Cereal Killer

Já tava quaaase esquecendo de escrever aqui hoje!

Hoje de manhã, apesar da chuvinha chata, fomos a Shoreditch porque eu tava querendo ir a um café que tem um conceito muito legal: é um lugar especializado em todo tipo de cereal matinal, desses das antigas mesmo, aquelas caixas que quem foi criança nos anos 80 e 90 conhece tão bem.

Meu preferido era o do elefante, o Choco Krispies, e lembro que o do Rodrigo (acho) que era Fruit Loops. Aí chegamos lá e o menu é super inusitado, eles têm umas tigelas “sugeridas” em que eles misturam alguns tipos de cereal que acham que combinam – por exemplo o Alex pediu uma tigela toda centrada nos sabores de manteiga de amendoim, com umas bolinhas de chocolate e leite sabor banana. Já eu, como a razão da visita eram os floquinhos de arroz estourado cobertos de chocolate, acabei pedindo uma “monte sua tigela” com esses e uns Cinnabons, que são um cereal de canela super doce que eu teria amado se existissem na infância, e freeze-dried unicorn marshmallows 😂

Muito legal mesmo, e aí além de usarem os próprios cereais como decoração, eles seguiram o “tema” anos 80-90 com uns trolls nas prateleiras, uns bichinhos de pelúcia, e uma trilha sonora engraçadíssima de hits da época. E como se isso tudo não bastasse, ainda te trazem a conta dentro de uma capa de vídeo das antigas em VHS!

Pena que não deu pra esticar o passeio como eu tinha planejado inicialmente, eu AMO o Columbia Rd Flower Market então seria perfeito irmos lá, depois tomarmos o café da manhã e continuarmos perambulando por Brick Lane até vir pra casa. Mas na chuva não teria a mesma graça, então resolvi deixar pra lá e vir pra casa agilizar a vida pra essas próximas duas semanas que serão bem corridas – mas mesmo assim não consegui fazer tudo que queria 😣 Vou ter que me virar nos 30!

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Flanando por Londres

Hoje o dia foi de flanar pela cidade e me despedir da Dri, que tá de mudança pros Estados Unidos essa semana. Então a Soph reservou pra gente almoçar num restaurante novo no rooftop da Selfridges: Il Tetto – e cara, que bola dentro!!! Comida italiana de verdade e um clima muito gostoso!!!

Depois cruzamos o Hyde Park passeando, tirando uma foto aqui e outra ali, beirando a Serpentine, paramos pra tomar um chá e papear mais… e depois fomos ao Victoria and Albert Museum. A Dri não ia lá há anos e queria voltar, e eu adorei a escolha dela porque nunca tinha ido. Com certeza não será minha última visita!!! Tem umas peças de decoração muito lindas, uns tapetes persas de cair o queixo, mas fiquei surpresa ao ver tantas esculturas – eu na minha ignorância achava que era um museu só de design e moda, mas na verdade depois descobri que ele tem a maior coleção de esculturas renascentistas fora da Itália! E além de ter tudo isso, tem uma arquitetura maravilhosa que só perde pro vizinho Natural History Museum.

Então chegamos lá e aproveitamos o solzinho pra sentar no courtyard, olhar as crianças brincando no espelho d’água e falar da vida. Muito muito gostoso, curti demais.

Até tentamos encerrar o dia com um drink NO Tâmisa, no Tattershall Castle que eu curto muito, mas as meninas imediatamente notaram o balanço do barco e decretaram que não ia rolar, hehehe… então cruzamos pro South Bank, jantamos no Wagamama e encerramos o dia com um brinde no Founders Arms.

O dia foi uma delicia, só flanando por Londres, falando da vida e de planos, dos novos capítulos que cada uma tem pela frente, muita energia boa mesmo. Sempre admirei demais a maneira da Dri encarar a vida de braços abertos e hoje foi mais uma celebração dessa filosofia de vida, que nós três compartilhamos ❤️

Pra encerrar com chave de ouro, vim pra casa a pé ouvindo música, pra completar minha caminhada preferida no mundo, deitei no sofá com o Alex e estamos aqui de preguiça, ele vendo os melhores momentos do futebol, eu escrevendo aqui, e daqui a pouco saem empadinhas quentinhas do forno pra completar nossa domestic bliss! Hehehehe

É primaveraaaa

Hoje fez um dia lindo, super agradável e ameno, aquela luz dourada já mais veranil – é incrível como a gente nota muito claramente as diferenças no ângulo de incidência da luz aqui conforme as estações.

Terminei minhas anestesias relativamente cedo, ainda fiz a boa moça e fui me oferecer pra liberar dois colegas para lancharem, etc etc, e ainda assim sai do hospital antes das 17h!!! AI QUE FESTA!

Aí no caminho pra casa mandei mensagem pra umas amigas perguntando se alguém queria me encontrar em Shad Thames pra tomar um drink na beira do rio. A Paola veio, e depois a Dri, que tinha ido encontrar uma amiga em outro lugar, também resolveu ir pra lá nos encontrar. No fim das contas acabamos as 4 rindo horrores, falando alto e fazendo mil piadas em português no restaurante!

Falei no Instagram (@gabiemlondres) sobre QUÃO feliz o londrino fica quando faz um dia bonito!!! É muito legal essa gratidão e vontade de viver que toma conta da cidade em dias bonitos!

Por que parou? Parou por quê?

Estou há mais de 6 meses sem escrever nada aqui. SEIS MESES!!!

Então resolvi parar pra refletir um pouquinho, tentar entender o porquê dessa pausa não planejada e preguiça generalizada de registrar minha vida por aqui.

Já falei outras vezes que minha relação com esse espaço é tipo aquela máxima do queijo suíço:

“Quanto mais queijo, mais buracos

Quanto mais buracos, menos queijo

Portanto… quanto mais queijo, menos queijo”

Quanto mais acontecimentos e mudanças na minha vida, menor a chance de eu parar por tempo suficiente pra refletir e registrar aqui. Porque eu demoro né, comigo não tem essa de escrever rapidinho enquanto a comida esquenta, porque fico pensando na morte da bezerra, traçando paralelos e tal. Aí você diz: bah, Gabi, mas então você escolheu um método muito paradoxal pra fazer teus registros, né. E realmente, o instagram acaba sendo um querido diário muito mais fiel ao meu dia a dia porque leva de alguns segundos a alguns minutos pra postar, dependendo da complexidade da legenda, e ainda que a legenda seja só um emoji da preguiça, a foto estará lá, e eu me lembrarei de quando ela foi tirada.

Só que nesses últimos meses, até isso tem ficado meio em segundo plano. Um tempo atrás recebi uma mensagem privada no instagram de uma menina muito querida e simpática, dizendo que adora minhas fotos mas estava sentindo falta da minha personalidade, das minhas legendas espirituosas e piadinhas que acompanhavam as fotos. Que os posts estavam ficando meio genéricos, ela olhava e não sabia mais quem tinha postado.

A grande verdade é que muitas coisas mudaram (para melhor!!!) na minha vida!

Desde o meu último post aqui no blog, o Alex voltou a morar em Londres, eu passei pelo maior obstáculo profissional (e psicológico) da minha –reconhecidamente– privilegiada existência, nós passamos juntos pela caça ao tesouro imobiliário londrino (e pesadelos associados, haha), fizemos mudança no melhor estilo londrino, usando metrô, muitas malas e muito bíceps, mobiliamos o flat com direito a múltiplas idas à Ikea e muito suor e lágrimas para montar tudo sozinhos (#dramalhão #mentira), estabelecemos uma nova rotina, curtimos muito o verão inglês com direito a inúmeros piqueniques e atividades ao ar livre, e agora sim a vida está estabilizando.

Paralelamente a tudo isso, aconteceram muitas mudanças internas também. Quando eu me mudei pra cá, eu tinha poucos amigos e a natureza do meu trabalho significava que os poucos amigos que eu tinha do trabalho estavam sempre de plantão em horários incompatíveis com os meus, então eu passava muito do meu tempo sozinha. O whatsapp e o instagram eram minhas companhias constantes, e como eu já disse antes, sou muito reflexiva, então usava os posts como forma de externalizar todas essas minhas elucubrações, observações e trocadilhos bobocas que meus amigos gringos provavelmente não entenderiam. Devo muitas das minhas amizades atuais ao instagram, mas à medida que elas foram atravessando a barreira da internet para a vida real, e especialmente depois que o Alex voltou pra cá, eu diria que em boa parte das atividades que faço no meu tempo livre, eu estou acompanhada. Acompanhada de uma pessoa real -seja meu namorado, sejam amigas- cuja companhia eu prezo demais, e portanto tenho feito um esforço consciente de não abandonar a ver navios enquanto enfio a cara no celular pra postar uma foto no instagram com uma legenda enorme e reflexiva. Isso não quer dizer que eu não queira mais ou não goste mais de filosofar – muito pelo contrário, no fundo sou uma pessoa introspectiva, e sinto uma necessidade quase física de curtir minha própria companhia, então sempre procuro assegurar um tempo comigo mesma. Desse tempo invariavelmente surgem reflexões que eu gostaria de, em algum momento, compartilhar, mas o fato é que a esfera virtual não tem sido uma prioridade na minha vida ultimamente.

Outra razão pro meu sumiço é um pouco mais complexa. Eu nunca tive a intenção de escrever para outrem, heheheh. Não me entenda errado: eu adoro as interações da internet – acredito que elas inspiram, agregam, desafiam, engrandecem a gente (se a gente filtrar quem a gente segue, mas isso é assunto para outro post). E também não dá pra negar que todo mundo tem um pouquinho de Narciso dentro de si: é legal ver as pessoas se interessarem pelas tuas opiniões, é legal receber comentários e atenção, e principalmente é recompensador para a psiquê humana receber a validação dos coleguinhas, ainda mais se os coleguinhas forem gente com ideais parecidos, gente que a gente respeita. Por mais blasé e too cool for school que você queira parecer, o seu subconsciente tá lá, se regozijando com cada sinal de aprovação que você recebe, seja online, seja na vida real. Tô pra ver alguém ter a cara de pau de negar. Mas meu objetivo maior com esse espaço é descaradamente egoísta: quero manter um registro da minha vida, dia a dia, mudanças de perspectiva e objetivos, etc etc. Aí você diz: mas Gabi, se é assim então faz um blog privado! E eu respondo: “oi, meu nome é Gabriela, e estou há 0 dias sem procrastinar”. Hahahahah gente, se nem com amigos perguntando de vez em quando “e aí Gabi, abandonou de vez o blog?” eu me mexo pra escrever, imagina se ele fosse trancado só pra mim?! Então fico dividida entre os benefícios do compartilhamento, e uma certa resistência intrínseca de escancarar minha vida privada na internet, mesmo que haja meia dúzia de gatos pingados lendo. Não sou uma pessoa particularmente aberta, quando estou passando por momentos difíceis prefiro dividir só com as pessoas mais próximas, mas ao mesmo tempo não quero que esse blog seja uma coleção superficial dos highlights da minha vida (que aliás nem isso eu tenho conseguido manter). Muito mais do que o fim de semana estendido no Báltico, ou o dia em Wimbledon, ou o piquenique de verão na beira do rio, acredito que o meu eu é definido por aqueles momentos em que apesar das renúncias, de repente em um momento super simples e ordinário toda a sua vida faz sentido, e também pelas grandes superações, pelas dificuldades, perrengues e medos que cada um enfrenta. Dificuldades, perrengues e medos estes que eu não tenho uma habilidade natural, nem facilidade para relatar.

No fim das contas, independentemente de qualquer outra coisa, sempre achei que escrever me ajuda a entender meus próprios sentimentos, sabe, organizar as idéias. Depois de passar naquela prova difícil que passei em maio, um dos requerimentos de um dos mentores que me ajudaram era que eu escrevesse um email pra ele refletindo sobre toda a experiência. Nesse último domingo, precisei procurar um negócio relacionado na minha caixa de emails, e reli tudo. Gente, impressionante como escrever pra mim é o equivalente daquela comunidade antiga do orkut que dizia “Chorar resolve”. Hahahah… Incrível o quanto colocar preto no branco me ajuda a fazer sentido das coisas. Pode até não mudar nada na minha vida no aspecto prático, mas só o fato de colocar pingos nos meus is internos me fortalece e me inspira.

Agora que a vida está se estabilizando, vou voltar a priorizar um tempinho por semana aqui, porque afinal de contas, se ter o registro é importante pra mim, preciso organizar o meu tempo pra fazer acontecer, certo?! Talvez eu tente escrever posts mais curtinhos e frequentes, ao invés de escrever essas odisséias que normalmente escrevo, pra ver se funciona melhor. Então, como diz o exterminador do futuro: I’LL BE BACK! 😂

Conquistas

Já falei mil vezes: blasé eu não sou. Jamais serei. Me deslumbro com as coisas mesmo, no fundo serei eternamente uma guria do interior que custou a acreditar que ganhar o mundo era um sonho possível, e gosto de comemorar cada pequena vitória na minha vida. Pode parecer narcisismo e auto-congratulação pura, mas a verdade é que é uma estratégia de sobrevivência emocional. Sou muito auto-crítica, então acho importante ressaltar pra mim mesma tudo que eu já consegui conquistar, o quão longe já cheguei, porque minha tendência natural é só enxergar o quanto ainda falta pra chegar onde eu quero – o que, convenhamos, pode ser mais cool mas não é nada saudável.

O último mês foi particularmente surreal nesse quesito. Teve aqueles momentos em que a gente se belisca, pensando “é isso mesmo, produção?!”, como foi o evento fechado ao qual fui convidada na Queen’s Gallery, no Palácio de Buckingham, e terminou no mesmo tom com outro evento de alto escalão que ainda vou voltar pra contar.

Mas melhores ainda são os momentos em que não precisa se beliscar coisa nenhuma, porque o sofrimento que veio antes da conquista é tão, mas TAO real, que a alegria tem gosto de merecimento puro e irrestrito.

Esse mês, eu antecipei uma prova que tinha planejado fazer em março. Meu mentor sentou comigo em meados de setembro e disse: “Gabi, vambora, faz a prova em novembro que se você passar em tudo agora, isso pode te economizar 6 a 12 meses na progressão da carreira”. Respondi que não me sentia pronta, que tinha feito questões e ficado de cabelo em pé, que todos os colegas tinham me assustado falando sobre a dificuldade da prova, que as taxas de aprovação eram 50% mesmo considerando que todo mundo estuda de 4 a 6 meses, certamente não valia a pena queimar uma tentativa tendo estudado menos de 2 meses, e depois ficar marcada no currículo como quem não passou de primeira. Ele disse que não estaria me incentivando se não soubesse que eu era fully capable de estudar e passar no tempo disponível. E que eu não tinha absolutamente nada a perder a não ser o dinheiro da inscrição, já que ninguém olha quantas vezes a pessoa prestou a prova nas entrevistas de emprego lá na frente.

Fiz alguns simulados e me inscrevi. Larguei todo o resto e só estudei por 6 semanas. Depois de várias crises de auto-dúvida ao longo dessas semanas, chegou o dia da prova. Eu gosto de fazer provas quando me sinto preparada. Sabe aquela vibe “VEMNIMIM, quiridu, que quero responder tudo isso aí”?! Foi assim no vestibular, foi assim na prova de residência. Eu gosto de fazer prova quando eu tô preparada. Acredito muito que a chave do sucesso é a auto-confiança, e a chave da auto-confiança é a preparação. Então quando a gente não tá botando fé no próprio taco, fica tudo tão mais difícil! Ao mesmo tempo, como sou super procrastinadora, se não tivesse um empurrãozinho, provavelmente enrolaria eternamente pra fazer essas provas, só pelo medo da fama – dizem que as provas de anestesia são as provas de especialidade mais difíceis do UK. Sabia que antecipar a prova tinha sido a escolha certa, mas estava com medo mesmo assim.

Aí, na manhã da prova, eu vi no instagram uma frase que me atingiu com a força de um meteoro:

THERE IS NEVER THE RIGHT TIME TO DO A DIFFICULT THING. Existe maior verdade que essa?

Ao mesmo tempo, enquanto fazia meus ovos mexidos de café da manhã, comecei a pensar comigo que há quase exatos 2 anos, eu estava sentada na pracinha na frente do Royal College, chorando porque tinham me dito que eu não poderia participar de um programa deles que facilita a vinda de fellows. Comecei a me dar conta que, dentro desses 2 anos, eu consegui um emprego excelente num centro de respeito na minha área, completei meu fellow em cardíaca, me adaptei maravilhosamente bem , ajustei o plano de vôo para acomodar a vontade de ficar por aqui, e agora estava dando os primeiros passos da próxima era da minha carreira. Essa mudança de perspectiva me ajudou a ver que o simples fato de estar FAZENDO a prova era uma conquista. Nem sei se algum outro médico brasileiro já fez essa prova antes. Inscrita e registrada no Royal College of Anaesthetists, tendo o respeito e apoio de gente grande na anestesia londrina, traçando um caminho único e desbravando uma mata virgem que eu não conheço ninguém que tenha feito antes – não importava mais se eu passaria dessa vez ou não. E foi com essa gratidão e auto-confiança encontrada de última hora que eu entrei na mesma sede que me tirou as esperanças de um caminho mais fácil 2 anos atrás.

Saí da prova e bebi meu merecido vinhozinho branco ainda nesse clima, e depois segui pra jantar com a Paola. No dia seguinte, fui pro outlet de Bicester Village procurar uma bolsa que não encontrei, mas comprei um presentinho de consolação pós-prova. Me permiti mais um dia de folga, e no fim de semana tive que encarar a realidade: eu precisava terminar meu logbook de eco, o projeto inicial da minha vinda pra Londres, que eu comecei há quase dois anos e agora precisava finalizar dentro de 15 dias.

De novo passei o fim de semana todo na sofrência, me recusando a encarar a quantidade de trabalho que precisava fazer em tão pouco tempo. Mais uma vez, deixei todo o resto de lado e mergulhei de volta no projeto que se eu fosse mais esperta, teria terminado em setembro. A verdade é que, como minhas prioridades profissionais mudaram e esse projeto do eco exige que a gente faça e envie uma quantidade hercúlea de laudos e mais 6 vídeos com casos completos, eu não aguentava mais ver um eco na minha frente! Claro que ainda adoro, mas é a parte da certificação que vai erodindo a paciência da gente. No fim das contas foi legal voltar pro centro cirúrgico pra coletar umas últimas imagens, fiquei satisfeita com várias mas como sou perfeccionista, acabei montando 8 casos completos e descartando os 2 piores.

Nesse meio tempo, o Royal College liberou os resultados e eu soube que tinha passado na primeira fase da prova!!! Traçar um caminho diferente dos colegas é uma atividade solitária – meus colegas ingleses já fizeram essa mesma prova anos atrás, os colegas europeus não precisam fazer, e os poucos colegas não-europeus desistiram diante da dificuldade. Então eu recebi a notícia enquanto estava no hospital, já contei pra vários chefes e colegas. Gente, a alegria dos chefes que mais me apoiam era surreal, de repente você se dá conta que não está sozinha. Obviamente eu nunca estive, porque o Alex, meus pais, irmão e melhores amigas estavam todos na sofrência e torcida junto comigo, mas no âmbito profissional, fiquei feliz demais!!! O auxiliar de anestesia até tirou uma onda com a minha cara, disse “vê se comemora direito antes de pensar na próxima fase né”.

Enfim, de novo tomei um prossecozinho com a Paolex naquele dia só pra não deixar passar em branco, mas mal pude curtir o gosto da conquista porque tava tão estressada com o outro projeto que tinha que finalizar. Depois de TO-DOS os perrengues tecnológicos possíveis, inclusive problemas no servidor do hospital, depois nos formatos de vídeos, depois na plataforma de envio, eu finalmente cliquei ENVIAR e aí sim pude correr pra galera!!! Fui com a Paola nos iglus mais disputados de Londres pra curtir um prosecco com vista, e depois o Roni chegou do trabalho e jantamos juntos por lá mesmo.

Essas duas conquistas, a primeira fase da prova e o logbook finalizado, são do tipo que falei lá em cima. São aquelas conquistas sofridas, suadas, e apesar de por si só não me levarem a lugares específicos e sim serem somente stepping stones para o futuro que eu almejo, nessas horas eu não tenho pudor nenhum de alimentar meu Narciso interior e dar aquele auto-tapinha nas costas. Muito bem, Gabi. Tem chão ainda, mas não tás fazendo feio não. Keep calm and carry on.

A gente pode escolher entre ser um big fish in a small pond ou um small fish in a big pond. Nos anos que antecederam minha mudança, conheci alguns grandes médicos que fizeram a escolha consciente de ser peixe grande em lago pequeno porque admitiram não conseguiram ou não conseguiriam lidar com a pressão de serem peixes pequenos em grandes lagos. “Gabi, voltei porque prefiro ser cabeça de rato a rabo de baleia”.

Eu sofro sim. Duvido da minha capacidade, me questiono, fico de mimimi que só quem é muito íntimo conhece e atura. Não sei se um dia me juntarei ao coro dos que voltaram, que mudaram de prioridade, que viram o lado bom do lago pequeno. Mas desde os 16 anos, descobri que pular pra lagos maiores obriga a gente a crescer pra sobreviver… tem um tipo de crescimento que é tipo chave secreta de videogame, a gente só desbloqueia quando aceita as mazelas de ser peixe pequeno.

MIND THE savage

Tenho pelo menos 3 coisas na fila do que quero escrever aqui, mas a grande verdade é que o causo de hoje não pode esperar – quero contar com riqueza de detalhes enquanto ele ainda me faz cair em pequenas crises de riso.

Pois bem. Hoje eu fiz parte do corpo docente de um curso com um impacto enorme sobre um assunto que é um dos meus preferidos: patient safety. Um dia quero escrever um post especificamente sobre isso, mas suffice to say que saí de casa as 6:30 da manhã, super feliz com a oportunidade, e nem vi o dia passar.

Mas o fato é que esses cursos que duram o dia inteiro são péssimos pra dieta da gente: mentaliza toda uma vibe excessivamente inglesa cujo aporte nutricional consiste de chá, sanduíches e salgadinhos (batatas fritas de pacote e associados). Agora pensa se isso alimenta uma draga como esta que vos fala? Óbvio que não né.

Então, na corridinha pra estação do metrô, debaixo de chuva, privada de sono e com uma preguiça imensa de preparar qualquer uma das 283 opções de refeição saudável que eu tinha em casa, tomei a decisão que qualquer adulto responsável tomaria: resolvi jantar 6 nuggets do McDonald’s que fica na frente da estação do metrô. No caminho de casa. Dentro do metrô. Tamanha era a minha fome e receio de desfechos piores caso esperasse até chegar em Bermondsey e passar na frente do Tesco.

Pois bem. Moço, 6 nuggets por favor. Molho? Barbecue, please. Segurando minha sacola quentinha e resistindo a tentação, desci até o primeiro patamar, que não era a minha linha, e já de cara avistei uma MULTIDAO descendo em direção à minha linha, querendo fugir da chuva repentina. Chegando na plataforma, tava daquele jeito que dá medo de cair no vão, sabe? Então achei um cantinho lá no final da plataforma, do lado de uns bancos que obviamente estavam ocupados, e resolvi esperar o próximo trem, apostando que a plataforma certamente não ficaria tão superpopulada dentro dos próximos 3 minutos.

Nesse meio tempo, uma menina asiática com seu malão de rodinhas parou pra esperar o trem na parte baixa, enquanto a maioria das estações que têm acesso step-free têm uma parte elevada – ou seja, ela não precisaria levantar o malão, simplesmente rodaria adiante pra dentro do vagão. Avisei a menina e, pra minha surpresa, o cara que tava num dos bancos me elogiou pela gentileza “vejo isso sempre e ninguém nunca avisa a pessoa”. Sorri e agradeci.

Me sentindo extra benevolente, resolvi aproveitar a espera até o próximo trem chegar pra comer meus nuggets enquanto ainda estavam quentinhos.

Abri o molho e joguei a tampinha num dos lixos de plástico transparentes (que assim o são porque em 1991 houve um atentado do IRA em Victoria com uma bomba que foi escondida em uma das lixeiras, e se seguiram 20 anos sem lixeira nenhuma no metrô londrino até que em 2011 algum abençoado teve a brilhante idéia de colocar esses aros amarelos onde se encaixa um plástico transparente)… Mas aí senti um cheiro diferente e pensei “puts que saquinho, o atendente do Mc me deu o molho errado”. Dito e feito, estiquei o pescoço pra ver dentro do lixo transparente e lá estava o culpado: tomate intenso. Migo, tomate intenso também conhecido como catchup né, deixa de onda McDonalds! E joguei o potinho todo fora, porque afinal nem gosto de catchup, essas calorias não valem a pena então não fiz questão de molho e mandei ver os nuggets sozinhos mesmo.

Só que, assim que eu terminei, o próximo trem chegou e a porta mais próxima de mim era de um vagão especialmente tranquilo, então ao invés de andar no sentido oposto e jogar a sacola de papelão no lixo supracitado, resolvi jogar na estação de casa quando chegasse.

Estou plenamente consciente do nível de desinteressância dessa narrativa até agora, que poder-se-ia, se não fosse pelas minhas mesóclises, resumir-se em: TRABALHEI BASTANTE, TAVA COM FOME, COMPREI NUGGETS E COMI NO METRO. Mas né, se você chegou até aqui, só me resta agradecer pelo voto de confiança.

Mas aí entrei no vagão, sentei confortavelmente e pensei comigo “ok, vou só organizar um pouco essa sacola volumosa insuportável, daqui a pouco me livro dela e pronto”. Alguém mais gosta de organizar o lixo antes de jogar fora?  Não entendo gente que entrega tudo separado e zoneado no avião – mas gente, cabe tudo no copo, olha, é só dobrar bem dobradinho!

E como tinha a embalagem quadradinha dos nuggets, dobrei energeticamente… Tão energeticamente, na verdade, que em frações de segundo vi um filme passando em câmera lenta em frente aos meus olhos: uma resistência maior no canto esquerdo da sacola, seguido imediatamente por uma mini explosão, seguida imediatamente por um jato poderoso do DEMO DO MOLHO BARBECUE que no fim das contas o atendente tinha, de fato, me dado. Quando o slow-motion acabou, me dei conta que não somente a coxa esquerda da minha calça jeans, como tambem o canto inferior esquerdo da minha bolsa carésima de couro estavam com aquele grude característico que só uma erupção de glicose faz por você, mas que -horror dos horrores- o canto do casaco da guria do meu lado também tinha sido alvejado!!!! HAHAHAHAH gente não deu nem tempo de registrar a reação da guria, só sei que me encontrei com umas massas amorfas de molho barbecue na minha coxa e mão esquerdas, a minha bolsa xodó atingida em tangente, e a mão direita ocupada com a sacola explodida. Não sabia o que limpava primeiro: o casaco da guria? Mas a minha mão tá suja! A bolsa? A calça? Gente, como eu sou retardada! Puts e agora como que eu vou limpar isso? Já comecei a pedir desculpas profusas logo ali, logicamente.

Eu sempre carrego lenços umedecidos, mas a minha mão estava TAO suja e grudenta que meu maior pânico era sujar o interior da minha bolsa no processo de catar os tais dos lenços, que moram num cantinho lateral bem estreito da bolsa.

Ok, hora de deixar o orgulho de lado. Levantei a cabeça do meu desastre ultraglicêmico: does anyone have a tissue please? E apesar do londrino ser reconhecidamente avesso a interações no metrô em geral, que aliás é uma coisa que eu amo, quando se trata de solidariedade o povo tem de sobra, e dentro de 5 segundos apareceram três lenços de papel, um ticket do metrô em cartolina (you can use it to scoop the sauce, you see) e dois lenços umedecidos, um deles vindo de uma guriazinha risonha de uns 8 anos que obviamente achou o máximo poder ajudar naquela comoção.

Só então é que eu fui registrar a cara da guria do meu lado, com a sua parka verde musgo agora com nuances de vermelho barbecue. Uma lembrança da minha infância piscou vividamente na minha mente nesse momento:

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Juro que a cara da guria era EXATAMENTE  a cara do baixinho da Pantera Cor de Rosa (meu desenho preferido quando criança).

Pouco a pouco fui limpando a lambança, ajudei a guria a limpar o casaco dela e fiquei na torcida pra ela não estar a caminho de um date – mas confesso que julguei pela roupa e pensei que ela devia estar indo pra casa, não, ela certamente tá indo pra casa, vamos pensar positivo. Sorri e agradeci as almas caridosas que me estenderam a mão nesse momento de necessidade, e pouco a pouco foram se dispersando em outras estações.

Só que, logo depois que a poeira abaixou, me dei conta mais ainda do ridículo da situação e tive que passar o resto do trajeto inteiro até em casa me segurando pra não rir!!! A guria continuou fumegando de brabeza e resignação do meu lado.

Ao sair do vagão, pedi desculpas mais uma vez e comecei a rir assim que as portas se fecharam!

“Miga, agora você tá brabeza desse jeito, mas daqui a um, dois, cinco anos você vai rir contando pra alguém sobre a retardada que explodiu na selvageria total um molho barbecue no metrô enquanto tentava organizar o próprio lixo! E vou além: se é pra ser vítima de alguma explosão no metrô, que seja de molho né?!”

Água dura em cabelo mole

Tanto bate até que cria uma ENGRONHA CATACLISMICA!

Até umas semanas atrás, tudo ia bem na esfera capilar da minha vida.

Meu cabelo sempre foi bem saudável, tanto que toda vez que vou na Fer Nabuco ela elogia a saúde e maciez dos meus cabelos! Nunca fui de gastar lá muuuita energia neles, mas aprendi desde cedo a diferença que a qualidade da água faz nos cabelos: quando mudei de Caçador (região de montanha, a quase 1000m de altitude) pra Floripa, aos 16 anos de idade, notei imediatamente o quão mais ressecado e menos viçoso meu cabelo ficava. E ir pra Caçador de férias era sempre aquela glória, mal precisava secar o cabelo com secador e já ficava me sentindo a própria Kate Middleton. Então quando vim pra Londres, percebi que desci mais um degrau nesse precipício da água ruim, e que ia ter que me espertar um pouco mais com os cuidados pra não ficar igual a Hermione Granger.

Depois que resolvi fazer luzes, na metade do ano passado, passei a caprichar ainda mais: uso máscara hidratante umas 3x por semana, sendo que uma delas eu realmente deixo agindo uns 20 minutos ou mais, uso um shampoo específico de “limpeza” uma vez por semana, evito secar o cabelo com secador (que é fácil pra mim, já que meu cabelo passa metade da minha vida escondido e amarrotado numa touca de centro cirúrgico #vantagens) e quando uso secador ou babyliss, sempre, sempre uso um protetor térmico antes. A única coisa que nunca consegui adaptar na minha rotina foi o pré-shampoo, sempre esquecia de passar de antemão e aí ficava fazendo hora por 15-30 minutos pra depois lavar, então não rolou.

Mas o fato é que há uns 15 dias, comecei a notar o meu cabelo mais duro, mais “grudado”, menos maleável independente até de quando eu fazia uma escova caprichada levantando a raiz pra ficar com aquele cabelo bouncy, com volume na raiz. Nada, niente, nulla, rien. Cabelo grudado na cabeça nível Severus Snape.

E depois piorou! Uns 10 dias atrás comecei a entrar em pânico que um lado do meu cabelo, sempre o lado direito (sabe-se lá por que cargas d’água, de repente é porque eu durmo desse lado), saía do banho TOTALMENTE EMBARAÇADO. Mas tipo, nível terror e pânico mesmo. Devia ter tirado uma foto pra provar que não tô exagerando, mas não tive essa presença de espírito. Não tô nem falando do aspecto vaidade da coisa, comecei a me preocupar com o tanto de cabelo que eu tava perdendo, porque mesmo que eu desembarace sempre com cuidado e carinho, minha escova sempre ficava lotada de cabelos falecidos.

Passei os primeiros dias em negação, amaldiçoando o dia em que resolvi fazer luzes de novo, porque justo naquele canto mais embaraçado é que tem uma mecha um pouco maior. Depois comecei a culpar o comprimento, já que nunca estive com o cabelo tão reto – to morta de saudade das minhas camadas, já de data marcada pra cortar! Mas aí voltei a pensar racionalmente e cheguei à conclusão de que, no mínimo, tinha que ser uma combinação do canto mais tingido, mais longo, mais agredido e portanto mais poroso, com o raio da água daqui de Londres, que é a mais dura na escala de dureza da região:

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A gente lembra do conceito de água dura que aprendeu no colégio né?! Eu lembro, e depois de vir morar aqui, não tem como negar que de fato afeta a nossa vida, porque os sais de cálcio se depositam na pia, na banheira, na chaleira elétrica… e no cabelo! Então fui ler sobre o assunto como parte da minha busca frenética por uma solução oquantoantespelamordedeus. E aí tudo fez ainda mais sentido.

Sabe esse terreno pedregoso adorável que faz com que a gente consiga ver as pedras no fundo? Que faz com que o rio não seja marrom lamacento? Que faz maravilhas da natureza como os penhascos brancos de Dover e a Jurassic Coast?

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Pois é. A mesma pedra que te dá esse prazer estético é a ruína do teu cabelo. Que beleza de metáfora pra vida né?! Hahahah o nome dela é limestone, calcário em português. Quando a água da chuva cai lá em Caçador, ela rola pedra abaixo sem grandes repercussões, porque o solo lá é rocha basáltica. Aqui, quando a água da chuva cai sobre pedras porosas como o calcário, ela penetra na pedra e vai dissolvendo cálcio e magnésio ao longo do caminho. E é por isso que nossas chaleiras elétricas sempre acumulam umas escamas branquinhas no fundo de tempos em tempos, porque a água vai fervendo e os sais de cálcio e magnésio vão ficando pra trás.

E vão ficando pra trás no nosso cabelo também. Os detergentes e shampoos tradicionais são compostos bicamada, que tem uma parte solúvel em água e outra em gordura, só que quando em contato com água dura, formam compostos insolúveis que se depositam e ficam ali para todo o sempre, amém.

A não ser que a gente use um composto quelante, que forma ligações muito fortes com esses compostos insolúveis e resgatam a dignidade das nossas cozinhas e, mais importante ainda, dos nossos cabelos!

Olha a diferença do meu cabelo entre as fotos acima e essa aqui embaixo, com o cabelo lavado em Amsterdam, cuja água é reconhecidamente das melhores e com menor teor de cálcio na Europa. Sem nem fazer escova!!! 

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A melhor opção seria um sistema de amolecimento da água para toda a casa, mas né… £££. A segunda alternativa é um filtro para o chuveiro, mas ainda assim custa mais de £200 e cada refil do filtro custa £80. Ou seja, nada feito por enquanto. Com esse valor, é mais custo-efetivo enxaguar o cabelo com água mineral sem gás por muito tempo! Opção esta que, aliás, ainda estou considerando.

Mas aí a partir disso, começou minha busca específica por um shampoo com agentes quelantes. A Amazon é minha melhor amiga e nessas horas é que vale a pena ter o Prime, pra receber no dia seguinte, porque todos os shampoos de limpeza profunda de farmácia estavam esgotados (além de nenhum deles mencionar especificamente agentes quelantes voltados à remoção de resíduos de cálcio). Pois bem. Comprei um deles que era mais amigo do bolso e seria entregue no dia seguinte só porque não aguentava mais aquele cabelo gosmento, e um outro mais potente e especializado, mas que chegaria só na semana seguinte.

O Neutrogena Anti-Residue Shampoo chegou no dia seguinte e corri pra lavar o cabelo, ansiosa pra ver o que aconteceria. Lavei uma vez e ao enxaguar já senti uma diferença imediata no couro cabeludo. Mas o canto loucamente embaraçado continuava lá. Lavei de novo e ele diminuiu, mas não sumiu por completo. Nem precisei ter vontade de arrancar os cabelos, porque a minha escova já tava fazendo isso por mim. Mas na verdade, depois de secar já percebi o cabelo uns 60% mais macio do que antes, então útil ele definitivamente é.


Fast forward uns dias… Cheguei da minha corrida no sábado de manhã, tomei meu banho e antes mesmo de sair do banheiro ouvi a batida na porta. Era o entregador com o shampoo novo: o Nioxin Intensive Therapy Clarifying Shampoo, que tem como promessa principal remover depósitos minerais! Aí sim, agora vai, José!


Fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria #not: meia volta volver, abri a caixa correndo, passei a mão numa toalha seca e entrei no banho de novo! Agora vai!

Realmente já senti diferença na hora de enxaguar o cabelo! Que maciez! Quanto tempo! Assim, não vou mentir, ainda tinha uns 10% do embaraçado, mas acho que nas próximas vezes que lavar vai saindo. Essa craca não se acumulou de um dia pro outro, então não vai ser de um dia pro outro que vai sair né?! Vamos ver, ainda dá pra melhorar, mas pelo menos o pesadelo da engronha cataclísmica já passou!!! Aleluia irmãos!
 

The voiceover

Eu sou uma pessoa bastante reflexiva, já falei aqui que vivo filosofando sobre a vida, criando teorias, traçando paralelos. A qualquer momento, sempre existe a voz de uma Gabi superior narrando meus pensamentos, uma coisa assim bem Carrie Bradshaw meets Meredith Grey de ser, hahahah.

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Então volta e meia eu penso “ah, quero escrever sobre isso no blog”. Ultimamente, tenho pensado com mais frequência ainda, mas toda vez que abria uma janela de rascunho aqui, eu acabava olhando pra tela em branco por um tempo e deixando pra lá. Esse fim de semana reli vários dos posts antigos, aqueles bem do comecinho mesmo, dos meus primeiros dias em Londres, e morri de pena de não estar registrando mais o meu dia a dia, as minhas impressões sobre a vida e as minhas viagens. Aí comecei a pensar por que raios tava hesitando tanto pra escrever e me dei conta do que mudou: depois que coloquei o endereço do blog como “meu website” na descrição do meu perfil no instagram, comecei a ficar meio inibida de escrever o que eu penso. Nos últimos meses ganhei vários seguidores, super pouco em tempos de instacelebridades e youtubers com 100 mil seguidores, mas suficiente pra inibir uma pessoa extrovertida que lá no fundo é meio tímida. Don’t get me wrong, quem me segue é gente que tem uma filosofia de vida parecida, expatriados e expatriadas, etc e eu amo a troca que rola nos comentários e é justamente por causa dessa conexão que eu não tenho um diário privado e sim um blog aberto. Já disse antes que o instagram me ajudou a me sentir menos sozinha enquanto encontro uma rotina de manter contato com as BFFs que ficaram no Brasil (ou na França – oi Mah!) e as amizades londrinas estão em estágio embrionário – que aliás é outra coisa que eu tenho vontade de escrever aqui! Mas como meu perfil é aberto, qualquer um que não me segue também pode ver, e acho que é isso que vem me inibindo.

Quando a gente escreve algo num espaço público, não dá pra querer escolher quem lê, mas prefiro que quem se identifica comigo encontre o seu caminho até aqui de outras maneiras, afinal o Google tá sempre aí, nas raras vezes que comento em blogs amados eu comento com o perfil do WordPress, e foi assim que encontrei os blogs que mais tem a ver comigo. Me questiono qual é o valor de deixar pra qualquer um ver, lá no instagram, uma linha direta até dentro da minha mente. Achei meio bizarro o quão rapidamente uma minoria te julga quando tuas palavras caem sem querer num público que não tem nada a ver com você (alô Dignidade Médica, é com você que estou falando, hahahah!). Não estou numa egotrip pensando “ai nuoooossa tem taaanta gente interessada em ler o que eu penso”, hahahah na verdade é uma coisa puramente psicológica mesmo, até porque a febre de ler blogs esfriou, já que todo mundo tem um (presente!).

Então voilà: tirei o endereço de lá e aqui estou 🙂

 

Crepioca

Gente, alguém no Brasil ainda não ouviu falar em crepioca? Esse treco virou febre entre as musas fitness (haha) e nutricionistas há anos e, desde então, the world and his wife estão comendo.

Quando eu morava no Brasil eu fazia com requeijão, e ano passado até tentei fazer com o requeijão dinamarquês feito para árabes com rótulo ilegível que a gente encontra no mercado aqui em Londres, mas apesar de ser suuuper cremoso e denso, ele não tem tanto gosto de queijo quanto o requeijão brasileiro e achei que ficou meio sem graça, então abandonei esse barco e praticamente esqueci da tal da crepioca.

Eis que outro dia fui caminhar com a Sophie, passamos numa lojinha brasileira na volta e ela falou que ia comprar tapioca pra fazer pão de queijo de frigideira. “COMO ASSIM GURIA, o que é isso?!!! Vivo morta de saudade de pão de queijo!” e quando ela me explicou, era a crepioca, só que feita com queijo cottage ao invés de requeijão.

Mas a minha crepioca, caros amigos, não é uma crepioca: é uma crepivilho. Hahahaha minha lógica é que com tapioca eu faço tapioca, oras, então prefiro guardar a tapioca como opção pra outras refeições e lanches. Aqui isso vale mais ainda, porque tapioca custa mais caro do que polvilho, pelo menos nos lugares onde já comprei.

Comprei os dois e cheguei em casa louca pra fazer, mas não tinha queijo cottage – e vamos combinar, queijo cottage não merece nem o nome glorioso de queijo né?! Não tem gosto de nada, minha gente! Devia se chamar “caseína num potinho” hahaha. Mas eu tinha queijo feta, e aí é que a mágica aconteceu! AMOR profundo e verdadeiro!!! Queijo feta, pra quem não conhece, é um queijo grego feito com leite de ovelha e de cabra, bem salgadinho. Já na frigideira dava pra sentir o cheirinho de pão de queijo emanando e enchendo a cozinha de felicidade (hahaha #brega). Sério, ficou muito bom mesmo. Não enjôo nunca, e ainda por cima já acordo ansiosa pelo café da manhã. Até abandonei o mingau de aveia com mel, o iogurte, tudo, porque pão de queijo >>>> qualquer outra coisa.

Então já que algumas meninas pediram no instagram ontem, aqui vai a receita ultra simples e rápida de fazer, que hoje fiz em dobro porque acordei faminta:

  • 1 ovo
  • 1 colher de sopa de polvilho (ou tapioca)
  • queijo feta a gosto (coloco uns 40-60g)

Tem queijo feta pra vender no Brasil hoje em dia?! Quando eu morava em Floripa não tinha. Mas acho que com queijo minas bem picadinho deve ficar parecido.

Algumas receitas sugerem adicionar leite, mas eu gosto dela mais densa mesmo, mais pra omelete do que pra crepe sabe?! Se quiser que fique mais tipo crepe, recomendo bater no liquidificador, porque o queijo fica pedaçudinho então o crepe vai ficar muito quebradiço se a massa não for homogênea. 


E aí é só colocar numa frigideira anti-aderente com um pouquinho de óleo, virar quando estiver douradinha e pronto. Rápido, fácil, pá-pum, e sacia que é uma beleza!

Muita gente gosta de rechear e tals, mas eu amo tanto a massa em si que prefiro comer pura, às vezes com um pouquinho (ou um poucão, haha) de requeijão.

 

Vôos open jaw (ou: conveniência versus economia)

*** BAH que deprê!!! Passei o vôo de Amsterdam pra cá inteiro escrevendo o raio do post e o WordPress deu pau na hora de publicar e usou o resumo que eu tinha salvo antes de embarcar. Joia! Vou tentar lembrar aqui.

 

Hoje de manhã, postei uma foto no Instagram contando minha saga nessa ida ao Brasil, que está me rendendo uma economia de mais de £200 do meu rico dinheirinho.

Como algumas meninas me perguntaram como fiz pra encontrar essa barganha e eu tô de bobeira aqui no aeroporto Schipol em Amsterdam, resolvi explicar a lógica (e as roubadas) dessa estratégia.

Os impostos ingleses sobre vôos de longa distância são bem maiores do que os impostos praticados na Europa continental – por isso que o bordão Londres é cara, velho conhecido dos brasileiros, já começa a valer na hora de marcar o vôo. Qualquer vôo transatlântico partindo de Londres será, com raras exceções, mais caro do que vôos para o mesmo destino partindo de outras grandes capitais européias.

Por isso que, pra quem já conhece Londres e tá planejando uma viagem pela Europa, eu recomendaria evitar terminar por Londres, já que isso encareceria o custo do vôo. Mas se a pessoa não conhece Londres, eu diria pra deixar por último, já que né… depois de Londres, as outras são as outras e só 😉

Mas quem se interessou mais pela dica foram as brasileiras morando em Londres – é difícil achar vôos diretos em promoção pra essa rota e qualquer economia é sempre bem-vinda. A melhor maneira de evitar os altos impostos ingleses é simples: não voe a partir de Londres!

Vôos open jaw são vôos de ida e volta, mas que saem de uma cidade e voltam para outra, ou vão para uma cidade e voltam de outra. Por exemplo, meu vôo hoje:

  • Ida: Amsterdam para Guarulhos com conexão em Londres;
  • Volta: Guarulhos para Londres direto.

Como tantas outras coisas na vida, trata-se de uma equação simples entre conveniência e economia. Faz questão de voar de Heathrow? Você vai pagar mais caro por esse conforto. Suas esperanças de um vôo mais em conta são promoções relâmpago, que nem sempre acontecem quando você precisa, ou tarifas “erro”, quando a companhia divulga o preço antes de somar taxas de combustível e etc., e se você encontrar uma dessas, seja rápido no gatilho porque ela desaparecerá tão rápido quanto surgiu! Por outro lado, se você prioriza mesmo é a economia, vai ter que aceitar certas inconveniências.

Falando em inconveniências, vamos a elas:

– o seu voo sai de uma cidade onde você não está 😱😱😱 hahaha você comprou uma passagem partindo de (Paris, Amsterdam, Madri, Milão, seja lá onde seu voo internacional comece) e portanto deverá comprar uma passagem em separado para chegar até lá. Então tem que botar na ponta do lápis quanto vai custar esse extra e aí sim ver se vale a pena, senão você pode facilmente acabar sem a economia nem a conveniência!
– isso também significa que você deverá pagar bagagem extra na sua passagem de Londres para  (Paris, Amsterdam, Madri, Milão, seja lá onde seu voo internacional comece) para despachar uma ou mais malas de até 23kg, que é o limite padrão em voos dentro da Europa. Importante lembrar disso na hora de computar os custos. Então se você é aquela pessoa que curte aproveitar ao máximo a franquia de bagagem generosa que podemos levar pro Brasil e viaja com 2 malas de 32kg, mala de cabine, bolsa oversized, sacola do duty free, gato, cachorro e papagaio, o vôo open jaw não é uma boa pra vc 😂

– um dos grandes riscos de fazer reservas separadas é que, caso seu primeiro voo atrasar (por exemplo, de Londres para Milão, de onde sai o seu voo open jaw), não vai ter choro nem vela e você perderá a viagem internacional toda. Então é muito importante deixar um tempo considerável nessa perna da viagem, lembrando ainda que você precisará pegar a sua mala na esteira de bagagem, sair para o saguão do aeroporto, e despachá-la novamente (dessa vez até a sua origem final, no caso SP ou Rio)

– é importante ficar de olho vivo no tempo de conexão para o Brasil, caso seu voo não seja direto – no meu caso, comecei oficialmente a viagem em Amsterdam e fiz conexão em Londres. No meu caso, a primeira busca que eu fiz me dava um tempo de conexão de 1h15min em Heathrow. Mesmo sendo só para desembarcar, passar pela segurança e embarcar de novo no mesmo terminal, é apertado. Alguns portões são distantes e você nunca sabe quando vai ficar atrás daquela família com 5 crianças e uma mãe cheia de pulseiras e líquidos na mala de mão, hahahaha então continuei procurando até encontrar um tempo maior de conexão para as mesmas rotas. Claro que dá pra vc encarar um tempo curto – antes de achar uma alternativa, eu tava pensando em encarar, mas aí já comecei a me preparar mentalmente e fazer escolhas que aumentariam minha chance de sucesso: “vou viajar de tênis e mochila, ao invés de sapatilha e bolsa, pra me movimentar mais agilmente”, “não vou levar o laptop pra não ter que tirar da mochila na segurança” e assim por diante. Nesse caso, se você perder o voo você não terá custos, já que é tudo parte da mesma reserva, mas deve ser muito frustrante!

Tendo tudo isso em mente, você pode achar opções muito legais! Eu tive sorte dessa vez: achei um voo de preço ótimo, partindo de uma capital próxima de Londres, com uma companhia aérea que considero excelente e conexão “em casa”, já conhecendo o aeroporto, amenidades, onde carregar o celular etc etc. Minha cunhada e o namorado vão pro Brasil semana que vem pagando ainda menos, num voo da Ibéria a partir de Madri. Aí vai de cada um traçar o limite do aceitável né heheheh eu tive uma péssima experiência com a Ibéria uns anos atrás, então quando posso, evito. Mas o preço que eles acharam era imperdível então eles foram com fé!

E como ache esses voos?

É só usar sites que permitam buscas multi-destino, como SkyScanner, Expedia, LastMinute. Aí você escolhe suas datas e começa a brincar com as opções, partindo das grandes capitais europeias.

A ideia é conseguir um voo direto na ida daquela cidade x com a companhia nacional daquele país. Eu topei essa função hoje porque era BA e conexão em casa gastava menos energia mental do que qualquer outro lugar, mas digamos que eu fizesse a busca partindo de Amsterdam e aparecesse um voo da TAP com conexão em Lisboa, eu ia fazer uma nova busca partindo direto de Lisboa, entende?

Enfim, achei que valeu muito a pena a economia que fiz porque tava cheia de energia, empolgada com as ferias, e na volta vou ter um voo direto de Guarulhos pra casa, que pra mim é uma prioridade. Espero que a explicação tenha sido útil. Se esse post ajudar só uma pessoa que seja a achar voos mais baratos, vou ficar super feliz!