinking é a capacidade de enxergar que tudo é um contínuo e que qualquer divisão é arbitrária. Quando é que alguém deixa de ser branco e passa a ser negro, dentre todos os tons de pele humana que existem? Quando foi que surgiu o primeiro Homo sapiens, dentre todas as pequenas adaptações evolutivas que surgiram, de geração em geração? Quando é que a vida começa, quem é que decidiu que a vida começa na fecundação e portanto quer legislar sobre o corpo de outras mulheres e impedir o aborto?

Além do pensamento contínuo, precisamos de mais empatia. Empatia é a capacidade da gente se colocar no lugar do outro e imaginar como ele se sente. E isso é uma habilidade adquirida! Tá rolando um programa na TV aqui chamado The Secret World of 4, 5 and 6 Year-Olds que mostra claramente que crianças de 4 anos são egocêntricas por natureza e que à medida em que vão se desenvolvendo, vão adquirindo a sensibilidade para com os outros, a capacidade de colocar em prática o “não faça ao outro aquilo que machucaria a ti”, sabe?

Eu não posso tirar o ódio do coração de um terrorista. O que eu posso fazer é tirar o ódio do meu próprio coração. É trabalhar todos os dias pra ver o mundo com mais compaixão, com mais empatia, com mais amor. Eu vejo um só mundo. Vamos agir de acordo.

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Sobrevivi aos 27!

Atenção! Narrativa de proporções homéricas, de relevância questionável pra todas as pessoas que não são eu mesma. Hahahahah 😉

Até pouco tempo atrás, eu tinha algo em comum com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Não mais. Eles continuarão pra toda a eternidade nos 27 anos, mas eu dia 28 de setembro completei 28 anos de vida e sigo firme! #amem Hahahah

Amo fazer aniversário porque é sempre uma época de reflexão, de rever o que conquistei até agora, como evoluí, o que dá pra melhorar e o que pretendo daqui pra frente. De ajustar prioridades e calibrar a minha bússola pessoal. É como um ano-novo – e de fato é um ano novo na minha vida. Já vinha fosforilando bastante desde o dia 26 de agosto, quando completei 6 meses de Londres, então nada mais natural do que escrever sobre o que aprendi nesse último ano. Muitas coisas podem parecer óbvias e ululantes, mas é fascinante como existe conhecer um conceito e existe internalizar um conceito. São coisas completamente diferentes. O que eu vou escrever são conceitos que eu finalmente entendi, finalmente passaram a fazer parte do meu modus operandi, finalmente deixaram de ser só mais uma frase motivacional pra se tornarem filosofia de vida.

1. O tempo vai passar de qualquer maneira

Nos últimos 12 meses, a primeira coisa que eu descobri foi o valor da paciência. No dia 03 de outubro de 2014, 5 dias depois de completar 27 anos, eu passei a fazer parte do registro do General Medical Council. Não diria que foi difícil, mas foi arrastado e uma coisa que eu queria muito, que era crucial pra tornar o meu sonho possível, então saí de lá na maior vibe Chris Gardner. 8 meses antes, eu me dei conta de que tinha um sonho, mas não um plano. Que sonhava em morar em Londres e tinha combinado comigo mesma que viria pra cá depois de terminar a residência, mas que não tinha nada de concreto e não sabia por onde começar. Então eu decidi duas coisas: que faria um estágio aqui pra conhecer a cultura profissional inglesa e que o primeiro passo pra uma vida em Londres como médica seria obter a permissão pra praticar Medicina aqui. Pois bem. Foram meses e meses lendo guidelines, juntando e organizando a tradução juramentada de todos os 293 documentos necessários #exagero. Um por um, fui riscando da listinha. Quando respirava aliviada achando que tinha terminado, recebia uma nova resposta do GMC pedindo documentos diferentes. Respirava fundo mais uma vez e ia atrás dos que faltavam, sem mimimi. Burocracia é um negócio que vai erodindo a paciência da gente, mas o único jeito de superar é o lema inglês Keep calm and carry on.

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E por isso que é tão importante fazer as coisas com tempo de sobra. Porque escada se sobe um degrau de cada vez. Ninguém realiza sonhos da noite pro dia. Então minha primeira lição aos 27 anos foi essa: sim, leva tempo. Pra cada x passos adiante, inevitavelmente vai acontecer um passo pra trás – e não há razão para pânico, faz parte do processo. Passou uma semana chateada porque achou que tava na reta final da corrida e tem mais 5km? Ok. Curte a fossa um pouquinho, caminha um pouco pra pegar fôlego e depois volta a correr. Sim, leva tempo. Mas o tempo vai passar de qualquer maneira! Então a demora nunca vai ser um motivo legítimo pra deixar de perseguir um sonho 🙂

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2. É preciso uma coragem imensa pra assumir -pra si mesmo e para os outros- que algo é a única coisa que você quer. O resultado é uma faca de dois gumes: vulnerabilidade sem precedentes, garra sem precedentes.

Engraçado que a segunda lição dos 27 anos foi no mesmo dia, horas depois. Tava um dia lindo de sol, segui do GMC pra Covent Garden pra dar uma volta e beber uma cidra e, de lá, fui pro Royal College of Anaesthetists. Eu achava que a minha melhor chance seria a Medical Training Initiative, uma iniciativa do RCoA que ajuda médicos estrangeiros a conseguirem vagas de fellow e obter o registro no GMC. Entrei lá e perguntei. A moça disse, sem cerimônia nem anestesia (pescou? haha): “Olha, você tem cidadania européia e já tem registro no GMC. Além disso, como você vai passar as próximas 6 semanas aqui, isso automaticamente te torna inelegível para o MTI, porque o candidato tem que morar overseas por 1 ano contínuo antes de aplicar. Não podemos te ajudar. Sinto muito, mas a sua melhor aposta é conseguir emprego diretamente com um hospital. Você pode procurar no BMJ jobs ou em outros sites de emprego para médicos“. Sorri, agradeci e virei as costas. O RCoA fica na frente de uma pracinha bem inglesa, pequena e despretensiosa, e no começo de outubro já cheia de folhas pelo chão. Sentei num banquinho desses e chorei. Porque já tinha lido o suficiente pra saber que é difícil ganhar a confiança deles, vindo de um país cujo padrão de treinamento eles desconhecem. Uma entrevista de emprego é um tempo muito curto pra convencer alguém de que você sabe o que está fazendo, quando são vidas em jogo. E nessa hora eu me dei conta de que a minha única opção era impressionar os supervisores do estágio o suficiente pra tentar engatilhar um fellow ao final da residência, porque todas as minhas economias (e mais uma ajuda dos meus pais) tinham sido usadas pra vir pra cá fazer o estágio, então eu não tinha condições de vir pra cá sem emprego garantido. E apesar de botar uma pressão enorme, isso me ajudou a ser menos tímida e mostrar mais a minha personalidade e conhecimento durante o estágio, porque afinal de contas, eu não tinha nada a perder e o potencial para ganhar era enorme!

Voltar pro Brasil, trabalhar como anestesista formada por um ano pra juntar dinheiro e vir pra cá sem emprego era uma opção, mas não era uma opção, entende? Por isso meu choro no banquinho naquele 03 de outubro #dramalhão. Eu tinha construído até ali toda uma mentalidade de “a única coisa que eu quero da vida é me mudar pra Londres em março do ano que vem. Não quero mais adiar em nem um segundo o sonho que eu tenho desde que pisei em Londres pela primeira vez em 2008″. Eu sei muito bem o quão fácil é deixar a vida levar, quantos sonhos já foram engavetados ou porque foram perseguidos de maneira half-hearted, ou porque a vida foi acontecendo diante dos olhos da pessoa e quando ela viu, já tinha criado raízes e assumido compromissos de longo prazo. No R3, pelo menos duas vezes por semana te perguntam “e aí, vai pra onde depois da formatura?”, que rapidamente passa a ser 5, 10, 20 vezes por semana à medida que o ano passa. Eu hesitei um pouco nos primeiros meses, mas depois de uma conversa franca com um dos meus chefes, passei a falar a verdade: “quero morar em Londres”. Ouvi de vários outros chefes que isso não era uma decisão sábia, porque propostas de emprego poderiam surgir se eu tivesse ficado quieta, se tivesse sempre respondido que queria ficar em Floripa. Mas quando a gente quer uma coisa num nível tão visceral quanto eu queria vir pra Londres, a gente não suporta ouvir a própria voz dizendo qualquer coisa que não fosse “quero -e vou- realizar meu sonho”. Simples assim. E isso tem tudo a ver com o próximo aprendizado.

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3. Incerteza faz parte da vida

A única maneira de garantir o desfecho de alguma coisa na vida é desistir/sabotá-la. Nem mesmo se você escolher batalhar por essa coisa todos os dias da sua vida, você terá garantia de sucesso. Se você pretender esse nível de controle, o amanhã vai sempre te assombrar. Não existe quem case com 100% de certeza de que jamais se divorciará, assim como não existe quem se mude pro exterior com 100% de certeza de que vai ou que não vai voltar, nem quem mude de profissão com 100% de certeza de que vai ter mais satisfação profissional.

Já conheci tanto expatriado por aqui que tem toda uma vida pessoal e profissional estruturada, bem-sucedida, e ainda assim quando perguntam “e aí, vai ficar pra sempre?” a pessoa responde que não sabe. Morar no exterior me ensinou que tudo bem não saber. Algumas das pessoas que eu mais admiro não sabem! Como eu já disse, se saber o próximo passo fosse uma grande prioridade na minha vida, eu teria ficado em Floripa, onde ninguém ia me perguntar a cada 5 dias se eu ia “ficar pra sempre”. Observe que a única diferença seria o quanto eu seria forçada a perceber que estaria optando por estar em Floripa todos os dias! Assim como eu conheço expatriados como citei ali em cima, conheço também ingleses que “oh but of course I’m going to stay in London forever”. Não porque estão escolhendo Londres, não necessariamente porque amam Londres, mas porque o fluxo natural da vida pra quem nasceu, cresceu, se formou, casou e trabalha em Londres é permanecer. É a primeira lei de Newton.

À primeira vista parece paradoxal, mas aceitar a incerteza da vida vem reduzindo drasticamente o meu nível de ansiedade. Porque ela coloca em evidência as minhas opções! É impossível ignorar que eu sou agente da minha própria vida! Eu escolho diariamente a vida que quero construir, o que automaticamente me tranquiliza porque reforça o meu poder de mudar de rumo, ajustar a trajetória caso seja necessário. Uma pessoa que entende isso não promete permanecer casada até a morte aconteça o que acontecer, e sim que QUER ficar junto do seu cônjuge pra sempre e por isso mesmo vai tomar todos os dias, todas as providências que puder para que o desamor não tome conta do relacionamento e torne o divórcio necessário. Entende a diferença? A primeira pessoa está dizendo “olha, espero que dê certo, porque não vou me divorciar” e a segunda diz “eu vou fazer tudo para dar certo, porque não quero me divorciar!”. Faz sentido?

4. Sair da zona de conforto DOI, mas é um dos instrumentos mais poderosos pra tornar alguém resiliente

Escrevi com detalhes sobre o turbilhão de emoções que senti no meu primeiro dia de trabalho. Aprendi muita coisa com aquele episódio. Quando a gente se aventura a fazer uma coisa nova, a gente se sente desconfortável. Ninguém gosta de levar 5x o tempo normal para fazer uma tarefa corriqueira porque não sabe onde as coisas ficam, ninguém gosta de não saber o nome dos colegas de trabalho, ninguém gosta de ter que começar do zero e provar que é competente pra um bando de gente desconhecida. Só que cada vez que a gente passa por isso, a gente percebe que a ansiedade e o desconforto fazem parte do crescimento, que o nível de performance da gente cai um pouquinho no início porque a ansiedade é muito grande e a gente não tá familiarizado com o ambiente de trabalho, que isso é absolutamente normal e esperado. E que logo logo vai melhorando até atingir o que um sujeito chamado White chamou de “zona de performance ótima”, quando você se sente desafiado o suficiente para se engajar profundamente com o trabalho, mas não tão overwhelmed pela ansiedade que te paralise.

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Quando comecei no hospital novo, em maio, tive mais um mini freakout. Pensei “gente, mas esse hospital é muito grande, é muito movimento, muito paciente grave, acho que eu sou uma farsa, não vou durar uma semana aqui!”. E se da primeira vez eu levei dias pra me acalmar e me convencer de que sou capaz de encarar o desafio, dessa vez eu levei horas. Nos dias seguintes, eu continuava consciente da minha ansiedade, mas já conseguia enxergar com clareza que em poucas semanas estaria bem adaptada no novo trabalho, assim como foi no anterior, e que portanto tinha somente que fazer a minha parte e dar tempo ao tempo.

Tive a honra de conviver de perto com o melhor médico que eu conheço, que é também o melhor anestesiologista que eu conheço. Ele passou a carreira inteira “pulando de galho em galho” do ponto de vista profissional. Mergulhava numa área nova e ali ficava até fazê-la muito bem. A partir do momento que não o desafiava mais, ele seguia adiante pra recomeçar o processo. Pra se manter interessado, apaixonado, engajado. Passou a vida colecionando expertise em várias áreas da Medicina. Não sei se é isso que eu quero da minha profissão, mas certamente é o que eu quero da vida. Cada uma dessas expansões de si pode ser num âmbito diferente da vida!

Por isso a palavra resiliência, que significa a capacidade de retornar ao seu estado original em face de uma adversidade: você sabe que a situação nova vai te mudar. Por um tempo, você sente que não é você mesmo. Mas dentro de pouco tempo, você se sente você mesmo de novo. Só que melhor. Vejo como se fosse um pequeno império pessoal, sabe? Você tem as tuas fronteiras. A cada batalha, você vai expandindo as fronteiras pra um lado, pro outro. Aí vem uns anos de calmaria, desfrutando e fazendo do novo território a tua casa. E quando você se sentir você mesmo de novo, quando aquilo for parte do teu dia a dia a ponto de você nem lembrar como a vida era antes dele, você resolve expandir pra outro lado. E assim vai se formando um império de crescimento pessoal!

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5. Fall seven times, get up eight

Uma das minhas amigas tá há um tempão na maior função de validar o diploma de médica pra poder fazer uns meses de pesquisa na África do Sul. Pesquisa observacional! Não vai tratar paciente nenhum, só fazer exames de imagem! Mas tipo, do nível “alôoo África do Sul, vocês não são os EUA, amigões, ninguém mais no mundo tem licença pra ser tão fresco!”… Mas enfim, antes que eu me distraia com esse assunto, a moral da história é que essa novela vem se desenrolando desde o começo do ano e ela já ouviu de zilhõooooes de pessoas que devia desistir, que ela tava gastando muito dinheiro e energia com aquilo, que provavelmente a tal da pesquisa nem ia valer a pena todo esse sacrifício. Além disso, ela precisava de uma bolsa de pesquisa, pra qual ela já tava aplicando há tempos e mesma história, ouviu de outra colega “ah nem perca o teu tempo aplicando, eles negam sempre”. E entre eu ir pro Brasil de férias e voltar, todo esse imbróglio se desenrolou e voilà: habemus registro médico, habemus bolsa de pesquisa, e inclusive habemus passagem pra África do Sul!!! Por essas e muitas outras razões, ela me ensina todos os dias o valor da persistência.

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E isso vale pra tudo, não só pra grandes conquistas ou frustrações. Vale pro dia a dia, que nada mais é do que uma sucessão de pequenas vitórias e pequenas derrotas. Como eu já tinha aprendido ali no item 3, a única constante na vida é a mudança. Tô tentando entender a impermanência das coisas, pra ficar menos inebriada com o sucesso e menos deprimida com a derrota.

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Tem épocas em que tô super de saco cheio do trabalho, de como preciso trabalhar igual uma condenada pra ficar na média enquanto de repente se tivesse feito outras escolhas eu poderia ter mais paz no coração, enfim… fico uns dias num mimimi do cão, mas nessas horas tento lembrar que tudo passa e que não demora muito aparece algo que reacende minha paixão pelo que faço. Da mesma maneira, no auge da minha paixão por Londres, vivo me lembrando de que isso também vai passar, que mudar de cidade ou de país não elimina os conflitos da gente – vide exemplo acima.

Bom, literalmente auto-ajuda esse post. Que é mais uma lição por si só. Se eu não me ajudar a viver com cada vez mais leveza e sabedoria, quem é que vai?! Fiz uma listinha de 10 coisas, mas vou dividir em duas partes porque senão até eu terminar, já terei mais 10 coisas na lista! 🙂

Konnichiwa*, royal baby!

Engraçado como dizem que perfeccionismo é aquele tipo de defeito disfarçado, que a pessoa fala em entrevista de emprego pra fazer o próprio filme né?! Pois eu discordo plenamente. No meu caso, perfeccionismo = procrastinação. E procrastinação, meus amigos, é o meu maior inimigo! Já sentei pra escrever sobre a minha semana de folga, mas como escrever aqui é quase uma meditação (haha!) e fico filosofando sobre a vida, se eu achar que não tá rolando concentração, eu abandono e vou fazer alguma coisa bem inútil (alô instagram!).

Bom… terminei contando do brunch no Christopher’s né?! Falando com o Alex no whatsapp, ele me contou que já estava na frente do Buckingham Palace o cavalete com o anúncio do nascimento da Princesa Charlotte de Cambridge (que naquela altura do campeonato não tinha nem nome ainda). Mas não tive nem dúvidas: estávamos a 10 minutos dali, arrastei a Alexa comigo e fomos fazer fila com os 293 japoneses que queriam tirar foto do anúncio também, hehehehe. Andou mega rápido porque o guardinha do lado de fora ficava dizendo “andando, andando pessoal, adiante que atrás vem gente, uma só foto por favor”.

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E cheguei em casa pra encontrar o primeiro envelope endereçado a mim de fato desde que me mudei pro UK: sogrãaaaaao!

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E era um convite especialíssimo! Como vocês sabem, os pais do Alex são separados há 11 anos, e o pai dele tem uma namorada há muitos anos, agora resolveram oficializar a união :))) então no próximo fim de semana vou pra Salzburg pro casamento do meu sogro! Hahahaha mundo moderno né?! Achei o máximo!

Depois, ainda no mesmo dia, peguei a câmera e dei um pulinho na Tower Bridge só pra registrar o momento histórico – ela ficou iluminada em cor de rosa a partir do anúncio de que o royal baby era uma menina!

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Enquanto eu tava no pier tranquilona tirando minhas fotos, chegaram dois guris japoneses filmando, um com microfone e outro com a câmera. Achei engraçado ficar ouvindo o que eles falavam, e quando comecei a fechar meu tripé, eles pediram se podiam me entrevistar para a Fuji TV. Por que não, né?! Quando mais que vou ter uma oportunidade de responder uma pergunta que me foi feita em japonês? Hahahaha mandei ver e comentei que reconhecia a intenção da instituição em honrar e homenagear a família real, porém que tinha mixed feelings a respeito porque essa atitude reforça papéis de gênero, que algumas coisas no mundo (começa com cores, depois brinquedos, atividades, livros, carreiras, ad infinitum…) são de mulher enquanto outras são de homem.

Chegando em casa, comentei com o Alex no telefone que “acho que eles eram dois universitários fazendo trabalho de fim de semestre e só tirando uma com a minha cara”, e ele respondeu “é, ou o teu rosto tá aparecendo numa TV de 60 polegadas no centro de Tóquio as we speak“, hahahahah…

Nem me lembrava mais dessa história, mas agora como fui escrever e lembrei, mandei um email pro gurizão pra pedir se chegou a ir ao ar. Ele se apresentou como “assistente de produção da Fuji TV”, pensei aham, Cláudia – mas depois googlei o nome dele e de fato achei várias entrevistas e um perfil no LinkedIn. Então veremos! Se tiver notícias, volto aqui no post pra botar o link! Hahahaha imagina que hilário?!

E só pra terminar meu fim de semana inesperadamente folgado (por causa da mudança ultra-express-eficácia-surreal do Heart Hospital para o Barts Heart Centre), fui dar uma corridinha amiga no parque aqui perto de casa. Aqui também tem aqueles playgrounds de adulto, hahaha aquelas máquinas de musculação que usam o peso da própria pessoa. Bem legal.

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Sinto falta de me exercitar nesse sentido mais frequência cardíaca em 180bpm da coisa, sabe como? Minha vida aqui em Londres é super ativa, caminho bastante todo dia, mas sabe o nível de endorfina que a gente só libera quando fica de língua de fora, suando loucamente e descabelada? Pois é. Acho que vou me inscrever numa academia em breve… pra poder correr sem culpa, porque já levei sermão de 2 ortopedistas diferentes dizendo que não tenho condições de correr sem fortalecer a musculatura… de início pensei “ahhhh quem precisa correr mesmo?! Odeio musculação!” mas agora tô sentindo falta!